SESSÕES DA CÂMARA DE VEREADORES DE TORRES - ASSISTA AQUI  SEGUNDAS  FEIRAS - 16.00 h 

 

Coluna Paulo Timm

 

O Cabaré pegou Fogo

 

por Beatriz Vargas Ramos

 

Um desembargador de plantão defere um pedido liminar em Habeas Corpus (o HC foi impetrado contra o juízo da execução penal). Coisa que às vezes acontece, nada de mais, não seria a primeira vez. Aí então, um juiz de primeiro grau, que já não tinha jurisdição no caso (porque já havia sentenciado - processo findo, jurisdição esgotada), "decide" que precisa de uma orientação para saber "como proceder" (quando a ele não competiria proceder nem para A nem para B). 

 

Decide que alguém precisa decidir o que o fazer com a decisão do desembargador de plantão. Não foi uma decisão, foi um alarme. Alarme acionado, segue-se uma verdadeira caçada à decisão do desembargador do plantão. Todo mundo volta das férias. Todo mundo quer ser juiz de plantão. Parece que o processo tem dono e que o tribunal não tem regimento interno. Aí o relator que já não era mais relator, dizendo-se juiz natural do processo, e sem ser provocado, entra em campo para anular a decisão do juiz de plantão, avoca os autos para si, ao argumento de que o pedido é mera reiteração de outros que foram indeferidos (o que significa dizer que não há nenhum outro enfoque ou perspectiva jurídica possível). 

 

Fabrica um conflito de jurisdição, um falso conflito de jurisdição. O fundamento da avocação: aquilo que a oitava turma decidiu é algo que pertence à ordem do imutável (do tipo “quem manda aqui sou eu”). O réu não pode ser solto – é a decisão de fundo. O ex-relator não quer aguardar a distribuição do habeas corpus. O desembargador de plantão volta a determinar o cumprimento da ordem de soltura. A polícia finge que não descumpre, mas também não cumpre, até que, na queda de braço, o presidente do tribunal (no caso, o terrefê-4) anula a decisão do juiz de plantão, porque é a primeira vez que aparece uma questão de conflito de competência entre um juiz de plantão e um ex-relator em férias que resolve voltar das férias e tomar para si um processo que foi distribuído no plantão (eis o falso conflito). 

 

Aí a polícia não precisa mais fingir que ia cumprir a ordem do plantão. E, no final das contas, qual é o barbarismo jurídico? Não é nenhum dos anteriores. O absurdo é que “há um desembargador petista!” O absurdo é o "desembargador petista" achar que pode decidir no plantão habeas corpus em favor do réu, de acordo com sua liberdade de convencimento e argumentação jurídica – na pior das hipóteses – razoável. Se a decisão é certa ou errada, se há fato novo ou não há, essa é uma questão que deve ser resolvida no mérito, pelo colegiado competente, não no vale-tudo, fora do molde legal ou à margem do procedimento aplicável. A impressão que fica, mais uma vez: o que importa é a luta pelo poder.

 

 O terrefê-4 não ia correr tanto para prender Lula antes das eleições, para deixar que um “desembargador petista” pudesse soltá-lo por um dia que fosse. O terrefê-4 só autoriza o cumprimento de decisão de juiz antipetista. O terrefê-4 se tornou um tribunal tão “politizado” que o regimento interno e a lei processual já foram às favas há muito tempo. As ações sobre a constitucionalidade do art. 283 do Código de Processo Penal dormem nas prateleiras do STF Como diz meu primo, “o cabaré pegou fogo”!

 

Beatriz Vargas Ramos – professora de direito  na UnB

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Roberto Tardelli, sobre Moro e o TRF-4: “Que Tiro Foi Esse?”

 

*Moro tinha tanto direito de impedir HC de Lula quanto Tite de mexer no time da Bélgica*

*Roberto Tardelli é procurador aposentado do Ministério Público de São Paulo e advogado*

10 de julho de 2018 às 21h50

 

Vamos pular as introduções desnecessárias. Com a condenação de Lula pelo TRF-4, absurdamente (matéria ainda não votada pelo STF) decretou-se sua prisão, para início de cumprimento de pena.

Esse processo acabou na vara de origem, presidida pelo juiz Sergio Moro, e também se encerrou com o acórdão condenatório e com a decisão de seguimento do caso para o STJ — recurso ordinário — e com a interposição de agravo para o STF — recurso extraordinário.

Moro e Gebran encerraram suas atividades de juízes, no processo. Terminaram seus trabalhos.

Com a prisão de Lula, deu-se início à execução da pena, desta feita a cargo de uma Juíza de Direito, de outra Vara, que nada tem a ver com o juiz Sérgio Moro.

A prisão de Lula não revogou uma série de direitos que ele possui, como ex-presidente da república e o que acabou ocorrendo era aquilo que se previa: Lula acabou em ilegal e abusivo isolamento.

Ademais, Lula permanece com seus direitos políticos inteiramente preservados e, nessa condição, pode exercê-los, votar e ser votado, exatamente porque é pré-candidato à presidência, nas eleições de outubro próximo.

Se não puder se manifestar, haverá evidente cerceamento a seu direito político.

Os demais candidatos estão circulando e apresentando suas idéias ao país e Lula, ao contrário, sequer visitas pôde receber, permanecendo em ilegal isolamento.

Essa questão foi levada à Juíza que nada fez para alterar a situação de Lula e os advogados, que a gente em Direito chama de Impetrantes, entraram com Habeas Corpus.

Todas as discussões sobre a responsabilidade criminal de Lula são estranhas ao HC, que se preocupou apenas com a sua situação política e seu isolamento prisional.

Não existe data para impetrar-se um HC, que pode ser apresentado ao Tribunal de Justiça de segunda a domingo e feriados.

O HC foi impetrado na sexta-feira à noite e, por sorteio, havia dois desembargadores no plantão, foi destinado ao Desembargador Rogério Favreto.

Ele estudou a situação na noite de sexta-feira e no sábado, proferindo sua decisão liminar, no domingo, por força da qual concedia a liberdade ao Presidente Lula, entendendo fortes e coesos os argumentos da defesa e afastando o parecer contrário do MP.

O mundo caiu e um festival de desinformações e informações estapafúrdias teve início, com cenas constrangedoras e, diria, abusivas e que percorrem, sim, o Código Penal.

Rogério Favreto era competente para a decisão? Sim.

A matéria era relativa ao plantão? Sim, na medida em que se noticiava um estado permanente de grave ilegalidade na execução da pena de Lula.

Era cabível HC nessa situação? Em tese, sim, porque havia uma grave afronta ao direito do preso, não contornável por outra medida.

O Desembargador determinou a expedição de ofício ao diretor do presídio da polícia federal, em verdade, ao delegado de plantão, comunicando-lhe que Lula deveria ser posto em liberdade.

Num passe de mágica, surge de suas férias, o juiz Sérgio Moro, que determinou ao delegado federal que não cumprisse a ordem recebida.

Sérgio Moro poderia ter feito isso? Evidentemente que não.

Por várias razões, a primeira delas é que Moro não mantém com o processo mais nenhuma relação, sendo pessoa inteiramente estranha a esse Habeas.

Não é o juiz da execução da pena, não era o que se cuida chamar de autoridade coatora e não poderia, jamais, como juiz de primeira instância, determinar a uma autoridade policial que descumprisse uma ordem emanada de um desembargador, regularmente expedida, no bojo de um pedido específico.

Podemos dizer que Moro agiu por interesse ou satisfação pessoal e praticou ato contrário à lei; em outras palavras, cometeu, pelo menos, em tese, crime de prevaricação, previsto no Código Penal:

Art. 319 – Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.

Qual a competência de Moro para determinar ao Delegado de Polícia que não cumprisse a ordem de soltura?

A mesma competência que teria Tite para determinar uma substituição na seleção da Bélgica ou da França…

Tudo piora para ele, Moro, se relembrarmos que ele se encontrava em gozo de férias regularmente concedidas.

Isto é, fora do país — encontrava-se em Portugal — e fora da função judicante, ele jamais poderia ter dado a ordem que deu e revelou sua completa perda de serenidade para julgar qualquer outra causa que tenha Lula como acusado.

Moro deixou de ser juiz e passou a ser perseguidor de Lula e seu comportamento nos permite dizer que ele é, efetivamente, obrigado a declarar-se impedido (suspeito) para processar Luiz Inácio Lula da Silva, porque desfez-se de qualquer sentido de imparcialidade.

É ver para certificar-se. Moro ficou nu.

No trem que se descarrilhava na curva, um outro componente completamente maluco se agregou.

Rompendo a cena, o Desembargador Relator do processo de Lula, Desembargador João Pedro Gebran Neto, dizendo-se ser ele a verdadeira e única fonte de emanação de Direito, também ele sem se dar conta que sua atividade havia se encerrado, veste sua beca de super-juiz e, de ofício, sem ser provocado, oficia também ao atônito Delegado Federal, determinando-lhe que se abstivesse de cumprir o alvará (que é uma ordem) para soltar Lula.

Lula ficou solto, mas permaneceu preso, ou continuou preso, permanecendo solto. Um caos.

O Desembargador Gebran poderia ter dado a ordem que deu?

Não, porque há maneiras processualmente corretas até de revogar a ordem emanada pelo desembargador Favreto, cujos trâmites se dão no interior do próprio TRF-4, através de recurso próprio da parte contrária, o esquecido Ministério Público, primo pobre nessa briga.

Sim, o MPF poderia recorrer, através de um agravo interno, que levaria a soltura a conhecimento da Turma processante, que poderia manter ou revogar a liminar concedida.

Nunca vi um cavalo de pau desses para fazer descumprir uma ordem, repita-se, regularmente dada.

Não sou menino e carrego algumas dezenas de milhares de processos criminais nas costas e nunca, mas nunca, vi uma rave processual dessa animação.

Tenho certeza que ninguém viu. Nossos limites estão revogados no que toca à maluquice jurídica.

Endurecendo o jogo, o Desembargador Favreto chuta de bico e, reitera pela terceira vez, a ordem de soltura, dando uma hora para seu imediato cumprimento.

Uma hora em juridiquês tem duzentos, trezentos minutos.

A ordem é dada e segue para que funcionários operacionais trabalhem para que ela chegue a seu destinatário, o delegado federal.

Carimba daqui, carimba de lá, cafezinho, calor, abre a janela, fecha a janela, computador está lento, essa uma hora espichou e…

Novo terremoto.

O Presidente do TRF-4, Desembargador Thompson Flores, vestiu sua capa preta e tirou sua espada de Jedi, entrevendo naqueles dois ofícios, de Gebran e de Favreto, um caso raro de conflito positivo de competência, em que dois desembargadores se apresentavam como competentes para decidir de forma diversa sobre o mesmo caso.

O baile da loucura estava atingindo seu auge e ninguém era de ninguém, quando ele emitiu uma quinta ordem à mesma autoridade policial, que, naquela ocasião, já prensava em prender-se, ele próprio a si mesmo.

Loucura por loucura, seria apenas mais uma pereba num caso constrangedor.

Em outro ofício, ele determina que a ordem deve ser ignorada e determina, sem revogá-la expressamente, uma vez que o caso seria devolvido ao Desembargador Gebran.

Isso se deu hoje e o Desembargador Gebran anulou todos os atos de seu colega de Tribunal, inclusive, quase para deixar a gente cantando QUE TIRO FOI ESSE?, anulando tanto e tudo, mas tanto que anulou uma das ordens de Favretto, que foi a de dar ciência dos fatos ao CNJ e à Corregedoria da Justiça pela esdrúxula intervenção de Sérgio Moro.

Ele determinou, quase num surto formalista, que não se levasse ao conhecimento de ninguém a vexaminosa atuação do Juiz Moro.

Como se isso fosse necessário.

Nesse surto midiático, com juiz e desembargadores disputando o cargo de JUIZ MARVEL, quem perdeu foi o Estado Democrático de Direito, quem perdeu foi a democracia, quem perdeu foi a população que percebeu que a Justiça cedeu a impulsos narcísicos.

Quando a vaidade se sobrepõe, todos perdemos.

Favreto mostrou ser independente e mostrou ser um juiz exemplar porque não se intimidou, não se curvou às pressões e tinha competência para de cidir porque estava no lugar certo e na hora certa.

Sua decisão foi eminrentemente jurisdicional e ele também foi alvo de um ataque jurisdicional de que nunca tive notícia.

Colunistas, blogueiros e jornalistas da extrema-direita ultrapassaram todos os limites da insanidade e até telefones pessoais foram divulgados nas redes sociais.

A Globo o associou criminosamente ao PT, sem se dar conta de que o próprio Moro desfila pelo mundo a tiracolo com Dória e outros expoentes do PSDB.

Favreto nunca teve questionada sua honestidade e probidade e se tornou vítima desses lobos que vagam no mundo virtual e na grande mídia.

Um grande juiz a ser preservado e defendido por todos nós.

 

 

 

 

Nós e Eles

Há um poema de Fernando Pessoa que gosto muito e sempre me vem à cabeça, musicada pelos saudosos “Secos e Molhado”s -https://www.youtube.com/watch?v=77sTm6g_7so  ,  que começa assim: Não, não diga nada/Supor o que dirá a tua boca/É dizê-lo já…

Assim começo  porque o caro leitor, já acostumado com esta crônica políca, talvez pense que vou, com o título acima, voltar à disputa entre coxinhas e mortadelas. Nada disso. O “nós e eles”, hoje, refere-se a nós – brasileiros – e eles, os americanos. No fundo, há até  certa correlação, aqui também, entre coxinhas e mortalas, já que nela subsiste uma ideia de que os primeiros são mais ricos do os segundos. O inconsciente me trai. Mas a conjuntura nacional está tão insossa, à luz do brilho da seleção da COPA, que é melhor diversificar.

Antes, porém, sou obrigado, pelo ofício a relatar sucintamente o que diz a última Pesquisa Eleitoral, do PODER 360,  realizada de 25 a 29 de junho:

DataPoder360: a 3 meses da eleição, Bolsonaro é líder e ‘não voto’ tem 42%

https://www.poder360.com.br/datapoder360/datapoder360-a-3-meses-da-eleicao-bolsonaro-e-lider-e-nao-voto-tem-42/

42% dos eleitores ainda não têm candidato a 3 meses da eleiçãoSérgio

Sem Lula, Bolsonaro vai de 18% a 21%, Vence todos no 2º. turno

Em alta: brancos, nulos e indecisos

Haddad (PT) tem 6%; Alckmin, 8%

Bolsonaro vence todos no 2º turno

Ciro Gomes fica com 12% a 13% e tem a preferência de petistas se Lula não concorrer

Potencial de voto em Lula é de 35%, mas rejeição é de 62%

Isso posto, tirem suas conclusões e vamos ao norte. Muitas diferenças nos separam, além da posição no globo. Os americanos são anglo-saxões, herdeiros de uma cultura marcada pela forte resistência às invasões do Império Romano na Antiguidade e pela Reforma Religiosa na entrada da modernidade, como mostrou num livro clássico – O Espelho de Próspero - Richard Morse. Outro americano, um pouco mais tarde, Samuel Huntington, no seu famoso “O Choque das Civilizações”, sugere, também que toda a América Latina , como o Oriente Médio e China, consitui um bloco cultural substancialmente distinto do anglo-saxão. Dificilmente nos uniremos. Simplificando, dir-se-ia que estes são mais práticos diante do utilitarismo individualista e nós, mais sensíveis ao humanismo. Resultado assinalado por Morte: Para um americano o continente latinoamericano, sobre o qual olha com desdém, é um caso atávico de subdesenvolvimento. Para nós, os Estados Unidos, um caso irrecuperável do salto da barbárie à decadência, sem passar pela civilização..

A reflexão me vem ao caso depois de ver o documentário A GUERRA DO VIETNAME, na Netflix. Tendo vivido o tempo daquele conflito e, já na época – entre \961 e 1973 - , percebido os descaminhos dos Estados Unidos, só agora, neste filme,  pude ver a profundidade, não só dos crimes de guerra praticados, como a quantidade de  mentiras governamentais que os sustentaram. Espantoso. Não deixem de ver. Com todas as barbaridades que temos assistido nos nossos Governos, não creio que jamais faríamos algo similar. Vide as ações de nossas forças armadas à serviço da ONU no Haiti. Lá temos, hoje, uma vibrante torcida pelo Brasil nca Copa

Outra fonte atual de avaliação dos Estados Unidos é o livro recém lançado “ IRMÃOS   O KENNEDY – o jeito americano de fazer política ” , de David Talbot.:                  http://blogdomarinoboeira.sul21.com.br/…/Irmaos-A-Historia-…

O livro se centra na saga da família Kennedy, John, Presidente, e Robert, candidato, ambos assassinados mas demonstra os bastidores de violência e conspiração reinantes na vida americana..

Somados a tantos outros fatos, livros, filmes e documentários  recentes sobre os Estados Unidos somos obrigados a aceitar a ideia de que nosso parentesco é mais geográfico do que cultural. Não por acaso o bordão de Trump é “America Firs”, que ecoa aos mais velhos a velha “Deutschand uber alles”, de Hitler. Somos nacionalistas, por certo, mas, vítimas, talvez, do velho latinismo o situamos no contexto da humana idade. Deus nos guarde do jeitinho que somos.

 

O velho e o novo. Os velhos e os jovens.

 

Paulo Timm – A FOLHA, Torres RS, 21 Jun

“Sem atrito dialético, paciência argumentativa e mediação política, o futuro fica em suspenso.”
http://ano-zero.com/qualidade-da-democracia/ 
Marco Aurélio Nogueira - 25 de outubro de 2016 - A QUALIDADE DA DEMOCRACIA TEM A VER COM VOCÊ

"Os jovens, incrivelmente, não lideram mais vanguarda alguma. Pelo contrário, lideram a retaguarda, o atraso, o anacronismo. O frei Luiz Carlos Susin, teólogo de 68 anos e admirador do papa Francisco, costuma dizer que a geração dele transgrediu tanto que, para muitos jovens de hoje, a forma mais genuína de transgredir é retrocedendo. Faz sentido."

Paulo Germano, publicada por GaúchaZH, 15-06-2018

Os jovens que não

 

Li, recentemente,  depoimento de um brasileiro recém chegado à Londres, no qual observa algo, no mínimo, surpreendente. Por todos os cantos da cidade, pelos quais transitava,  via algum tipo de manifestação popular. Uns contra o BREXIT, outros a favor de ilegais, outros contra tentativas de mudança no invejável sistema de saúde pública do Reino Unido. Em todos eles, relata o viajante, percebia uma forte predominância de mulheres idosas e poucos jovens. Daí sua reflexão sobre o que está acontecendo com o mundo quando os jovens se retraem e os mais velhos é que saem às ruas para fazer da democracioa algo mais além do voto: O protesto. Uma resposta seria o efeito “Maio de 1968”. A geração que passou por aquela década – e aquele ano -  , de grandes transformações em todos os campos, começando pelo pequeno passo sobre o solo lunar – “um grande salto para a humanidade” no rumo das estrelas  - até a revolução sexual , promovida pela pílula, não envelhece. Morre, por certo, ainda distante da imortalidade,  mas sem pranto, à vista da percepção de ter vivido e gozado um dos momentos mais libertários da civilização. Nem a conservadora Igreja de Roma escapou do vendaval. O Concílio Vaticano II, sob João XXIII, assim se definiu:

 

"A Igreja sempre se opôs a erros, muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor as necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações".

 

Aquele, foi, enfim, um tempo de afirmação da autonomia das consciências,  ainda movida pelos ideais da razão iluminista, sobre a tradição. Uma renovação, em sentido amplo, naquilo que um filósofo marxista contemporâneo denomina verdadeiro “acontecimento”. Os jovens, aparentemente, comandavam o espetáculo, para espanto de seus pais e avós ainda desconfiados com tamanhas liberalidades.

Passaram-se 50 anos e muitas daquelas liberdades refugiaram-se na vida estritamente privada: Cuidados de si, para si mesmo. O que parecia um novo umbral da História, congelou-se como conquistas meramente individuais de gerações mi-mi-mi , lamurientas,

EM VEZ DE RESMUNGAR

http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/191539/em-vez-de-resmungar-ou-lastimar-va-atras-daquilo-q.htm

 O grande avanço tecnológico, de outra parte,  sublinhou a importância da eficiência tópica, como categoria de meios, sobre reflexões mais abrangentes sobre os sentidos últimos da existência e da História. Com seu extremo dinamismo instaurou o império da novidade, confundindo-o com o novo, sempre mais arriscado e incerto -                     http://marcoanogueira.blogspot.com.br/2014/09/novo-novidade-renovacao.html -   .

As mudanças levaram às últimas consequências a afirmação do “ente” como pé de pagina do “ser”, no rastro do fim da metafísica de Heidegger. Constituimo-nos, todos, mas sobretudo as novas gerações, como elos de uma cadeia inevitável de realidades provisórias: fazemos investimentos na nossa educação, saúde e aparência física como um meios de sobreviver melhor no mundo do consumo, fazemos poupança para um futuro pessoal mais seguro, atravessamos diversas relações amorosas até nos fixarmos num parceiro, por um período de tempo, odiamos tudo o que se refere ao público, ao humano  e ao Estado.

"A crise do humanismo em nossa época tem, sem dúvida, sua fonte na experiência da ineficácia humana posta em acusação pela própria abundância de nossos meios de agir e pela extensão de nossas ambições. No mundo, em que as coisas estão em seu lugar, em que os olhos, as mãos e os pés sabem encontrá-las, em que a ciência prolonga a topografia da percepção e da práxis, mesmo ao transfigurar seu espaço; nos lugares onde se localizam cidades e campos que os humanos habitam, ordenando-se, segundo diversos conjuntos, entre os entes; em toda essa realidade 'correta', o contra-senso dos vastos empreendimentos frustrados - em que a política e técnica resultam na negação dos projetos que os norteiam - mostra a inconsistência do homem, joguete de suas obras. Os mortos que ficaram sem sepultura nas guerras e os campos de extermínio afiançam a ideia de uma morte sem amanhã e tornam tragicômica a preocupação para consigo mesmo e ilusórias tanto a pretensão do animal rationale a um lugar privilegiado no cosmos, como a capacidade de dominar e de integrar a totalidade do ser numa consciência de si."
                        (E. Levinas cit por Grégori Elias Laitano, FB 21 jun 2018)  

Fiquei alarmado, outro dia, ao contestar o discurso governamental da crise da Previdência, reafirmando a lógica de se iniciar a análise da matéria a partir do compromisso ético das novas gerações frente às passadas, as quais, com seu trabalho , muitas vezes pesado, sob condições sociais e legais adversas,  haviam contribuido para elevar a produtividade do sistema econômico permitindo elevação cada vez maior da renda e dos salários. Replica um jovem: - “Eu quero que meu avô morra, se ele não foi capaz de investir no seu futuro…” Oressa, os tempos eram outros. Senão dourados, marcados pela ideia de que se algo escapasse aos olhos dos homens, não escaparia ao olhar dos deuses. Da eternidade, na Cidade de Deus,  onde repousa o insignificante bem que, só por persistência, sobreviveu à luta contra o gigantesco mal terreno.

Leio, a propósito, outra notícia igualmente estarrecedora: Os jovens seminaristas odeiam o discurso de tolerância do Papa Francisco - http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/580009-os-jovens-que-nao-gostam-do-papa-francisco . Lamentável. Querem o retorno aos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II: Dogmas, sob o acicate das mortificações - http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/577687-as-novas-velhas-faces-do-conservadorismo-catolico . Jovens são também, no Brasil, os eleitores de candidatos tradicionalistas e autoritários às eleições presidenciais - https://oglobo.globo.com/brasil/entenda-que-sustenta-pensamento-de-jovens-de-16-24-anos-que-votam-em-bolsonaro-22721699 .

Seria o caso de se perguntar: - Não estarão os nossos jovens confundindo o novo com mera novidade, sem se dar conta de que nem tudo que é velho é ruim e nem tudo o que é novidade é necessáriamente novo? Um historiador americano Tony Judit antecipou em seus livros tudo isso e tenta explicá-lo à luz da perda de memória dos mais jovens. Eles dizem que tudo deu errado, sem se dar conta de que usufruem um mundo melhor do que os avós e sem saber como isso tudo aconteceu graças à Política. Apostam que o Brasil não deu certo e dizem que querem emigrar, sem  se darem conta que saímos de um fazendão escravocrata de café em 1989, com pouco mais de 10 milhões de almas, para uma das players mais sofisticadas do mundo, com mais de 200 milhões de brasileiros. Será que tudo foi obra do acaso? Ora, até sabemos que as mudanças ocorrem também em razão de acidentes aleatórios, mas, mais das vezes, na História, elas são frutos do engenho e arte daqueles que fizeram da herança a matéria prima da civilização. Vamos com calma… Mas, se minha geração “protestante” está morrendo sem herdeiros, do que será feito o futuro? De avatares desmemoriados? Meu Deus! O Brasil não cabe em Portugal.  Dai-me Senhor, mais alguns anos para tentar explicar ao mundo que somos feitos de estórias, não átomos, como queria Eduardo Galeano. E para pensar, transgredir e  protestar, segundo o decálogo proposto por Marco Aurélio Nogueira:

PENSANDO OS PROTESTOS DOS DIAS DE HOJE- DECÁLOGO

Marco Aurelio Nogueira . Cientista Político – S.Paulo - UMESP

1 – PROTESTAR É DEMONSTRAR VOZ E PODER

2 – PROTESTAR É BUSCAR CONSENSOS

3 – PROTESTAR SEMPRE IMPORTA

4 – PROTESTAR É EMPREGAR O BOM SENSO

5 – PROTESTAR É UMA VIRTUDE

6 – PROTESTAR É DEFENDER SUA AUTONOMIA

7 – PROTESTAR É CUIDAR DE SI

8 – PROTESTAR É SEGUIR ALGUMA ORDEM

9 – PROTESTAR É ESSENCIAL, MAS COM MODERAÇÃO

10 – PROTESTAR NÃO É AUTORITARISMO DISFARÇADO

 

 

 

 

SEMANA INTENSA  SOB TORPOR CÍVICO

Semana intensa entre 11 e 15 de junho, mas com pouco entusiasmo, mesmo para a COPA DO MUNDO.

No plano internacional, o encontro, mais cenográfico do que consequente, entre o Presidente Trump e o líder norte-coreano Kim Jung-On em Cingapura. Do feito, um estímulo a todos aqueles – militaristas principalmente -  que apostam no domínio da bomba atômica como fator de poder e persuasão globais.  Mau sinal.

