Coluna Paulo Timm

 

 

Lições das eleições presidenciais

Na quinta feira anterior ao domingo das eleições, dia 4 de outubro, assistimos aos últimos acordes dos candidatos à Presidência, neste ano da graça de 2018.  Terá acabado o programa eleitoral dito gratuito, porque pago pelo Governo, no rádio e televisão, que chega aos mais recônditos grotões do território geográfico e social do país.  E os candidatos  terse-ão confrontado pela última vez, tal como nas últimas eleições, na telinha da Globo. Reta final, na qual é sempre possível alguma surpresa. A tendência mostra  dois vencedores no primeiro turno: Bolsonaro, pela direita, x Haddad, pela esquerda, com uma diferença de 10 pontos, aproximadamente, a favor do primeiro. As surpresas poderão ser uma eventual vitória de Bolsonaro no primeiro turno ou uma ultrapassagem, de última hora, de Ciro Gomes, do PDT, sobre o petista. Afinal, chegamos às urnas com quase um terço dos eleitores ainda inseguros quanto à sua participação. Vai que... Ambas alternativas, entretanto,  dadas como improváveis, embora possíveis. Bolsonaro e Ciro foram, enfim, foram os protagonistas com melhor performance pessoal na atual campanha. Podem surpreender.

Quais as lições que podemos tirar desta eleição presidencial?

Persiste, entre nós, o embate entre duas visões de mundo: Conservadores versus Progressistas, nome mais geral para identificar, respectivamente, direita e esquerda. Conservadores são mais identificados com a manutenção da ordem, seja ela social, cultural ou econômica. Reagem ao ritmo das transformações, hoje alimentados pelos 20 milhões de evangélicos.   Progressistas, como o nome sugere, são mais favoráveis às mudanças, que identificam como progresso, em quaisquer dos âmbitos da sociedade. . Uns e outros mudam de fisionomia, mas subsistem, nos seus vários tons – menos de 50! -  no cenário eleitoral, desde 1950.

Naquela época venceu Getúlio Vargas, que era o candidato progressista sob a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro. Ganhou, levou, mas não chegou ao fim do mandato, tamanha a campanha conservadora que se abateu sobre ele, que estaria acobertado por um “Mar de Lama”. Curiosamente, à então Oposição,  associaram-se os comunistas, que não o viam com bons olhos,  desde os tempos que penaram nas prisões a tentativa de derrubar o regime em 1935. Suicidou-se Vargas em 1954, para não ser deposto.  Com isso virou a conjuntura, graças à forte comoção social dos trabalhadores urbanos, sob a qual sossobraram os órgãos de imprensa que o combatiam. Vieram as eleições de 1955 e, de novo, o embate entre as duas facções ideológicas, bastante moderadas: Apoiado pela esquerda, reunificada depois da morte de Vargas,  JK vence e abre o Brasil para os gloriosos “Anos Dourados”, quando pontificaram a Bossa Nova, o Cinema Novo, as grandes obras das 30 Metas de seu Plano de Governo, sobre o qual erigia-se o produto da  ciência e arte da engenharia brasileira, a nova capital, Brasilia. Apesar da  euforia da época,  tropeçam as forças progressistas que apoiavam  JK, na sua sucessão, quando apresentaram o General Lott como candidato, ao feitiço da “vassourinha” da direita: Sobe o controvertido Jânio Quadros, apoiado pela UDN tendo como Vice, verdadeira loucura, um Vice eleito pela esquerda, João Goulart. Votava-se, então, separadamente, para Presidente e para Vice. Daí o paradoxo. Duram apenas sete meses as ilusões conservadoras. Jânio renuncia, abre-se uma grave crise militar, pela objeção da caserna à posse de Jango, Brizola resiste na Legalidade e, enfim, voltam os progressistas, por linhas tortas, à Presidência, com Goulart para completar o mandato interrompido. Ressentidos, inconformados e radicalizados, os conservadores o derrubam, porém,  com apoio militar imbuídos da ideologia da Segurança Nacional da Guerra Fria,  em 31 de março de 1964, num dia que se prolongará na escuridão autoritária por 21 anos. Redemocratização e nova campanha presidencial em 1989. Ganham, surpreendentemente, os conservadores, endossando o nome de Collor, numa reedição de Jânio, que derrota um Lula ainda tímido no segundo turno. Abre-se, então, um  caminho de grande renovação dos quadros da política nacional, tanto à esquerda, pela projeção do lulo-petismo, quanto da direita, que sufragará Fernando Henrique Cardoso, com ampla penetração nas classes médias urbanas, por duas vezes: em 1994 e 1998. Progressistas e Conservadores,  passam, a partir daí, por grandes metamorfoses internas, deslocando-se, cada vez mais, para duas tendências da social-democracia, como inspiração de mudança gradual: O PSDB, de FHC , distante da velha direita militarista e o PT, de Lula, independente dos comunistas e trabalhistas históricos, com apoio da Igreja Católica inspirada na Teologia da Libertação, do novo sindicalismo que se associaria a uma combativa central – CUT -  e grande parte da inteligência. Em 2002, 2006, 2010 e 2014 os petistas levam a melhor, mas sucumbem no impeachment da Dilma em 2016, no bojo de uma radicalização cada maior de um e outro lado, com um consequente debilitamente do centro.

Em 2018, mais uma vez, assistimos a contenda histórica entre Conservadores e Progressistas, matizada, porém, pela radicalização polarizada das respectivas tonalidades. A direita civilizada globalista do PSDB perde espaço para um novo personagem, Bolsonaro, que personifica, quase sozinho, mas com competência -soterrando as pretensões de aliados ideológicos como Amoedo, Meirelles e Alkmin - o anti-petismo,  enquanto o PT, em seus desdobramentos com a prisão de Lula, opta por uma solução mais esquerda, em aliança com PcdoB como solução à sua própria crise. O velho centro, representado durante toda a redemocratização pelo PMDB se esvai, empurrado à direita pelo Governo Temer, ficando  reduzido à menores expressões regionais dissidentes no nordeste. Isso, aliás abriu uma brecha para novas narrativas,  como Ciro Gomes, do PDT e Marina Silva, da Rede, ainda carentes de confirmação.

Erram, pois, todos os que insistem que o Brasil nunca teve Partidos. Não só os teve, como fez sua História no embate ideológico entre correntes competitivas. Ao longo das crises, sempre havia, entretanto, uma opção centrista que apontava, não propriamente para uma conciliação nacional, como foi JK, em 1955, Tancredo Neves, em 1961 e Ulysses, na redemocratização, com epílogo na Constituição Cidadã de 1988, que cumpre, hoje, 30 anos. Mas o Brasil mudou e trouxe no bojo de suas transformações novos desafios. Ao voto, o critério do aprofundamento da democracia-entre-nós e não seu desastre, como muitos, em vários lugares do mundo, já o pressentem.  

 


 

É O FIM DO CAMINHO

                                           Paulo Timm – Especial A FOLHA, 27-30 Set -

 

Já não há muito o que dizer  sobre pesquisas eleitorais para Presidente. A última pesquisa do  Ibope encomendada pela CNI. e divulgada no dia 25 de setembro já disse tudo: Bolsonaro, 27% x Haddad, 21% disputam o primeiro turno, deixando para trás Ciro, Alkmin e Marina. Datafolha pouco difere. Paradoxalmente, os dois primeiros colocados, em torno dos quais se condensase o chamado voto útil, são também os campeões de rejeição. No segundo turno ganhará o que tiver não a mais alta preferência, mas a relativamente menor rejeição.

Pode ainda haver alguma surpresa até 07 de outubo? Dificilmente, mas como dizem os pessimistas: -“ Vai que...! Ou seja, ainda pode acontecer um imprevisto, seja como fatalidade que atinja um dos candidatos, seja como resultado de um passo em falso, sobretudo por parte de Bolsonaro. Isso porque sua liderança se restringe ao processo eleitoral, sem âncoras na estrutura partidária ou na sociedade civil, embora tenha articulações com os meios militares. Sua campanha opera sobre a imagem de um homem acima de qualquer suspeita de corrupção e negociações espúrias em troca de cargos e contratos. Iimagine-se, então,  que fatos concretos venham à tona arranhando esta imagem. Isso pode ter um efeito rápido e deletério sobre seu nome redefinindo em poucos dias todo o processo eleitoral. Haddad tem menor imagem mas é melhor ancorado na sociedade. Dificilmente virá a ser abalado no primeiro turno. Não obstante, vai sofrer forte ataque de corte ideológico no segundo turno. Bom que vá se preparando para o pior...

Encaminhado o procedimento eleitoral as atenções começam a se voltar para a governabilidade. Qual o governo que emergirá de Bolsonaro ou Haddad. A Revista liberal-conservadora inglesa ECONOMIST prevê sérias ameaças não só à economia, como às instituições brasileiras, caso o primeiro venha a ser o Presidente. Bolsonaro tem aversão ao Congresso Nacional e avisa que vai governar com rédea curta e  linha dura. Ora pode gerar sucessivas crises políticas que desemboquem em caos institucional. Já Fernando Haddad tem mais disposição em reeditar o modelo de Presidencialismo de coalização com o Congresso, prevendo-se melhor governabilidade, ainda que sob o alegado risco de maior heterodoxia no manejo da política econômica. O risco maior de sua gestão, entretanto, está no modelo de conciliação com os políticos resultando nas velhas rodadas, tanto  do patrimonialismo, como do corporativismo. Curioso que, seja com um ou outro, já pouco se fale em Lavajato. Aquela que parecia ser a grande tormenta que varreria a velha política mostrou-se totalmente ineficaz como instrumento de reforma do sistema. Em todo o país, salvo um ou outro cacique, como Sergio Cabral e Cunha, presos, os mesmos Partidos, as mesmas famílias, os mesmos processos, fudados na Bíblia, na Bala, no Boi, no Barracão moderno, continuam disputando alegremente as eleições. Haverá pouca mudança no sistema político. Poucos políticos de convicções.