No plano nacional, segue a tropelia sucessória à Presidência, hoje em frangalhos, sob  o pestilento Michel Temer, de quem todos tomam distância. O torpor cívico  deverá fazer do “não-voto”- soma dos que não irão às urnas mais nulos e brancos – o grande vencedor. Em contrapartida, Lula é o grande perdedor, pois, preso, dificilmente conseguirá consagrar sua indiscutível liderança. Bolsonaro e Marina surpreendem sendo que  “Ela” ou mesmo Ciro Gomes o bateriam no segundo turno. Relembro, aliás, aos leais leitores desta coluna que há tempos venho chamando a atenção para o fato de que todos insistiam em desconhecer a Rainha Inca. Aí está ela, impávida e enigmática. Silva. Mulher, cabocla, vencedora. Bolsonaro, ameaçador,  na frente ,inclusive no politizado Rio Grande do Sul, podendo arrastar consigo um ultradireitista para o Piratini, já conquistando apoios importantes na alta finança. Vejamos esta seleções  último DATAFOLHA:

Cenário 2 (Se o PT lançar Fernando Haddad no lugar de Lula)

·                   Jair Bolsonaro (PSL): 19% . Marina Silva (Rede): 15% - Ciro Gomes (PDT): 10%

·                   Geraldo Alckmin (PSDB): 7% . Alvaro Dias (Podemos): 4% - Fernando Haddad (PT): 1%

·                   Sem candidato: 33%

Cenários pesquisados para o 2º turno:

Cenário 10 (sem Lula)

·                   Marina (Rede): 42% - Bolsonaro (PSL): 32% -

·                   Em branco/Nulo: 24% - Não sabe: 2%

 

Cenário 11 (sem Lula)

·                   Ciro (PDT): 36% - Bolsonaro (PSL): 34%

·                   Em branco/Nulo: 28% - Não sabe: 3%

 

Observações importantes:

Lula perdeu 1/3 da preferência espontânea em um ano, mas 30% dizem que votariam em candidato indicado por ele e 17% , apenas, "talvez"

51%  rejeitariam em candidato indicado por Lula

    Em 2014 a incerteza estava abaixo de 10%. Hoje é de cerca de 25%. Chegará perto de 50%

No plano estadual,  enfim, também a corrida eleitoral, revelada pela Paraná Pesquisas, embora com candidaturas ainda indefinidas: Sartori na frente, em torno de 28% , seguido por Eduardo Leite, ex Prefeito de Pelotas,  Miguel Rosseto, braço direito de Dilma Roussef , Jairo Jorge, ex-Prefeito de Canoas e Heinze num bloco entre 6% e 10%. Hermes Zaneti, do PSB, ainda não é candidato oficial, mas a se confirmar sua candidatura pelo PSB, isso retiraria a sigla do conluio com Sartori e poderia vir a crescer. Tudo dependerá, sobretudo, da companhia de cada um à Presidencia. Quero ver Sartori carregando nas costas o legado de Temer…

Intenção de voto para Governador - cenário 1

https://www.poder360.com.br/pesquisas/sartori-lidera-disputa-para-o-governo-do-rio-grande-do-sul-diz-pesquisa/

José Ivo Sartori (MDB) -    28,3%

Eduardo Leite (PSDB) -     10,8%

Miguel Rossetto (PT) -         9,8%

Jairo Jorge (PDT) -                 8,20%

Luis Carlos Heinze (PP) -      6,0%

Hermes Zaneti (PSB) -             2,90%

Abigail Pereira (PCdoB)       - 2,7%

Roberto Robaina (Psol)-           2,40%

Mateus Bandeira (Novo) .       1,0%

Nenhum- 21,20% . Não sabe -   6,60%

 

OPÇÕES: Política ou Arte?

Especial para REPORTER INDEPENDENTE , BSB jun 13

Alguém já disse que há dias que parecem anos. Eu digo que a semana em curso parece uma eternidade. Eternidade, não como tempo ou espaço, mas como incriado sem fim. Jorge Luiz Borges assim a tratou em sua BREVE HISTÓRIA DA ETERNIDADE: Mistério, erudição, trivialidade e  poesia. Tudo sem começo nem fim, ou finalidade. Tal aconteceu nestes dias no Brasil: Publicação da Pesquisa DATAFOLHA no domingo, com lançamento de LULA PRESIDENTE, misturado ao  Dia da Língua Portuguesa – 10 de junho, dia dos Namorados, logo do amor, no dia 12, simultâneo ao beijo am-bi-quo de Trump & Kim Jong Un; maus dias, todos os dias, para o Presidente Temer, acossado pela Polícia Federal, com  respingos sobre ex Ministro da Fazenda,  além de buscas indesejáveis no aconchego de uma dezena de políticos na ativa.  E tem ainda a COPA (Fria), na gelada terra  de Gogol, Tolstoi, Dostoieviski, Pasternak e Vassily Grossman, autor do grande romance crítico do mundo soviético – VIDA E DESTINO. De tudo um pouco, dormindo em apoese.. Atacado e varejo. Secos, molhados e cata-plasmas. E o  que puder ter sido jamais será, plagiando Bandeira.

Diante de tudo isso, repilo a crônica, muito passageira e lhes ofereço à reflexão ou mero gosto dois temas: Política e Poesia. Façam suas escolhas. Afinal v. precisa saber  tanto  da piscina, como da  Carolina…

                                                          

 

                                    PESQUISA DATAFOLHA 10 junho

Cenário 2 – 1º. Turno  (Se o PT lançar Fernando Haddad no lugar de Lula)

·                   Jair Bolsonaro (PSL): 19%  Marina Silva (Rede): 15%   Ciro Gomes (PDT): 10%

·                   Geraldo Alckmin (PSDB): 7% Alvaro Dias (Podemos): 4%  Fernando Haddad (PT): 1%

·                   Sem candidato: 33%

Cenários pesquisados para o 2º turno:

Cenário 10 (sem Lula)

·                   Marina (Rede): 42%   Bolsonaro (PSL): 32% Em branco/Nulo: 24%

·                   Não sabe: 2%

 

Cenário 11 (sem Lula)

·                   Ciro (PDT): 36%    Bolsonaro (PSL): 34% 

·                   Em branco/Nulo: 28% Não sabe: 3%

 

Cenário 12 (sem Lula)

·                   Marina (Rede): 41%   Ciro (PDT): 29%

·                   Em branco/Nulo: 28%  Não sabe: 2%

 

                                                           II

Pílulas Camonianas - Paulo Timm – Olhos d´Agua, 03 de nov/2003

1.

Amor é dor que desatina sem doer,
É um contentamento descontente.
Amor é um cuidar que se ganha em se perder,
É um não contentar-se de tão contente.

Amor, que em sonhos vãos do pensamento,
Vem não sei como , e dói não sei por quê?
É o gosto de um suave pensamento,
É um mal que mata e não se vê,

Que amor com seus contrários se acrescenta
Na esperança de algum contentamento,
Dando canto à voz, à alma ao pranto,

Pois sobre cousas vãs faz fundamento
Quando na cousa amada se apresenta
Tal modo nunca visto de tormento.

2

De tudo se descuida o meu cuidado
E busco em luzente Olimpo oscuridade
Trago sempre no mais danoso , mais cuidado
Um sempre ter com quem nos mata lealdade...

Vivo em lembranças , morro de esquecido
Te vejo e vi, me vês agora e viste,
Nestes ( ...) olhos claros escondido
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste.

Estranho mal! Estranha desventura!
Se de todo contudo está o fado
N´os dias ajudados da ventura

Paga o zelo maior de seu cuidado
Em toda condição em todo estado
Ou gostos que eu tiver, enquanto dura


3

De tudo se descuida o meu cuidado
E busco em luzente Olimpo oscuridade
Trago sempre no mais danoso , mais cuidado
Um sempre ter com quem nos mata lealdade...

Vivo em lembranças , morro de esquecido
Te vejo e vi, me vês agora e viste,
Nestes ( ...) olhos claros escondido
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste.

Estranho mal! Estranha desventura!
Se de todo contudo está o fado
N´os dias ajudados da ventura

Paga o zelo maior de seu cuidado
Em toda condição em todo estado
Ou gostos que eu tiver, enquanto dura

 

 Paulo Timm

Afinal, o que é o  “Centro”?

A exaltação do centro como o lugar da virtude política não é invenção do povo de Minas Gerais. Nem a conciliação uma jaboticaba brasileira.  Elas são herança dos ensinamentos de grande Aristótles, para quem o lugar equidistante dos extremos seria sempre o melhor. Mas acrescentou que nunca se sabe, antecipadamente, onde está este lugar. Ele é o resultado da múltiplas experiências. Sempre a experiência como Mestra da sabedoria. A praxis…

Aqui no Brasil, últimos tempos, vivemos uma erosão do centro político, à luz do que se chama polarização extremada entre coxinhas e mortadelas, direita x esquerda. Muito embora isso tenha resultado dos acontecimentos históricos que envolveram o impeachment de Dilma Roussef, ao cabo d 14 anos de lulo-petismo no Governo Federal, a desclassificação do centro tem raízes mais profundas, sobretudo na esquerda ortodoxa. A social-democracia, por exemplo, núcleo duro do centro político no século XX, foi dura e virulentamente criticada pelos comunistas como traição à causa popular. Lembro, a propósito, a odiosa rejeição à Leonel Brizola, quando de seu retorno ao país, ao final de 1979, carregando na sua bagagem o título de Vice-Presidente da II Internacional, de caráter social-democrata, isto é democrático e reformista, com o propósito da implantá-la sob a égide do trabalhismo. Tratava-se de um claro e expresso deslocamento de velho líder que outrora, antes de 1964, havia liderado a esquerda e ele o fazia, não só por razões ideológicas, como por reconhecer que um avanço social no Brasil exigia uma forte aliança com forças internacionais não vinculadas à União Soviética. A direita, de outra parte e  de modo geral, até tem sido mais tolerante com o centro, talvez pela infertilidade eleitoral dos princípios de Mercado que a regem, numa nação que está literalmente fora dele e que depende do Estado para sobreviver.

A verdade é que as últimas pesquisas eleitorais para a Presidência demonstram não só a radicalização das posições em jogo, como o desencanto cada vez maior do eleitorado com as eleições. Aliás, nas recentes eleições para Governador em Tocantins, o grande vencedor foi o “não voto”, isto é, a soma dos que não compareceram às urnas mais os que votaram nulo e branco. O mesmo ocorreu com as eleições para Prefeito em 20 cidades fluminenses, reeditando o que já ocorrera em Porto Alegre, em 2016: Ganhou o “não voto”. Vejamos o que mostra esta Pesquisa DataPoder360

Militar do PSL firma-se acima de 20% e vence todos no 2º. turno

Ciro firma-se como o anti-Bolsonaro com 12%

Haddad (PT) tem 8%;

Alckmin,  7% ; Marina e Alvaro Dias, 6% cada um

https://www.poder360.com.br/datapoder360/bolsonaro-e-lider-doria-decepciona-e-empata-com-alckmin-diz-datapoder360/

Vê-se, pois, o colapso do centro, para o qual parte da direita tenta se reorientar à cata de votos que não encontra. Reunião de alguns deles em Brasília reuniu-se às pressas  tentando uma reação na busca de um nome de consenso simultaneamente anti-Bolsonaro e anti-Ciro.- https://www.oantagonista.com/brasil/os-17-pontos-manifesto-em-defesa-de-candidatura-unica-de-centro/  Quem mais reclama é, talvez, o mais direitista destes neo-centristas, cujo Partido, o DEM, aliás, nem compareceu ao encontro:

"O PROBLEMA É QUE ESTAMOS FALANDO MUITO EM CENTRO E A SOCIEDADE NÃO ENXERGA O CENTRO COMO ENTENDEMOS. ENTÃO, FICA UMA CONVERSA MEIO DE BÊBADO"

O problema não é de excesso de álcool neste processo, mas falta de informação ou, talvez, honestidade. O centro histórico, responsável pela modelagem do Estado de Bem Estar é claramente reformista no sentido de assumir o papel regulador do Estado na Sociedade e  não do Mercado. Graças e ele, com grau maior ou menor da direita e da esquerda em cada um dos casos internacionais, fizemos do Século XX o “Século dos Direitos”, base sobre a qual construiu-se uma certa paz social e desenvolvimento.  Os grandes ideólogos deste modelo foram J.M.Keynes, que retateu teoricamente os liberais, mostrando o papel do déficit público como medida anti-cíclica em defesa do emprego, e Max Weber, com uma nova epistemologia do Estado e da Ação Política, através da qual o conflito ideológico saía dos Manuais em benefício do possibilismo. 

Estamos, portanto, um momento de eclipse do centro. Mas para recuperá-lo precisamos cada vez mais de informação e práxis honestas.

 

DEMOCRACIA EM RISCO

Paulo Timm – Reporter Independente 06 junho 2018

Há já algum tempo os analistas apontam um déficit de democracia no mundo. Outros, mais otimistas, contestam e insistem no fato de que a mancha democrática, apesar da Arábiia Saudita e Coreia do Norte,  avança em termos globais (?). Talvez os otimistas tenham razão em termos formais, mas os primeiros destacam que, no Ocidente, onde a democracia mais avançou no século XX, a ponto de ser este denominado por Norberto Bobbio  como Século dos Direitos, ela fenece a olhos vistos. A tempestade neoliberal que desabou sobre o Welfare State, tanto europeu, como americano e, agora, sobre países em desenvolvimento dos vários continentes, cortou preciosos gastos públicos que consagravam direitos sociais importantes, enquanto o desgaste dos processos representativos retira, cada vez mais, a cidadania, dos pleitos eleitorais. Anarquia com rebrotes de violência, que, no Brasil mata mais de 60 pessoas por cada 100 mi; corrupção, na qual somos campeões e degradação social, com brutal reconcentração de renda paralela à expansão do desemprego, que no Brasil condena 25 milhões ao desemprego, outro tanto ao mero salário mínimo e uma fatia adicional do mesmo tamanho com renda inferior ao mínimo, para não falar da miséria absoluta, alimentam  o empalidecimento da democracia. As pessoas estão cansadas com os políticos, com os Partidos, com as instituições públicas. Os filósofos críticos, como o italiano Giorgio Agamben, com muitos seguidores entre nós,  vão mais longe e já dizem que vivemos num “estado de exceção”. Para eles, acabou a democracia, ficando, apenas seu simulacro. Tudo, aliás, nesta nova era, pós moderna, ter-se-ia transmutado em simulacro. O real se nos escapa.

Aqui mesmo, no Brasil, nas recentes eleições para o Governo do Tocantins e algumas cidades fluminenses, fica evidente o desgosto com o democracia: o absenteísmo foi gritante e, somado aos votos brancos e nulos, fez do “não voto” o grande vencedor. Não deverá ser muito diferente em outubro próximo. As últimas pesquisas eleitorais trazem como campeões da preferência nacional, à falta de Lula nas listas, o Capitão Jair Bolsonaro, à direita, e Ciro Gomes, à esquerda, ambos com forte perfil autoritário e transeuntes de vários partidos, demonstrando claro desapego a este instituto partidário.

Bolsonaro é líder …diz DataPoder360

https://www.poder360.com.br/datapoder360/bolsonaro-e-lider-doria-decepciona-e-empata-com-alckmin-diz-datapoder360/

“Militar do PSL firma-se acima de 20% e vence todos no 2º. turno

Ciro firma-se como o anti-Bolsonaro~

Haddad (PT) tem 8%; Alckmin, só 7%”

Estamos mal. E de mal a pior quando intectuais , líderes políticos e cidadãos comuns desinteressam-se pela democracia. Talvez tenha, pois, chegado a hora de remexer no velho baú das grandes referências cívicas do país,  na tentativa de recuperar o seu significado como valor universal e conquista política. Destaco Florestan Fernandes, patrono da Sociologia no Brasil, marxista convicto, parlamentar pelo PT em Florestan Fernandes, citado por Carlos Guilherme Mota em “Ideologia da Cultura Brasileira”- Ed. Atica, SP, 1980 . pg. 202:

“Isso significa, em outras palavras, que os intelectuais brasileiros devem ser paladinos convictos e intransigentes  da causa da democracia. A instauração da democracia  deve ser não só compreendida como o requisito como o requisito número um da “ revolução burguesa” . Ela também será o único  freio possível para esta revolução.. Sem que ela se dê, corremos o risco de ver o capitalismo industrial gerar no Brasil  formas de espoliação e iniquidades sociais tão chocantes, desumanas e degradantes, como outras que se elaboram em nosso passado agrário”.

Tarso Genro (PT), ex governador do RS,  respondendo  à questão – www.sul21.com.br - “consenso democrático ” ou “demarcação do campo popular, com Boulos para Presidente ”  reitera a preocupação com a democracia: “Sim, Boulos é o líder político desta geração (…). Soube se posicionar, (…), de forma correta, entendendo que a disputa pela hegemonia exige, no campo popular, mais “consenso” do que “demarcação” com outras forças democráticas de esquerda, que se esteriliza quando erigem formas de luta “puras” incapazes de enfrentar a força dos inimigos e adversários em momentos de crise.

A advertência do velho Mestre e do ex governador é oportuna e  conveniente. A hora é muito mais de se reforçar um arco democrático  de alianças, com fulcro na defesa intransigente da Consituição, do que delimitação de campos sociais. Até a direita, reunida recentemente em Brasília, lançou um Manifesto em busca de um candidato único capaz de enfrentar, sobretudo, Bolsonaro, ainda que também de olho no crescimento de Ciro Gomes - http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/fhc-e-outras-liderancas-fazem-apelo-por-uniao-de-candidatos-de-centro-contra-bolsonaro-ciro-e-lula/ - . Manuela d´Avila, de sua candidatura simbólica à Presidência, também clama por uma unidade na esquerda. Não sei se serão ouvidos. De minha parte, sigo , aquele pintassilgo flagrado com alguns pingos de água no bico no seu esforço de apagar o incêndio na floresta: Faço a minha parte…

 

ANEXO

https://www.poder360.com.br/datapoder360/bolsonaro-e-lider-doria-decepciona-e-empata-com-alckmin-diz-datapoder360/

Bolsonaro é líder; Doria decepciona e empata com Alckmin, diz DataPoder360

Militar do PSL firma-se acima de 20%

Haddad (PT) tem 8%; Alckmin, só 7%

Bolsonaro vence todos no 2º turno

Ciro firma-se como o anti-Bolsonaro

 

De forma resumida, a pesquisa mostrou o seguinte:

  • Jair Bolsonaro (PSL) – o representante da direita se consolida em todos os cenários. Tem sempre mais de 20% (teve de 21% a 25%). Parece ter se beneficiado do momento de irritação do eleitorado por causa dos protestos de caminhoneiros. Seu voto é consistente. Até 77% de seus eleitores dizem que não trocam mais de candidato até o dia da eleição. No 2º turno, Bolsonaro vence todos os adversários. Sua fraqueza mais saliente é o desempenho ruim entre mulheres (só tem de 13% a 14%, a depender do cenário). Com os eleitores homens, registra de 29% a 37%;
  • Ciro Gomes (PDT) – é o 2º colocado isolado em todos os cenários pesquisados. Confirma a tese de que o eleitorado está cada vez mais se espremendo para os extremos (esquerda e direita) do espectro político. Sua maior vantagem é ir bem no Nordeste, onde chega a pontuar 19%. Vai mal entre jovens de até 24 anos, obtendo só até 8% nesse grupo demográfico;
  • Fernando Haddad (PT) – nome neste momento mais provável para substituir Lula na corrida pelo Planalto, o petista pontua de 6% a 8%. Apesar de não ter sido apresentado como candidato, sua presença é equilibrada em quase todos os recortes da pesquisa. Não aparece tão bem entre homens (vai de 3% a 5%);
  • Marina Silva (Rede) – não está mais empatada com Ciro, mas é a que mais ameaça Bolsonaro num eventual 2º turno: fica com 25% contra 35% do militar. Todos os demais candidatos pontuam menos que Marina nesse tipo de simulação;
  • Geraldo Alckmin (PSDB) – parece estacionado, mas tem pelo menos uma notícia boa nesta pesquisa: o outro tucano que poderia substituí-lo, João Doria, fica na mesma posição. Numericamente, até pior, pois Doria só vai a 6% e Alckmin chega a 7%. O maior problema do tucano é não decolar em seu território, o Sudeste. Nessa região, perde feio para Bolsonaro. No Sul, é derrotado tanto pelo militar como por 1 ex-tucano, o senador Alvaro Dias (Podemos). Para completar, Alckmin não agrada às mulheres: tem só 4% nesse segmento;
  • João Doria (PSDB) – a pesquisa tem o efeito de reduzir a pressão sobre o ex-prefeito para tentar concorrer ao Planalto. Ele pontua sempre 1 pouco abaixo de Alckmin (mas em situação de empate técnico) em quase todos os segmentos. Não é 1 desempenho vistoso o suficiente para tirá-lo da disputa pelo governo de São Paulo;
  • Alvaro Dias (Podemos) – o senador pelo Paraná já foi do PSDB. Disputa os votos agora no mesmo ecossistema no qual se alimentam os tucanos. No Sul, registra de 18% a 22%, a depender do cenário. Praticamente inexiste no Nordeste (1% a 3%). Uma aliança entre Alvaro e Alckmin parece improvável, mas certamente faria com que os 2 juntos se tornassem mais competitivos.
  • Candidatos nanicos – há pouco a dizer sobre Manuela D’Ávila (PC do B), Fernando Collor (PTC), Flávio Rocha (PRB), Henrique Meirelles (MDB) e Rodrigo Maia (DEM). Somados, eles têm 6%. Já Guilherme Afif (PSD), Guilherme Boulos (Psol), João Amoêdo (Novo) e Paulo Rabello (PSC) registram, juntos, só 0,8% das intenções de voto. É altamente improvável que 1 desses nomes se viabilize para ir ao 2º turno.

 

 

FOI-SE O MALDADE.  E O MAL?

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, Torres maio 31

 

 “O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto que ao grito alegre de vocês, grito de quem descobriu alguma coisa nova, responda um grito universal de horror”.

Bertold Brecht in  Vida de Galileu

 

“A crise do combustível é a comprovação prática dos males do pensamento monotemático na economia, temperado com uma dose excessiva (por isso suspeita) de ideologismo, do qual o presidente da Petrobras Pedro Parente tornou-se o caso mais simbólico.”

                                                                Luis Nassif – CGN 27 maio 2018

 

*

O título acima remete, meio enviesado, à uma citação de Goethe. Trata de persistência do mal entre-nós.  Outro escritor, Vassili Grossman, russo, em seu grande romance da sociedade soviética na época de II Guerra ,  registra que não existe, em verdade, uma luta do bem contra o mal, mas sim, a luta de um gigantesco mal contra um minúsculo bem. Mas adverte entre as páginas 430 e 433 de “Vida e Destino”: “A bondade é forte enquanto é impotente e na impotência da bondade insana está o segredo da sua (do homem) imortalidade.” Não obstante, a maldade é  parte da  vida, reflexo de Deus, uma incógnita, envolta de confusões, mistérios e grande complexidade. A marca de Caim. O verdadeiro pecado original. Está em todo lugar, em todos os tempos, muito embora, em alguns momentos mais do que em outros. Aliás, outra autora, Hanna Arendt, judia, estremeceu Israel, ao acompanhar o julgamento de um carrasco nazista, A.Eichman, afirmando  que ele era “normal”, um grão de uma engrenagem muito maior, à qual obedecia e que poderia ser o vizinho ao lado, cuidadoso pai de família, funcionário exemplar, daí retirando sua tese sobre a banalidade do mal. Ela desmistifica essa história de “desuminadade” como algo externo a nós mesmo, produto de uma hedionda bestialidade, “bárbara”. Aliás, esta ideia vem de longe. Desde os gregos, matriz da cultura ocidental, eles faziam uma distinção entre eles, helênicos, “civilizados”, e os bárbaros que viviam além fronteiras e que não falavam grego. A modernidade europeia partiu desta noção para fundar  um novo otimismo, iluminista, entre os séculos XVI e XIX, plasmado sobre os primados da razão e da liberdade para afirmar uma crença cega na evolução social, dando a este processo o vago nome de humanismo. Todos os que não falam esta nova língua são considerados também bárbaros. Não obstante, como diria Paulinho da Viola, não são os humanos que habitam o barbarismo, é o barbarismo que nos habita no seio de uma sociedade cada vez mais tecnológica.

Insisto nisso porque há já algum tempo vivemos nesta  e desta cultura e fomos nos acostumando à ideia de que tudo o que contesta a normalidade é obtuso, anormal, fruto da ignorância. Quando irrompe subitamente  uma paralisação como a dos caminhoneiros, ficamos perplexos. Não sabemos direito o que pensar. O mundo, porém, é caótico e só dentro de parcos espaços conseguimos impor-lhe uma “ordem”, sempre sujeita à solavancos. “Viver é muito perigoso”, justamente por causa disso. Estamos sempre à mercê de causalidades incompreensíveis, sincronicidades imperceptíveis, acasos fortuitos. A coragem consiste, precisamente, em não esmorecer diante destas encruzilhadas, mas assumi-las. Diante delas, nem chorar nem sorrir: Compreender. Mas como fazê-lo se não exercitamos a consciência crítica.

Uma das características das sociedades tecnológicas modernas, advertida já em meados do século passado por um autor, então no auge de seu prestígio universitário, Herbert Marcuse, autor de “O homem unidimensional”, é a indiferença. Ela acaba antecipando uma estranha sensação de vazio existencial que desemboca na depressão. O ritmo da vida seria, cada vez mais, determinado, não por ações heróicas, mas pela lógica fria da ciência e da tecnologia com vistas à eficiência. Tempos sombrios. O fantasma nuclear, com sua ameaça de destruição da humanidade, sublinha a passividade generalizada que exige dos homens públicos cada vez mais habilidade e menos ousadia.   Este comportamento marca o fim da “Era das Revoluções”, última das quais a cubana, em 1959 e que teve no maio de 1958, em Paris, seu último suspiro romântico. Desde então, vivemos sob os ditames da sociedade industrial que chegou a inspirar a idéia do “Fim da História”. Não obstante, apesar das aparências, inúmeras contradições aninhavam-se no seu interior. As águas calmas, diz o provérbio popular, são as mais perigosas, pois escondem as fortes correntes que se movem abaixo delas. Em 2001 veio o atentado às Torres Gêmeas de Norva York e estas correntes vieram à tona com violência inusitada. Desde aí, os tornados políticos têm surpreendido a proclamada indiferença reinante, movendo, ao longo do planeta, multidões que retomam, impetuosas, o ritmo da História derrubando  os mais sólidos regimes e governos. A Primavera Árabe foi a mais impactante ao derrubar o poderoso líder do Egito, General Mubarack. Mas temos visto, também, explosões  na Ucrânia, na Romênia e até no Brasil, no famoso junho de 2013, ante-sala da crise que derrubou o longo ciclo petista. É a História que retoma, com o ímpeto de valorações éticas, sua soberania sobre a mera técnica.  A característica destes movimentos, porém, os distingue daqueles da Era das Revoluções. Eles não respondem à um objetivo claro de mudança de regime sob a égide de um Partido ou vanguarda “de classe” imbuída de uma ideologia transformadora. São movimentos que se organizam rapidamente,  estimulados pelas redes sociais, sem direção nuclear, com forte dominância voluntarista. Impressionam, sacodem estruturas superficiais,  mas não deitam grandes raízes. Não obstante, eppure si muove…, disse, entredentes,  Galileu, depois de negar na Inquisição suas teses.