Mas se o sistema resiste à mudanças, as instituições civis do Estado, cantados em prosa do Presidente da República na Assembleia das Nações Unidas, dão mostras de tensões, esgarçamento e até rachaduras ocasionais.

O Itamaraty está chocado com a iniciativa da Governadora de Roraima em se encontrar, em solo estrangeiro,  com o Presidente Maduro para tratar do repatriamento de venezuelanos. Isso é prerrogativa federal, a cargo do Ministério de Relações Exteriores, mas ela nem deu bola. Na semana, chegaram os primeiros ônibus para o negociado repatriamento.

Não bastasse, o Ministro Barroso deu uma entrevista ao Grupo Folha denunciando “essa gente que distribui senhas – no STF – para conceder habeas corpus”. Isso é extremamente grave. A linguagem é indigna de um membro da mais alta Corte de Justiça. "Tem gente" não é expressão de gente responsável, muito menos um membro Do Supremo. . Soa a carta anônima, cujo melhor destino é sempre o lixo. Servidor Público ou cidadão consciente, quando confrontado com um ilícito tem a obrigação de denunciar  o mal feito em foro competente e dar nome aos bois.

No Rio de Janeiro, a Intervenção Militar claudica sob o peso do aumento da violência e seu titular,  o general Walter Souza Braga, que não conseguiu, depois de seis meses, desvendar quem matou Mariele, nada tem a declarar.

Convenhamos:

“É o pau, é a pedra, é o fim do caminho”

São as águas da primavera  anunciando um verão  tormentoso com  El Niño.            

 


Almanak do Timm - FBOOK

 

Bolsonaro não é o único problema.

Tenho insistido que a questão Bolsonaro não se esgota no inominável , aqui nominado para efeitos de reflexão. Ele reflete o pensamento militar dominante, cujas raízes estão na "limpeza" ideológica feita nas Forças Armadas depois de 64. Vale ver o filme OS MILITARES QUE DISSERAM NÃO, que evidencia a pluralidade ideológica anterior ao Golpe de 64, financiado e conduzido pela inteligência americana. Um golpe, sobretudo, anti-nacional, porque dirigido do exterior. Eu próprio, fui cadete na ESCOLA PREPARATÓRIA DE PORTO ALEGRE antes de 64 e posso testemunhar a pluralidade de ideias dos oficiais e professores daquela época. Por razões pessoais não quis seguir a carreira militar, típica da família. O que quero dizer é que, desde a redemocratização, não conseguimos entronizar nas FFAA um pensamento realmente democrático. Vigoram e vicejam as ideias da Era da Guerra Fria, acrescidas de uma nova suposta ameaça às instituições democráticas representadas pelo ambientalismo. Ver, por exemplo, o GLOBONEWS PAINEL do ultimo dia 15 set. Ora, isso tudo é extemporâneo e inadequado às novas exigências da competitividade internacional, as quais impõem uma sólidade unidade nacional com vistas à sobrevivência do Brasil como Nação. Para tanto, teremos que enfrentar as tarefas de adequação do protagonismo militar trazido pela campanha de Bolsonaro à esses novos tempos. Ler, a propósito :PARA RETOMAR O FUTURO, por JOSÉ LUÍS FIORI[1]
Publicado em www.desenvolvimentistas.com.br 
“As “grandes potências” se protegem coletivamente, impedindo o surgimento de novos estados e economias líderes, através da monopolização das armas, da moeda e das finanças, da informação e da inovação tecnológica. Por isto, uma “potencia emergente” é sempre um fator de desestabilização e mudança do sistema mundial, porque sua ascensão ameaça o monopólio das potências estabelecidas”.
J.L.F. “História, Estratégia e Desenvolvimento. Para uma Geopolítica do Capitalismo”, Editora Boitempo, 2015, SP, p: 30

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ELEIÇÕES EM PROCESSO

Segue o curso das eleições, com muitos acontecimentos, opiniões desencontradas e inúmeras pesquisas sobre a preferência dos eleitores. Como sempre afirmei aqui, Lula não é candidato. Na forma de Lei, impedido de competir embora não impedido de influenciar o eleitoral indicou Fernando Haddad, ex Prefeito de São Paulo, como seu substituto na cabeça da chapa do PT. Diante de tudo isso, há pouco a acrescentar. Há alguns consensos:

Bolsonaro lidera as pesquisas, tangenciando os 30% de preferência, índice um pouco mais alto do que aqueles confirmados, há tempos, por pesquisas, que mostram uma significativa parcela de brasileiros que não acreditam na democracia e namoram o retorno ao autoritarismo.

1.       Ciro, Marina, Haddad e Alkmin estão embolados na segunda colocação, na tentativa de de disputar com Bolsonaro o segundo turno, que promete ser bastante disputado, apesar do alto índice de rejeição de Bolsonaro, mas que, aparentemente, depois da facada, parece diminuir um pouco.

2.       Os demais candidatos não detêm qualquer competitividade. Terão cumprido, segundo as vocações que os induziram às candidaturas seu destino, em alguns casos idealismo de esquerda (Boulos e Iza) ou de direita (Amoedo), vaidade pessoal (Alvaro Dias e Meirelles) ou interesses menores.

Isso posto, restam  algumas reflexões sobre como as coisas acabaram ficando do jeito como estão. E como ficarão.Aqui minhas observações:

 1.Acho mesmo que o segundo lugar, tal como Paulo Bahia , A.C.Almeida e outros analistas,  vai estar entre HADDAD e CIRO, cuja disputa poderá comprometer o apoio de um deles ao outro no segundo turno, colocando em cheque uma alternativa mais à esquerda.  Situação delicada. Melindrosa. Recomenda-se usar luvas para evitar ferimentos profundos, com jeito para somar com os votos perdidos em Marina e Alkmin.


2. Haddad tem maior campo para crescer, do que o Ciro. Vox Populi já o aponta na frente de todo mundo, o que considero exagero. Tem tempo de TV, tem a organização e a vantagem dos 30% dos eleitores que defendem o  PT, tem o apoio de Lula, tem, enfim, tudo para ultrapassar Ciro. Mas este tem mais carisma e, sobretudo,  combatividade. Isso talvez o credencie para o voto útil de última hora para um embate final com Bolsonaro-

 

3.A grande realidade que nem a esquerda, nem a direita moderninha, inaugurada pelos tucanos, quis e quer ver é que emergiu, do turbilhão da crise, um líder direitista, com tamanho eleitoral comparável ao do Lula: Bolsonaro. Ninguém o queria, muito menos eu, mas ele acabará no segundo turno. Oxalá não saia Presidente. Mas marca, em sua trajetória, duas coisas: (1) Reversão  radical do conservadorismo contra o encaminhamento democrático dos conflitos e (2) Novo protagonismo das Forças Armadas enquanto pensamento e corporação. No futuro, mesmo que Bolsonaro não vire Presidente temos que pensar sobre isso. As Forças Armadas, no Brasil – talvez no mundo – são fortes e importantes demais para ficarem entregues à sua própria sorte.

 

 4. Quanto a esta nova direita deve-se recordar que Direita, no Brasil, ficou historicamente identificada com ditadura, regime militar, fascismo. Caiu em desgraça desde a redemocratização, graças ao FHC, vindo, agora, à tona, com muita força,  com a candidatura Bolsonaro. Isso não vai mudar. Acabou a era da direita “civilizada”. Em tempo, ressalte-se que , no mundo ocidental  a direita tem mais um sentido econômico, de defesa dos princípios do Neoliberalismo, calcada na ideia do Estado Mínimo do que no autoritarismo.  Aqui este segmento confunde-se com os famosos “50 Tons de Temer”: Meirelles, Amoedo, Alkmin e, até certo ponto Marina. Todos eles , menos Bolsonaro, se dizem de centro, quando, na verdade, são de direita. O CENTRO CONTEMPORÂNEO é outra coisa: consiste na tentativa de juntar lideranças que acreditem, sim, que  HÁ ALTERNATIVAS fora do neoliberalismo, tanto para a democracia, quanto para a reforma do sistema econômico fora do neoliberalismo.

 

5, Alberto Carlos Almeida , famoso analista político, afirma que ″Eleições podem revelar um Brasil dividido entre PT e anti-PT″ . Está errado. Esta pode ser apenas uma  forma de dizer. O Brasil vem se dividindo cada vez mais entre Esquerda X Direita, desde 1950. Mudam , certamente, os tons de um e outro. Agora, voltamos à direita não civilizada e a própria esquerda também se radicalizou, substituindo um José Alencar, como Vice, na chapa do PT,  por uma representante do PCdB. Ou seja, a polarização histórica, mercê de vários fatores subjetivos e objetivos, está se agudizando impedindo uma saída de conciliação.

 

6. O Brasil corre o risco, depois desta eleição de ficar dividido em cortes verticais irreconciliáveis entre Nordeste x Sul/Sudeste, corporações x sociedade, Nós x Elles, Poder Executivo x Poder Legislativo. Um perigo.

 

 


 

SINAIS DE FUMAÇA

Paulo Timm – Especial A FOLHA, Torres 06 set

 

Os sinais de fumaça não vieram, nesta semana, apenas do incêndio inadmissível e pavoroso do Museu Nacional do Rio de Janeiro - dor excruciante! - , sobre o qual discutem-se responsabilidades, que vão recaindo, cada vez mais, sobre as mais altas autoridades da República, mas também de uma conjuntura paradoxal.  Eis como um analista os vê, em seu FB:

Róber Iturriet- Porto Alegre: Parece que os ventos mudaram entre aqueles que detêm o poder.

1. Globo se reuniu com o Bolsonaro. 
2. Ministério Público de São Paulo (e Temer) foi para cima do Alckmin.
3.Procuradoria Geral da República aliviou Bolsonaro no episódio da incitação à violência .
4. Temer deu o beijo da morte no Alckmin.