Assim, neste contexto, se deve situar a paralização dos caminhoneiros que ocorreu no Brasil a partir de 21 de maio passado, indagando, sobretudo quem foram os responsáveis civis – queda de um ponto na estimativa do PIB para 2018 - , políticos – Presidente da República e Presidente da PETROBRÁS pelo sua idolatria ao Mercado que ditou a máxima de que o que era melhor para a estatal era bom para o Brasil – e criminais, neste processo? Foi-se a greve, enfim, mas será que aliminamos o mal que a engendrou?

 MAIO , 17

ENTRE VÍRGULAS

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, Torres -maio 17

                                        "Morre um grande artista..." - (Nero, ao se suicidar)

                                                     *

Dias infames na Política nacional: Há dois anos Michel Temer, mercê do impedimento da Presidente Dilma Roussef, assumia o Governo com a promessa de recuperar o desenvolvimento ameaçado do país sob um regime de rígido controle fisca e recuperação do entendimento nacional; há um ano, exatamente, a Nação ouvia estarrecida o diálogo comprometedor deste mesmo Presidente com um dos maiores empresários do país, o que lhe custaria não só o opróbio quase unânime dos brasileiros, expresso por altos índices de rejeição, como dois processos da Procuradoria Geral da República. Não obstante, Temer continua pousando de mocinho. Oressa!

Temer não é só o pior Presidente de todos os tempos, passados e vindouros, mas vai passar para a História como o Rei dos Trapalhões. Toda a santa semana é protagonista de uma trapalhada e nada de positivo cola a favor dele. Pelo contrário, pega o ruim de longe. E semeia o pior, já visível no horizonte.

A última foi o Convite para a cerimônia do segundo aniversário do Governo: “O Brasil de volta, vinte anos em dois”. Foi ridicularizado em todas as mídias e viralizou na INTERNET- https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/slogan-o-brasil-voltou-20-anos-em-2-implora-para-ser-interpretado-como-ato-falho.shtml  Bordão errado em todos os sentidos pois estigmatizado como retrô o convite evoca o que a esquerda tem dito desde que Temer assumiu em maio de 2016: É uma volta atrás, no que o passado tinha de pior. Um afetado uso da mesóclise  pelo Presidente não lhe capacitou, de resto, à percepção do lugar estratégico de uma mera vírgula. Tivesse usado dois pontos, ficaria mais claro, mais ainda se houvesse destacado em maiúsculas a primeira parte do bordão – O “BRASIL DE VOLTA: Vinte anos em dois”. Ainda assim, soaria mal a um Governo que se pretende moldar o futuro,  o uso do verbo voltar. Voltar sugere sempre o  eterno retorno,  a reedição do mesmo. Na MPB, a volta do boêmio alquebrado.  Triste. E mais uma vez, Temer vai e volta. Faz e desfaz. No fundo,  não sai do lugar, um lugar incômodo que ocupa e que lhe recomendaria um mínimo de discreção, .  Não consegue, “se acha”, como se fosse a reencarnação de Juscelino. Atua com a desenvoltura de um toureiro em ato,  sem qualquer economia de gestos, mãos  e dedos em riste, afora os ternos impecáveis,  à espera da consagração do estádio. Mas não há estádios, não há público, não há, honestamente, nada a comemorar neste segundo ano do Governo Temer. O saldo em reservas que impede uma grave crise cambial lhe é anterior e os baixos índices de inflação não refletem senão o fosso profundo da recessão. E se algo de bom ocorre na economia tem muito mais a ver com o descolamento dos empresários do Governo do que o resultado de suas diretrizes. Nem falar da explosão da dívida pública, já perto de 100% do PIB - https://www.youtube.com/watch?v=Ni4Xm7BQzy4&feature=youtu.be . O Governo Temer é um desastre.

 Na verdade, o impeachment de Dilma foi um erro precipitado, à despeito de seus erros,  pela voracidade de um “Quadrilhão”  articulado pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha,  hoje condenado e preso em Curitiba, à espera de seus comparsas, que, um a um, ainda lhe farão companhia - http://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/como-o-fora-dilma-pariu-bolsonaro-por-sergio-saraiva#.WvnZWPK-e2U.facebook . Nem Temer está livre deste destino, pois os dois processos contra ele, sustados pela Câmara – e mais o que se gesta na Procuradoria Geral da República por favores concedidos a operadoras do Porto de Santos- , ainda lhe perseguirão. Quem viver verá.

Como se não bastasse o ridículo do Planalto, o país descobre pelos arquivos da CIA, revelados por Matias Spektor, que seus generais Presidentes foram coniventes e responsáveis pela execução de opositores ao regime - https://www.facebook.com/televisaodomundo/videos/2065700917032140/ .

 

E não se diga que eram prisioneiros de combate eis que esgrimiam, mais das vezes, apenas ideias contra o autoritarismo, tais como W. Herzog e Manoel Fiel Filho - https://www.facebook.com/cirogomessincero/videos/1897248053653418/ . Nestes mesmos dias, na Alemanha, um velhinha foi presa por afirmar-se partidária de Hitler e do nazismo. Obrou bem o Governo  daquele país. Não se pode ser tolerante com intolerantes se quisermos preservar liberdades fundamentais. Já aqui, um dos candidatos mais cotados à Presidência da República não faz segredo – até louva – o regime militar 1964-85 e seu provável companheiro de chapa ao Governo do Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Heinze, do PP, já separado do Governo Sartori (MDB),  talvez cresça nesta mesma sombra.

  Talvez ganhem, à vista da incapacidade das esquerdas se comporem num grande arco democrático que defenda as conquistas da Constituição de 1988. Pensam pequeno, entre vírgulas, como quem não deseja ou não consegue colocar um ponto final num passado que ainda nos persegue.

Com tudo  isso navegamos entre o escárnio  do presente e a ameaça de tragédia num futuro próximo. E ainda dizem que navegar é preciso...

Eis o maior risco da polarização esquerda x direita. Ela vitimiza o que de mais caro temos a preservar: a democracia.

 

MAIO , 11

                                                    MAIO AMORES

                                  Paulo Timm – Especial  A FOLHA, Torres RS – 11 MAIO

http://www.paulotimm.com.br/site/downloads/lib/pastaup/Obras%20do%20Timm/180511082605MILONGAS_(1).pdf

A sabedoria popular fala muito sobre as “ coisas “. “Coisar”, aliás, já virou motivo de Poesia e Romance, talvez, até, letra de alguma música popular. Daí os ditos como “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, ou “Primeiro, as coisas primeiro”, muito ao gosto dos ingleses, ou, ainda, “Cada coisa no seu lugar”. Neste amplo sentido, coisa pode ser… qualquer coisa: um objeto, um artefato, um homem, mulher ou criança, um sentimento, um partido político, uma instituição pública ou privada, a conjuntura, os dias, as horas, os meses do ano, até transar. Aliás, falando em mês do ano,  depois que sobrevivemos ao abril, “o mais cruel dos meses”, estamos navegando o mais sublime deles: Maio.

Maio, antigamente, era o mês das noivas. Para mim, doces recordações de lençóis de percal, linho e cretone cuidadosamente bordados em linha de seda, sobre desenhos em “transmissor” que eu próprio me cansei de traçar . Minha mãe vinha de uma tradicional família italiana, de Santa Maria, cuja matriarca era Dona Romilda, filha de Giuseppa Filizola,  que administrava um tradicional  negócio de enxovais. Em maio choviam  noivas do Rio e São Paulo para escolher as peças que fariam o ornamento  dos novos lares. Hoje, maio é o mês do Dia das Mães, a data mais festejada – alegria dos shoppings - , entre nós, brasileiros, depois do Natal.  Mantém sua tradição como um mês com gosto de amores: Ontem laços conjugais carregados de erotismo e promessas de lua cheia, hoje o abraço das famílias constituídas, mesa posta no domingo ensolarado, renovação de afetos incondicionais.   Continuamos celebrando o amor.  Não só celebrando, mas tentando, cada vez mais compreendê-lo em seus enigmas e imbricações. Revelando-o. Pois já não nos basta sentir os mistérios das afinidades eletivas, às quais Goethe consagrou uma obra já clássica. Queremos saber melhor seu lugar na alma humana, para aquém e além do amor romântico do par perfeito, o que, aliás, os gregos também faziam:

 

Roman Krznaric, por exemplo, volta à Grécia Antiga para encontrar pelos menos seis formas de amar:  Eros, o amor sexual; Phila, o amor amizade; ludus, o carinho lúdico entre crianças ou amantes casuais; pragma, o amor maduro e o profundo conhecimento que se desenvolvem em relações duradouras; ágape, o amor altruísta estendido a todos os seres humanos, oferecidos incondicionalmente e sem expectativa de reciprocidade; e Philautia, ou o amor-próprio, que pode ser tanto negativo, manifestadas como ganância e narcisismo (depois do mito de Narciso), quanto positivo, como um alargamento nutritivo da nossa capacidade de todo o amor, a partir de dentro.

W.Nickelen -Amor? Que História é essa? 2014

www.sul21.com.br

 

Os afetos invadiram também a Filosofia. Spinoza, no século XVII, incorporou-o definitivamente às suas reflexões, enaltecendo-o sob o arco da alegria de viver. Freud, fundador da Psicanálise, reabilitou-os como fermento das ações humanas. “(Ele) sabe que o amor não é apenas o nome que damos a uma escolha afetiva de objeto. Ele é a base dos processos de formação da identidade subjetiva a partir da transformação de elementos libidinais em identificações”.  Desde então, os afetos se constituem num elemento central para a compreensão da vida em sociedade. O século XX, trouxe à tona a importância dos afetos na instituição da sociedade , os quais articulados à libido  e à identificação operam como aporia, enigma e fábula para  além do narcisismo. O século XXI, com a Neurociência tenta dar-lhe uma fundamentação mais orgânica, como resultado de complexas interações neurais. Nisso descobre o que os poetas já sabiam desde a antiguidade: o amor é um estado de espírito descolado de qualquer juízo, muito similar a outras modalidades de distúrbio de consciência. Mas, independente das ciências, com seu escrutínio desapaixonado, o amor, em suas várias dimensões permanecerá sempre como um enigma, título, aliás de um dos mais belos livros de Artur da Távola e que tive a oportunidade de converter em prosa poética com vistas a torná-lo mais acessível- http://www.paulotimm.com.br/site/downloads/lib/pastaup/Obras%20do%20Timm/180511082605MILONGAS_(1).pdf A  quela “coisa” que não só move o mundo mas que é também capaz de salvá-lo.

                                Um estado de graça chamado amor

(…)Todo mundo sabe o que é isso. O fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente (Camões), o sentimento que move o sol, como as estrelas (Dante), a força obscura e potente que dissolve membros (Safo) ou amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no elipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários (Drummond). É o amor, louco, delicioso, tolo, embriagante, o princípio unificador do cosmo, segundo os filósofos gregos, motor de todos os poetas, êxtase celestial e doce tormento de todos os apaixonados (…)

(Blogdogutemberg.com  - 2008)

Ah, o amor…A mais bela de todas as “coisas”, seja líquido, imaginário ou simbólico, seja maternal, carnal ou espiritual, seja de ontem ou de hoje, seja sempre louvado e bem vindo. Dostoivski achava que só a beleza salvaria a humanidade. Concordo com ele, desde que essa tal de beleza atenda pelo nome de  amor.

ABRIL, 18

REFLEXÕES

                     “Se te queres matar, por que não te queres matar?” -   Fernando Pessoa

I
Uns dão ao interesse público algum tempo durante um período de sua vida. Outros dão o tempo todo durante, também, um período da vida. Outros, enfim, dão todo o tempo durante toda a sua vida. São raros mas imprescindíveis. Devem contudo ter a compreensão de que o normal da sociedade tem outro ritmo e diversos interesses. Viva para a vida, não para a Política. Trotsky falava muito sobre isso e chamava a atenção sobre estes limites entre os "normais". Momentos de grande mobilização política, por exemplo, são fundamentais mas duram pouco. Ninguém aguenta durante muito tempo, sobretudo em nossa sociedade, pouca acostumada à efetiva participação popular nos acontecimentos. A insistência na mobilização pode levar ao isolamento.

 

II

VISÃO DE TÚNEL
Esta é uma distorção não propriamente da visão mas da atenção. Vê-se aquilo que nos parece o mais importante e descuida-se daquilo que seria secundário. Causa, aliás de muitos acidentes, sobretudo aéreos. Certa feita, um experiente piloto, avisado da iminância de um tufão, numa cidade da Asia, apressa-se com os procedimentos de take of. Faz tudo muito rápido com perfeição mas não presta atenção sobre qual a pista que deve tomar para levantar vôo. Algo como 57 por 37. Fatal. Tudo pronto, acelera na pista e...KAPUTTT! Mergulha num buraco numa pista em reparos. Diagnóstico:: Visão de túnel. Não é ideologia, não são ídolos do conhecimento, não são paixões desvairadas, apenas erro de registro e atenção. Em Política, abunda. Depois de anos a gente volta atrás e pergunta: - Como não vimos isso...? Afinal, nem tudo que parece ser importante é realmente importante.

 

III

Atenção analistas políticos!
Com as mudanças de Partido na Câmara dos Deputados ainda não é possível dizer com precisão qual a maior bancada naquela Casa. Não obstante, calculo eu que duas coisas aconteceram:
1- Esfacelamento - ENFIM - do PMDB, que deixa de ser o maior Partido, senão do Ocidente, pelo menos no Brasil.
2. O PT teve poucas baixas parlamentares e tudo indica que já é, HOJE, a maior Partido na Câmara. Pasmem! Eu, aliás, sempre defendi que isso aconteceria, muito embora se possa imaginar uma ligeira redução desta Bancada em 2018.
..................
Bancadas G1
https://g1.globo.com/…/pelo-menos-80-deputados-trocam-de-le… 
Ainda não é possível dizer quais partidos ficaram com as maiores bancadas na Câmara após o período da janela partidária. Isso porque:

O atual número de deputados em cada partido, disponível no site da Câmara, considera somente as trocas comunicadas até o momento para a Secretaria-Geral da Casa (ou seja, outras mais ainda serão informadas oficialmente);
o levantamento do G1 não considera secretários e ministros que vão reassumir o mandato;
a lista de trocas da Secretaria Geral inclui quem está licenciado do mandato, ou seja, não é considerado para efeito de tamanho de bancada.

 

 

 ABRIL 12 

E AGORA…?

P.Timm - Especial A FOLHA, Torres RS

A semana política foi carregada, mas promissora. A prisão de Lula, enfim consumada, em meio à grande manifestação popular em seu apoio, junto ao Sindicato de Metalúrgicos de São Paulo, passou para a História, sem qualquer convulsão.  O pronunciamento de Lula, pouco antes de sua caminhada em meio à multidão, em cumprimento ao mandato judicial, foi um misto de Fidel, no seu famoso “A História me absolverá”, com Vargas, na “Carta Testamento”, e pitadas messiâncias que ressoaram as palavras de Cristo na Santa Ceia: “Lula não é mais este corpo, mas uma ideia que habitará o coração de cada brasileiro”. Gostando-se ou não de Lula, seu discurso não será apenas guardado como relíquia, mas será mensageiro de ações políticas. Hoje, recluído em sua “humanizada” (?)  cela em Curitiba, ele tenta, certamente, refletir sobre estes últimos dois anos de sucessivas derrotas de seu Partido. Pesam nestas reflexão duas tendências: De um lado a própria natureza do Lula como um infatigável homem de negociação; de outro, um Homem marcado pelo ressentimento de ser vitimado sem culpa, numa encarnação dos sofrimentos do povo trabalhador brasileiro, curtido no desprezo das elites, propenso à revolta. Neste caso, no que é estimulado por grande parte de seu Partido e aliados à esquerda, PcdoB e PSOL, ele poderá estimular a resistência até o ponto de maior enfrentamento com o status quo. Pouco importa, à essas alturas, saber-se se Lula será solto dentro de algumas semanas, em decorrência da revisão da jurisprudência do Supremo sobre os limites do imperativo constitucional de “Presunção de Inocência”, ou se permanecerá preso. O fato está consumado e ele não será candidato em 2018. Nos bastidores já se sabe que seu indicado Fernando Haddad, com sua anuência, já se organiza para a corrida presidencial. Mas até por isso altera-se a conjuntura. O PT tende a voltar aos idos de 1889 – 1994 e 1998 fechando-se em torno da consigna de uma Frente de Esquerda, isto é, sem ampliações partidárias, sociais e ideológicas para o centro. A tática de convidar o filho de José de Alencar, o grande empresário que lhe acompanhou como Vice, em 2002, soa a farsa. Já não haverá uma “Carta aos Brasileiros”, nem maior tolerância com a classe média, associada, no novo-velho discurso às “zelites”. Um passo atrás. Um passo que reforça o PT como agremiação político-ideológica, com poucas perdas militantes, embora declinante na preferência popular que ainda lhe atribui 13% de preferência partidária, vindo PDT, a seguir, com insignificantes 2% e os demais nem isso.

Junto com esse retorno às origens do PT, sem, naturalmente, o forte discuroso anti-corrupção que lhe caracterizou na denúncia do jovem Lula às “maracutaias”, outro elemento se acrescente à conjuntura: A erosão do MDB-PMDB, que ocupou um importante papel na redemocratização e no próprio avanço do PT nos Governos Lula e Dilma. Hoje, este Partido já é minoritário na Câmara dos Deputados, cedendo a primazia ao PT, e nada indica que seu candidato à Presidência, seja Temer, seja Meirelles, possa reverter sua desagregação. Trata-se de um prédio em ruínas cuja imagem tenderá a se fixar no triste destino das altas autoridades deste Partido no Rio de Janeiro, hoje atrás das grades.

Diante do estreitamento do PT e do esfacelamento do PMDB abre-se uma nova janela ao processo democrático no país, no qual já se perfilam duas tendências: O centro direita tenta aproveitar a oportunidade com nomes como Rodrigo Maia- DEM e Alkmin- PSDB, enquanto a centro esquerda lhe oferece resistência com duas prováveis candidaturas concorrentes “neste” espaço: Ciro Gomes- PDT e Joaquim Barbosa- PSB. As duas opções apresentam-se não só capacitadas ao pleito como adequadas à recomposição da governabilidade do país, com perspectivas de re-estabilização da conjuntura. Marina Silva, sempre excelsa, paira sobre os dois campos, podendo pousar sobre uma ou outra. Não tem peso para se constituir em opção governativa, à despeito de seu peso eleitoral. Falta-lhe estrategistas.

Ainda é cedo para afirmações definitivas. Mas já entra um pouco de sol pelas frestas do concurso presidencial. Oremos para que ele chegue ao seu curso. Façam suas apostas…

 

 

 

JUDICIALIZAÇÃO: O GRANDE EQUÍVOCO

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, abril 05

 

“Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Capítulo I dos Direitos e Deveres individuais e coletivos da Constituição Brasileira de 1988 - o LVIII -    em vigor

 

A JUDICIALIZAÇÃO

Coletânea – P.Timm org. (Uso em sala de aula)

http://www.paulotimm.com.br/site/downloads/lib/pastaup/Obras%20do%20Timm/130428054723JUDICIALIZACAO_-_Coletanea.pdf

 

                                                              *

O país não parou no último dia  04, mas concentrou-se na sessão do Supremo que deliberou sobre o Habeas Corpus do Ex Presidente Lula, afinal rejeitado pelo estreito escore de 6x5, com o voto de desempate da Presidente da Corte, Ministra Carmen Lucia. Com isso, chegamos ao cúmulo da chamada judicialização da política, ou seja, a definição dos rumos da vida pública atraves de deliberações judiciais. Também ali ficou patente a polarização do país, com duas alas organizadas, uma contra outra a favor do referido Habeas Corpus, reflexo da grande divisão ideologica em que estamos envolvidos, esquerda versus direita, ou, o que é pior, lulistas e anti-lulistas, a qual já produziu no cenário eleitoral um fantasma chamado Bolsonaro. Enquanto isso, o Congresso Nacional permanece apatico, como a moça feia na janela vendo a banda passar.

Qual o problema deste processo?

 

Em primeiro lugar, restringindo-se a discussão sobre o tema em pauta – Presunção de Inocência –,  na forma em que está inscrita, como princípio e não como regra, como sustentou corretamente o Ministro Barroso - http://odiarionacional.org/2018/04/04/esse-nao-e-o-pais-que-quero-deixar-para-os-meus-filhos-um-paraiso-de-homicidas-estupradores-e-corruptos-diz-barroso/ , em um feliz dia de ativismo judicial, continua em suspenso. A letra imperativa  da Constituição que trata do assunto continua lá, no mesmo lugar, alimentada por uma histórica  jurisprudência, suspensa por um soluço limitante mal digerido  do STF em 2016, quando impôs o trânsito em julgado às segundas instâncias. No mesmo Tribunal já se encontram propostas para rediscutir o assunto, lembradas pelo Ministro Marco Aurélio - https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/349899/Marco-Aur%C3%A9lio-escancara-manobra-de-C%C3%A1rmen-L%C3%BAcia.htm , tudo indicando que, com o voto, agora, dos Ministros Gilmar Mendes e Rosa Weber, tudo voltará como dantes no quartel de Abrantes: A reconversão do princípio da Presunção de Inocência em regra, mais dia menos dia – e isso poderá ocorrer quando o Ministro Toffoli vier a assumir a Presidência do STF,  reabrirá as portas de algumas prisões permitindo aos sentenciados em segunda instância que prossigam na sua peregrinação até que as delongas processuais os absolvam , graças ao  instituto da prescrição. Guardem, portanto, os que  celebram a decisão de ontem sobre o HC de Lula, enaltecendo o belo discurso punitivista  do Ministro iluminado, suas energias, de forma a retomá-las em copioso pranto no próximo capítulo desta novela. Ou seja, se nestes dias Lula pode ser preso, ele e tantos outros condenados pela LAVAJATO , assim como centenas ou milhares de outros sentenciados sob o crivo da segunda instâncias estarão novamente em liberdade, ainda que provisória.. A Justiça, enfim, não reformará o sistema político nacional. Cabe à Política fazê-lo, através da Política, nunca através das armas ou das Varas.

Aqui, portanto, a segunda observação, esta de mérito: O que é a Política e a quem compete sua condução?

Desde os antigos gregos, sabe-se que a Política é o reno da opinião, ou doxa, como eles diziam. Por isso eles enviavam seus filhos à escola para que aprendessem as técnicas da argumentação – retórica- e da expressão – oratória. O cidadão, reunido na Praça Pública,  deveria ser capaz de formar opinião para participar das discussões sobre os assuntos atinentes à vida da cidade, a Polis, daí o nome Política, como síntese da democracia. Neste processo escolhiam, também, diretamente, aqueles que deveriam levar a cabo as decisões coletivas com o cuidado de exclui-los, condenando-os ao ostracismo, em caso de desvios.

O mundo moderno, com suas instituições e complexidade, perdeu um pouco desta origem. A Política,  como gestão do Estado desmembra a função de representação, a cargo dos parlamentos, da função de administração , a cargo do Poder Executivo, destinando ao Judiciário a função arbitral. Com o relevo absolutista do Executivo, sobretudo em regime presidencialista, porém, duas coisas acontecem: 1.Os parlamentos decaem em importância e se socorrem do Judiciário para enfrentar o Leviatã, transformando-o em player estratético da Política;: 2.  A cidadania, distante, chamada cada vez mais a se manifestar sobre a coisa pública tem cada vez menos condições de compreender a complexidade de sua trama e passa a acreditar na solução tecnocrática como fórmula de Governo. Resultado: O desmerecimento da própria Política como sinônimo da democracia. Todos anseiam por um Governo técnico e por juízes rigorosos, sem se dar conta de que isso nos distancia do auto-controle sobre nossos destinos.Melhor fora que pensássemos no caminho inverso: fortalecimento do polo subjetivo da democracia, educando-o para a cidadania, abertura dos canais de informação para  a formação de uma consciência verdadeiramente democrática na opinião pública e fortalecimento das instituições propriamente políticas para a reorganização do Estado.

 

Por último, a confirmação do exposto no espetáculo de ontem: Um Congresso inerte, desmobilizado e incompetente assina sua falência, quando deveria, por iniciativa legiferante e forte presença no cenário político impor-se como força legítima de solução do contencioso da Presunção de Inocência. Bastaria uma Emenda à Constituição votada em regime de urgência.

                                                      Tristes Trópicos…

 

 

 

 

 

 

 


Almanak do Timm
Almanak do Timm

Fevereiro, 15

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018: CONTRA A VIOLÊNCIA

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, fev.15

O ano em curso, de 2018, está fadado a ter excepcional importância na vida nacional, tal como foram os auspiciosos anos de  1961, da Legalidade, o 1985, da Redemocratização com a Nova República, o 2002, com as eleições que dariam a vitória ao Presidente Lula, sublinhando o vigor da nossa democracia na consagração de  um líder operário; ou o lúgubre 1968, que culminou na edição do famigerado Ato Institucional n. 05 que respaldaria os Anos de Chumbo da ditadura. Mas a construção da democracia é assim mesmo. Tem altos e baixos. Nunca é uma Rota Romântica pontilhada de belas flores e paisagens, mas um caminho tortuoso pavimentado, não raro,  pelo sangue de idealistas em gigantescas pugnas internas e externas. Acabo de ver um documentário sobre a II Guerra Mundial, um libelo na defesa da democracia e revêm, agora o número de mortos: 78 milhões, com maior passivo ao povo russo, com 25 milhões de baixas, dois terços destes totais, civis.