E eu acrescentaria, sobre os poderosos , que Temer  foi atingido, de novo,  com acusação da Polícia Federal de que teria  intermediado a propina de R$10 milhões, no Palácio do Jaburu, para a campanha do PMDB nas eleições de 2014, na qual embolsou, pessoalmente, mais de um milhão. Terá sido pra garantir o futuro do  Michelzinho?

Não obstante a persistência dos escândalos, a vida segue seu curso e o processo eleitoral seu incerto leito. A Pesquisa da semana – IBOPE-, divulgada na quarta feira à noite, dia 5 passado (setembro -https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/05/pesquisa-ibope-presidente-59-bolsonaro-lula-haddad-marina-alckmin-ciro.htm ), já sem o nome de Lula nas cogitações, confirma a vantagem de Bolsonaro em vários cortes, inclusive mulheres, mas principalmente como preferência de homens e jovens. Lula, a propósito, frustra parte do PT, mais chegada ao Haddad, ao prolongar sua saída definitiva do processo. Insiste em ser candidato.

I Turno: Bolsonaro tem 22%; Marina e Ciro, 12%; Alckmin, 9%; Haddad, 6%... –

II Turno – Bolsonaro sobe do patamar de 22% para 33% perdendo para todos os eventuais concorrentes, salvo Haddad. Pobre Haddad, lembra Mário, o grande general romano que, na época das Guerras Sociais (91-88 AC),  tinha que conduzir por tortuosos caminhos suas “mulas”, na tentativa de manter os bárbaros à distância de Roma.

Confirma o IBOPE, também, a dificuldade de Alkmin para levantar voo e uma virtual estagnação de Marina Silva. Meteu-se Alkmin a criticar o Governo, sustentado pelo seu Partido, o PSDB e levou bomba até do Presidente Temer, que o chamou à verdade -https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/05/em-video-temer-critica-alckmin-fale-a-verdade.htm . Trágico! Marina, enfim, parece não estar conseguindo capitalizar os votos antes destinados ao Lula, os quais, aparentemente, sobretudo no Nordeste, se dirigem para Ciro. Outro destaque deste IBOPE: Bolsonaro perderia para todos eles no segundo turno, exceto Haddad, mercê de sua mais alta e crescente rejeição – 43% - comparada aos demais. Alívio! A Pesquisa demonstra, ainda, para minha surpresa, uma redução do número de “não votos”, evidenciando, provavelmente, um maior envolvimento do eleitorado com o processo.  Na rabada da Pesquisa, os extremos conceituais, de esquerda e direita, estes – Meirelles e Amoedo – com melhor desempenho que os tradicionais  PSOL e PSTU. Eis como este analista vê a situação:


Paulo Baía
 – Pesquisa Ibope – FB acesso a 6 setembro.

 

A pesquisa Ibope com as intenções de voto para presidente da república divulgada hoje, dia 5 de setembro, destaca o crescimento de Jair Bolsonaro, Geraldo Alckmin, João Amoedo e Fernando Haddad.
Também vale notar a estagnação de Marina Silva.
O não voto diminuiu de forma significativa.
Já se sentem os impactos das campanhas iniciadas em 16 de agosto.
Creio que a visibilidade conferida aos candidatos pelas diversas mídias impressas e eletrônicas também se faz presente nessa pesquisa.
Contudo, os impactos da propaganda eleitoral nas rádios e nas televisões ainda é fraco.
 

Enquanto isso, a economia nacional vai derretendo diante da valorização meteórica do dólar e dos pífios indicadores que refletem o alto nível de endividamento da 60 milhões de brasileiros inadimplentes no SERASA e, portanto, impedidos de voltar ao circuito do consumo; das empresas, sobretudo as que se endividaram em moeda estrangeira, num valor superior às Reservas Cambiais do país, corroendo-as; e Governo, que terá que absorver mais uma corrida salarial desfechada pela elevação do teto dos funcionários públicos para R$ 39 mil, num arco de desfaçatez imperial 200 vezes superior ao de um salário básico. É o Brasil, que nem se pode dar ao luxo de olhar esperançoso para a Argentina de Macri.  Lá, também, se prenuncia a reedição da crise dos anos 80, que desembocou na Era Kirchner (2003-2016): Crise Cambial e Fiscal,  Empréstimo FMI, desvalorização do peso, inflação galopante e forte turbulência social, com diversos saques em lojas e supermercados. Lembra Rimbaud: “O um é o outro”...

Mas não percamos a esperança. Ouçamos o Daemon, que cochichava aos ouvidos de Sócrates: Apesar dos dias difíceis, há noites estreladas no céu de outono. Elas tecem o futuro. Tentação ou destino?


 

ELEIÇÕES 2018 NO RIO GRANDE DO SUL

Pesquisa Ibope no RS, devidamente registrada no TSE, com base no levantamento feito nos dias 14 a 16 de agosto.

* José Ivo Sartori (MDB): 19% - Eduardo Leite (PSDB): 8% - Miguel Rossetto (PT): 8% - Jairo Jorge (PDT): 6%

* Julio Flores (PSTU): 4% - Mateus Bandeira (NOVO): 2% - Roberto Robaina (PSOL): 2%

* Brancos/nulos: 28% - Não sabe: 22%

Espontânea

* José Ivo Sartori (MDB): 7% - Jairo Jorge (PDT): 3% - Eduardo Leite (PSDB): 2% - Miguel Rossetto (PT): 2%

* Julio Flores (PSTU): 1% - Mateus Bandeira (NOVO): 0% - Roberto Robaina (PSOL): 0% - Outros: 2%

* Branco ou nulo: 20% - Não sabe: 63% - TOTAL: 83%

 

O que dizer destes resultados preliminares para o Piratini? O mesmo que podemos dizer para os candidatos à Presidência da República: Não há nomes consagrados que empolguem a cidadania. Quando a Pesquisa não apresenta aos consultados uma lista com nomes dos candidatos, o número dos que não se manifestam positivamente alcança 83%. Impressionante! Nem mesmo o atual Governador, fartamente conhecido, na frente da corrida, consegue chegar aos 20% da preferência induzida dos eleitores, quando se lhes apresenta uma lista com o nome de todos os candidatos registrados. Tristeza. Não sei como está o processo eleitoral em outros Estados, mas, aqui no Rio Grande, poucos se comovem com os concorrentes. Aí, um amigo meu, do Rio de Janeiro, me pergunta: - Onde foi parar o Estado mais politizado do Brasil? O que está acontecendo aí? A esquerda derreteu?

 

Com efeito, o Brasil inteiro fala que o RS é politizado, confundindo isso com ser de esquerda. O Estado, na verdade, sempre foi politicamente agitado, mas muito dividido. Neste ano de 2018, então, está re-dividido: tanto a esquerda quanto a direita estão divididos internamente.

 

A divisão começou na Proclamação da República, quando um grupo de republicanos radicais apressou-se em mudar o nome das ruas e praças que homenageavam figuras do Império. Naquele dia, a Praça Conde d´Eu, na frente do Mercado, passou a chamar-se 15 de novembro, nome que guarda até hoje. Desde aquele fatídico dia as elites regionais se dividiram à morte, por razões ideológicas, promovendo duas guerras civis: Em 1893/5, sob a liderança de Saldanha Marinho e em 1923/5, sob a liderança do memorável Assis Brasil. Na época, este conflito não remetia à divisão esquerda x direita, mas acabou, nos seus desdobramentos, por criar as raízes históricas destas tendências no Estado. Os maragatos, estancieiros da campanha, foram os baluartes do liberalismo no Brasil; os chimangos, com epicentro na capital, os baluartes da esquerda, numa sequência que relevaria figuras como Julio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Leonel Brizola e Olivio Dutra, que vão do Partido Republicano, passando pelo Partido Trabalhista Brasileiro até desembocar no Partido dos Trabalhadores.

 

Os herdeiros do castilhismo (Julio de Castilhos), que controlaram o Governo de 1889 até 1930, ganharam a guerra civil, mas nunca dominaram completamente o Estado. Tanto que os maragatos diziam, naqueles tempos quentes, que eles manipulavam as urnas porque, se houvesse eleições livres, perderiam (?). Quem sabe? Isso era comum na República Velha, quando, em todo o país, grassava o bico de pena: a manipulação dos poucos votos levados à urna por uma sociedade aristocrática. De qualquer forma, Décio Freitas (1922/2004) grande historiador, de inclinação marxista, escreveu um livro com o título “Julio de Castilhos - O homem que inventou a ditadura”. Recorde-se, a propósito, que nem mesmo Brizola, no auge, da popularidade, depois da LEGALIDADE de 1961, fez seu sucessor.

Nas décadas posteriores aos conflitos da primeira metade do século XX, o desenvolvimento das áreas coloniais, serra acima, até o norte/noroeste do Estado, elevariam o peso do conservadorismo no Estado, compensando, com isso, o crescimento da esquerda nas cidades de maior porte. Hoje o PP, por exemplo, é fortíssimo nestas áreas, resultando, mesmo com eventual vitória do PT e do PDT ao Governo do Estado, uma maioria conservadora para a Presidência da República.

 

Neste ano, porém , a esquerda da Grande POA está dividida entre PT e PDT , ambos com boa penetração nesta região, mas escassa penetração no interior remoto do Estado, abrindo, com isso, espaços para Sartori e Leite. A campanha ideológica de Sartori contra o Estado e suas agências e servidores, cai mal junto a esquerda urbana, mas repercute bem no interior. Ele perde os funcionários públicos e desiste da esquerda, mas ganha o resto. Só não está melhor nas pesquisas porque foi muito pouco além do discurso catastrofista. Além disso, não teve capacidade para agregar os próprios partidos de direita, que o acompanham no Governo. Perdeu o PSDB, que tem candidato próprio e está com o PP atravessado, eis que as bases deste Partido estão galvanizadas pelo discurso ultrarradical do Bolsonaro. (Nem mesmo a presença de Anamélia Lemos , do PP, como Vice de Alkmin, elevou sua presença no Estado). Tudo indica que Sartori, que vinculou o PMDB ao Governo Temer, descambando para a direita neoliberal, acabará sendo ultrapassado pelo jovem LEITE, do PSDB, que tem boa avaliação, embora ainda pouco conhecido. Sua região, Pelotas, tem baixa polarização política e demográfica. A "metade" de baixo do Estado, que já tentou se dividir do Estado a favor da “Metade Sul”, onde estão Pelotas e R.Grande, é relativamente mais pobre e pouco povoada. ,

O quadro, enfim, não é surpreendente. A direita talvez ganhe , de novo, por aqui, tanto na Presidencial, como para o Governo. Se não for o Sartori, já “de-cadente”, será Leite, mais jovem e em franca ascensão. A divisão da esquerda entre dois candidatos que disputam os mesmo votos terá, certamente, sido fatal.


 

Fragmentos

Paulo Timm – Especial REPORTER INDEPENDENTE . Brasilia, set 4

“Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro”. Inscrição na entrada do Museu Histórico Nacional.

 

Setembro, dias 02- 2018 : Incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um dos dias mais tristes para a cultura brasileira, que, assim, assinalo no meu diário.Sinto-me Fragmentado. Despedaçado. Fico sem palavras, diante da tragédia que foi comentada em duas notas , apenas, ocas, vazias, da Presidência da República, ambas preocupadas com a "reconstrução" da obra. Não sabem que a memória perdida é irrecuperável. Em outras ocasiões, o Presidente, para se defender de acusações judiciais, pessoais, apareceu em cadeia nacional. Será que esta tragédia de caráter até universal não mereceria uma palavra direta do Presidente? Ou estará ele, como nós todos, brasileiros, também sem palavras diante do ocorrido...?

Tanta coisa se sucedendo neste país. A gente se sente estilhaçado. O paradoxo de ter um candidato à Presidência da República, preferencial junto aos eleitores, ex-presidente, preso; outro candidato, também bem cotado, proclamando o progresso a qualquer preço, sob a ameaça de armas e elogio ao autoritarismo; violência grassando, ao lado do desemprego, em várias metrópoles do país, numa verdadeira guerra civil que arrasa o Rio de Janeiro sob os olhares impotentes das autoridades, com cerca de 70 policiais mortos; a volta do Brasil ao Mapa da Fome, graças à incapacidade do Governo Federal em gerenciar minimamente a administração, com um apoio de um mísero dígito da população; dólar e combustíveis disparando; vai-se, sob o fogo, o Museu Nacional do Rio, destruindo 200 anos de pesquisa científica, inclusive os restos recuperados de Luzia, a primeira mulher brasileira, com 10 mil anos; um Ministro truculento assume a voz do Planalto para vociferar perante a televisão que são “viúvas” deste Museu que lamentam o incêndio sem que jamais o tivessem valorizado; como monarcas a casta do Judiciário aumenta mais os seus salários, 200 vezes maior do que um mínimo, sob cujo teto vivem 100 milhões de brasileiros. Meu Deus! Como articular tudo isso num discurso? Difícil. Vão aí, pois, os fragmentos:

I Tudo com dantes

Tudo como dantes no quartel de Abrantes, nome da cidade, em Portugal, que inspirou este dito. Os velhos Senadores acossados pela LAVAJATO, ponteando, nos seus Estados, as eleições, dentre eles Renan, Eunício e Jucá, meio apertado, que faz malabarismos para voltar à cena. Até o PT que estigmatizou os “golpistas”, une-se a eles regionalmente: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/08/29/impulsionado-por-lulismo-pt-e-aliados-lideram-corrida-em-7-estados-do-ne.htm

Quanto à Câmara, onde mais da metade dos ilustres parlamentares sofrem "assédio" judicial, todos, ou quase todos, voltarão a seus mandatos. Limpinhos da Silva.

No plano nacional, tudo caminha para mais uma edição do concurso PT, com Haddad x PSDB, com Alkmin ou, se este falhar, com Marina, REDE, que não além de não nenhuma novidade é tida como mais um tom da direita.

Fica , então, a pergunta: E a prometida RENOVAÇAO POLÍTICA ? Morou...? Foi pra baixo do colchão... Moral: POLÍTICA, se faz com políticos, pela Política. Machado de Assis já sabia disso e o disse várias vezes. Simples assim.

 

II

A MAIS CRUEL DAS DEVASTAÇÕES.

Eu não vi o incêndio de Roma, supostamente atribuído a Nero e que devastou metade da cidade. Tampouco vi o incêndio da Bibioteca de Alexandria. Vi pela televisão o incêndio do Joelma em São Paulo e tremi de pavor. Nasci e morei durante anos no Rio e , lamentavelmente, nunca fui ao Museu Nacional. Não lembro de quantos incêndios de residências também vi em algum telejornal que notei o lamento de uma mãe de família chorar suas perdas, dentre elas a mais sentida: o álbum de fotografias. Mas sobre todos estes incêndios que ouvi dizer, derramei meu pranto. O fogo é a mais cruel das devastações. Acabou com o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Tristeza! Era o que faltava para coroar a tragédia que se abate sobre o Rio de Janeiro, minha cidade natal - nasci no Realengo. Este Museu deveria ser um dos marcos das celebrações do segundo centenário da Independência, em 2022. A tragédia chama a atenção para renovadas iniciativas de conservação do Patrimônio Histórico Nacional. Curiosamente, nenhum dos candidatos à Presidente sequer se lembrou que presidirá, também, o "2022 – Segundo Centenário da Independência". Hora dos nossos "entrevistadores" falarem mais - já que mais falam do que indaguem - sobre cultura.

  

IV CHOCANTE! O Min. Marun fala pelo PLANALTO sobre o incêndio do MUSEU NACIONAL do RJ e, simplesmente, vocifera contra o que chama "viúvas" que jamais se manifestaram sobre o referido Museu e agora choram o incêndio. Lamentável! Um Governo indigno da Nação. Um Ministro indigno do cargo que ocupa. Onde chegamos???Chocante...

PETIÇÃO PELA DEMISSÃO SUMÁRIA DO MINISTRO MARUN PELAS BARBARIDADES QUE FALOU SOBRE O INCÊNDIO DO MUSEU - https://jovempan.uol.com.br/noticias/brasil/agora-tem-muita-viuva-chorando-ironiza-marun-sobre-museu-nacional.html

Assinam - PAULO TIMM - CPF 058806610-91 (compartilhem)

 

 V - Dólar...

Preocupado com alta do dólar?

Vai piorar. Lembre-se que este o dólar chegou a R$ 4, 00 quando Lula foi eleito. Depois, graças à CARTA AOS BRASILEIROS e primeiras medidas de conciliação de Lula com o sistema financeiro, amenizou. Mas, desde então, a inflação continuou crescendo e, consequentemente, o REAL se desvalorizou. Se esta desvalorização não se transferiu ao preço do dólar é porque o real foi artificalmente valorizado. Isso evitou pressões inflacionárias ainda maiores, aumentou nossa capacidade de comprar bens importados e viajar ao exterior, quando

queimamos preciosas divisas geradas pela exportação de commodities mas deteriorou a capacidade competitiva de nossas indústrias. Se o preço do dólar tivesse seguido o curso da inflação hoje o câmbio deveria beira os R$ 8 reais. Preparem-se! Ainda há margem para maiores subidas do dólar, sobretudo quando o SACROSSANTO MERCADO descobrir que nossa conta externa está praticamente zerada. Devemos, entre dívida pública e privada, tanto quanto economizamos, tal como tem demonstrado www.ricardobergamini.com.br

VI – Milionários abandonam o barco :Brasil está entre países com maior fuga de milionários: 2 mil saíram em 2017

Pelo terceiro ano consecutivo, Brasil fica em top 10 de países com maior fuga de indivíduos com US$ 1 milhão ou mais em ativos; EUA são país que mais recebeu ricos do mundo inteiro em 2017. https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/08/27/brasil-esta-entre-paises-com-maior-fuga-de-milionarios-2-mil-sairam-em-2017.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar

Eles vão embora, mas continuam ganhando fortunas aqui, aplicadas nos Títulos do Tesouro que rendem uma das mais altas de juros do mundo. E ainda desfrutam de uma taxa supervalorizada do Real frente ao Dólar que lhes garante uma confortável conversão enquanto a indústria local vai se desmilinguindo

 

VII - A BESTA FERA Bruno Lima Rocha postou no FB em 28 de agosto: “Bolsolixo fez uma matéria com a própria filha! Irresponsável. É deu 40 milhões de acessos em 15 dias. Ele, Bolsolixo, usa a imagem da família e usa de sua família como base de proselitismo político. "Caneladas" se justificam então? E o decoro parlamentar?”

Mundo cão: "...É deu 40 milhões de acessos em 15 dias". Enquanto isso a gente passa a vida estudando, dando aula e palestras, escrevendo artigos e livros, tentando compreender e explicar a m. do mundo, faz blogs, faz pirueta , e só meia dúzia de bons e devotados amigos nos seguem. Para vivir, casar y comer pescado hay realmente que tener no solo cuidado, pero muchas ganas de seguir adelante... Meu mestre em Filosofia, Ricardo Timm de Souza sempre diz que os fascistas têm uma virtude: São francos, sem subterfúgios, dizem o que pensam. Chocam, usando esta técnica de persuasão assertiva como arma contra o desamparo de parte da população . Rearmam os espíritos proclamando a necessidade da intolerância na urgência da força. E tudo justificam sob a ideia de ordem e progresso, esquecendo-se que o amor é o princípio de tudo, sem o qual nada se civiliza. O horror que praticam está antecipado neste discurso. Ontem, ouvi os ecos dessa barbárie na boca de um candidato à Presidência. Nome impronunciável. Uma Besta. Temo.