O ano se apressa. Estamos, recém, em meados de fevereiro e já se percebe seu apetite. Normalmente, a História, para nós, começa depois do Carnaval, com o fim do veraneio, da volta dos estudantes às Escolas, com a reabertura dos trabalhos políticos em todas as capitais , começando pela despedaçada Brasília. Não temos os “Idos de Março”, célebres, desde o ano 44 A.C. pelo assassinato de César às mãos de Brutus, como umbral do novo ano, mas sempre temos as “Águas de Março”, do Tom Jobim, lavando as escadarias do tempo - https://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&source=hp&ei=bdGFWsGGJcKDwQSN5I7oCg&q=aguas+de+mar%C3%A7o&oq=AGUAS+DE+MAR%C3%87O&gs_l=psy-ab.1.1.35i39k1j0l9.3099.6811.0.9848.19.17.0.0.0.0.170.1558.0j13.13.0....0...1c.1.64.psy-ab..6.13.1556.0..0i131k1j0i10k1j0i22i10i30k1.0.eok4_POGfrA :

É o vento ventando, é o fim da ladeira

É a chuva chovendo, é conversa ribeira

Das águas de março, é o fim da canseira…

É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho…

São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração…

Neste ano não esperamos março. A História começou no dia 24 de janeiro, quando o TRF 4 ratificou a condenação de um ex Presidente. Inédito.  E teve novo capítulo com o Carnaval no Rio de Janeiro, que, por vez primeira, surpreendeu o Sambódromo com temas severamente críticos e procedimentos mobilizadores  que levariam a Beija Flor e Paraíso do Tuiuti aos dois primeiros lugares no certame . https://www.facebook.com/photo.php?fbid=463910754011958&set=a.144944549241915.1073741828.100011791130803&type=3  -

 Tudo isso muito simbólico. Sinais. Sinalética marcada por um sentimento de perplexidade, mais do que indiferença, da parte da população, por muita violência nas ruas e preocupação nas instituições.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, atenta a este momento, colocou a violência no escopo da Campanha da Fraternidade 2018. Com efeito, ninguém mais aguenta índices de homicídios comparáveis aos que ocorrem em zonas de guerra: 13% do total mundial.

Taxa de assassinatos nas capitais por 100 mil habitantes

 

Natal - 78,4

Fortaleza - 63,7

São Luís - 60,9

João Pessoa - 59,4

Aracaju - 56,3

Belém - 53,6

Manaus - 52,8

Maceió - 51,3

Salvador - 49,4

Porto Alegre - 46,2

Cuiabá - 42,9

Teresina - 42,5

Goiânia - 41,0

Palmas - 36,3

Recife - 35,3

Macapá - 33,1

Rio Branco - 32,9

Porto Velho - 32,8

Curitiba - 26,0

Belo Horizonte - 24,9

Brasília - 23,4

Vitória - 21,6

Rio de Janeiro 19,4

Boa Vista - 18,4

Campo Grande - 16,3

Florianópolis - 12,3

São Paulo - 9,9

 

Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (dados de 2015)

 

 Aponta a CNBB para uma conceituação antropológica abrangente da violência, articulada em três eixos interligados – violência física, com riscos à integridade das pessoas,  violência psico-social, marcada pelos preconceitos, violência institucional, com eixo nas lacunas do Estado - , exigindo dos cristãos maior comprometimento com a paz social. Bela iniciativa da Igreja Católica que se contrapõe, nesta visão, ao regressismo das correntes pentecostais - http://www.dw.com/pt-br/opini%C3%A3o-igrejas-neopentecostais-amea%C3%A7am-democracia-na-am%C3%A9rica-latina/a-42511616 .  Registro o fato e deixo aqui o apelo em  Oração recomendada pela Campanha da Fraternidade - http://www.nossasagradafamilia.com.br/conteudo/conheca-o-tema-cartaz-hino-e-oracao-da-campanha-da-fraternidade-2018.html :

Deus e Pai,
Derrama sobre nós o Espírito Santo,
para que, com o coração convertido,
acolhamos o projeto de Jesus
e sejamos construtores de uma sociedade
justa e sem violência,
para que, no mundo inteiro, cresça
o vosso Reino de liberdade, verdade e de paz.

Amém!

    Fevereiro, 03

       O que deseja o PT?

                                                                           Paulo Timm – fevereiro, 03 

“Um poder cego -Assim como o sistema político, a corporação do Judiciário não é dotada de inteligência estratégica. Não há think tanks capazes de pensar o poder institucionalmente, os fatores de risco futuros, entender as oportunidades e ameaças, exercer um poder moderador de apetites e de arrogância. E qualquer alerta sobre os riscos futuros é tratada como agressão à classe, que não demonstra nenhuma abertura a novas ideias ou mesmo a discutir seu futuro.Em suma, o Judiciário é a peça mais intrincada desse grande jogo de xadrez que o país precisa vencer, rumo à modernidade.”

Luis Nassif in “Xadrez do futuro acerto de contas do Judiciário” –

Jornal CGN  - 02.02.2018
                                                                                           *

Tem-se falado muito, no Brasil, que, desde a eleição de Dilma Roussef, o país vem se polarizando em torno de uma esquerda, galvanizada pelo PT, sobretudo seu grande líder, o ex-presidente Lula da Silva, e uma onda conservadora, com diversos matizes e desprovida de campo hegemônico, envolvendo, desde atores propriamente políticos, como o Presidente Temer, o expresidente FHC, o deputado Jair Bolsonaro, até instituições do Estado, como o Judiciário, passando pela grande mídia e corporações empresariais. Isso estaria refletido nas pesquisas eleitorais, francamente favoráveis a Lula, contraposto a uma miríade de nomes: Governador Alkmin, Marina Silva, Ministro Meirelles, Rodrigo Maia, Cristovam Buarque etc até o Incrivel Huck. Este, aliás, um personagem alheio à Política mas de grande popularidade, tal como Silvio Santos, em 1989, quando não conseguiu emplacar a candidatura, seria a solução final contra a esquerda. O grande impasse, já vivido no passado, consistiria justamente no fato de que “a direita” não tem um competidor à altura de Lula. Já inventou Jânio Quadros, em 1960. Inventou Collor, em 1989. Agora, estaria à cata de um novo Mágico de Oz..

Até aí, tudo bem. Faz parte do jogo político, nem sempre prenhe de virtudes. Poderíamos, a partir deste embate, indagar quem são estas nacaradas forças antagônicas – esquerda x direita - , qual sua origem social e ideológica, evolução política  e contradições internas ? Trabalho de análise árduo, já em curso em vários livros  teses acadêmicas que  tratam do assunto. Longe de mim, esgotar, aqui, o assunto. Diria, genericamente, que a direita se renovou radicalmente nos anos 1990, passando a gravitar em torno do PSDB e do protagonismo do ex.Presidente FHC., cuja visão de mundo poderia ser identificada como neoliberal, avessa ao isolacionsimo nacional, ao corporativismo e aos excessos da estatização. Entrou em crise ao longo da Era Lulo-petista e agora tenta se recompor. A esquerda fez um caminho inverso. Partiu de uma grande dispersão resultante da Anistia e das lutas pela redemocratização e acabou convergindo, depois da eleição de Lula, em 2002, para uma forte reaglutinação em torno do seu nome, inequivocamente hegemônico.

Mas o que é a  esquerda petista  -  aqui falo “esquerda” não no sentido metafísico, capaz de criar um mundo novo, mas do papel que este grupo ocupou no cenário nacional em contraposição ao conservadorismo - ? O que pensa em termos táticos e estratégicos? Qual seu caráter, além da suposta sede de justiça social e já agora de Justiça efetiva? O que deseja hoje?

O PT teve sua origem social em três vertentes: o novo sindicalismo com epicentro em São Paulo, as comunidades eclesiais de base da Igreja e velhos militantes revolucionários, marxistas,  oriundos do antigo PCB, com trânsito na luta armada nos anos 60 e que se haviam dispersado depois de sua derrota, bem como pequenos grupos radicais com presença, sobretudo, na Universidade, como, por exemplo, a Libelu.  . A eles somou-se, aqui e acolá, um ou outro quadro isolado da luta parlamentar travada no Congresso Nacional, mais ou menos ligados ao então chamado Grupo de Autênticos do MDB, e um e outro intelectual isolado, como Antonio Cândido.Desde sua origem o PT foi, então, uma espécie de federação de percepções e interesses, mas que convergiam para uma ação unificada de resistência ao caráter liberal da redemocratização graças à capacidade unificadora de seu líder, Lula. Com esta composição, tanto social, como ideológica diversificada, o PT foi se firmando eleitoralmente. Muito contribuiu para isso a formação de uma nova Central Sindical, a CUT, vindo a à incorporar grandes sindicatos ao longo de todo o país, os quais associavam a luta econômica por recomposições salariais numa conjuntura de grande aceleração inflacionária, ao ideário do Partido: Dos trabalhadores, para os trabalhadores, pelos trabalhadores. Da recomposição salarial para o voto na urna, foi um pulo. Fórmula infalível que acabou digerindo outras tendências de corte ideológico até mais profundo, como comunistas, trabalhistas e socialistas. Com este ideário, fortemente economicista, classista, mas não revolucionário, sequer falando em socialismo, Lula, jovem e desafiador, enfrentou praticamente sozinho  as eleições de 1889, 1994 e 1998, sem lograr sucesso. O Partido, para ganhar, necessitava amplar sua percepção tática, abrindo-se para alianças menos ortodoxas e compromissos mais flexíveis quanto à gestão da economia e do Estado para romper o ciclo de derrotas à Presidência. Aí, então, veio a aliança com o grande empresário José de Alencar e seu inexpressivo partido, associada à divulgação da “Carta aos Brasileiros”, como mecanismo de docilização das apreensões do Mercado. José Dirceu teria sido o grande artífice desta primeira grande virado do PT e que orientaria praticamente toda a Era petista, desde 2003 até 2014. O PT, sem abandonar a retórica classista abria caminho para uma experiência reformista do capitalismo brasileiro, sob a alegação velada de que, se a burguesia nacional não o fez, um metalúrgico a faria. Isso caía muito bem na literatura de divulgação marxista sobre o caráter da Revolução, suas forças motrizes e tarefas correspondentes. Tal virada, porém, não é nem uma grande traição, nem propriamente um grande erro, ainda que, para garantir a governabilidade à frente de um Congresso conservador, o Governo, seja Lula, seja Dilma, tenham se obrigado à alianças e procedimentos que acabariam reproduzindo a maldita tradição do patrimonialismo coronelista, cujos resutados acabariam comprometendo a imagem irretorquível de moralidade do próprio Partido.

Constituindo-se, pois, numa primeira etapa de sua história como um consequente Partido de Classe, mesmo sem jamais assumir-se como vanguarda portadora de missão revolucionária, capaz de levar a efeito o assalto ao Poder com vistas à edificação de uma nova ordem, o que lhe deu um caráter novo e o impulsionou para um grande encontro com os asslariados, numa época de crise, o PT acabou se perfilando, no Governo, como uma Partido de Massas de corte social-democrata, ou seja , social reformista. Foi bem, com tal missão, até o Governo Dilma I, quando, ao arrefecimento das  circunstâncias externas que haviam propulsado a economia nacional e sensível endividamento das famílias, empresas e Governo, somou-se o despreparo da nova Presidente em lidar com uma conjuntura que se deteriorava rapidamente. Isso culminou no impeachment de Dilma e se desdobra, agora, como resultado da grande ofensiva do Judiciário, na condenação de Lula, impedindo-o, certamente, de concorrer neste ano.

Diante deste novo cenário, o PT vive seu terceiro momento, cujo desfecho ainda não é claro. Haverá divisões internas? Voltará à fase original de compromisso com princípios morais e políticos? Retornará à proposta do Presidencialismo de coalizão para voltar ao programa de apoio aos menos favorecidos? Ou entrará numa nova fase de radicalização ideológica, como sugerem alguns pronunciamentos do próprio Lula com vistas a um confronto? Neste caso, como compatibilizará esta nova praxis com sua própria História? Nenhuma destas respostas ainda é clara. O tempo as responderá. Uma coisa, porém, é certa: O grande mérito do PT e que lhe proporcionou amplo arco social de sustentação foi precisamente seu caráter não revolucionário, o que lhe proporcionou uma aproximação com a classe média, desde as eleições de 2014, porém, irremediavelmente perdida. Não é impossível que a radicalização de Lula e das bases do PT cheguem a cortejar a tentação insurrecional. Afinal, radicalização para quê, senão para uma ação mais consequente em resultados? Seu êxito, porém, dependerá não só da vontade de levar a cabo uma estratégia mais avançada, mas da possibilidade que se realize em processo. Eu, particularmente, não vejo nenhuma situação revolucionária à vista, nem creio que um Partido de Massas, relativamente docilizado por 14 anos no Poder se converta rapidamente numa Vanguarda capaz de propor um assalto ao Poder com vistas à mudança do regime. Mas há quem pense o contrário, como Miguel do Rosário, em epígrafe: - “O Brasil poderá, sim, viver uma insurreição revolucionária, e este judiciário inacreditavelmente corrupto será o principal responsável.”

Desafiar os patrôes em torno de uma pauta sindical é uma coisa. Desafiar as instituições do Estado, é outra coisa, com ou sem razão. Aliás, até com razão, como frisa Conrado Hubner em artigo irretorquível sob o título “Ministros do STF agridem a democracia” :

Os lances mais sintomáticos da recente degeneração da política brasileira passam por ali. A corte está em dívida com muitas perguntas, novas e velhas, e vale lembrar algumas delas antes que os tribunais voltem do descanso anual nos próximos dias.

https://racismoambiental.net.br/2018/01/28/na-pratica-ministros-do-stf-agridem-a-democracia-escreve-conrado-hubner-mendes-professor-da-usp/

Palavras, enfim,  proferidas no curso da radicalização retórica são como flechas lançadas. Ferem o status quo. E cada palavra tem seu peso na voz de quem fala. Daí as reflexões sobre a “servidão do poder” ou o imperativo do “Fala ou Morre”. Uma coisa é o dito por um por um cidadão comum, ainda que vigoroso intelectual ou jornalista, outra coisa é a palavra da personalidade pública.  Bem o demonstram os pronunciamentos da Ministra Carmen Lucia, Presidente do Supremo e de R. Dodge, Procuradora Geral, na reabertura dos trabalhos do Judiciário no dia primeiro de fevereiro passado. - https://www.newsatual.com/sem-citar-nomes-carmen-lucia-manda-duro-recado-a-lula-e-seus-comparsas/ - .

Em todo o caso, esperemos para ver. Por enquanto, ninguém consegue entender o que realmente desejam Lula e o PT na atual conjuntura. Se é verdade que ninguém chega ao Rubicão para beber água, também é verdade que Anibal, ao fazê-lo, preferiu desviar seu destino, para acabar seus dias perseguido pelos romanos na própria Cartago. E se tivesse marchado sobre Roma? Ninguém sabe, enfim, o paradeiro do futuro. Mas sabe-se que a prudência é o olho das virtudes, ainda que má conselheira nos momentos cruciais da História quando se exige, como dizia Cromwell, baluarte da moderna idade, “surpresa e velocidade” para vencer a inércia dos tempos. O problema é que agora não se trata de decapitar um Rei sedento de poder absoluto em benefício da República. Aliás, como sempre diz um amigo meu no meio de uma conversa intrincada:

                             - “Do que é mesmo que se trata…?”

 

Janeiro, 30

VIVÊNCIAS

Paulo Timm - 

Tenho lido muito sobre Brizola e ficado cada vez mais impressionando como a história brasileira vem se repetindo desde os anos 50.

Miguel do Rosário.

https://www.ocafezinho.com/2018/01/29/o-dia-em-que-invadi-o-trf4-para-ler-cesare-beccaria/

 

                                                                      *                 

Vivi intensamente a escalada da esquerda na década de 60, pós-golpe de 1964, como ativista do movimento estudantil. 
O que pensávamos naquela época?


Primeiro, que a ditadura não tinha base social e política para sobreviver. Bastaria uma sacudida e vinha abaixo. Este sentimento, na verdade, vinha do momento do próprio golpe em 1964. Imaginávamos que não duraria muito. Durou 21 anos.


Segundo: Neste contexto e influenciados pela mitificação da Revolução Cubana, cujo processo desconhecíamos, entramos eufóricos na tese da resistência armada, certos de que não havia nenhum campo de diálogo, principalmente depois do AI 5 em 15 de dezembro de 1968. A escalada de radicalização ganhou corpo. Exultamos quando a REDE GLOBO leu o Manifesto dos Sequestradores do Embaixador Americano. Venceremos!


Terceiro: Influenciados pela tese do estancamento da economia, sob o impacto de um golpe que cortou as REFORMAS DE BASE, que considerávamos indispensáveis ao aprofundamento do capitalismo no Brasil,  adotamos a tese do catastrofismo da economia brasileira. Invocávamos a dialética clássica: Economia sem perspectivas , Política em ascenso, socialismo à vista, na esteira da abertura de uma situação revolucionária que levasse a um interregno da dominação de classe.

 

O que aconteceu?

 

Em 1969, depois da Edição do AI 5 no dia 13 de dezembro de 1968,  fomos surpreendidos com o revide do regime militar nos campos político, idelógico  e econômico. Em 1970 o regime se consolidava com o denominado MILAGRE ECONÔNICO conduzido por Delfim Neto. O PIB crescia em torno de 10% ao ano. A classe média e grandes setores populares aplaudiam. Neste ínterim, muitos morreram, centenas foram presos, milhares se exilaram. Morando no Chile, naquele fatídico  ano, restava-me acolher os derrotados. Um deles, que chegou a pé, atravessando a cordilheira, estava tão fraco que veio a falecer. Emprestei-lhe, por ter meu corpo, as roupas mortuárias. Era um nordestino. Já não me lembro de seu nome.

Desde então, quando percebo, mesmo com as devidas nuances, o mesmo processo de encantamento da esquerda com as próprias e redentoras palavras de ordem, beirando a bravata, ponho minhas barbas de molho.

Sem ser petista, nem eleitor do Lula, nem ativista político, estimo que Lula participe do processo eleitoral de 2018. Podem até impedir isso, mas será outra asneira do conservadorismo. Mas não defendo uma saída de esquerda nesta conjuntura de retrocesso com perda substancial de apoio da pequena burguesia e, bem ou mal, retomada do mínimo de iniciativas empresariais na economia.

Acho que só saímos do atual imbroglio com uma FRENTE DEMOCRÁTICA. Olhando pra trás, dou-me conta de que saímos da crise do período Vargas, graças ao centrismo de JK. Na redemocratização, só saímos do buraco, graças aos liberais que dominaram a Oposição a partir do fracasso da luta armada. Acho que estou ficando velho. Já não acredito em consignas radicais….

II

Já estou aposentado da UNIVERSIDADE há muitos anos. Mas, quando iniciava meus cursos sobre BRASIL, ECONOMIA E SOCIEDADE, sempre indagava aos alunos: - Vs. acham que o Brasil deu certo ou errado? Todos respondiam: -Deu errado. Então eu respondia que meu curso iria tentar reverter esta falsa ideia, problematizando-a. De outra feita, fui convidado pelo meu colega do IPEA, hoje Monge Sato, budista, em Brasilia, no in´cio do GovernoCristovam, então PT, sobre BRASILIA, no antigo IDR. Tratava-se de um curso para os novos administradores. Dei apenas uma conferência, de uma série, afinal., cancelada. Mostrei como Brasília tinha dado certo. Tinha muitos dados, na época , pois fora Diretor da CODEPLAN, órgao de estudos e planejamento do DF., escrevi dois livros sobre a cidade e uma História publicada na INTERNET com 2.000 páginas. Resultado: indignação geral dos ouvintes. Diziam que eu não conhecia a realidade ...Ora, ora... O Brasil deu certo. Brasília deu certo. O que não é certo é o viralatismo que acha que deu tudo errado 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Janeiro , 19

SEMANA TENSA

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, Torres – jan. 20

Nós não vemos as coisas como elas são, vê-mo-las como nós somos.”

 Anaïs Nin 

“Nada se faz, nada se programa, nada se propõe. Inércia, anestesiamento  desinteresse por tudo que se move, se arrasta ou voa. Todos aguardam o da 24 de janeiro, com a ordem de proa Porto Alegre.Podemos dizer hoje:  OK Lula, você venceu; o País parou.”

Leonardo Mota Neto – www.cartapolis.com.br – 18 jan

                                                        *

Política em ebulição:domina a conjuntura nacional. Lula na berlinda. Começa dia 24, com o julgamento do ex Presidente no TRF-4, em Porto Alegre, campeão nas pesquisas eleitorais,  o processo sucessório no Brasil. Será Lula condenado? Será preso? Será mesmo candidato? Ninguém sabe. Há muita movimentação de seus correligionários em seu apoio,  inclusive ameaçadoras advertências da Presidente do PDT, Senadora Gleise Hoffman, muita controvérsia entre especialistas, inclusive Carta de mais de 100 juristas denunciando o processo por falta de provas - https://www.brasil247.com/pt/247/brasilia247/337344/Tribunal-divulga-documento-que-prova-inoc%C3%AAncia-de-Lula.htm , muita especulação sobre o que acontecerá neste dia e depois, tudo indicando que as eleições deste ano não conduzirão o país à almejada paz interna. Ganhe quem ganhe, com ou sem Lula, persistirá o clima de guerra. Os ânimos estão por demais exaltados. Porto Alegre vai ferver e o Prefeito Marchezan teme o pior, encarecendo, em vão, presença das Forças Armadas nas ruas. Ridículo. Nem cabe a Prefeitos esse tipo de requisição. Mas ajuda a criar maior tensão. Carmen Lucia, Presidente do Supremo veio à Porto Alegre discutir a questão com os desembargadores da Justiça Federal que julgarão Lula. Para quê? Ninguém responde. Tudo contribui para elevar a temperatura política e fomentar exageros. O PT, afinal, joga tudo nesta partida: Seu líder, seu futuro, até seu passado. Neste processo tem demonstrado  grande capacidade de mobilização e voz, o que foi subestimado pelas forças conservadoras quando deflagraram o impeachment de Dilma. Dilma não era Collor. O PT não era o PRN. O Brasil de 2016 não era o Brasil de 2002…

O maior  trunfo do PT foi consagrar – até internacionalmente – a narrativa do “golpe”. Temer, com isso, perdeu não só credibilidade, mas também legitimidade. Lidera, moribundo,  um governicho que se arrasta como procissão sem bênção nem brilho, reabrindo o espaço  a esquerda.. A escalada, então, aumenta, alimentando fake news, infâmias, ameaças de saudosistas do regime militar  e não poucas acusações dos lulistas ao Judiciário brasileiro, que não  é nem santo, nem digno de admiração popular, à vista das regalias que se reserva. Não faltou, aí,  este desabafo de um indignado: “Um alemão vai decidir o futuro do Brasil”, numa referência  à origem teuta do relator do processo de Lula. O próprio Lula denuncia o Presidente do TRF-4 , Thompson Flores, como bisneto do Coronel que matou Antônio Conselheiro. E se fosse...? Oressa!

Diante disso, a pergunta inevitável é esta: Estaria o Brasil diante de uma ruptura institucional, com risco de um golpe militar à direita  ou abertura de uma situação revolucionária capaz de produzir o assalto ao poder pela esquerda?

Dificilmente. Nada disso ocorrerá.  É, até, mais fácil – e até histórico – o golpe do que uma revolução social. Mas no lo creo

O Brasil, apesar de todas as mazelas de sua formação social, extremamente excludente, é um país muito sólido institucionalmente, com uma invejável armadura de sustentação do Estado, economia globalizada e uma vigorosa classe média de 50 milhões de pessoas. Definitivamente, não somos a Venezuela, nem a Líbia. . Devemos isso ao Império, aliás escravocrata, o qual corou, junto com o Imperador, uma sociedade de corte autoritário.  Daí a difícil democracia no século XX que teve, a propósito, na Constituição de 1988, um considerável avanço. Democracia que desperta o gigante adormecido da matrix  colonial e traz à tona novos agentes sociais, novos processos de interação social e nova dinâmica dos Poderes que até sugerem anomia, como sugere este experimentado jornalista :

Alicerces institucionais
degeneraram até nenhum mais funcionar

Janio de Freitas, na Folha

O grau de tensão e incerteza em que estão, à direita e à esquerda, os politicamente menos alienados dá ao chamado julgamento de Lula a sua verdadeira face: o ato judicial é só um trecho da superfície de um fluxo profundo, no qual se deslocam as bases da ideia que o país fazia de si mesmo. Nos últimos três anos, os alicerces institucionais criados na Constituinte de 1988, para garantir o futuro sempre desejado, degeneraram até à situação em que nenhum mais funciona como prescrito.

O Brasil se reconhece como um país corrupto, dotado de um sistema político apodrecido; injusto e perigoso. É assim o Brasil das conversas que se reproduzem a todo tempo, em todos os lugares.

Este país que decai de onde nunca esteve, mas imaginava estar, se vê jogado com brutalidade em um turbilhão veloz de fatos sucessivos, sem controle e sem sequer presumir aonde podem levar. Executivo, Legislativo e Judiciário não se entendem nem o mínimo exigido pelas urgências. O primeiro, por imoralidade; o segundo, por ignorância e indecência; o terceiro, por fastio de presunção projetada, de cima para baixo.

A consciência, por incompleta e adulterada que seja, está nos inundados de incerteza inquietante. São os que sabem que o julgamento, em si, representa pouco. O seu âmago não é judicial. É político. O que dele resultará não será um novo passo no direito, mas, por certo, andamentos com influência direta no processo político e institucional. O que, por sua vez, vai desaguar no fluxo das conturbações modificadoras. Se para detê-lo, desviá-lo ou acelerá-lo, é a incerteza que continua.

 

Mas não nos iludamos. Até o proclamado Mercado tem aprendido a descolar da Política e ganhar vida própria. Independente do resultado do dia 24, tudo continuará como está: Tenso, porém estável. A vida segue, como ela é, indiferente aos humores de cada dia. Como diz Ferreira Gullar:

“A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta as pessoas e as coisas que não têm voz.”:

 

 Haverá eleições.  MDB e PT continuarão a ser grandes Partidos, o PSDB, com o PPS a tiracolo, com um eventual recurso ao Huck just in cause,  continuará tentando ocupar um lugar estratégico junto à classe média, apesar da concorrência insinuante, mas sem grande fundamento, do Presidente da Câmara, Rodrigo Maia,  da inefável virgem inca do alto de sua Rede ou um pretencioso Meirelles.  Bolsonaro prosseguirá com sua bufonaria autoritária, à sombra dos acontecimentos. Aqui três observações pertinentes:

                                                            I
Eu pessoalmente acho q há um equívoco nas avaliações q são feitas sobre o período da abertura política. Vencer a ditadura, por exemplo. Não acredito nisso. Para mim houve uma transição bem organizada para que o poder ficasse nas mãos dos mesmos setores civis que foram apoiados pelo golpe militar. Durante esse período, já antes mesmo, houve toda uma preocupação destes setores para evitar um retorno das forças políticas que existiam antes de 64. Curiosamente em pouco tempo morrem JK, Jango e Lacerda. Os exilados políticos que retornaram foram cercados por uma contra campanha de mídia. Somente Brizola ainda pode sobreviver por mais tempo, mesmo sendo atacado por todos os lados, inclusive pela "nova esquerda " que reunia sobreviventes da luta armada, parte da classe média, parte da Igreja engajada socialmente e os sindicatos. Nesse contexto surge o PT. Sinto, mas me parece claro que o partido surge para a) apagar a memória das lutas anteriores ao golpe b) dominar as forças radicais q surgiram nos anos 60 e 70 c) oferecer ao campo político uma força de esquerda que jogaria pragmaticamente com a direita, preservando os interesses das elites do país mas satisfazendo as ilusões das forças radicais; insistindo na figura do operário no poder, do liberalismo nos costumes, investindo naquilo que alguém chamou muito bem de "pobretologia": o investimento social sem ideologia transformadora. No fundo a ditadura permanece com suas elites no poder.