  

VIII - AS COISAS NO LUGAR

O grande debate econômico, não só no Brasil, mas no mundo ocidental todo, se refere ao Estado. Os neoliberais o tomam como problema, a esquerda, que hoje abriga social-

democratas, socialistas, esquerda católica etc, petistas e brizolistas o vê como solução. Para os neoliberais, o ESTADO é a causa da CRISE e seus gastos que suportam e sublinham o ESTADO DE BEM ESTAR a origem do mal. Daí a obsessão com PEC dos Gastos, imposta por Temer ao Brasil, e com os chamados excessos no tamanho do Estado. A esquerda, de uma forma geral, mesmo aceitando a necessidade de uma certa RESPONSABILIDADE FISCAL vê no Estado o mecanismo capaz de compensar as lacunas do mercado, sobretudo no tocante à promoção do Pleno Emprego. No plano político a direita, empolgada pelo neoliberalismo, confunde o SER com o ENTE, que lhe é um mero acidente historicamente condicionado, supondo kantianamente que este SER já nasce eticamente constituido e capaz de deliberar sobre seu destino, com base num Pacto Estatal originário. A esquerda se centra neste ENTE que exige , para se constituir como cidadão, uma ação concreta do Estado de forma a capacitá-lo ao exercício de uma efetiva cidadania.

No caso brasileiro a obsessão da direita, de quem Meirelles, como candidato é o melhor inérprete, como o tom mais forte de TEMER, como AGENTE DO CAPITALISMO FINANCEIRO, do qual é servidor, é LIQUIDAR o ESTADO DE BEM ESTAR constituido em décadas de PACTO SOCIAL DEMOCRATA, consumado na CONSTITUIÇAO 88. . A esquerda entende que não há CRISE DO ESTADO , eis que este só desestabilizou suas finanças em decorrência (1)da RECESSÃO, que cortou as receitas mais do que o ritmo da queda do PIB e (2) o elevado CUSTO DA DÍVIDA . cuja participação no PIB não é nada ameaçadora, em decorrência dos altíssimos juros.

Lamentavelmte, começo a ver que alguns economistas do próprio PT começam a falar em CRISE DO ESTADO e CRISE DA PREVIDÊNCIA, num tom mais ameno mas igualzinho ao discurso neoliberal. Fico preocupado. Chego a ler de um respeitável quadro da esquerda a sugestão de que temos que REFORMAR A PREVIDÊNCIA através do corte das aposentadorias do setor publico , mediante elevação da maldita TAXA PREVIDENCIÁRIA criada, aliás, em 2003, por Lula. Ora, claro que os funcionarios públicos são relativamente privilegiados no mercado de trabalho , mas daí a entrar na arenga da CRISE DO ESTADO, responsabilizando funcionarios púbicos como por ela responsaveis, vai uma enorme distância. O ESTADO , como expressão material da Lei é o único caminho capaz de salvar o processo civilizatório, exigindo, para tanto, sua crescente democratização.

  

IX – ÓDIO x ÓDIO Helena Lopes Daltro Pontual postou no FB em 30 de agosto :”Muito triste ver pessoas conhecidas optando pela extrema direita intervencionista, achando que o ódio vai resolver tudo como um passe de mágica. Reconheço que o ódio do outro lado, as radicalizações promovidas por setores do lulopetismo acordaram o que estava adormecido. Agora os ódios se enfrentam. Mas tenho a esperança e o sonho de que o bom senso e uma compreensão mais equilibrada sobre o momento delicado do país ainda prevaleça”. Com efeito, No enfrentamento do ÓDIO CONTRA ÓDIO não ganha quem tem mais ódio, mas quem tem mais força. Daí que, quando ingressei no velho PARTIDÃO, Jacob Gorender, nosso orientador no RS naqueles idos 60 exigiu que eu soubesse distinguir ÓDIO DE CLASSE de CONSCIÊNCIA DE CLASSE, ao que se seguia o entendimento da diferença entre Tática e Estratégia, título, aliás, de um livrinho de Vania Bambirra e Teotonio dos Santos. . Custei um pouco pra entender. Voltei aos livros de "formação", mas aprendi...Recentemente, vi uma revisão destas questões em videos com palestras do eufórico filósofo marxista S.ZIZEK. Discordo dele.

X – FATOS X NARRATIVAS

“Mais que de máquinas, precisamos de humanidade, disse” Charles Chaplin. Eu afirmo:

Mais do que tabelas, precisamos de narrativas.

 


                       ELEIÇÕES 2018 NO RIO GRANDE DO SUL

Pesquisa Ibope no RS, devidamente registrada no TSE, com base no levantamento  feito nos dias 14 a 16 de agosto.

·         José Ivo Sartori (MDB): 19% - Eduardo Leite (PSDB): 8% - Miguel Rossetto (PT): 8% - Jairo Jorge (PDT): 6%

·         Julio Flores (PSTU): 4% - Mateus Bandeira (NOVO): 2% - Roberto Robaina (PSOL): 2%

·         Brancos/nulos: 28% - Não sabe: 22%

                                             Espontânea

·         José Ivo Sartori (MDB): 7% - Jairo Jorge (PDT): 3% - Eduardo Leite (PSDB): 2% - Miguel Rossetto (PT): 2%

·         Julio Flores (PSTU): 1% - Mateus Bandeira (NOVO): 0% - Roberto Robaina (PSOL): 0% - Outros: 2%

·         Branco ou nulo: 20% - Não sabe: 63%  - TOTAL: 83%

 

O que dizer destes resultados preliminares para o Piratini? O mesmo que podemos dizer para os candidatos à Presidência da República: Não há nomes    consagrados que empolguem a cidadania. Quando a Pesquisa não apresenta aos consultados uma lista com nomes dos candidatos, o número dos que não se manifestam positivamente  alcança 83%. Impressionante! Nem mesmo o atual Governador, fartamente conhecido, na frente da corrida, consegue chegar aos 20% da preferência induzida dos eleitores, quando se lhes apresenta uma lista com o nome de todos os candidatos registrados. Tristeza. Não sei como está o processo eleitoral em outros Estados, mas, aqui no Rio Grande, poucos se comovem com os concorrentes.  Aí, um amigo meu, do Rio de Janeiro, me pergunta: - Onde foi parar o Estado mais politizado do Brasil? O que está acontecendo aí? A esquerda derreteu?

Com efeito, o Brasil inteiro fala  que o RS é politizado, confundindo isso com ser de esquerda.  O  Estado, na verdade, sempre  foi  politicamente agitado, mas muito dividido. Neste ano de 2018, então, está re-dividido: tanto a esquerda quanto a direita estão divididos internamente.

 

A divisão começou na Proclamação da República, quando um grupo de republicanos radicais apressou-se em mudar o nome das ruas e praças que homenageavam figuras do Império. Naquele dia, a Praça Conde d´Eu, na frente do Mercado, passou a chamar-se 15 de novembro, nome que guarda até hoje. Desde aquele fatídico dia as elites regionais se dividiram à morte, por razões ideológicas, promovendo duas guerras civis: Em 1893/5, sob a liderança de Saldanha Marinho e em 1923/5, sob a liderança do memorável Assis Brasil. Na época, este conflito não remetia à divisão  esquerda x direita, mas acabou, nos seus desdobramentos, por criar as raízes históricas destas tendências no Estado. Os maragatos, estancieiros da campanha, foram os baluartes do liberalismo no Brasil; os chimangos, com epicentro na capital, os baluartes da esquerda, numa sequência que relevaria figuras como Julio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Leonel Brizola e Olivio Dutra, que vão do Partido Republicano, passando pelo Partido Trabalhista Brasileiro até desembocar no Partido dos Trabalhadores.

 

Os  herdeiros do castilhismo  (Julio de Castilhos), que controlaram o Governo de 1889 até 1930, ganharam   a guerra civil, mas nunca dominaram completamente  o Estado. Tanto que os maragatos diziam, naqueles tempos quentes,  que eles manipulavam as urnas porque, se houvesse eleições livres, perderiam (?). Quem sabe? Isso era comum na República Velha, quando, em todo o país, grassava o bico de pena: a manipulação dos poucos votos levados à urna por uma sociedade aristocrática. De qualquer forma, Décio Freitas (1922/2004) grande historiador, de inclinação marxista, escreveu um livro com o título “Julio de Castilhos - O homem que inventou a ditadura”. Recorde-se, a propósito, que nem mesmo Brizola,  no auge, da popularidade, depois da LEGALIDADE de 1961, fez seu sucessor.  

Nas décadas posteriores aos conflitos da primeira metade do século XX, o  desenvolvimento das áreas coloniais,  serra acima, até o norte/noroeste do Estado, elevariam o peso do  conservadorismo no Estado, compensando, com isso,  o crescimento da esquerda nas cidades de maior porte.  Hoje o PP, por exemplo,  é fortíssimo nestas áreas, resultando, mesmo com eventual vitória do PT e do PDT ao Governo do Estado, uma maioria conservadora para a Presidência da República.

 

Neste ano, porém , a esquerda da Grande POA está dividida entre PT e PDT , ambos com boa penetração nesta região, mas escassa penetração no interior remoto do Estado, abrindo, com isso, espaços para Sartori e Leite. A campanha ideológica de Sartori contra o Estado e suas agências e servidores, cai mal junto a esquerda urbana, mas repercute bem no interior. Ele perde os funcionários públicos e desiste da esquerda, mas ganha o resto. Só não está melhor nas pesquisas porque foi muito pouco além do discurso catastrofista. Além disso, não teve capacidade para agregar os próprios partidos de direita, que o acompanham no Governo. Perdeu o  PSDB, que tem candidato próprio e está com  o PP atravessado, eis que as bases deste Partido estão galvanizadas pelo discurso ultrarradical do Bolsonaro. (Nem mesmo a presença de Anamélia Lemos , do PP, como Vice de Alkmin, elevou sua presença no Estado). Tudo indica que Sartori, que vinculou o PMDB ao Governo Temer, descambando para a direita neoliberal,  acabará sendo  ultrapassado pelo jovem LEITE, do PSDB, que tem boa avaliação, embora ainda pouco conhecido. Sua região, Pelotas, tem baixa polarização política e demográfica. A "metade" de baixo do Estado,  que já tentou se dividir do Estado a favor da “Metade Sul”, onde estão Pelotas e R.Grande,  é relativamente mais  pobre e pouco povoada. ,

O quadro, enfim, não é surpreendente. A direita talvez ganhe ,  de novo, por aqui, tanto na Presidencial, como para o Governo. Se não for o Sartori,  já “de-cadente”, será Leite, mais jovem e em franca ascensão. A divisão da esquerda entre dois candidatos que disputam os mesmo votos terá, certamente, sido fatal.