André Bazzanella – Fbook

 

                                                            II

“Rodrigo Maia está apostando alto. Depois de ajudar a inviabilizar mudanças pretendidas pelo governo na chamada regra do ouro do gasto público, Rodriguinho adiou a convenção nacional do DEM para depois do carnaval. O objetivo é capitalizar politicamente junto ao chamado mercado os méritos de uma possível aprovação da reforma da previdência que poderá ser votada sob seu comando na Câmara dos Deputados no início de fevereiro. Se isso ocorrer, seu nome poderá ser aclamado como presidenciável na convenção nacional do DEM prevista ocorrer no dia 22 ou 28 de fevereiro. Quem diria: o velho PFL, que abrigou e ainda abriga parcela das oligarquias políticas do Brasil, sob o nome de democratas, repentinamente está se transformando num projeto ao centro que pode tomar o lugar dos tucanos, partido de quem o DEM sempre foi mero coadjuvante.”

Marco Antonio Carvalho Teixeira – FGV  São Paulo ·

 

 III 

“E daí pessoal? Acadêmicos, em geral, que apregoavam o fim do PSDB e a decadência phinal do PT......Onde estão todos e todas?

Aí estão os dois partidos, apresentando (ou reapresentando) suas alternativas, etc. Pesquisas segmentadas (grupos de pressão com alto poder de fogo) indicam que vamos para um PSDB x PT, de novo. Alckmin faz um movimento, a meu ver, inteligente: anuncia seus quadros mais próximos.....Como a reputação é fundamental, em época de grandes imoralidades, é um tremendo passo a frente.......Apostas? No guichê ao lado da Rodoviária!”

Benicio Schmidt . C.Politico – Brasilia DF – FB Acesso 11 jan

 

Além disso, as duas forças, antagônicas na atual conjuntura, que poderiam produzir, ou  um golpe militar, ou uma revolução, não estão envolvidas, nem preparadas organicamente, numa retórica que justifique ações deste tipo. Revoluções, a propósito, já não são nem viáveis , nem desejáveis. Herbert Marcuse já havia mostrado em O HOMEM MULDIMENSIONAL como o sistema opera inebriando tecnologicamente os corações e mentes. Reformadores radicais europeus concordam. E mais recentemente outro autor recoloca a mesma questão:

PORQUE É QUE HOJE NENHUMA REVOLUÇÃO É POSSÍVEL? ▬▬

BYUNG-CHUL HAN

REVISTA PUNKTO - NEWSLETTER 
http://www.revistapunkto.com/2011/06/punktonews-001.html

Num debate entre mim e António Negri, que ocorreu há cerca de um ano no Berliner Schaubühne, confrontaram-se duas críticas bem distintas do Capitalismo. Negri estava confiante com a ideia de uma resistência global ao “Império”, ao sistema neoliberal de dominação, apresentando-se a si mesmo como um comunista revolucionário e referindo-se a mim como um académico céptico. Acreditava, enfaticamente, que a “multitude”, as massas interconectadas do protesto e da revolução, iriam ser capazes de fazer cair o “Império”. A posição do comunista revolucionário pareceu-me muito ingénua e afastada da realidade. Por isso, procurei explicar a Negri porque é que hoje a revolução já não é possível.

Porque é que o sistema de dominação neoliberal é tão estável? Porque é que há tão pouca resistência? Porque é que toda a resistência, quando ocorre, se desvanece tão rapidamente? Porque é que já não é possível a revolução, apesar do crescente fosso entre ricos e pobres? Para explicar este estado de coisas é necessária uma compreensão adequada de como funcionam hoje o poder e a dominação.
Quem pretender instalar um sistema de dominação deve eliminar toda a resistência e o mesmo se aplica ao actual sistema de dominação neoliberal. Estabelecer um novo sistema de dominação requer um poder que se impõe frequentemente através da violência. Contudo, esse poder não é idêntico àquele que estabiliza o sistema internamente. Como é bem sabido Margaret Thatcher, pioneira do neoliberalismo, tratava os sindicatos como “inimigos internos” e combateu-os violentamente. Contudo, não devemos confundir a intervenção violenta que impõe a agenda neoliberal com um poder de estabilização ou manutenção do sistema.

O poder de estabilização do sistema não é repressivo mas sedutor
O poder de estabilização da sociedade industrial e disciplinar era repressivo. Os operários eram brutalmente explorados pelos proprietários, o que originava actos de protesto e de resistência. Nesse momento, foi possível que uma revolução derrubasse as relações de produção existentes. Nesse sistema de repressão tanto os opressores como os oprimidos eram visíveis. Havia um adversário concreto – um inimigo visível – ao qual se oferecia resistência.
O sistema de dominação neoliberal tem uma estrutura completamente distinta. Hoje, o poder que estabiliza o sistema já não funciona através da repressão, mas através da sedução – isto é, cativando. Já não é visível, como no caso do regime disciplinar. Hoje, não há um adversário concreto, um inimigo, que nos retire a liberdade e ao qual se possa resistir.
O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido num empresário livre, um empreendedor de si mesmo. Hoje, cada um de nós é um trabalhador que se explora a si próprio na sua própria empresa. Cada um de nós é mestre e escravo na sua mesma pessoa. E também a luta de classes se transforma em luta interna de cada um consigo próprio. Hoje, aqueles que não conseguem atingir o sucesso culpam-se a si próprios e sentem-se envergonhados. As pessoas vêem-se a si próprias como o problema e não a sociedade.

O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão
Um poder disciplinar que procura colocar o ser humano debaixo de um colete-de-forças de ordens e proibições é totalmente ineficiente. Pelo contrário, é significativamente mais eficiente assegurar que as pessoas se submetam de espontânea vontade à dominação. A eficácia que define o actual sistema advém do facto de operar não tanto através da proibição e da privação, mas procurando agradar e satisfazer. Em vez de gerar homens obedientes, esforça-se por torná-los dependentes. Esta lógica da eficiência neoliberal aplica-se igualmente à vigilância. Nos anos 80, para citar um exemplo, houve protestos veementes contra o censo demográfico alemão. Até os estudantes saíram à rua.
Do ponto de vista actual, a informação solicitada no censo – profissão, níveis de educação, distância de casa ao trabalho – parece quase ridícula. Mas naquela altura o Estado era visto como uma instância de dominação que retirava informação aos cidadãos contra a sua vontade. Essa época há muito que ficou para trás. Hoje expomo-nos de livre vontade. É precisamente este sentido de liberdade que torna qualquer protesto impossível. Ao contrário daquilo que acontecia nos dias do censo, hoje dificilmente alguém protesta contra a vigilância. O livre desnudamento e a auto-exposição seguem a mesma lógica da eficiência como livre auto-exploração. Protesta-se contra quê? Contra si próprio? A artista conceptual Jenny Holzer formulou o paradoxo da actual situação: “Protect me from what I want" [“Protege-me daquilo que quero”].
É importante distinguir entre um poder que impõe e um poder que estabiliza. Hoje, o poder que estabiliza o sistema assume um disfarce amigável e smart, tornando-se invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão. O sujeito pensa-se livre. Esta técnica de dominação neutraliza a resistência de modo eficaz. A dominação que reprime e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, ele imuniza-se contra toda a resistência porque faz uso da liberdade em vez de a reprimir. Suprimir a liberdade provoca imediatamente resistências, explorar a liberdade não.
Depois da crise financeira asiática, a Coreia do Sul estava paralisada e em choque. O FMI interveio e disponibilizou crédito. Em troca, o governo teve que impor uma agenda neoliberal. Isto foi iminentemente repressivo, poder impositivo – o tipo de poder que frequentemente é acompanhado de violência e que se distingue do poder de estabilização do sistema que procura sempre passar como liberdade.
De acordo com Naomi Klein, o estado de choque social que se segue a catástrofes como a crise financeira na Coreia do Sul – ou a actual crise na Grécia – oferece a oportunidade de reprogramar radicalmente a sociedade pela força. Hoje, quase não há qualquer resistência na Coreia do Sul. Bem pelo contrário: um consenso generalizado prevalece – assim como a depressão e o esgotamento. A Coreia do Sul tem hoje a mais alta taxa de suicídio do mundo. As pessoas agem violentamente sobre si próprias em vez de procurarem mudar a sociedade. A agressão dirigida para fora, que implicaria a revolução, foi substituída pela auto-agressão dirigida contra si próprio.
Hoje, não há uma multitude cooperante e conectada capaz de se levantar numa massa global de protesto e revolução. Pelo contrário, o modo dominante de produção baseia-se em empreendedores isolados e solitários, alheados de si próprios. Antes as empresas costumavam competir entre si. Contudo, dentro de cada empresa, era possível encontrar solidariedade. Hoje, todos competem contra todos, inclusive, dentro da mesma empresa. Apesar da competitividade aumentar a produtividade, esta destrói a solidariedade e o sentido comum. Nenhuma massa revolucionária pode surgir de indivíduos exaustos, depressivos e isolados.
O neoliberalismo não pode ser explicado em termos marxistas. No neoliberalismo não tem sequer lugar a “alienação” do trabalho. Hoje, mergulhamos euforicamente no trabalho – até ao esgotamento. O primeiro nível da síndrome de Burnout [esgotamento] é a euforia. Esgotamento e revolução excluem-se mutuamente. Assim, é um erro pensar que a Multitude poderá derrubar o “Império parasitário” e construir uma ordem social comunista.

A economia de partilha leva à total mercantilização da vida
Qual é o estado actual do comunismo? Há hoje uma invocação constante da noção de “partilha” [sharing] e de “comunidade”. A economia de partilha parece substituir a economia da propriedade e da posse. Sharing is Caring [partilhar é cuidar] é a máxima da empresa “Circler”, no mais recente romance de Dave Egger: partilhar é curar, por assim dizer. Os passeios que levam até à sede da empresa estão cheios de máximas como “Comunidade Primeiro” e “Humanos trabalham aqui”. Mas o verdadeiro mote deveria ser: “cuidar é matar”
Centros de boleias digitais, que nos transformam a todos em taxistas, são igualmente divulgados com apelos à comunidade. Mas é um erro afirmar – como faz Jeremy Rifkin no seu mais recente livro, The Zero Marginal Cost Society – que a economia de partilha anuncia o fim do capitalismo inaugurando uma ordem social orientada para o comum, onde partilhar tem mais valor que possuir. O que acontece é precisamente o oposto: a economia de partilha leva, em último caso, à total mercantilização da vida.
A mudança que Rifkin celebra – da posse para o acesso – não nos liberta do capitalismo. As pessoas sem dinheiro continuam a não ter acesso à partilha, ao sharing. Mesmo na idade do acesso, continuamos a viver dentro daquilo que Didier Bingo chamou o “Ban-opticon”, onde aqueles sem meios económicos permanecem excluídos. “Airbnb” – o mercado comunitário que faz de cada casa um hotel – fez da hospitalidade uma mercadoria, um bem de consumo.
A ideologia da “community” [comunidade] e dos “collaborative commons” [bens comuns colaborativos] levam à total mercantilização da comunidade. Tornou-se impossível uma amabilidade desinteressada. Numa sociedade de valorização recíproca e permanente, também a amizade se tornou comercializável. Tornamo-nos amáveis para obteremos melhores avaliações.
A dura lógica do capitalismo prevalece mesmo no coração dessa economia de partilha. Paradoxalmente, neste tão simpático “partilhar” ninguém dá nada a ninguém voluntariamente e de graça. O capitalismo realiza-se plenamente no momento em que vende o comunismo como mercadoria. O comunismo como mercadoria é o fim da revolução.

Nota da edição
Texto traduzido a partir da versão alemã (com auxílio da versão inglesa e espanhola) publicado originariamente no Süddeutsche Zeitung, a 3 de Setembro de 2014.
).

Byung-Chul Han
Filósofo Sul-Coreano e professor na Universität der Künste Berlin (UdK).

Ficha técnica 
Data de publicação: 2 de Dezembro de 2015

O Exército, apesar dos deslizes de algum general indignado, tem se mantido em suas funções constitucionais. E o PT, como partido hegemônico de sustentação de Lula, apesar, também, das bravatas de alguns dirigentes ou apoiadores, tampouco tem qualquer vocação insurrecional. Pelo contrário, o PT é um clássico partido social-democrata, abençoado pela Igreja de Roma, de mediações, com vistas à reforma do sistema político e econômico. Lula, também, está muito longe de um Lênin, um Mao Tse Tung ou um Fidel. Talvez muito longe, até, do Velho Brizola. Lula é um gênio negociador, que avança e recua ao sabor das circunstâncias. Talvez se encontre, neste momento, num ponto crítico de sua História, mas não será louco em endossar aventuras sem perspectivas democráticas. De resto, ao mesmo tempo em que o coração da esquerda brasileira palpita em Porto Alegre, tentando reverter uma conjuntura de visível descenso, a vida segue, indiferente,  seu curso, no resto do país. O 24, enfim, talvez não seja tão importante quanto parece. Eppur si  muove, diria Galileu…Haverá, sim, vencidos e vencedores. E daí? É o jogo. E todos o jogarão.

Na verdade, desde a  mitologia grega, sabe-se  os deuses jamais suportaram  que mortais se considerem invencíveis, preferindo segregá-los ao Tártaro. Lá penavam pelo seu orgulho Sísifo, Íxion e Tântalo.

O Tártaro também é o local onde o crime encontra seu castigo. Um bom exemplo é o de Sísifo, ladrão e assassino, condenado a eternamente empurrar uma rocha ladeira acima - apenas para vê-la novamente descer com o próprio peso. Também ali se encontrava Íxion, o primeiro homem a derramar o sangue de um parente. Fez com que o seu sogro caísse num fosso cheio de carvões em brasa para assim evitar o pagamento do dote pela esposa. Seu justo castigo foi o de passar toda a eternidade girando uma roda em chamas. Tântalo, que desfrutava da confiança dos deuses, conversando e ceando com eles, dividiu a comida e os segredos divinos aos seus amigos. Sua punição pela perfídia consistia em ser mergulhado até o pescoço em água fria, que desaparecia sempre que tentava bebê-la para aplacar a enorme sede, além de ver frutificando logo acima de sua cabeça deliciosas uvas que, quando tentava colhê-las, subiam para fora de seu alcance. (wiki)

A Bíblia diz mais ou menos o mesmo, quando proclama que os presunçosos serão humilhados, enquanto os humildes,  exaltados.

A vida , enfim, parece não gostar muito dos não gostam ou não sabem perder e que relutam em admitir que tanto a glória como a derrota são indispensáveis à realização humana. Nisso somos mais tolerantes que o anglo-saxões, tão em moda, pois desconhecemos a injúria looser (perdedor) com a qual estigmatizam os opositores como se perder fosse algo irrecorrível e fatal.  Uma condenação ao inferno.

Vamos, pois, em frente, haja o que houver.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Janeiro, 15

             Do homem a só verdade é procurá-la

 

                        "INTRIGA DE FAMÍLIA, FOGO DE MONTURO" . Leota Mota in Adagiário.Brasileiro

 

Há um velho dito, muito corrente entre jornalistas, de que, nas guerras, a primeira vítima é a verdade. Não só nas guerras, digo eu, também nas crises. Aliás, sabe-se, ainda,  que a guerra é a continuação da política por outros meios (Clausevitz); logo, na Arte da Guerra se encontrarão , também, os melismas da Política, aquele recurso musical que faz de uma mera sílaba uma chaise longuehttps://cantarbem.com . Quando a crise aperta, as verdades se confrontam .

Antígona, uma peça de Sófocles, escrita em meados do século V AC, é uma das primeiras testemunhas destes confrontos. Em meio à uma intrincada trama que junta questões familiares e de Estado, Antígona enfrenta o Rei de Tebas, Creonte, seu tio, ao dar sepultura digna a um de seus irmãos que havia se levantado contra outro irmão no poder, em defesa de seu direito de governar a cidade. Ambos morrem em combate, mas o Rei que ascende ao trono glorifica o antecessor enquanto relega o outro, contestador da Lei, ao relento, condenando-o, segundo a cultura da época a vagar indefinidamente.  Antígona se indigna e dá a este devida sepultura. Confronta o poder inaugurando corajosamente o primado da liberdade individual diante da Lei e do Destino. Acaba também  condenada à morte. Mas faz História. Redefine o mito.

“ No final, o desastre desaba sobre Creonte. (…=. A inconsciência de Creonte, desafiando os Deuses, produziu um arrependimento tardio. Para nós é imperativo termos consciência de nossos atos para que depois que a tragédia apareça não possamos apelar para um “é tarde demais”. Depois de iniciado o processo do desastre fica difícil controlar os acontecimentos, por isso fica parecendo que Creonte sofreu um castigo dos Deuses, mas se observarmos, tudo foi devido à irresponsabilidade inicial do personagem. A peça de Sófocles é atemporal e deve ser tema de reflexão para todos.”

 Fonte -Felipe Pimenta - https://felipepimenta.com/2013/11/27/resenha-antigona-de-sofocles/

Nas guerras e nas graves crises, portanto, é sempre melhor ouvir, primeiro,  os poetas, do que as partes envolvidas.  Eles não apontam para soluções, mas advertem para a dúvida, impondo reflexão e cautela. O alinhamento , nestas horas, mesmo bem intencionado, é refém, não só de interesses, mas de ídolos de razões  cativas que desconhecem.  Recorro, pois ao que considero  Poeta Maior da cidade como inspiração:Anderson Braga Horta, Poeta brasiliense

Verdade

busque no mar, na bífida
língua da áspide,
no flóreo riso da rosa;
busque na líquida 
substância, ou na rocha;
no éter, na terra- busque.

Busque e não ache- não importa quê.
Que essa procura longa
No não- achar se esgote, e não no encontro.
E se renove
Na apenas descoberta de fragmentos
Que jamais comporão todo o mosaico.

Não encontrar é achar –se .
Não ter é compreender- se.
Encontrar é achar que se encontra, 
É se estagnar em poça ante um pedaço
De céu

É anular o infinito que transborda.
Busque no mar, na bífida
Língua da áspide- busque.
Do homem a só verdade é procurá-la.

 

 

 

 

 

 Janeiro, 12 

RS – Sucessão à vista

Especial para A FOLHA, 12 janeiro 2018

“Possamos alcançar, em curto espaço de tempo, o nível de uma consciência histórica, capaz de projetar-nos à solução desses impasses, pelo exercício profético do princípio retributivo que emula a virtude do perdão consagrado pelo saber.” (Disponibilizado agora no site da academia-edu: https://www.academia.edu/…/Pequenos_MaKBeTh_O_grande_arqu%C…)

Eduardo Dutra Ayfos

“Rodrigo Maia está apostando alto. Depois de ajudar a inviabilizar mudanças pretendidas pelo governo na chamada regra do ouro do gasto público, Rodriguinho adiou a convenção nacional do DEM para depois do carnaval. O objetivo é capitalizar politicamente junto ao chamado mercado os méritos de uma possível aprovação da reforma da previdência que poderá ser votada sob seu comando na Câmara dos Deputados no início de fevereiro. Se isso ocorrer, seu nome poderá ser aclamado como presidenciável na convenção nacional do DEM prevista ocorrer no dia 22 ou 28 de fevereiro. Quem diria: o velho PFL, que abrigou e ainda abriga parcela das oligarquias políticas do Brasil, sob o nome de democratas, repentinamente está se transformando num projeto ao centro que pode tomar o lugar dos tucanos, partido de quem o DEM sempre foi mero coadjuvante.”

                                    Marco Antonio Carvalho Teixeira – FGV  São Paulo · 

 

“E daí pessoal? Acadêmicos, em geral, que apregoavam o fim do PSDB e a decadência phinal do PT......Onde estão todos e todas?

Aí estão os dois partidos, apresentando (ou reapresentando) suas alternativas, etc. Pesquisas segmentadas (grupos de pressão com alto poder de fogo) indicam que vamos para um PSDB x PT, de novo. Alckmin faz um movimento, a meu ver, inteligente: anuncia seus quadros mais próximos.....Como a reputação é fundamental, em época de grandes imoralidades, é um tremendo passo a frente.......Apostas? No guichê ao lado da Rodoviária!”

Benicio Schmidt . C.Politico – Brasilia DF – FB Acesso 11 jan

 

 *

A turbulência nacional, agravada pelas tensões que cercam o dia 24 próximo, quando o TRF-4, em Porto Alegre, deverá julgar o processo de Moro contra o ex Presidente Lula, para o qual esquerda e direita estão convocando grandes manifestações, prevendo-se confronto,  tem obscurecido a questão regional. Não obstante, o calendário engole os dias e noites e a questão da sucessão eleitoral no RS acaba vindo à tona. Uma característica deste processo é uma consequência do cenário nacional: Blocos ideológicos contrapostos e  divididos internamente num quadro geral de pulverização de candidatos. Outra característica é a pobreza do debate de ideias. No plano nacional, predomina a disputa: Lula é a bandeira da esquerda e o anti-Lula a da direita.  Ou seja, a esquerda se fixa no passado, enquanto a direita inventa um  futuro. O presente, concreto, cotidiano e gris, escapa a qualquer análise, seja de conjuntura, seja de estruturas. Uma pena, pois o país, mais do que nunca, está precisando discutir as saídas estratégicas para a crise.

 No caso estadual, nem disputa há, pois não há uma correspondência orgânica entre Lula e um eventual seguidor no Estado, sendo que o anti-lulismo, aqui, se desdobra em meros interesses pessoais ou partidários na disputa pelo Piratini, o que, aliás, não difere muito do quadro nacional. Mas no nacional, a candidatura Lula opera como um pivô, com grande potencial eleitoral no campo da esquerda, alimentando o forte sentimento anti-esquerda à direita. No RS este confronto existe, por certo, mas com menor intensidade. Até porque não há um forte candidato de esquerda ameaçando a continuidade conservadora. Tarso Genro, que poderia ainda ter um papel ativo na política gaúcha, mercê, talvez, dos problemas familiares que está enfrentando, jogou a toalha e pouco fez, inclusive, para defender seu próprio Governo. Com isso abriu caminho no PT para um candidato de pouca expressão, M.Rosseto, incapaz de se compor com tradicionais aliados como PDT, já em campo com Jairo Jorge, ex Prefeito de Canoas, segunda maior cidade do Estado, e do próprio PcdoB, enfeitiçado com a candidatura da Deputada Manu para a Presidência. PSOL, como sempre, fará võo solo com Roberto Robaina.  Em contrapartida, J.Ivo Sartori nada de braçada, num remanso conservador, para a reeleição, estreitando as relações com o PTB, PSB, PP de Anamélia Lemos, aí cabendo um convite à Vice e duas vagas ao Senado. O PSDB, já enfraquecido no plano nacional, tenta um vôo próprio com o Prefeito de Pelotas, Eduardo Leite, mas sem abalar o trator governamental. A ele e outros eventuais aventureiros adverte  o Presidente do MDB: "são menores do que a causa estadual".

Para não dizer que inexiste um debate, no RS, sobre os rumos da economia do Estado, cabe lembrar que no final do ano passado, o ex Secretário da Fazenda Aod Moraes publicou entrevista e escreveu artigo na grande imprensa sobre lacunas e potencialidades do desenvolvimento da economia gaúcha:

Não podemos imaginar que vamos competir em condições iguais com centros econômicos como a região Sudeste, que tem 70 milhões, 80 milhões de consumidores, com renda alta e com boa infraestrutura. Ou com um centro econômico como o Nordeste, que tem uma massa populacional de 90 milhões de pessoas, além de ter mão de obra mais barata. Não vamos competir em uma lógica de atração de grandes indústrias ou empresas quando existem outros polos no País. Estamos no extremo Sul, com uma população de cerca de 11 milhões de habitantes, mais envelhecida que o resto do País.

(…)

O Rio Grande do Sul precisa melhorar rapidamente a qualidade do seu capital humano, atrair capital de boa qualidade e ter polos de geração de produtos e serviços com valor agregado mais alto. E, por consequência, exportá-los para outras regiões. Isso envolve as universidades, o Estado, a sociedade... Por isso, creio que a prioridade é melhorar drasticamente a qualidade do ensino público.

Mas se vale reconhecer a iniciativa do Ex Secretário, no deserto de ideias sobre o futuro do Rio Grande, que apesar de vir perdendo posição relativa na economia nacional ainda é uma de suas mais sólidas partes, com significativo  eixo metal-mecânico de Porto Alegre a Passo Fundo, passando por Caxias e uma tradicional agropecuária, não dá para subscrever sem ressalvas suas propostas. Começando pelo erro crasso na avaliação da população nordestina, que, rigorosamente, não ultrapassa 56 milhões de pessoas e não 90 como ele afirma. Outro ponto falho na entrevista de Aod que não toca na questão do Pacto Federativo que extrai do bolso dos gaúchos um valor anual equivalente à sua dívida consolidada, o que contribui decisivamente para o nosso déficit fiscal. Nem fala das perdas derivadas da Lei Kandir que desoneram as exportações num Estado com alto coeficiente de vendas para o exterior. Ou seja, confirma o papo furado do déficit público sem analisar suas causas profundas, primeira delas, a recessão.

Sobre este pano de fundo de baixa intensidade de ideias, começa, então a se desenhar o pleito eleitoral, melhor analisado pela imprensa de fora do Estado do que pela nossa.

                                                           ***

 

 

Janeiro, 05

FAKE NEWS: A INDÚSTRIA DA MENTIRA

Paulo Timm – Especial para REPORTER INDEPENDENTE Jan 2018

“As fake news e a boataria têm um belo futuro.”