 

 
 HÁ 59 ANOS SUICIDAVA-SE VARGAS E EU QUASE
LEVO A CULPA . 
Paulo Timm – Torres 24 ago 2013 - Publicado em A FOLHA,

Há 59 anos, eu tinha nove anos de idade, morava em Santa Maria
RS e saí à rua, devidamente paramentado com minha farda de
lobinho (escoteiro infantil) , sem saber o que estava ocorrendo.
Enrolado no pescoço eu tinha um lenço vermelho, com listras
brancas em volta, símbolo do meu grupo , denominado ROQUE
GOZALEZ. Saí , lépido e faceiro, " a caminho de mim" , como
sempre fazia. Não me lembro bem que dia da semana era. Tinha
um jeito de sábado de manhã, mas não tenho certeza. Quando
cheguei na Rua do Comércio , centro da cidade, me deparei com
um grupo de manifestantes raivosos. Eram ferroviários. Eles haviam
subido a Rio Branco, vindos da Estação Ferroviário, então
pululante, e estavam exaltados pela morte do Getúlio. Quando me
viram com o lenço vermelho, símbolo " maragato" , contrário ao
Getúlio , que era " chimango " , foi um horror. Me acusavam de
assassino, ma amaldiçoavam, me xingavam e eu, não entendia
nada... Por sorte era muito pequeno e alguém me protegeu
dizendo-me pra correr pra casa, duas quadras abaixo, na descida
da Cel. Niederauer, na mesma casa que ainda hoje lá está e que
visitei recentemente. Fiquei assustado. Esbaforido. E me tranquei
em casa. No almoço contei pro meu pai, um severo Major do
Exército, anti-getulista ferrenho, o ocorrido e ele me repreendeu: -
Poderias ter morrido, guri! Aí expliquei-lhe tudo e disse que eles
apontavam, rancorosos, para meu lenço vermelho. Meu pai, então,
me explicou: - Esse lenço aí é símbolo maragato. Te salvaste por
pouco. Quebraram muita vidraça lá na Rio Branco. São adeptos do
Getúlio que culpam os maragatos pelo seu suicídio.
Ficou o registro. Aquietei-me. Muitos anos depois, me perguntei, já
ao lado do Brizola, junto de quem e sob cuja liderança fundei o PDT
ainda no exílio dele, em Lisboa - 1979: - " Ué, mas o lenço vermelho
não é maragato? " Brizola então me explicou que o lenço branco
como símbolo chimango já estava enterrado em S. Borja com a
História. Desde 1930 , maragatos e chimangos se uniram em torno
a Vargas para a Revolução de 30. E nos anos 50 e 60 o vermelho
era mais adequado a um partido popular como o PTB. Adotei-o.
Tempos depois descobri, também, que o pai de Brizola era
maragato e fora morto pelos chimangos na Revolução de 1923...
Enfim. Um pouco de História neste dia em que , há mais de meio século Vargas saía da Presidencia para entrar na HISTORIA.
  
............ALMANAK DO TIMM - FB - Neste Dia_Tempos atrás......................

Agosto, 24 - Suicídio de G.Vargas, o homem que comandou a Revolução de 1930 e sepultou a República Velha, inaugurando uma nova era no Brasil. Tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente em sua visita a Santa Maria, RS, onde residia, em 1952 e testemunhar o dia trágico de sua morte, quando milhares de brasileiros, revoltados, registraram seu protesto. Isso me marcou para o resto da minha vida, levando-me a aderir ao trabalhismo como caminho brasileiro para a modernização solidária do Brasil. Daí ser signatário da CARTA DE LISBOA, em 1979, junto de Leonel Brizola.

A morte de Vargas redefiniu o cenário político da época, extremamente polarizado, abrindo uma brecha para uma saída "ao centro", com a eleição de JK para Presidente, pelo PSD e tendo Jango - João Goulart - , como Vice, pelo PTB. Isso deu ensejo aos ANOS DOURADOS de 1955-60 de saudosa memória.

                                                         XXX

Carta-testamento de Getúlio Vargas
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

A Carta Testamento de Getúlio Vargas é um documento endereçado ao povo brasileiro escrito por Getúlio Vargas horas antes de seu suicídio, na data de 24 de agosto de 1954.

Existe uma nota manuscrita de suicídio, diferente da "Carta Testamento", da qual se conhecem 3 cópias, que foi divulgada mais tarde[1]. Existe polêmica quanto à autenticidade do texto datilografado.[2]

Cópia da Carta-testamento de Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954:

Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci.
Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.
A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.
Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre,não querem que o povo seja independente.
Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.
Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.
Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.
Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.

   

 

  Nada a dizer, só a mostrar

Paulo Timm – A Folha, Torres RS – 17 ago.

 

Pronto! Começou a campanha eleitoral cuja maior atenção recai sobre a escolha do futuro Presidente. Treze candidatos foram registrados no Tribunal Superior Eleitoral , com a ressalva de que Lula, pelo impedimento por estar condenado em II Instância será substituído por Haddad em momento oportuno. Esta atitude do PT, de retardar a dita substituição, já divide o Partido, havendo uma forte tendência liderada por Jaques Wagner, ex governador da Bahia, para que isso ocorra imediatamente. A partir de agora, pois, façam suas avaliações e tomem suas decisões, sabendo que vencerá e tomará posse , no dia 01 de janeiro de 2019 , aquele que obtiver maior número de votos válidos na urna. Por ora, todos concorrem ao segundo turno, pois nenhum emerge com perfil francamente majoritário na preferência nacional. A grande dúvida nacional é se passarão ao segundo turno um candidato de direita e outro de esquerda ou se dois candidatos de direita, eis que dificilmente PT e PDT subiriam ao pódio. Paira, também, grande dúvida sobre o desempenho de Marina.Crê-se que, se Alkmin não decolar até os últimos dias, ela possa recolher o voto útil do centro.  Voto nulo, em branco e abstenção não contam. Não faltam, também, fartos debates em todas as cadeias da Mídia, nas Redes Sociais, em diversas entidades profissionais e de classe. Duas dezenas de pesquisas terão circulado na semana 13 – 20 de agosto, contribuindo, também,  para evidenciar as tendências gerais do eleitorado. Em todas elas Lula lidera, mas como não será oficializado, isso apenas indica seu peso como influenciador eleitoral. Preocupa, também, em todas, elas o que se convencionou chamar voto em “Ninguém”, a soma de todos os que estão de mal com o processo e nem querem saber de votar.  Ver, por exemplo, em InfoMoney · Mais sobre pesquisas eleitorais presidente agosto 2018.

O resto, é nada dizer, só mostrar. Espiem as últimas  Pesquisas:




Pesquisa Instituto Paraná Pesquisa - Fonte 247

Novo levantamento do Instituto Paraná Pesquisas mostra o quadro de preferências do eleitorado estagnado, sem alteração alguma desde a pesquisa de 31 de julho: Lula segue líder com 30,8% (29% em 31 julho), Bolsonaro tem 22% (21,8% na anterior), Marina está com 8,1% (9,2%), Alckmin parado em 6,6% (6,2%), Ciro com 5,9% (6%) e Álvaro Dias também parado com 4% (4,2%). Os demais candidatos têm 1% ou menos que isso. Uma novidade na pesquisa: 64,1% acreditam que a candidatura de Lula será impugnado, 30,4% dizem que ele "conseguirá ser candidato" e 5,5% não sabem ou não opinaram.

Jair Bolsonaro: 23,9%
Marina Silva: 13,2%
Ciro Gomes: 10,2%
Geraldo Alckmin: 8,5%
Alvaro Dias: 4,9%
Haddad: 3,8%
Cabo Daciolo: 1,2%
Amoedo: 1,1%
H. Meirelles: 0,9%
Vera: 0,9%
Boulos: 0,7%
Eymael: 0,4%
Não sabe: 6,8%
Nenhum: 23,1%n

 

Ultima Pesquisa Eleitoral - RECORD

Haddad já tem 6% em pesquisa divulgada pela Record
Com a presença de Lula, o ex-presidente aparece na liderança, com 29%, ante Bolsonaro com 19%, Alckmin com 9%, Marina com 8%, Ciro com 7% e Alvaro Dias com 6%

https://www.revistaforum.com.br/haddad-ja-tem-6-em-pesquisa-divulgada-pela-record/

 

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CENÁRIOS

Paulo Timm – Especial para REPORTER INDEPENDENTE , Brasilia .ago 21

O experimentado jornalista Leonardo Mota Neto , em sua análise dos resultados IBOPE divulgados no dia 20 passado, conclui que há dez cenários no segundo turno das eleições, os quais poderão  ser redefinidos em função dos programas eleitorais no rádio e TV, com chance, até de um desfecho no segundo turno.

http://www.cartapolis.com.br/novo/index.php/home/k2-categories/item/661-com-pesq  

CENÁRIO 1; BOLSONARO contra MARINA.

CENÁRIO 2: BOLSONARO contra CIRO

CENÁRIO 3: BOLSONARO contra ALCKMIN.

CENÁRIO 4: BOLSONARO contra HADDAD.

CENÁRIO 5: MARINA contra CIRO.

CENÁRIO 6: MARINA contra ALCKMIN.

CENÁRIO 7; MARINA contra HADDAD.

CENÁRIO 8; CIRO contra ALCKMIN.

CENÁRIO 9; CIRO contra HADDAD.

CENÁRIO 10; ALCKMIN vontra HADDAD.

´

Sobre eles, que não são poucos e que refletem, na verdade, a ausência de um grande líder nestas eleições,  teci as seguintes considerações:

 

Se  não der Haddad, dará Marina no segundo turno, contra Bolsonaro.