Rosa Freire Aguiar

A posse de Donald Trump nos Estados Unidos, depois de uma inesperada vitória, travada contra o stablishment, contra a Mídia, contra Wall Street e contra a inteligência liberal americana , à base de torpedos cibernéticos, trouxe à baila a questão das denominadas fake news, as notícias falsas distribuídas pela Internet. Vindas não se sabe (sabia) de onde, elas inundaram as redes detratando irremediavelmente Hilary Clinton. Fake news são calúnias - ou simplesmente mentiras - disseminadas contra adversários políticos, sobretudo  em época de campanha eleitoral, sempre existiram. A  diferença é que hoje alcançam   milhões de pessoas, diretamente em seus celulares. O assunto, desde então, veio à baila e não cessa de preocupar a consciência democrática do mundo inteiro, pois afetam a opinião pública e desvirtuam o bom combate.  No Brasil, abundam os debates. Só na última semana foi o tema de um Ponta a Ponta, na TV BANDNEWS, tendo como entrevistado o historiador Leandro Karnal no dia 30 de dezembro último- http://videos.band.uol.com.br/bandnews/16372383/programa-ponto-a-ponto-leandro-karnal.html ,  de  GLOBONEWS PAINEL no dia 06 de janeiro do corrente e  -  https://globosatplay.globo.com/globonews/v/6404991/  - e de um Editorial do ESP no domingo, dia 07 de janeiro:O combate à notícia falsa - http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-combate-a-noticia-falsa,70002140848

Se ainda falta por aqui um marco legal adequado, ao menos cresce a consciência a respeito do tema

                         O Estado de S.Paulo - 07 Janeiro 2018 | 05h00

Da mesma forma que a evolução tecnológica tornou a informação mais acessível e ampliou os espaços de discussão de ideias - avanços que são especialmente saudáveis para a democracia -, ela também trouxe novos desafios. Caso paradigmático de efeito colateral negativo das redes sociais é a disseminação de notícias falsas que podem, em último termo, colocar em risco o ambiente de liberdade de expressão, fundamental para uma democracia.

Sem exagero, deve-se reconhecer que o problema é grave e muito atual. Basta ver o debate, ainda em aberto, a respeito da influência das notícias falsas nas eleições que deram a Donald Trump a presidência dos Estados Unidos. Será que aquilo que é considerado como um dos grandes avanços dos tempos atuais contribuiu para manipular, de alguma forma, a escolha de quem ocuparia um dos cargos políticos mais importantes, se não o mais importante, do planeta?

De forma pioneira, a Alemanha apresentou uma possível solução para o problema das fake news. No dia 1.º de janeiro, entrou em vigor uma lei, aprovada em junho do ano passado, que obriga as redes sociais a removerem conteúdos impróprios, como discurso de ódio e notícias falsas, de suas plataformas em até 24 horas após terem sido legalmente notificadas. As empresas que não cumprirem as novas normas poderão ser multadas em até € 50 milhões.

A nova lei aplica-se aos sites e redes sociais com mais de 2 milhões de membros. Facebook, Twitter e YouTube serão os principais afetados, mas a regra também poderá ser aplicada ao Reddit, Tumblr, Vimeo e Flickr.

Com a entrada da lei em vigor, o governo alemão anunciou que oferecerá formulários digitais para que os cidadãos possam denunciar quando as redes sociais não removerem o conteúdo denunciado dentro do prazo estipulado. Recentemente, o Facebook informou que contratou centenas de novos funcionários na Alemanha para lidar com as denúncias no país dentro do novo marco legal. É um primeiro passo.

A França também se mobiliza para combater a disseminação de notícias falsas. Emmanuel Macron, presidente francês, anunciou que irá apresentar um projeto de lei ao Parlamento para dar mais eficiência e rapidez aos processos judiciais relativos à difusão de fake news. O objetivo é aumentar a transparência do conteúdo publicado nas plataformas digitais, obrigando os sites a prestarem informações à Justiça com maior celeridade.

No Brasil, há o Projeto de Lei (PL) 6.812/2017, que prevê detenção de dois a oito meses, além do pagamento de multa, para quem divulgar ou compartilhar notícia falsa ou “prejudicialmente incompleta” por meio da internet. No momento, o projeto está na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara.

Se ainda falta por aqui um marco legal adequado, ao menos cresce a consciência a respeito do tema. Recentemente, foi divulgada pelo jornal Valor Econômico pesquisa qualitativa, feita pela empresa Ideia Big Data, que detectou entre eleitores brasileiros de diferentes preferências partidárias uma preocupação com a proliferação de notícias falsas e o receio de eles próprios compartilharem inadvertidamente informações inverídicas.

Realizada em São Paulo e no Recife, a pesquisa tinha o objetivo de apurar expectativas em relação às eleições de 2018. Foram feitos dois grupos com homens e mulheres de 30 a 50 anos das classes C e D. Nos dois grupos constatou-se um sentimento generalizado de reprovação à disseminação de notícias falsas. Ao mesmo tempo, diversos participantes da pesquisa reconheceram que já compartilharam inadvertidamente notícias falsas pelo menos uma vez.

É, portanto, um problema ardiloso: é possível ter consciência dele e mesmo assim contribuir para a sua propagação. Por isso, pode ser útil aprender com a Alemanha, já que uma boa multa é, muitas vezes, o estímulo mais eficaz para que se adote a conduta correta.

 

 Mas o assunto não se encerrou na posse do esdrúxulo Presidente Trump. A mentira, desde aí, institucionalizou-se a título de uma nova era: Pós verdade. Empossado, Trump continuou recorrendo a mentiras para manter uma posição central e permanente na Mídia.

Desde a posse de Donald Trump, em 20 de janeiro deste ano, o The Washington Postpassou a analisar, classificar e acompanhar todas as afirmações feitas pelo presidente, identificando e quantificando as mentiras que ele conta em seus pronunciamentos e entrevistas, assim como as que escreve no Twitter, a sua rede social preferida.

Até a terça-feira passada, o jornal, com base em uma rigorosa checagem de dados, contabilizou 1.628 afirmações falsas ou distorcidas feitas por Donald Trump. Como ele estava, no momento da contagem, há 298 dias no poder, o jornal calculou que o presidente dos Estados Unidos disse, em média, 5,5 mentiras por dia desde que passou a ocupar a Casa Branca. Nesse ritmo, calcula o jornal, Donald Trump chegará ao fim do ano tendo feito 1.999 afirmações falsas.

Em outubro, a média de mentiras contadas por Trump foi ainda maior. De acordo com a mesma apuração feita pela equipe do The Washington Post, o presidente disse por dia nove mentiras ou informações distorcidas, que a equipe de Trump chama cinicamente de “fatos alternativos”. A ser mantida esta média, Donald Trump terminará 2017 tendo contado mais de 2 mil mentiras em pouco menos de um ano de governo.

Além do hábito de mentir para o povo norte-americano, um crime para o país que leva tão a sério a palavra empenhada por um homem a ponto de acreditar que ele dirá a verdade apenas por apor sua mão sobre a Bíblia, Donald Trump também gosta de reivindicar para si decisões tomadas por outras pessoas. Por mais de 50 vezes, Trump alegou ser o responsável por trazer para os Estados Unidos investimentos que já estavam previstos antes mesmo de sua posse. O mesmo ocorreu com os indicadores de aumento de postos de trabalho que o presidente diz ter criado, quando, na verdade, se tratava de vagas abertas antes de seu mandato presidencial começar.

Muito além do pitoresco, as mentiras contadas por Donald Trump poderão ter sérias consequências, não só para ele, mas para o futuro político dos Estados Unidos.

Trump, o mentiroso – Editorial ESP - http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,trump-o-mentiroso,70002090191

 

Há, entretanto, no FAKE NEWS um duplo processo. De um lado , a mentira disseminada nas redes, com uma origem definida e reproduzida consciente ou inconscientemente por milhões de receptores; e, de outro, o papel que esta mentira acaba ocupando no processo de formação de opinião. Isso porque as pessoas acreditam no que estão lendo e levam as falsas informações em conta em seu juízo sobre os fatos. Isso, por sua parte, repousa sobre dois fatores:

  1. O baixo nível de formação dos receptores, pouco instruídos para avaliar as notícias recebidas.
  2. A persistência do pensamento mágico mesmo em sociedades desenvolvidas, no rastro de uma característica cedo percebida por Freud e seguidores no sentido de que o pensamento primitivo é imperecível, mais mítico, do que cronológico. A propósito, eis o resultado de uma pesquisa recentemente divulgada:

Pesquisa curiosa nesse momento em que a França tb pretende legislar sobre as fake news em época de eleições: 79% dos franceses acreditam em pelo menos uma teoria da conspiração das onze apresentadas na pesquisa (sobre vacinas, aids, terrorismo, sociedades secretas, armas químicas, assassinato, Terra plana, criacionismo etc)
O fundador do Conspiracy Watch, Rudy Reichstadt, define teoria da conspiração como a tendência a atribuir abusivamente a origem de um fato histórico ou social a um complô inconfessável cuja verdade os autores — ou beneficiários — escondem, em interesse próprio.
32% dos franceses pensam que a Aids foi criada em laboratório e testada na população africana. 55% acreditam que o Ministério da Saúde está de conluio com a indústria farmacêutica para esconder os efeitos das vacinas (a França acaba de passar de 3 para 11 as vacinas dos bebês). 54% acham que a CIA está implicada no assassinato do Kennedy. 29% acham que gente do governo americano sabia do 11 de Setembro e deixou acontecer para justificar a invasão do Iraque e do Afeganistão. 31% pensam que o Al Qaida ou o Estado Islâmico são manipulados pelos serviços secretos ocidentais. Mas só 9% acham que a Terra é plana... E a imensa maioria nunca consulta horóscopo.
Comparativamente à geração anterior, os jovens até 25 anos são os mais crédulos. E o conspiracionismo é mais forte entre eleitores da extrema-direita e da extrema-esquerda.
As fake news e a boataria têm um belo futuro.

 

(Rosa Freire Aguiar – FB acesso 7 janeiro 2017)

 

Todo este intrincado jogo começa a ser melhor estudado e, em alguns países já se constituem em objeto de criminalização. A ideia é evitar a contaminação dos processos eleitorais por mentiras eletrônicas. No caso americano, foi possível localizar os principais responsáveis. Uma inédita e fantástica reportagem da Globonews divulgada neste domingo os mostrou em seu modesto bunker numa cidade pobre do interior da Macedônia-  http://meiobit.com/372974/documentario-fake-news-em-busca-da-verdade-por-tras-das-mentiras/ .  Um deles, com apenas 19 anos, contou como e porque o fizeram. Precisavam de dinheiro e nem se sentem culpados por haverem produzido um mal feito que afetou o destino da humanidade: - É o capitalismo, disse, sem constrangimento. E sentencia: - O errado foi o uso destes fake news por órgãos da grande imprensa, sem o devido cuidado com sua veracidade.

Na Alemanha e França já há legislação coibindo as fake news.

O objetivo é aumentar a transparência do conteúdo publicado nas plataformas digitais, obrigando os sites a prestarem informações à Justiça com maior celeridade.

De forma pioneira, a Alemanha apresentou uma possível solução para o problema das fake news. No dia 1.º de janeiro, entrou em vigor uma lei, aprovada em junho do ano passado, que obriga as redes sociais a removerem conteúdos impróprios, como discurso de ódio e notícias falsas, de suas plataformas em até 24 horas após terem sido legalmente notificadas. As empresas que não cumprirem as novas normas poderão ser multadas em até € 50 milhões.

A nova lei aplica-se aos sites e redes sociais com mais de 2 milhões de membros. Facebook, Twitter e YouTube serão os principais afetados, mas a regra também poderá ser aplicada ao Reddit, Tumblr, Vimeo e Flickr.

 

O combate à notícia falsa

http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-combate-a-noticia-falsa,70002140848

No Brasil o assunto também preocupa. Já corre no Congresso  um Projeto de Lei n. 6.812/2017 que prevê detenção de até oito meses e multa para quem divulgar ou apenas compartilhar notícia falsa na Internet. A precupação, sempre, é compatibilizar o direito à livre expressão com o a divulgação criminosa ou prejudicial a terceiros. Todos têm consciência da impropriedade das fake news, temem sua propagação irresponsável nas redes, mas confessam  já terem inconscientemente contribuido para sua divulgação. Isso ficou registrado numa pesquisa feita pela BIG DATA em São Paulo e Recife,  divulgada pelo Jornal Valor Econômico com relação às eleições de 2018. Foram feitos dois grupos com homens e mulheres de 30 a 50 anos das classes C e D. Nos dois grupos constatou-se um sentimento generalizado de reprovação à disseminação de notícias falsas. Ao mesmo tempo, diversos participantes da pesquisa reconheceram que já compartilharam inadvertidamente notícias falsas pelo menos uma vez.

A questão das fake news, entretanto, como a fofoca,  o boato e a colúnia, é de complexa abordagem e de difícil solução. Parece, como diz o escritor Yuri Harari em seu famoso “Sapiens”, que esta é uma tendência da espécie humana, para quem a conquista da linguagem está associada à necessidade de contar histórias. E como diz o provérbio popular: Quem conta um conta aumenta um ponto…

Mesmo sem Internet, estudiosos já admitiam que grande parte das nossas conversas diárias giram em torno de questões pessoais e familiares. Um comentador do Face Book, Ruy Lozano, chega a lembrar que seria interessante revisitar a obra de Robert Darnton no tocante à circulação de opúsculos, jornais e panfletos na França revolucionária do século XVIII: “Eles eram um verdadeiro depósito de Fake News”, diz ele. A única novidade, pois, seria a extensão do espaço de circulação destas calúnias, hoje expostas à milhões de pessoas em tempo real, on line. Só o Face Book é usado por mais de 2 bilhões de usuários.

 As pesquisas atuais sobre os temas tratados nas redes o confirma. Elas seguem, mais ou menos , esta ordem: assuntos pessoais e familiares, questões profissionais e, em penúltimo lugar, interesses particulares como gastronomia, pesca, animais domésticos etc. Assuntos de interesse público com reflexos nos destinos das comunidades afetadas, como Política e Economia, não alcançam 20% das postagens, como se pode verificar nos comentários do Programa Ponto a Ponto, citado.  Isso, aliás, poderia informar o encaminhamento de soluções não criminalizantes para as fakenews, pois elas, salvo nos períodos eleitorais, emergem na margem do ciberespaço.

O tema, por fim, é atual e candente. Sobre ele devemos nos deter, ouvir mais os especialistas e procurar fórmulas, mais de convivência com ele do que propriamente higienização. Todo a comunicação telemática ainda é muito recente e exigirá uma decantação das agências envolvidas para que se tenha uma ideia de sua arquitetura definitiva. Há pouco tempo o ORKUT era dominante. Sumiu. Os usuários aprenderão, também, a usar de forma mais adequada o FACE BOOK, mediante separação de assuntos e interlocutores por Grupos específicos, evitando-se a poluição de selfies, intimidades familiares e assuntos de interesse privado numa rede que é, sobretudo, pública.

Vamos, enfim, dar tempo ao tempo às fake news. E se tivermos que criminalizar, prioridade deve ser conferida, como no tráfico de drogas, aos centros organizados de financiamento, produção e difusão de notícias falsas e não ao inadvertido e nem sempre capacitado repassador das mesmas, ou mesmo ao trollador sistemático, aquele carinha que passa o tempo todo zoando e tirando sarro, nem sempre com requintes de civilidade, dos posts que não gosta.

Devagar com o andor, que o santo, que nem é tão santo, é de barro…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dezembro, 28

2017 NUNCA MAIS!

Paulo Timm – Publicado em A FOLHA, Torres e www.sul21.com.br 

O grande poeta inglês T.S.Eliot (1888-1965), embora nascido nos Estados Unidos, encarnou, como ninguém, as contradições de nossos tempos modernos: Encanto e destruição, permanência e volatidade, razão e sensibilidade, ilusão e realidade.

 “Ele foi uma das poderosas permanências literárias de nossa época. Estranha, porque foi ele, acima de qualquer outro, o escritor contemporâneo que mais conscientemente buscou, na tradição cultural do passado, o sentido de um tempo presente que, por estar sempre vindo a sê-lo, fosse também futuro; poderosa, porque sua obra, a um só tempo clássica e moderna”

Correndo os olhos pelas estações T.S. Eliot  abriu seu mais famoso poema, Terra Devastada, com a afirmação de que abril era o mais cruel dos meses. Depois falou que maio era corrupto, dezembro era o inverno. Para nós, que temos Drummond como Poeta Maior, para quem “a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia” ,  dezembro é a ante-sala do verão, um mês de balanço e perspectivas. A avaliação do que passou nos sinos roucos da existência, a expectativa do que virá, ou o que seremos, na fantasia luminosa do sonho acordado.

Neste fim do ano da graça – ou des/graça – de 2017 olhamos para trás e nos pergutamos se ele foi realmente necessário. Não seria melhor o termos pulado, como se faz em alguns prédios antigos que saltavam do 12º. para o 14º. andar, pelo horror ao azar ou à incêndios ? Alguém, entretanto, argumentará que nessa linha de raciocínio, no Brasil, teríamos que obviar também o 2016. Outros preferirão voltar a 2007, eliminando a década, aliás, perdida. Chegaremos a 2020 como quando chegamos em 2010… Encaremos, pois, o ano que expira admitindo que não tivesse existido.

Se isso fosse possível quanta coisa boa teríamos poupado:Não teríamos perdido Belchior nem Luiz Melodia. Eu, com isso, continuaria mais otimista com meu outrora colorido país, pois sempre disse que um povo que tem um Rapaz Latinoamericano, Caetano, Paulinho da Viola e uma “ Pérola Negra” não tem do que se lamentar. Rezo, agora, diariamente, em benefício de minha sanidade cívica ameaçada, pela vida dos que não se foram e reverbero com insistência:

“Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí”

Penso comigo que “eles” , todos, continuam por aí semeando Alegria, Alegria, entre caras e exaustivas falas de Presidentes que nos exasperam neste fim de ano:

      Eu vou…

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro

Se fosse possível pular 2017 quanta coisa ruim teríamos, também,  evitado?

Sei que não teria sido possível eliminar a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, mas teríamos, pelo menos, prolongado sua posse, o pior dos males contemporâneos, evitando sua assombração nuclear mundo afora. Sei que ele não é um caso isolado. O Homem, já disse Ortega Y Gasset, filósofo espanhol do século XX, é o Homem e suas circunstâncias. Logo, Trump é, ele próprio, a circunstância, o retrato de um universo em desencanto, no qual a pós verdade, como recurso de interesses, se substitui à verdade , a urbanidade é atropelada pelo cotovelo do mais  forte e a Poesia cede lugar a bufonaria. Ah se ele soubesse como é mais importante deixar saudade na saída do que impressionar na entrada!

Assim, sem cerimônia nem pompa, sigo Cervantes, a caminho de mim mesmo: Seja o passado , passado. Tome-se outra vereda e pronto!

                                    Adeus 2017! Nunca mais!

                                     *

Dezembro , 24   

NINGUEM AGUENTA MAIS…

I – Bravateiros

 Membros do Governo, inclusive o próprio Presidente, rasgaram a civilidade, depois de já ter rasgado o republicanismo. Agora deram para Trumpetear, ou seja, tentar ganhar na base do gogó. Apelação. Alguns até acham que se trata de tiro de misericórdia depois de tanto fracasso, expresso pela rejeição de 97 por cento dos brasileiros. O Presidente avisa que não vai ter dinheiro para pagar o BOLSA FAMÍLIA se não passar a Reforma da Previdência. O Ministro Marum que eu no meu arrastado alemão familiar chamo de Warum (?) garganteia que não haverá verba dos Bancos públicos aos Governos de Estado que não garantirem o voto favorável de seus deputados. E hoje foi a vez do Torquato, Ministro da Justiça, engrossar , em claro tom de ameaça à Presidente Carmen Lucia, dizendo que se o Supremo criasse problema ao Decreto do Indulto, ninguém seria liberado neste ano. O Governo não faria outro Decreto. 
Tudo blefe.
Depois das bravatas, todos amarelaram.
Mas ficam as pegadas dos excessos...

 

II – A diferença entre um Governo e um bando de ladrões 

Santo Agostinho, primeiro teólogo do cristianismo, em suas Confissões se perguntava qual a diferença entre um Reino e um bando de ladrões. No primeiro, acreditava ele, subsistia um certo senso de justiça. Se vivesse , hoje, no Brasil, o que diria...? Tendo vivido no século IV e V ele não poderia jamais imaginar que um bando de ladrões chegasse ao Governo. ---------------------------
Agostinho de Hipona
Filósofo
Agostinho de Hipona, conhecido universalmente como Santo Agostinho, foi um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo cujas obras foram muito influentes no desenvolvimento do cristianismo e filosofia ocidental. Wikipédia
Nascimento: 13 de novembro de 354 d.C., Tagaste
Falecimento: 28 de agosto de 430 d.C., Hipona, Argélia

  

III -Ao povo brasileiro: Arnaldo Mourthé

                Eu sou Arnaldo Mourthé, um cidadão brasileiro, como cada um de vocês. Venho a público para dizer da minha indignação com tudo que esse governo, um governo das trevas, vem fazendo conosco, povo brasileiro, e com a nossa Pátria, o Brasil.

            Todas suas ações têm sido para quebrar a nossa vontade de cidadãos, com o objetivo de facilitar a realização de um projeto que nada tem a ver com o Brasil e seu povo. O projeto deles é demolir nosso Estado, nossas Instituições, e quebrar nossa vontade, nossa dignidade. Você, meu concidadão, pode perguntar: para que?

            Para entregar nosso destino a um pequeno grupo de egoístas genocidas, que querem nos transformar em uma colônia. Passaríamos a trabalhar para produzir o que lhes interessa, para que eles lucrem nas suas transações com o mercado mundial.

            Para isso, eles estão destruindo o Estado brasileiro e seus serviços públicos, e retirando de nós direitos, que garantem a nossa sobrevivência e a nossa condição de cidadãos, aqueles que têm direitos e deveres. Querem nos transformar em servos, talvez em escravos. Escravos que nada lhe custam e, portanto, descartáveis.

            A nova “Lei” trabalhista deles, nem é Lei, porque se submete ao “acordo” com o patrão, que coloca o trabalhador submisso à sua vontade, aos seus interesses. A “Lei” que querem para a Previdência Social promete uma aposentaria para uns poucos sobreviventes, porque a maioria terá morrido antes da idade mínima para usufruir dela.

            Estão também vendendo o patrimônio nacional e concedendo todo o serviço público à exploração privada. Se deixarmos, vão destruir nosso país. Não teremos um país para deixar aos nossos descendentes. O que eles pensam que nós somos? Cordeiros? Idiotas? Covardes? Estão enganados. Eles são soberbos. Pensam que podem tudo. Mas nós temos nossa dignidade. Esquecem que temos uma Pátria, que devemos defender e que foi constituída para nos defender. Somos cidadãos. O poder é nosso, do cidadão. O governo que aí está é impostor. Não foi eleito pelo povo e não tem votos.

            Eles querem fazer a reforma da Previdência Social e destruir o Brasil e nossa Sociedade, nossa Comunidade. Mas nós, queremos que eles saiam! Se não for por bem, que o façamos através das ruas, pacificamente, com a pressão da nossa vontade. Mobilizemo-nos. Não deixemos que eles destruam nossa Pátria e nos escravizem.

            Não quero nada para mim. Tenho 81 anos bem vividos, com muitas lutas em defesa do Brasil e do povo brasileiro. Mas tenho a obrigação de defender meus descendentes e os de todo o nosso povo.

            Não à reforma da Previdência! Fora o governo Temer!

Rio de Janeiro, 17/12/2017

IV – ELEIÇÕES SEM LULA É FRAUDE

Manifesto Eleição sem Lula é fraude

Projeto Brasil Nação

 

 

Manifesto Eleição sem Lula é fraude

A tentativa de marcar em tempo recorde para o dia 24 de janeiro a data do julgamento em segunda instância do processo de Lula nada tem de legalidade. Trata-se de um puro ato de perseguição da liderança política mais popular do país. O recurso de recorrer ao expediente espúrio de intervir no processo eleitoral sucede porque o golpe do Impeachment de Dilma não gerou um regime político de estabilidade conservadora por longos anos.

O plano estratégico em curso, depois de afastar Dilma da Presidência da República, retira os direitos dos trabalhadores, ameaça a previdência pública, privatiza a Petrobras, a Eletrobras e os bancos públicos, além de abandonar a política externa ativa e altiva.

A reforma trabalhista e o teto de gastos não atraíram os investimentos externos prometidos, que poderiam sustentar a campanha em 2018 de um governo alinhado ao neoliberalismo. Diante da impopularidade, esses setores não conseguiram construir, até o momento, uma candidatura viável à presidência.

Lula cresce nas pesquisas em todos os cenários de primeiro e segundo turno e até pode ganhar em primeiro turno. O cenário de vitória consagradora de Lula significaria o fracasso do golpe, possibilitaria a abertura de um novo ciclo político.

Por isso, a trama de impedir a candidatura do Lula vale tudo: condenação no tribunal de Porto Alegre, instituição do semiparlamentarismo e até adiar as eleições. Nenhuma das ações elencadas estão fora de cogitação. Compõem o arsenal de maldades de forças políticas que não prezam a democracia.

Uma perseguição totalmente política, que só será derrotada no terreno da política. Mais que um problema tático ou eleitoral, vitória ou derrota nessa luta terá consequências estratégicas e de longo prazo.

O Brasil vive um momento de encruzilhada: ou restauramos os direitos sociais e o Estado Democrático de Direito ou seremos derrotados e assistiremos a definitiva implantação de uma sociedade de capitalismo sem regulações, baseada na superexploração dos trabalhadores. Este tipo de sociedade requer um Estado dotado de instrumentos de Exceção para reprimir as universidades, os intelectuais, os trabalhadores, as mulheres, a juventude, os pobres, os negros. Enfim, todos os explorados e oprimidos que se levantarem contra o novo sistema.

Assim, a questão da perseguição a Lula não diz respeito somente ao PT e à esquerda, mas a todos os cidadãos brasileiros. Como nunca antes em nossa geração de lutadores, o que se encontra em jogo é o futuro da democracia.

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                               Benedito Tadeu César

*Manifesto contra perseguição a Lula ultrapassa 80 mil assinaturas e ganha adesões internacionais*

O manifesto “Eleição sem Lula é Fraude”, lançado por intelectuais na semana passada, alcançou 80 mil adesões nesta quarta-feira (27/12).

O documento denuncia a perseguição ao presidente Lula, defende eleições livres e a democracia no Brasil. “A trama de impedir a candidatura do Lula vale tudo: condenação no tribunal de Porto Alegre, instituição do semiparlamentarismo e até adiar as eleições. Nenhuma das ações elencadas está fora de cogitação. Compõem o arsenal de maldades de forças políticas que não prezam a democracia”, diz o texto.

Nos últimos dias, o manifesto ganhou a adesão de personalidades do cenário internacional, como a ex-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, o historiador inglês Peter Burke, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, a escritora portuguesa e presidenta da Fundação José Saramago Pilar del Rio, os professores norte-americanos especialistas em América Latina Aaron Schneider (Universidade de Denver) e James Green (Universidade Brown).

A carta avança também no Brasil com a assinatura de figuras reconhecidas, como o teólogo Leonardo Boff, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, os críticos literários João Adolfo Hansen e Luiz Costa-Lima Gávea, o ensaísta e poeta Silviano Santiago, as historiadoras Maria Lúcia Pallares-Burke, Lilia Moritz Schwarcz, Maria Lúcia G. Pallares, Hebe Mattos, Lia Calabre de Azevedo e Beatriz Mamigonian, o cientista político André Singer, a pedagoga e tradutora Zoia Prestes e o jornalista José Trajano.

Do mundo das artes, a sambista Beth Carvalho, as atrizes Bete Mendes, Silvia Buarque e Soraya Ravenle, o cartunista Renato Aroeira, os cineastas Silvio Tender e Walter Lima Júnior e um dos mais renomados artistas plásticos Ernesto Neto estão entre os novos signatários.

Do mundo jurídico brasileiro, subscreveram o texto Roberto Tardelli e Gisele Citadino e Eugênio Aragão, entre centenas de advogados, professores de direito e juristas.

O manifesto circula na Europa e um grupo de intelectuais da Espanha, formado por Maria José Fariñas Dulce (Catedrática Filosofia do Direito UC3 - Espanha), 
Francisco Infante Ruiz (Titular Derecho Civil - Pablo de Olavide), Lina Galvez Muñoz (Economista - Pablo de Olavide), Antonio Bayos (Catedrático Derecho Laboral), também assinou o manifesto.

O Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF4) marcou para o dia 24 de janeiro o julgamento do Lula na Operação Lava Jato no caso do triplex do Guarujá.

Os signatários do manifesto denunciam que “a tentativa de marcar em tempo recorde para o dia 24 de janeiro a data do julgamento em segunda instância do processo de Lula nada tem de legalidade. Trata-se de um puro ato de perseguição da liderança política mais popular do país”.

O documento, que surgiu como uma iniciativa do Projeto Brasil Nação, foi lançado no dia 19 de dezembro. O linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky, o prêmio Nobel da Paz Adolfo Esquivel, o cantor Chico Buarque, os economistas Luiz Carlos Bresser Pereira e Leda Paulani, o jurista Fábio Konder Comparato, os cientistas políticos Luiz Felipe de Alencastro e Maria Victoria Benevides, o embaixador Celso Amorim, os escritores Raduan Nassar e Milton Hatoum, os jornalistas Hildegard Angel, Mino Carta, Franklin Martins e Fernando Moraes, o ator e escritor Gregório Duvivier, o ativista social João Pedro Stedile e a deputada estadual Manuela D’Ávila estão entre os primeiros signatários.

Para ler e assinar o manifesto, acesse o link

 

 

Assine o Abaixo-assinado

Sociedade brasileira: Em defesa do direito de Lula ser candidato a presidente do Brasil

CHANGE.ORG

 

 

V – AI DE TI GERALDO NOGUEIRA. A URNA SERÁ A TUA GUILHOTINA

Como diz o deputado federoso Ronaldo  Nogueira , (PTB Jeferson – RS) que coordenou a aprovação da "atualização" da CLT com estas sábias palavras:

-Saímos de um modelo de alta regulação estatal para uma forma moderna de autocomposição dos conflitos trabalhistas, colocando o Brasil ao lado das nações mais desenvolvidas do mundo.

"Autocomposição"...!!!!!?????

Oressa.

E já que ingressamos no circuito das NAÇÕES MAIS DESENVOLVIDAS, quero minha educação pública e gratuita, quero minha fatia na elevação da produtividade, quero garantias de saúde e assistência, quero minha segurança pessoal, quero um futuro...

 

Dezembro, 20

VIÉS DE CONFIRMAÇÃO. O QUE É ISSO?

O erro do Governo na defesa da REFORMA DA PREVIDÊNCIA: Viés de confirmação malthusiana, que consiste em desconsiderar completamente o fator progresso técnico no desenvolvimento, que leva ao sistemático aumento da produtividade e renda percapita, ao longo do processo de envelhecimento da população. Para confirmar o viés ainda partem do suposto da imperiosidade de um Estado Mínimo na Economia, sob a alegação de que nada produz, só gasta. Oressa, o Estado é agente fundamental de investimento na infraestrutura humana, através dos cuidados com educação e seguridade social, além de cumprir importante papel nas economias externas ao processo propriamente produtivo.

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Viés de confirmação
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
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Este artigo está a ser traduzido de «Confirmation bias» na Wikipédia em inglês (desde maio de 2015). Ajude e colabore com a tradução.
Viés de confirmação, também chamado de viés confirmatório ou de tendência de confirmação,[nota 1] é a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais.[1] É um tipo de viés cognitivo e um erro de raciocínio indutivo. As pessoas demonstram esse viés quando reúnem ou se lembram de informações de forma seletiva, ou quando as interpretam de forma tendenciosa. Tal efeito é mais forte em questões de forte carga emocional e em crenças profundamente arraigadas. As pessoas também tendem a interpretar evidências ambíguas de forma a sustentar suas posições já existentes. Os conceitos de pesquisa, interpretação e memória tendenciosas foram propostos para explicar a polarização de atitudes (quando uma divergência se torna mais extrema ainda que as diferentes partes sejam expostas à mesma evidência), as crenças persistentes (quando crenças persistem mesmo após suas evidências serem demonstradas falsas), o efeito irracional de primariedade (uma maior confiança em informações encontradas antes de outras em uma série) e a correlação ilusória (quando falsas associações entre dois eventos ou situações são identificadas).

Uma série de experimentos nos anos 60 sugeriu que as pessoas são tendenciosas de forma a confirmar suas crenças pré-existentes. Trabalhos posteriores reinterpretaram esses resultados como uma tendência a testarmos ideias de forma unilateral, focando em uma possibilidade e ignorando alternativas. Em certas situações, essa tendência pode enviesar as conclusões das pessoas. Explicações para os vieses observados incluem o wishful thinking e a capacidade limitada que os seres humanos têm de processar informações. Outra explicação é que as pessoas demonstrem o viés de confirmação por estarem pesando os custos de estarem errados em vez de fazerem uma investigação neutra e científica.

O viés de confirmação contribui com um excesso de confiança em crenças pessoais e pode manter ou reforçar crenças em face de evidência contrária. Más decisões por conta de tais vieses são encontradas em contextos políticos e administrativos.

 

 

 

 Dezembro, 15

O Advento

Paulo Timm – Especial A FOLHA, Torres – Natal 2017

 

Todos os anos trago aos leitores de Torres e Passo de Torres,  na expectativa de ecoar por todas as curvas do Mampituba,  minha mensagem de BOAS FESTAS, através da lembrança do Advento. Neste ano que passou, marcado pela presença de sérios conflitos regionais no mundo, realçados pela  ameaça de uma hecatombe nuclear envolvendo a Coreia do Norte, além do agravamento da questão do clima, renovo meus votos na esperança de melhores dias.

O "advento" é o período, na tradição cristã,  de quatro semanas que antecedem o Natal. Ele se inicia no primeiro domingo deste interregno e vai até o dia 25 de dezembro. Trata-se de um período de reflexão e espera, na expectativa da “Boa Nova” do Mensageiro de Deus.  É um momento de preparação para a reunificação das famílias, dos homens de boa vontade e de todos os povos do mundo, sem rancores , sem preconceitos, sem outro sentimento que aquele ocupado pelo Amor ao Próximo.  Sim, porque a grande ceia da noite de Natal não é senão um artifício para a celebração  da concórdia entre todos nós. Confirmação do laço afetivo  num ritual simbólico, imaginário e de forte impacto real, depois que  centenas e até milhares de quilômetros foram tragados por ansiosos passos em direção ao abraço familiar. É para casa que voltamos sempre. É em casa, junto dos entes queridos, que renovamos as energias para enfrentar as adversidades de um ano novo que  logo se anunciará  na fatia dos tempos. Aproveitemos, pois, o Advento, para  meditar sobre o nosso  mundo – ocidental - : pluri-cultural, multi-étnico, democrático, laico,  embora  essencialmente cristão -, como síntese da razão helênica cevada na antiga Grécia e da fé de um homem simples que peregrinou pela Galileia e deixou seus rastros no Novo Testamento.

Vivemos, por certo,  há já décadas,  momentos difíceis de nossa História. Foi-se o sonho de uma noite de verão dos anos do pós-II Guerra. A razão e a liberdade, que pareciam sustentar a construção de um homem capaz de construir seu próprio destino e um novo horizonte para a humanidade, estão em cheque. As esperanças de um mundo melhor parecem soterradas. O Advento, porém, contribui para reforçar a persistência no bom caminho da iluminação. O homem, enfim, é o começo e o fim de tudo. Ainda há tempo, mas há que refletir. Pensar com coragem, determinação e prudência. Pensar e agir enquanto oramos,todos,  mesmo os que não sabem rezar, por um 2018 mais promissor. Para nós, brasileiros,  ele será decisivo para moldar um novo tempo.

 

 

 

Dezembro, 10 

O ATO, O FATO E O PATO

                                                     Paulo Timm

 “A preferência pela ontologia junto a teoria do conhecimento faz ecoar o impasse da razão tecnológica (onde ressoa a barbárie), mas além do objetivismo-idealista, um pragmatismo-reificado termina por influenciar o senso da verdade racional de muitos. Ao evitar a precedência da ética na abordagem ontológica, ignora-se as razões das escolhas de objeto de pesquisa e o sentido do bem implicado no conhecimento produzido, para este ou aquele grupo. O sonho da solidez, da força e da certeza sempre atende aos poderes etnocêntricos, daqui e de lá. Hoje, mesmo nas ciências humanas, muitos buscam categorias fixas, em nome de determinada validade de pretensão universal, que todos sabemos, nunca se alcança, chegando no máximo à certas validades gerais. Penso que, se na prática as ciências e a filosofia não implicam a ética prioritariamente em suas escolhas, então, o que o conhecimento diz do ser é aquilo que convêm a poucos”

Felipe Lessa FACE BOOK

Dia da FILOSOFIA

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No último dia 16 celebrou-se o Dia Mundial da Filosofia, que foi lembrado pela ONU com uma mensagem na qual enaltece o papel deste campo do conhecimento como estímulo ao diálogo entre as culturas, além de outras virtudes:

 “Para a UNESCO, a filosofia também é o meio de liberar o potencial criativo da humanidade, e fazer emergir as novas ideias. A filosofia cria condições intelectuais para a mudança, o desenvolvimento sustentável e a paz.”

Em suporte ao ensino da Filosofia, cujo nascimento situamos no século de ouro da Grécia Antiga – Sec. V AC – a  Conferência Mundial das Humanidades, na Bélgica, em agosto de 2017, determinou as diretrizes para o ensino de humanidades e a  UNESCO se esforça para difundir esta visão.  A diretora-geral da UNESCO lembrou que, ainda hoje, a filosofia é um baluarte contra o estreitamento de opiniões, uma maneira de cultivar a distância crítica diante da saturação das informações, diante dos discursos simplistas que buscam colocar as culturas umas contra as outras. (UNESCO cit)

                                   Mensagem  UNESCO/ONU – 16 novembro 2017

 

 

Na verdade, a Filosofia trata da procura da verdade, o que exige que ela não só crie teorias, como, paralelamente, crie uma sintaxe própria. Tal como a Poesia, sua prima, a Filosofia nasce do espanto diante do mundo e repousa sobre dois grandes vértices de reflexão: (1) O Transcendentalismo que nos remete à  estrutura universal de como a realidade se apresenta para nós e que nos dão as  coordenadas da realidade, ou seja, como pensar, (2)Ontológico, que trata da  realidade em si , sua emergência e sua disposiçãp - quem sou - , esta , cada vez mais sequestrada pelas Ciências Naturais; neste campo a ideia o ente, dotado de consciência e capaz de decidir sobre seu destino, como um acidente do ser, ocupa um lugar central.

:
“ Desde sua própria origem a filosofia parece oscilar entre duas abordagens: a transcedental e a ontológica ou ôntica. A primeira se refere à estrutura universal de como a realidade se apresenta para nós. Que condições é preciso atender para que a percebamos uma coisa como realmente existente.? “Transcedental é o terreno técnico filosófico, para tal arcabouço, o qual define as coordenadas da realidade –por exemplo – a abordagem transcental nos torna conscientes de que para um naturalista científico, só os fundamentos materiais espaço temporais regulados pelas leis naturais realmente existem, enquanto para um tradicionalista pré-moderno, espíritos e signaficados também são partes da realidade, e não apenas projeções humanas. A abordagem ôntica, por outro lado, está preocupada com a realidade em si, com sua emergência e sua disposição como apareceu o universo. Será que ele tem um começo e um fim?Qual o nosso lugar nele? No século XX , a brecha entre esses dois métodos de pensamento se tornou mais acentuada: a abordagem transcedental alcançou seu apogeu com o filósofo alemão M.Heidegger (1889-1976), enquanto a ontológica parece , hoje, ter sido sequestrada pelas ciências naturais. – esperamos que a resposta a nossa pergunta sobre as origens do universo venha da cosmologia quântica, das ciências do cérebro e do evolucionismo.”

                                            (S.ZIZEK em ACONTECIMENTO, Ed. ZAHAR, pg. 09-10)

 

 

A Filosofia, entretanto, embora tenha sido o ponto de partida para o pensamento científico, tendo em Aristóteles, discípulo de Sócrates, o patrono da postura ordenadora e racionalista dos fatos observados, com vistas à sua “lei” de sua, não é normativa. Ela é especulativa. Não dá soluções. Formula indagações  sobre o que observa tratando  dar conta e razão de forma a criar uma certa e datada  inteligibilidade. No dizer de Roberto Gomes, irrecorrível, a “Filosofia é uma razão que se expressa”.

Da Filosofia, amiga do saber, não derivaram apenas as Ciências Naturais, mas também as Humanidades, a partir do Direito, seguindo-se, depois a Economia, a Sociologia, a Psicologia , a Política e suas amplas derivações. De todas elas o Direito foi o que mais preservou a tradição perquiritória da Filosofia, mesmo depois de enveredar nos tempos modernos, com Kelsen, para a positividade da norma. Mas a sociedade civilizada  se recusa a condenar alguém sem procedimento processual, o qual impõe não só os lados antagônicos da acusação e da defesa, como ainda a presença de um juíz que se interpela permanentemente à luz da hermenêutica, ou seja, da interpretação das leis. Não fora este fundamento filosófico e bastaria a Polícia para prender, processar e julgar os criminosos com base na no que está escrito na Lei. Mas isso não basta à Filosofia do Direito.

A Sociologia surgiu mais tarde, desmembrando-se da Filosofia na tentativa de melhor compreender os fenômenos que deram origem à modernidade. Émile Durkheim foi seu fundador e procurou definir e situar o fato social como objeto da nova disciplina. Ele estudou profundamente as relações entre o indivíduo e a sociedade, mostrando a inevitabilidade desta, com sua armadura legal e institucional,  na modelagem da cultura. Preocupava-o, sobretudo, a disfunção capaz de levar a situações de ruptura desta cadeia, a que deu o nome de anomia.

O conceito de anomia foi cunhado pelo sociólogo francês Émile Durkheim e quer dizer: ausência ou desintegração das normas sociais. O conceito surgiu com o objetivo de descrever as patologias sociais da sociedade ocidental moderna, racionalista e individualista

A organização dos homens em uma mesma sociedade, regulada pelas mesmas leis é o que permite a mediação de conflitos individuais e sociais: “A única força capaz de servir de moderadora para o egoísmo individual é a do grupo; a única que pode servir de moderadora para o egoísmo dos grupos é a de outro grupo que os englobe” (DURKHEIM, 2010, P. 428).

A anomia é definida pelo autor como a ausência dessa solidariedade, o desrespeito às regras comuns, às tradições e práticas.

Esta lembrança é oportuna à luz da questão, hoje candente, da prisão de parlamentares no Estado do Rio. Para muitos, decorrente, para muitos,  de uma certa confusão na interpretação da decisão do Supremo Tribunal Federal, depois que este transferiu ao Senado o caso Aécio Neves. Ora, talvez a questão não seja propriamente de confusão no campo do Direito, mas de um estado típico de anomia no âmbito do Estado brasileiro. Algo muito mais grave.Isso vem a ser admitido pela PGR que recorreu da decisão de soltura dos referidos deputados, que acabou devolvendo-os à prisão por decisão do TRF 2 , Rio de Janeiro, quando alegou que o Estado é “uma terra sei lei” - https://l.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Fpoder%2F2017%2F11%2F1937120-pgr-vai-ao-stf-contra-alerj-e-diz-que-rio-e-terra-sem-lei.shtml%3Futm_source%3Dfacebook%26utm_medium%3Dsocial%26utm_campaign%3Dcompfb&h=ATNbWwTwqLlnL67h2NSIa4L5IM1PdKX6a-R3xNOXjPOOtn5kaRZxxqSgGfrx-o619Wt4tjS0ewBDtA3meyEiU3hyuGXNE1oreuplM_359nKxP0vwpQDFWDHUtQ9L_8DvOFWQ3KgDVj3hoscP_3kPKww0M4317aQh3oNvCo_cz4RNQmttpe5GJrnw34o0Vw126P3lN3PfYCWWCGjVwudN4HYw7TpMhPG5O7GQdCSdPzWFvNKmjq1gqlyHmhhjY27hs6tvvKZrg-XJVlQ2nWZ6PWWts6cp28mXz3IuxGFk4Ru3EiQ

Oportuna também, a lembrança de Durkheim, para restaurar à Sociologia um mínimo de especulação que a impeça de virar uma mera técnica de ajustes sociais daquilo que se considere desviação da norma social. Hora, pois, de um pouco de hermenêutica de Sua Excelência imperial e brutal: O fato.

Jamais  se contente com ele como lhe parece ou aparece, mesmo à luz das mais sofisticadas ferramentas de observação. Nunca há, por exemplo, uma única percepção e  interpretação do visto ou medido. Basta ver o que diz cada uma das testemunhas de um acontecimento, mesmo sob o cuidado de separá.las antes da consulta. 
Pergunte-se, antes COMO estes supostos fatos ocorrem. E POR QUE?
Aí vai descobrir aquilo que os ÍDOLOS DA RAZÃO, no dizer de um dos pais da modernidade, um tal Lord Bacon, encobrem e que outros Cientista Sociais advertem sobre o descolamento do real, do imaginário e do simbólico. E descobrirá a diferença entre o que aí está, posto e disposto, com aquilo que poderia ser e que é, exatamente, o que move a consciência no mundo.

Isso posto,  começará a entender, graças à Filosofia e suas derivações no campo das Ciências Humanas , porque o Homem  é sempre um enigma,  refém de uma razão que sua própria razão desconhece. E nunca mais será  um pato…

 

DEZEMBRO, 07

ORA DIREIS OUVIR AS VAGAS ESTRELAS DA URSA

 

“Não se ama a pátria porque ela seja grande e poderosa, mas porque é a nossa pátria” , dizia  Sêneca. E o Poeta Maior da moderna idade lusitana (FP), sublinhava: “O rio que passa pela minha aldeia é o mais lindo do mundo porque é rio que passa pela minha aldeia”.

A vida é simples, embora breve, mas se  enobrece pela virtude, amante da verdade, e se imortaliza pela arte. Foi assim, desde as cavernas, passando pelas grandes civilizações do passado, até os tempos atuais.

Um momento mágico deste longo itinerário, foi o século de Péricles (V AC), em Atenas, coração da Grécia antiga, embora um pequeno ponto no vasto e grandioso Império Persa que a cercava e ameaçava. Mas Péricles não foi um homem só. Por trás dele descortinava-se a grandeza de Homero e as lições da Iliada e da Odisseia, fundamento da PAIDEIA, tal como a Bíblia o é para nós. Naquele tempo a Poesia era companheira inseparável da condição humana, tradição que o Irã e povos orientais cultivam até hoje para encanto dos viajantes. Nós a perdemos pelo caminho da racionalização do mundo. Urge reencontrá-la.

Enquanto isso, resta-nos a História.

Em sua obra “Paideia: a formação do homem grego”.  Werner Jaeger deixou-nos um legado para o dos ideais da educação da Grécia antiga. Lamentavelmente, perdi meu exemplar, devidamente assinalado. Foi-se com meu FIAT roubado há alguns anos, sem que o furtivo meliante percebesse a preciosidade que capturara. Onde terá ido o meu PAIDEIA? Mas ainda compro outro e, se der tempo, o relerei com todo o cuidado….

A Paideia tal qual os gregos entendiam, envolve o ensinamento do corpo e da mente. Poesia, teologia, filosofia, gramática, retórica, matemática, música e astronomia faziam parte da formação da alma do homem grego.Jaeger demonstra isso desde os tempos remotos da Hélade com a poesia de Homero. Como GiamBattista Vico havia percebido, toda grande civilização começa com os poetas-teólogos, que são aqueles que transmitem o mito fundador da nação para o povo. A poesia foi a primeira forma de preparação da mente de crianças e adultos para a compreensão do mundo. O Mythos é a pedagogia de Homero, porquanto os seus poemas reproduzem as estórias de deuses e homens que dão início à Paideia. Jaeger acredita que Homero produz um pensamento “filosófico” relativo às leis eternas que governam o mundo. Na Ilíada e na Odisseia, as paixões humanas e os elementos da tragédia grega que Aristóteles iria explicar de forma tão maravilhosa na poética já se fazem presentes.”

 

Felipe Pimenta, in Resenha -

https://felipepimenta.com/2014/03/13/resenha-paideia-de-werner-jaeger/

Da PAIDEIA, de Jaeger, retirei um ensinamento: a importância da educação na formação de um povo. Educação no sentido amplo, não como 2 mais 2 são 4, mas também 22 ou, quem sabe, até 5… A educação importa não porque entrega conhecimentos adicionais. Mas porque molda um caráter com base no culto da virtude e da beleza. O erro dos doutores é a vaidade que os  transforma num burro carregado de livros, esquecendo-se do encanto da pátria e do rio que passa pela aldeia.   Diderot sabia disso, como se observa de sua nota sobre outro livreto de Sêneca, “Vida Feliz”:

 “Para o ignorante não há ciência mais simples e evidente que a moral; o sábio, porém, a considera a mais espinhosa e obscura . Talvez a moral seja a única ciência da qual se extraem defuções das mais justas audazes e distantes antes eesmo que se definam princípios. Por que isso acontece? Porque heróis são heróis antes de serem pensadores. Pensadores são produtos do ócio; os heróis se forjam na circunstância. Forma-se um pnesador nas escolas, frutos tardios do tempo. Os heróis repousam entre perigos, presentes em todos os tempos No heróis verifica-se a moral em ação, da mesma maneira que nos poetas a moral está nos pensamentos.”

Na Grécia antiga, por exemplo,  as crianças eram mandadas à Escola para aprender Oratória e Retórica. A primeira era a arte do discurso; a segunda a arte da argumentação. Esta era decisiva porque eles acreditavam, seguindo os sofistas, dentre os quais Protágoras pontificava, que tudo no mundo continha o justo e o injusto e ambos eram igualmente justificáveis. Um cidadão, portanto, deveria saber comparecer à Agora, onde cevou-se a democracia,  provido deste instrumental na defesa de suas ideias e seus interesses.. 
Contra este tipo de pensamento insurgiram-se Sócrates e seus seguidores- Platão e Aristóteles, imediatamente - , dando a origem à Filosofia, no esforço de dar conta e razão das questões que os atormentavam em busca da VERDADE. Uma verdade e não muitas... Daí nasceu o LOGOS, que desembocaria na Ciência e teria seu leito de Procusto na raciolinazação instrumental da socedade tecnológica, a ÉTICA, cuja filha dileta seria a Política, e a ESTETICA, como culto da beleza. 
Tudo para soterrar as superstições que assombravam o pensamento humano e o sofismo, que tergiversava sobre a verdade.
Isso me ocorre agora quando ouço o derradeiro discurso do Governo , quase de misericórdia, em defesa da REFORMA DA PREVIDÊNCIA. Afirma com ares doutorais que, com a REFORMA, a ECONOMIA PODE VOLTAR A CRESCER. Sem a REFORMA ela volta a cair.
Primor de retórica sofista.Coisa de marqueteiro, não de gente iluminada com as luzes da PAIDEIA.

E há quem acredite...

Se a Reforma da Previdência é importante, basta revelá-la em sua verdade. Não só com os algarismos que enchem tabelas pré concebidas para justificar o próprio argumento, mas com os números, como dizia Pitágoras, que alimentam o espírito, sobretudo o espirito público.

 

 

 NOVEMBRO, 21

                O ATO, O FATO E O PATO

                                                                 Especial para A FOLHA, Torres . 

 

 “A preferência pela ontologia junto a teoria do conhecimento faz ecoar o impasse da razão tecnológica (onde ressoa a barbárie), mas além do objetivismo-idealista, um pragmatismo-reificado termina por influenciar o senso da verdade racional de muitos. Ao evitar a precedência da ética na abordagem ontológica, ignora-se as razões das escolhas de objeto de pesquisa e o sentido do bem implicado no conhecimento produzido, para este ou aquele grupo. O sonho da solidez, da força e da certeza sempre atende aos poderes etnocêntricos, daqui e de lá. Hoje, mesmo nas ciências humanas, muitos buscam categorias fixas, em nome de determinada validade de pretensão universal, que todos sabemos, nunca se alcança, chegando no máximo à certas validades gerais. Penso que, se na prática as ciências e a filosofia não implicam a ética prioritariamente em suas escolhas, então, o que o conhecimento diz do ser é aquilo que convêm a poucos”

Felipe Lessa FACE BOOK

 

                                                                *

 No último dia 16 celebrou-se o Dia Mundial da Filosofia, que foi lembrado pela ONU com uma mensagem na qual enaltece o papel deste campo do conhecimento como estímulo ao diálogo entre as culturas, além de outras virtudes:

Na verdade, a Filosofia trata da procura da verdade, o que exige que ela não só crie teorias, como, paralelamente, crie uma sintaxe própria. Tal como a Poesia, sua prima, a Filosofia nasce do espanto diante do mundo e repousa sobre dois grandes vértices de reflexão: (1) O Transcendentalismo que nos remete à  estrutura universal de como a realidade se apresenta para nós e que nos dão as  coordenadas da realidade, ou seja, como pensar, (2)Ontológico, que trata da  realidade em si , sua emergência e sua disposiçãp - quem sou - , esta , cada vez mais sequestrada pelas Ciências Naturais, particularmente Neurociências;

A Filosofia, entretanto, embora tenha sido o ponto de partida para o pensamento científico, tendo em Aristóteles, discípulo de Sócrates, o patrono da postura ordenadora e racionalista dos fatos observados, com vistas à sua “lei” , não é normativa. Ela é especulativa. Não dá soluções. Formula indagações  sobre o que observa tratando  dar conta e razão ao que vê. No dizer de Roberto Gomes, definitiva: A “Filosofia é uma razão que se expressa”.