 Geraldo Alkmin está mal até em São Paulo e, de forma geral no SUL-SUDESTE, onde "deveria" estar muito bem para levantar vôo e compensar suas perdas ao norte do país. Não consegue.

Ciro até reagiu um pouco, mas está muito isolado e perde redondamente no Nordeste, onde as composições heterodoxas de PMDB e Centrão imperam pra todo lado, menos para o PSDB e PDT. Ciro tenta compensar catando escassos votos no Centro Oeste, de poucos eleitores.  Não consegue avançar muito. 

Sobra, pois, Marina neste embolado. Ela, contudo, não consegue entrar fundo no povão, apesar do perfil que o Silva encerra. Não diz como vai retomar a economia, melhorar o emprego, situar o Brasil no cenário internacional e nos fluxos de Investimento e Tecnologia. Paira, enfim, num céu de virgem inca.

 DaÍ, concluo eu, , sem entrar no mérito, que o Cenario 4, BOLSONARO x HADDAD é o mais provável. Mas como  eleição majoritária é afeto e carisma. desde 1950, inclusive nas escolhas de Collor e Jânio, ainda é difícil dizer se Haddad sairá o grande vencedor. Carismático ele  não  é, mas Lula, que deverá respaldá-lo entregando-lhe afeto. Resta saber se Lula conseguirá transferir este afeto l para HADDAD, iluminando, com  este gesto, as lacunas do seu “poste”, que muito difere de Dilma Roussef.

Bolsonaro, enfim, não é carisma nem afeto. É apenas expressão da fatia dos eleitores  favorável à saída autoritária, anti-democrática e saudosa do regime militar.. Entra no segundo turno mas dele não deve sair-se  bem. A grande maioria dos brasileiros , segundo diversas pesquisas, ainda prefere um Estado Providencial, expresso pela esquerda, desde que ela, naturalmente, não delire com sonhos revolucionários.

 

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A BASE SOCIAL DO LULISMO

Lula para Presidente, 39% na DATAFOLHA de ontem, ou, perto de 60 milhões dos eleitores habilitados para votar em outubro próximo.

Quem vota no Lula?
Há muito tempo todas as pesquisas- insuspeitas . apontam : eleitores até 2 SM, nordeste, baixa escolaridade. Ver https://exame.abril.com.br/…/o-perfil-de-quem-quer-lula-pr…/

Aí vem a pergunta: Por que eles votam no Lula ? 
Simplex: 100 milhões de brasileiros ganham até 1 Salário Mínimo e este cresceu aproximadamente três vezes na era lulo-petista, Lembram quando, no Governo FHC, o Sen. ACMagalhães apresentou um´escandaloso projeto para que o Salário Mínino fosse 80 dólares...?

A propósito: Não sou petista, só votei no Lula em 1989 a pedido do Brizola, não votaria neste ano em Lula. Apostei, até num novo cenário para a esquerda numa FRENTE DEMOCRÁTICA, nestas eleições, com PDT, PSB, Rede , PPS etc que não prosperou.Estou aqui, apenas, tentando entender as razões da preferência pelo Lula.

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O perfil do suposto eleitorado de Lula
Janeiro
SALVARBrasil 28.01.18 08:45 . 
Publicado em O Antagonista.com/brasil/o-perfil-suposto-eleitorado-de-lula/    
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Lula teria 53 milhões de eleitores a serem disputados pelos demais candidatos.
O Globo chegou a esse número, cruzando os 36% das intenções de voto do petista em pesquisa do instituto Datafolha com a base de dados do TSE, que mostra um colégio eleitoral de 146 milhões de pessoas no Brasil.
“Os outros candidatos precisarão conquistar a preferência de um segmento composto, majoritariamente, por moradores de municípios com até 50 mil habitantes.
O maior apoio a Lula se dá na faixa que tem renda familiar de até dois salários mínimos e baixa escolaridade. Além disso, a popularidade de Lula no Nordeste é maior do que nas outras regiões.
O recorte das pesquisas de intenção de voto mostra também que as mulheres não brancas e com mais de 44 anos endossam mais a candidatura do petista. Na maior parte dos casos, segundo o Datafolha, são donas de casa e aposentadas que administram baixos orçamentos familiares.”
Quem são os eleitores que querem Lula presidente em 2018
Gerenciar

EXAME.ABRIL.COM.BR

P reso condenado por corrupção e virtualmente inelegível, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 39% das intenções de voto na primeira pesquisa do Datafolha realizada após os registros das 13 candidaturas ao Palácio do Planalto. No cenário mais provável, já que a condenação

 

1989-2018 - Diferenças

Muita gente dizendo que estamos reeditando as eleições de 1989: Vários candidatos, vários Partidos. Discordo.

Naquela época tinhamos, primeiro, germinações partidárias autênticas e promissoras, ao lado de um Partido - PMDB - de envergadura nacional e efetivos serviços prestados à redemocratização. Agora, tudo parece fake: O PMDB já nada tem a ver com o MDB de Ulysses; o PDT de Brizola perdeu-se, senão nas vielas do PTB-COBAL da Ivete Vargas/Jefferson, na aventureirismo eleitoral; o PODEMOS de Dias é um simulacro grotesco do PODEMOS de Espanha; o PFL de origem discutível na defesa do regime militar mas real enquanto conjunto de forças organizadas cedeu lugar aos cacos do DEM, PP, PR, PTB e PQPs. inominaveis, apensos a um candidato arrastado por circunstâncias; sumiu também o velho Partidão, metamorfoseado em muleta do neoliberalismo; O PT em crise, com o mesmo candidato daquela época retirado judicialmente da contenda, é lembrado como dever de casa pelo candidato do PSOL, partido, aliás, formado com líderes dele expulsos nos idos de 2003-4 em razão da indecente redorma da previdência, reduzida à cobrança de contribuição previdenciária aos servidores aposentados. Outra novidade: dois Partidos defendendo o regime militar, naquela época sepultado.

E os candidatos? Naquela época vários deles candidatos efetivos à Presidência, com estatura, desempenho e condições para o reconhecimento nacional como Presidentes. A única exceção era o próprio Collor, mais estampa do que currículo, que, paradoxalmente, acabou ganhando. Hoje, porém, temos apenas candidatos ao segundo turno, tentando fazer um pouco mais de 15% dos prováveis 60/70 milhões de votos válidos - , metade dos 147 milhões de eleitores habilitados -, nenhum como objeto de admiração nacional e expressão capazes de galvanizar preferência e garantir a futura de governabilidade, estável por quatro anos, como garantia da retomada do crescimento. E um pecado original em todo o processo: Lula preso e impossibilitado de participar do debate, mesmo indicado candidato.

Como definiu Marco Aurelio Nogueira sobre o debate da BAND de 09 agosto, com apenas duas correções - Alkmin, o mais centrado, não centrado e Lula, o mais forte candidato, ausente.

"Alckmin centrado, Bolsonaro cordial, Ciro contido, Marina apagada, Meireles confuso, Boulos indignado, Alvaro atrapalhado e o Cabo procurando Jesus vivo."

Tudo muda. Estamos num mau momento da nossa democracia. Tudo parece meio fakefull . Todo cuidado é pouco.

 

 Paulo Timm - O BOLSÃO FASCISTOIDE

O Bolsão Fascistóide nesta campanha eleitoral - Bolsonaro/Mourão registrou um passo em falso, ontem, com as "sábias" declarações do general sobre negros e índios. Como conseguiu um general passar pelo Curso de Estado Maior com leituras tão ultrapassadas? Não se trata, apenas, de acusar o general-candidato-a-vice de retrógrado. Temos que intervir a fundo na formação dos militares neste país em todos os níveis e instâncias. FHC, quando Presidente, determinou a inclusão da disciplina de DIREITOS HUMANOS nestes cursos, tanto nas Forças Armadas, como Polícias Estaduais. Eu próprio fui chamado a dar aulas para eles, na PM do D.F. , tarefa árdua, mas indispensável. Como resultando, fizeram um Projeto de Lei que regulamentava a CONFERENCIA NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS, entregue ao então deputado federal que presidia a COMISSÃO DE DIREITOS HUMANAS na Câmara Federal, onde, lamentavelmente, não prosperou.
Espero outros FAUX PASSES do "Bolsão", até que o risco de sua eleição passe ao largo. O risco, entretanto, ainda é grande e lembra o feito de Hitler em 1933: Com pouco mais de 30% dos votos acabou chamado a governar a Alemanha. Democraticamente, Tudo certinho, de 1933 até 1939, em plena trama da LIGA DAS NAÇÕES, com relações diplomáticas, economicas e culturais com todos os países ocidentais. Até que interveio militarmente sobre DANTZIG, reabrindo o Corredor Polonês até o Mar. ,- Ver o filme O TAMBOR, tudo lá. Deu, enfim, no que deu.

 

SEMANA ESTRATÉGICA

Paulo Timm – Especial Reporter Independente, ago 07 /2018

No último domingo, dia 5 de agosto, esgotou-se o prazo para a definição de candidaturas às eleições de outubro, embora sujeitas à pequenas correções até dia 15.  Nenhuma grande novidade, além do fato de um dos indicados ao Planalto, o ex Presidente Lula, preferido por cerca de um terço dos 40% dos 147 milhões  de eleitores habilitados ao voto, maioria relativa,  estar encarcerado. A meu juízo, preso à revelia do preceito constitucional que dá a qualquer brasileiro o benefício de recorrer em liberdade até o trânsito em julgado em última instância ; sou favorável à libertação imediata não só de Lula mas de todos os que se encontrem em situação similar à dele. Mas o Supremo entendeu diferente...