Da Filosofia, amiga do saber, não derivaram apenas as Ciências Naturais, mas também as Humanidades, a partir do Direito, seguindo-se, depois a Economia, a Sociologia, a Psicologia , a Política e suas amplas derivações. De todas elas o Direito foi o que mais preservou a tradição perquiritória da Filosofia, mesmo depois de enveredar, nos tempos modernos, com Kelsen, para a positividade da norma. Não fora este fundamento filosófico e nos bastaria a Polícia para prender, processar e julgar os criminosos, com base na no que está escrito na Lei. Mas isso não basta à Filosofia do Direito. Ela exige o que chama de hermenêutica. Ainda bem...

A Sociologia surgiu mais tarde, desmembrando-se da Filosofia na tentativa de melhor compreender os fenômenos que deram origem à modernidade. Émile Durkheim foi seu fundador e procurou definir e situar o fato social como objeto da nova disciplina. Ele estudou  as relações entre o indivíduo e a sociedade, mostrando a inevitabilidade desta, com sua armadura legal e institucional,  na modelagem da cultura. Preocupava-o, sobretudo, a disfunção capaz de levar a situações de ruptura desta cadeia, a que deu o nome de anomia.

. O conceito surgiu com o objetivo de descrever as patologias sociais da sociedade ocidental moderna, racionalista e individualista.

A anomia é definida pelo autor como a ausência dessa solidariedade, o desrespeito às regras comuns, às tradições e práticas.

 

Esta lembrança é oportuna à luz da questão, hoje candente, da prisão de parlamentares no Estado do Rio. Para muitos, decorrente, de uma certa confusão na interpretação da decisão do Supremo Tribunal Federal, depois que este transferiu ao Senado o caso Aécio Neves. Ora, talvez a questão não seja propriamente de confusão no campo do Direito, mas de um estado típico de anomia no âmbito do Estado brasileiro. Algo muito mais grave… Isso vem a ser admitido pela PGR que recorreu da decisão de soltura dos referidos deputados, que acabou devolvendo-os à prisão por decisão do TRF 2 , Rio de Janeiro, quando alegou que o Estado é “uma terra sei lei” -

https://l.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Fpoder%2F2017%2F11%2F1937120-pgr-vai-ao-stf-contra-alerj-e-diz-que-rio-e-terra-sem-lei.shtml%3Futm_source%3Dfacebook%26utm_medium%3Dsocial%26utm_campaign%3Dcompfb&h=ATNbWwTwqLlnL67h2NSIa4L5IM1PdKX6a-R3xNOXjPOOtn5kaRZxxqSgGfrx-o619Wt4tjS0ewBDtA3meyEiU3hyuGXNE1oreuplM_359nKxP0vwpQDFWDHUtQ9L_8DvOFWQ3KgDVj3hoscP_3kPKww0M4317aQh3oNvCo_cz4RNQmttpe5GJrnw34o0Vw126P3lN3PfYCWWCGjVwudN4HYw7TpMhPG5O7GQdCSdPzWFvNKmjq1gqlyHmhhjY27hs6tvvKZrg-XJVlQ2nWZ6PWWts6cp28mXz3IuxGFk4Ru3EiQ

 

 Nem com a Filosofia, nem com a Sociologia, porém, você alcançará a sabedoria, mas  começará a entender,  porque o Homem  é sempre um enigma,  refém de uma razão que sua própria razão desconhece. E nunca mais dará uma de pato diante do fato…

 

 

 ALMANAK DIA 10 DE ABRIL , 2017

 

IMPRESSÕES

I – FHC e o candomblé

Diga-se o que se quiser sobre FHC, mas ele não é um débil mental. Dele, escuto, num documentário sobre DARCY RIBEIRO está pérola: "O Brasil não pode ser entendido exclusivamente sob a ótica ocidental. Precisa um pouco de candomblé. Darcy tinha um pouco mais do que eu..."

Isso serve para se compreender tudo; A PEC dos gastos, a Reforma da Previdência, a Era Lulo-Petista, o bolivarismo, o jihadismo, a Guerra Civil na Síria, o BREXIT, até o último ataque dos ESTADOS UNIDOS à base aérea do governo sírio...O candomblé não sucumbe ao confronto do bem contra o mal. Procura o terceiro elemento, onde se refugiam mais os sentimentos do que as razões...

 

II                                                            - Razão e sensibilidade

Nossa razão, sobre o bombardeio americano  é que, enfim, o mocinho ocidental castigou o vilão matador de criancinhas. O dito vilão e seus “despóticos” aliados russos, chineses e iranianos – estes dois últimos berços da civilização - , replicam: “É um ato de agressão unilateral, sem qualquer prova, nem apoio de instituição internacional”. A ONU, na verdade, é cada vez mais um quadro com uma bela paisagem pendurada nas paredes do globo. Na verdade, o ato americano, verdadeiro golpe publicitário de um Presidente condenado por todo mundo decente, marca o retorno do Irmão do Norte à política do big stick (cacete) que sempre acompanhou aquele país em seu “Destino Manifesto”, de inspiração religiosa,  como protetora do mundo. Lamentável, independentemente das evidências sobre a existência de mocinhos e bandidos de um e outro lado. Ficamos nós, mortais, na expectativa de que um leve roçar de asas de aviões russos e americanos nos céus do Oriente Médio acabe pressionando os botões da guerra nuclear. Aí, kaputtt, fim de linha...

III - Meirelles Kaput –

Outro que parece liquidado é o Ministro Meirelles. A insuspeita Globonews o fulminou com o que  denominou, embora en passand, como gosta de dizer o Lula,  em comentário de Flavia Oliveira, como “incompetência”, diante do rombo do ORÇAMENTO DA UNIÃO em 2018 de R$ 129 bilhões. Ou seja, a equipe econômica, que acusou Dilma de irresponsabilidade fiscal, e que aí está para arrumar a casa, só piora as coisas. Nem me estendo sobre o déficit como questão, pois não acredito que seja o problema fundamental da crise. Apenas registro que Meirelles falhou. Não tem mais nada a fazer neste ou em qualquer outro governo. É e sempre foi um blefe. Um gerente de banco preocupado com os devedores inadimplentes. Longe de léguas de Lucas Lopes, Roberto Campos, Simonses, Delfim e Malan, ex Ministros da Fazenda. Vai pra casa, Meirelles, em Boston...

Parte superior do formulário

 

IV -ALLES KAPUT, Tudo perdido.

Isso é o que também pensa um dos líderes parlamentares do neoconservadorismo brasileiro, Onyx Lorenzoni – DEM/RS .  Ele, depois que o Renan Calheiros assumiu o lugar de líder da Oposição ao antigo aliado Temer (entenda-se!), resolveu defender a cassação da chapa Dilma/Temer e  diz, no Congresso em Foco,  que o Governo não terá força para aprovar reforma nenhuma, elogia Bolsonaro e chama Henrique Meirelles de “incompetente” http://bit.ly/2nW8PeS. E fica comprovado: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena...” e tudo se perde quando ela se amesquinha...

Parte inferior do formulário

 

ALMANAK- DIA 07 de abril, 2017

RISCO DE ESCALA DE GUERRA NO MUNDO

Paulo Timm – Abril, 07

O anúncio de que os Estados Unidos bombardearam uma base aérea do Governo Sírio está chocando o mundo, justo quando o Presidente americana prometera deixar o Presidente daquele país em paz e dar prioridade aos assuntos internos dos Estados Unidos. A desculpa é a mesma da época da invasão do Iraque: a posse e uso de armas químicas de destruição em massa colocam em cheque a segurança americana.

O ataque é condenável por inúmeras razões:

  1. Retoma o caráter belicoso da intervenção americana nos assuntos internacionais, cuja memória ainda nos reporta à Guerra Suja do Vietname nos anos 60-70.
  2. Antecipa-se às investigações internacionais sobre a verdadeira responsabilidade sobre o ataque com o gás sarin no íncio da semana numa cidade síria.
  3. Não responde à nenhuma determinação das Nações Unidas, consistindo numa ação de responsabilidade exclusiva do Governo dos Estados Unidos.
  4. Desconhece o fato de que as Nações Unidas em relatório de 2015 reconheceu que tanto o Governo de Baschar Al Assad como os rebeldes possuíam armas químicas e que ambos deveriam ser responsabilizados pelos ataques com armas químicas em 2013
  5. Ignora o fato de que seria estupidez do governo sírio usar armas químicas numa conjuntura de sucessivas vitórias sobre forças rebeldes no terreno e de que teve seu arsenal com estas armas neutralizado em 2015 por ação do Presidente Obama.

 

O ataque americana confronta não só o Governo Sírio, mas a estabilidade mundial, ao se converter numa ação unilateral de alto poder ofensivo contra uma nação organizada, com o agravante de que pode trazer uma irritação adicional pela presença dos russos na região. Corremos o risco de ver as duas maiores potências nucleares do globo se confrontarem, sem qualquer possibilidade de mediação.

 Anexos:

Acusações infundadas: quem realmente utiliza armas químicas na Síria? 

5 abr 2017 | "Mudança de Regime"

                                    

Oposicionistas sírios acusaram o exército nacional da utilização de armas químicas não apresentando nenhumas provas disso. Mas será que os países ocidentais não necessitam de provas?

O exército nacional sírio nunca utilizou e não vai utilizar substâncias tóxicas, segundo diz o texto do comunicado do comando militar sobre as acusações por parte da oposição armada de utilização das armas químicas na província de Idlib. O comando do exército sírio lembrou que os grupos terroristas armados acusam Damasco da utilização de armas químicas quando não conseguem alcançar objetivos “no terreno”.

Mas será que existe alguém que acredita na informação de Damasco no Ocidente? Paris, logo após ter ouvido sobre o ataque da oposição síria, começou exigindo uma reunião urgente do Conselho da Segurança da ONU, que foi como resultado marcada para o dia 5 de abril. O secretariado da organização internacional expressou inquietação, mas eles ainda não conseguiram verificar a informação e perceber se houve realmente um ataque, comunicou sobre isso o representante do secretário-geral.

Fonte Sputnik

http://www.orientemidia.org/acusacoes-infundadas-quem-realmente-utiliza-armas-quimicas-na-siria/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=facebook&utm_campaign=acusacoes-infundadas-quem-realmente-utiliza-armas-quimicas-na-siria

 

PREOCUPAÇÃO Cesar Benjamin

Entro na internet e vejo a notícia de que os Estados Unidos lançaram hoje cinquenta mísseis contra a Síria. A acusação de que o governo sirio teria usado armas químicas conta a população é pateticamente inverossímil. A Síria desativou há tempos seus arsenais de armas químicas e está vencendo a guerra no terreno, com amplo apoio de seu povo. Por isso, aliás, essa guerra saiu do noticiário.

O governo sírio afirma que atacou posições do chamado Estado Islâmico. Lá, além de armas convencionais, já identificadas, havia depósitos secretos de armas químicas, que vazaram.

O importante, agora, é saber como o Estado Islâmico obtém armas químicas.

Uma nova escalada na guerra da Síria, com Trump na presidência dos Estados Unidos, será um desastre.

 

 

 

 ALMANAK- DIA 05 de abril, 2017

 

RAIOU ABRIL E JÁ SE FALA EM SUCESSÃO

Paulo TImm – Especial para A FOLHA, 5 de abril.

 

Raiou abril que, para nós, nada tem de cruel, como o fora para T.S.Elliot, quando escreveu um dos mais belos poemas do século XX: “Terra Devastada.” Para nós, do lado de cá do Equador,  abril é doce. Encerra definitivamente os sufocantes verões aos quais se seguiram as águas copiosas de março, sempre incômodas. É um mês de noites  mais longas,  mas amenas, árvores suplicantes mas ainda viçosas e realização das promessas de fim de ano. Na Páscoa, daqui a pouco, tudo explode em chocolates e planos para o inverno.

Neste ano, o abril precipita a sucessão política. Ano que vem, eleições gerais para Presidente, Governador e renovação dos respectivos legislativos. A situação nacional é periclitante, mas, aos poucos Temer é visto como um mal menor e vai estendendo seu horizonte até seu sucessor. Os eleitores ainda dizem que odeiam a Política e os Políticos mas quando chega o dia de eleições torcem pelos seus candidatos como numa final de campeonato. Esquecem-se das mazelas com a mesma rapidez que se esquecerão do nome em quem votaram, sobretudo para as Assembléias. É o Brasil...

No plano nacional o cenário é confuso. Lula corre na frente nas pesquisas eleitorais  - apesar da alta rejeição - e não dá muita chance a seus eventuais contendores, dentre eles a eterna Marina Silva, pela Rede, o imprevisível  Ciro Gomes, pelo PDT, Bolsonaro, pela extrema direita e uma incógnita pelo centro direita, vez que os candidatos até agora os tucanos cotados atolam-se em denúncias - Aécio Neves, José Serra e o Governador Alkmin, de São Paulo-  abrindo campo para  a emergência do Prefeito de São Paulo , João Doria.  A grande dúvida neste cenário é Lula. Será realmente candidato? Seu último artigo na FSP  - “A sombra do estado de exceção se ergue sobre nós” /  29 março 2017 - mais se parece a uma Carta Testamento , de quem se despede da vida pública, do que o lançamento de candidatura. Mas, talvez, isso se explique pela sua delicada situação perante a Justiça. Um passo em falso e o que é uma conjectura de condenação em um dos processos  a que responde se desdobra como desacato. Mas ninguém exclui a possibilidade de uma grande novidade no pleito de 2018 , com um candidato que expresse uma postura mais construtiva a favor da reconstrução nacional, papel que exige uma centralidade do tipo desenvolvido pelo atual Prefeito do Rio de Janeiro. Ou, por outro lado, a emergência explosiva de algum populista de ocasião, tipo Collor. A questão central, entretanto, nem é quem ganha, mas o que poderá fazer neste cenário de descrédito do Estado e de manutenção do arcabouço geral do sistema político nacional, visivelmente viciado.

No âmbito estadual, já se fala na aspiração do Governador Ivo Sartori em concorrer à reeleição. Contra ele conspira a tradição da não reeleição de ocupantes do Piratini e a  tão visível baixa popularidade de seu nome que nem pesquisas são contratadas... Mas Sartori guarda consigo a esperteza atribuída aos velhos descendentes da colônia italiana. Tem na cartola o coelho da retomada dos gastos públicos, com convincentes aumentos salariais, no último ano de Governo, tal como o cumprimento do Piso Salarial dos Professores e novas incorporações na Brigada Militar, tudo acompanhado pelo discurso pré-elaborado desde o primeiro dia de seu governo: -“ Reorganizei as finanças destruídas do Estado”. Um trunfo, mesmo que pouco consistente. Na verdade, tenho sempre assinalado que faltou, tanto ao ex governador Tarso Genro como ao PT o vigor indispensável para enfrentar a sinistrose denunciada por Sartori. No caso de Tarso é evidente que deveria ter percorrido o Estado explicando-se. Argumentos não lhe faltariam, pois é evidente que ele não deixou o Estado em ruínas como alega seu sucessor. Pelo contrário, a economia do Rio Grande nos anos da administração petista comportaram-se até melhor do que a economia nacional e nenhum salto significativo na dívida do Estado justifica a sinistrose que nos equiparou ao Rio de Janeiro. O que ocorreu foi simplesmente uma perda conjuntural de receita, em decorrência da recessão econômica, algo que deveria ter sido enfrentado com competência de caixa e elegância republicana. Tudo indica, porém, que o PT e seus líderes foram imobilizados   para enfrentar o campo de batalha. Preferem as tribunas, enquanto a praça, onde mora o acontecimento, fica à deriva de oportunistas.

Sartori vai enfrentar dois novatos e, talvez, a Senadora Anamélia, que já falhou feio na primeira tentativa, em 2014: Jairo Jorge, ex-prefeito de Canoas, filiado ao PDT, com razoável penetração na Região metropolitana de Porto Alegre e o deputado Miguel Rosseto, do PT, de Caxias do Sul, ambos com pouca penetração no interior, onde o PMDB reina e o PP de Anamélia lhe segue de perto Rosseto, por enquanto, estaria na frente de Jairo Jorge, mas tem um discurso mais estreito do que ele, vez que expressivo da tendência Democracia Socialista, dominante no  PT gaúcho. Jairo, com origem no PT, tem a seu favor, em compensação, maior  experiência administrativa, relativamente exitosa como Prefeito de Canoas, segundo município em população no Estado.  Inexistem , ainda pesquisas de opinião sobre essas alternativas. mas tudo indica que será por aí que avançaremos. O momento, segundo especialistas, exigiria um concerto de fino jazz, na figura de concorrentes com perfil desassombrado e grande envergadura de atitudes, lembrando tipos como Pinheiro Machado, Getúlio ou mesmo Paulo Brossard, mas teremos que nos contentar com o “solo de clarinetas”...  Consta, enfim,  que Rosseto e Jairo Jorge já se movem com assessores e consultores vislumbrando o pleito que se aproxima. Uma boa opção seria uma soma dos dois, mas quem, se atreve colocar o guiso no gato...?  Até agora, pois, só especulações. Ninguém sabe o que proporão. Já Sartori tem um novo slogan: “Tapei o buraco, agora quero erguer  Um Castelo no Pampa.” , em alegoria a Assis Brasil...

 

 

ALMANAK DO TIMM - DIA 01 de abril de 2017

BRASILIA CAPITAL – Um bom debate

 

Renate Land – São Paulo , postou e comento

“O maior golpe foi Brasília e um Congresso distante do povo .  Volta pro povo Congresso. Vamos incendiar esta ideia.”

Paulo Timm - Lamento discordar. Fui um entusiasta da transferência da capital e morei em Brasília, onde fiz minha carreira e vida pública, por 35 anos. Há povo, sim, em Brasilia, apesar de que ela aparece sempre como o lugar dos ausentes, isto é, o GOVERNO. A Região Metropolitana de Brasília é uma das maiores do país, com 4 milhões de habitantes, extremamente informados por um número considerável de rádios, jornais e revistas locais, sindicatos e ONGs organizadas, bairros com sólida representação popular e sempre presente na PRAÇA DOS TRES PODERES nos momentos cruciais da vida nacional. Lembro, apenas, a grande mobilização da cidade na defesa das DIRETAS JÁ por ocasião da apreciação da EMENDA DANTE DE OLIVEIRA, em 1984. VIVA BRASILIA, símbolo dos ANOS DOURADOS no BRASIL e expressão do engenho e arte da civilização brasileira. Aliás, foi a direita furibunda e atrasada, sob a égide da UDN, que sempre condenou a construção de BRASÍLIA,

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Renate Land Querido, Brasília sem dúvida tem todo esse brilho, mas está numa redoma. Parece um país distante do Brasil e não temos como interferir a não ser fechando a Paulista. Queria ver se Congresso fosse numa grande capital. O q essa corja teria coragem de fazer?

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Paulo Timm Não é BRASÍLIA que está distante do BRASIL, são os políticos brasileiros...De resto, Brasília é uma grande capital, embora sem a pujança econômica de São Paulo ou com a tradição cultural do Rio de Janeiro. Mas, simbolicamente, é muito mais BRASIL do qu...Ver mais

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Renate Land Pois é...por isso defendo um Congresso mais central geograficamente. Seria muita economia de tanto deslocamento e serviços.Nao conheço a proporçao geografica de parlamentares, mas imagino uma reduçao violenta de custos, sem contar viagens de empresários e prestadores de serviço.
Sem contar q a participaçao na plenária seria muito concorrida.

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Paulo Timm Posso dizer que, do ponto de vista ORÇAMENTÁRIO a economia de viagens , é insignificante. De resto, BRASILIA é o grande HUB da aviação no país, pois é seu LUGAR CENTRAL. Esqueça. BRASILIA É A CAPITAL que melhor expressa o BRASIL. Levantem SÃO PAULO contra o esbulho que este GOVERNO represente e teremos uma nova política no país.

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Paulo Timm Mexeu com BRASÍLIA, mexeu com meus brios nativistas...kkk

 

Renate Land Kkkk....amo a cidade. M sinto muito bem lá, mas com os políticos aqui em sampa pra pularem miudinho.

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Paulo Timm Livrem-se primeiro do DORIA e do ALKMIN aí Depois deem palpita sobre BRASILIA CAPITAL...

 

 

 

ALMANAK DO TIMM – Dia 31 de março de 2017

Rafael Bicca Machado no FACE BOOK – Cobrança nos Pós das Universidades Federais

A rejeição do projeto pelo qual as universidades federais poderiam cobrar mensalidade na pós-graduação é prova clara de que esse país (esse Brasil, com esse tipo de mentalidade) não tem a menor chance de dar certo.

 

Comento:

Sei não. Assunto controverso.

 Na Alemanha, se não me engano, o Governo está no caminho da educação pública e gratuita em todos os níveis. De qualquer forma a questão chave seria: Quanto custa isso, relativamente ao auxílio moradia de juízes e procuradores., quanto às aposentadoriasespeciais  dos políticos, policiais e militares? Ou, se quisermos, relativamente ao Orçamento da Educação como um todo? Se for um valor comprometedor, até acho que tem sentido. Mas em abstrato, como princípio, sou pelo ENSINO UNIVERSAL PÚBLICO E GRATUITO EM TODOS OS NÍVIES, como nos legou a Revolução Francesa.

 Produtividade talvez seja a palavra chave sobre a qual nos deveríamos debruçar. E sobre ela há uma imensa discussão técnica e filosófica.

Mede-se sempre a produtividade com relação à alguma coisa. É uma medida relacional: Quantidade de sacos de milho por hectare; número de carros por operário empregado numa montadora.

 Quando vamos incorporando ao denominador variáveis mais complexas, como meio ambiente, distriibuição de renda, poder e prestígio, crescimento de medio e longo prazos, felicidade e bem estar, humanização da espécie, tudo vai se complicando, mas isso, claro, é um tipo de raciocínio renascentista. Só serve pra complicar mesmo as coisas. Melhor é segmentar, cortar, individualizar, daí tudo fica claro.

Daí porque não tem sentido a "discussão". Não existe diálogo na Filosofia ou entre Filosofias Políticas antagônicas.. O único que podemos e devemos é, talvez, aprender a conviver com as diferenças de opinião,  sob o controle social da guerra de todos contra todos, isto é, da Lei, sob a forma superior de Estado

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ALMANAK - Dia 30 de março/2017

QUE TAL COMEÇAR TUDO OUTRA VEZ?

Paulo Timm – março, 30 -2017

 

Hoje acordei cedo e me deparo com o desabafo da f@ce amiga Isabel Pacheco, que reproduzo e comento:

“Acordei com a notícia da operação Quinto dos Infernos (quero chamar assim). Conheço um dos presos, uma pessoa boa de conviver. Não fiquei surpresa, mas o fato mexeu comigo. Para que se meteu em encrenca? Será que não havia outro jeito? Quanto e por que roubaram durante tantos anos, se não precisavam disso?


O dia de trabalho corria difícil, pois tive que encarar desafios que não necessariamente me agradam. Era só mais um dia de suor para ter uma vida digna. Até que me procurou alguém que sempre esteve de bem com a vida, me falando dos planos de ir embora do país com a família. Apenas mais um entre milhares (eu, inclusive, tenho pensado nisso), mas desse eu não esperava o desânimo.

 
Encerrei o dia no supermercado, vazio de dar pena. Pelos cantos, os funcionários falavam da vida dura, do Fundo de Garantia, da jornada pesada para ganhar tostões. O gerente me disse que a crise do funcionalismo público provocou um baque nas vendas. O sistema de som anunciou que o mercado está recebendo currículos e finaliza: “Venha fazer parte desse time vencedor”. Nessa hora, percebi meus olhos marejados. 
 

Penso que falta muito para varrermos a corja escrota do poder. Que a maioria de nós, não poderosos, trabalha uma vida inteira para sobreviver e, se possível, ter espaço para pequenos prazeres. Nessa ralação de décadas, somos os otários que bancam os prazeres dos canalhas. Viagens, joias, carrões, iates, jatinhos, bebidas etc. Suamos para construir um futuro melhor para nossos filhos, enquanto os canalhas gargalham de nós. Mas é bom que as máscaras, uma a uma, estão caindo. Um dia, quem sabe, nossos filhos terão competência para transformar em realidade tudo aquilo que apenas sonhamos.
Amanhã o astral melhora. Ou não
.”

Comento:

Crônica antológica, que bem demonstra o estado de espírito dos brasileiros. mas ainda evasiva. De que adiante ir embora do Brasil? O homem emigra com sua concha.Levamos nossas cruzes conosco. Somos portadores de uma cultura plástica, mas muito original. Vivi no exterior na juventude e hoje passo um tempo do ano em Portugal. Sempre com o Brasil no corpo e na cabeça. Difícil. Não há adaptação ideal no exterior. Sempre seremos estrangeiros. O jeito é arrumar mesmo a casa, o que não é fácil. Mas não foi fácil para os europeus, para os chineses, para os próprios americanos. Temos que aprofundar o diagnóstico, reconhecendo que somos uma sociedade única no mundo que carrega um passivo de 400 anos de escravidão e ainda o monopólio da terra e ativos pela Casa Grande. Resultado: 100 milhões que ganham até um salário mínimo e vivem em periferias metropolitanas em condições indignas. Não obstante, já fomos piores. Fomos um fazendão do café e da cana.  Fomos, porém,  o fenômeno do século XX, crescendo e multiplicando-nos de forma invejável. Hoje exportamos aviões. Podemos retomar o caminho do mínimo de consenso nacional....Divididos, retrocedemos. Que tal...?

 

Que tal acabar com os Partidos Políticos e com o Fundo Partidário?

Que tal acabar com as coligações esdrúxulas?

Que tal acabar com o Senado Federal?

Que tal acabar com a Previdência privilegiada dos Políticos?

Que tal acabar com o monopólio da grande mídia sobre a imprensa alimentada por recursos públicos?

Que tal acabar logo com este anti-governo e convocar DIRETAS JÁ?

Que tal uma nova política com relação à dívida pública?

Que tal uma Revolução da Educação?

Que tal uma estatização provisória do sistema bancário com redução dos juros a zero?

Que tal mandar o Gilmar Mendes e o Janot calarem a boca?

Que tal resolver de vez o imbróglio do Renan Calheiros, do Jucá e do Padilha?

Que tal divulgar quem é mesmo, se houver,  o Rei da Cocada Preta?

Que tal começar tudo outra vez?

Eu e o Gonzaguinha, eterno, começaríamos, ao som do samba canção que nos junta.

Meu caminho é de pedra. Como posso chorar?

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