 De resto, a inevitável constatação: Nada de novo no front político. Nenhum outsider para animar a renovação. Bolsonaro?  Oressa, é um mau deputado federal há 27 anos e já até criou uma oligarquia familiar “engajada” na política. Com o Vice, general Mourão, optou por uma alternativa claramente fascista. Meirelles? No MDB?  Novo...? É a raposa mais felpuda de toda a fauna...Só está aí para salvar a imagem do Alkmin como distante de Temer. O que assistimos é mais do mesmo, dos últimos anos: O próprio Lula/Haddad, Marina, Ciro, Alkmin, todos pertencentes a Partidos já consagrados e que, inclusive, já se candidataram à Presidente alguma outra vez. Tenho stentado e sigo pensando que nenhum candidato, fora Lula, é candidato à Presidência. Todos são candidatos à uma vaga no segundo turno, com preferências mais ou menos equilibradas entre 15 a 20% dos votos válidos, que dificilmente ultrpassarão 60 milhões.

Se Fernando Haddad, escolhido hoje em Curitiba como vice de Lula, ocupar a posição de candidato do PT, terá chance de passar imediatamente de um patamar de 2% de intenções de votos para 13%.

A cifra aparece num dos cenários levantados pela XP Investimentos  desta semana. Nesse cenário houve num pergunta feita ao eleitor estimulada por cartão: se Haddad fosse apoiado   oficialmente por Lula como candidato do PT, obteria 13% , só perdendo para Jair Bolsonaro, com, 2O%.

Geraldo Alckmin e Martina Silva aparecem nesse cenário com 9% Ciro Gomes com 8% e Álvaro Dias com 4%.

A hipótese aconteceria com a aguardada impugnação do registro da candidatura de Lula pelo TSE.

Segundo os entendimentos de hoje em Curitiba, quando Lula recebeu Fernando Haddad e Gleisi Hoffmann, o ex-prefeito de São Paulo teria como vice Manuela d Ávila,  que desistiria de sua candidatura já oficializada pelo PCdoB.

                (Carta Polis - http://www.cartapolis.com.br/novo/index.php/home/k2-categories/item/628-haddad-passaria-de-2-para-13-se-apoiado-por-lula-como-candidato-do-pt )

 

Até os nanicos, folclóricos, como Eymael e Felix, são os mesmos e o radical PSTU, se trocou de candidato, não mudou de filosofia.

 Não quero dizer com isso que os candidatos são ruins. Digo apenas que, apesar  da Lavajato, que prometia uma grande mudança no cenário político do país, nada aconteceu. Até o confronto PT x PSDB, que parecia superado, volta à tona, prometendo aprofundar a polarização ideológica entre os projetos do Estado Providencial X Estado Mínimo, esquerda x direita. Isso não é propriamente novo no Brasil, como muitos pensam, ao enfatizar que nunca na história deste país tivemos Partidos fortes e tendências ideológicas claras em torno deles. Ao contrário, desde Vargas, já em 1945 tivemos eleições ideologicamente, senão antagônicas, divergentes, justamente em decorrência da experiência  nacional- desenvolvimentista da Era Vargas. Ainda me lembro do confronto Vargas x Brigadeiro em 1950, de JK x Jânio, de 1955, de Lula x Collor bem como Lula x FHC, Lula x Alkmin, Dilma x Serra e Dilma x Aécio, nas últimas eleições. Sempre partidos fortes e projetos alternativos. O Brasil, enfim, tem longa  e respeitável experiência político- partidária. Dou depoimento, não aula...

Duas questões, entretanto, chamam a atenção no processo em curso. 1. isolamento a que se viu relegado Ciro Gomes, do PDT, tendo-lhe sido frustrada a aproximação com o Centrão, coligada, ao final com Alkmin e, igualmente, subtraída, por uma ação que se atribui pessoalmente à Lula, de somar com o PSB, que saiu-se, não sem grandes rupturas internas, à francesa, ou à PMDB, sem candidato à Presidente; 2. A estratégia “tríplex” , do PT, de lançar Lula para confirmar, na undécima hora legal, F.Haddad, tendo a jovem Deputada Manuela D´Avila, do PCdoB, com vice e que estaria surpreendendo os conservadores:https://www.youtube.com/watch?v=A9eaTEPxLlM&feature=share

 

 

O isolamento de Ciro, apesar de recolher muitos votos de petistas desiludidos ou desencantados com a atual estratégia do PT lhe deve ser fatal, à falta de recursos, articulações partidárias e tempo de televisão. Todos os que o assistem se impressionam com sua performance, dada como a melhor. Uma pena! Como assinala , hoje, no FB este observador, citado por 
Ivanisa Teitelroit Martins

· 

Pesa em favor de Haddad o fato de ter o segundo maior tempo de televisão, a indicação de Lula e o apoio de todos os governadores do nordeste. Haddad terá ainda como vice a comunista e feminista Manuela D´Ávila, o que garante um apoio de parcela da esquerda que não tem muitas simpatias pelo PT. Mas não deve ser desconsiderado que uma parcela relevante do lulismo seguirá com Ciro. Se esse cenário de complementariedade do lulismo é real, então a animosidade entre as militâncias dos dois candidatos precisa ser apaziguada, ao menos se quiserem reciprocidade de apoios no segundo turno.

Theófilo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

 

Quanto à estratégia do PT, alegam seus defensores que não há porque o maior e mais bem organizado Partido do país ter  dado de bandeja  seus pontos, seja (a)para Ciro, um político dado como instável, transeunte  de já 7 Partidos, pelos quais desenvolveu sua trajetória pública, a começar pela antiga ARENA, Partido do SIM aos militares, seja (b) para Marina Silva, socialmente mais consistente, mas ideologicamente isolada. “Fazer o quê ? -, dizem eles. Desaparecer, depois de tanto esforço para montar um Partido de envergadura nacional? Vamos em frente, até as últimas consequências. Na Hora H, se o Lula não colar, substituímos Lula por Haddad, deixando a Manu de Vice. Conseguimos consolidar a Frente de Esquerda, com exceção apenas do PDT porque Ciro não aceitou a Vice. Ele que está errado, não nós!”. Quem melhor formalizou tais argumentos foi o Cientista Político Benedito Tadeu Cesar:

Sobre a polêmica que se instalou, desde ontem, sobre a decisão do PT de não fechar a chapa durante a convenção, não oferecendo a vice para Manuela D'Ávila, como parecia já decidido.

Muitos já se manifestaram, inclusive Ricardo Kotcho, ex-ministro de Lula, afirmando que Lula e o PT erraram e que isso pode sacrificar a possibilidade da vitória eleitoral, dando-a de presente para a direita.

Minha análise é que, de fato, Lula se equivocou e dificultou um acordo que parecia já sacramentado.

Parece-me, entretanto, que o equívoco de ontem decorreu de Lula ainda acreditar na possibilidade de um acordo com Ciro e o PDT, o que me parece impossível, uma vez que Ciro e o PDT só aceitarão um acordo que implique a cedência da cabeça de chapa para eles.

Ora, como dar a cabeça de chapa para um partido que só existe no RS e no RJ e, mesmo nesses estados é pequeno, e para um candidato que tem apenas 6% a 8% das intenções de voto, de acordo com as pesquisas eleitorais, enquanto qualquer "poste" que Lula indicar, segundo as mesmas pesquisas, tem ao menos o dobro?

Ciro e o PDT foram e continuam indo com muita sede ao pote. Eles tentam se apropriar do espólio antes mesmo de o defunto morrer.

Ciro e o PDT entendem que Lula terá sua candidatura impugnada e que, quando isso acontecer, Ciro deve assumir a cabeça da chapa. Lula e a direção do PT entendem que, caso haja a impugnação de Lula, outro nome do PT deverá ser indicado para a cabeça de chapa. Ciro e o PDT não aceitam essa condição.

Lula, pelo que entendo, continua tentando uma aproximação com Ciro porque ele sabe que ceder a vice à Manuela não amplia votos - ao contrário, tira votos, pois a classe média brasileira tem pavor de comunista, já que ela ainda acredita que "comunista come criancinha" ou seja, distribui renda e promove equalização social!

Lula se iludiu com a disposição e o alardeado "desprendimento nacionalista" do PDT, com isso, dificultou o acordo com PCdoB e adiou o fechamento da chapa nacional e em vários estados.

Espero que haja sabedoria n PT e em Lula para sair desse imbróglio ainda hoje (05/08/2018), que é o prazo final para as definições das chapas completas, em mais uma manobra do TSE.

No mais, acredito que Lula e a direção nacional do PT terão a serenidade e a sabedoria de trocar o cabeça de chapa no dia 15 de setembro, último prazo para a alteração das chapas.
                       (Benedito Tadeu César
 – FB – Acesso a 
5 de agosto às 20:32 )·

 

 A única resposta aos petistas – e é uma especulação, não uma consigna - talvez seja a de que eles confundem estratégia com tática, campanha com governança, Filosofia Política com Ação Política. Ou seja: e se Haddad e Manu ganharem? Terão eles a capacidade política de reconstruir o arco de alianças, que em 2002-2010 concertou Lula, de forma a dar governabilidade necessária à retomada do desenvolvimento do país?

Finalmente, uma observação quanto aos métodos eleitorais: Duas estratégias eleitorais parecem estar  em confronto em outubro: TV x REDES SOCIAIS. Alkmin aposta na TV, tendo ampliando seu tempo de propaganda eleitoral "gratuita" graças ao apoio do Centrão. Vai ter quase metade do tempo do programa gratuito de rádio e TV confiante nas Pesquisas que evidenciam ser este o meio de maior alcance e influência sobre os eleitores. O PT também parece optar por este meio, bem como na reativação da militância. Acho que o PT opta, mesmo,  por uma tática de sobrevivência mediante consolidação de seu próprio espaço: "UNIDO E COESO", aconteça o que acontecer, distanciando-se, cada vez mais da classe média..

Já Bolsonaro está reinando nas REDES SOCIAIS. É o que melhor as utiliza. De resto, ele tem tudo das REDES: Estilo, linguagem, superficialidade e humor . Vamos ver...

 

 

Há um ano eu escrevia nessa rede que duas estratégias pré-eleitorais estavam sobressaindo e hegemonizando o cenário político de agosto de 2017.
Eram as estratégias eleitorais de Michel Temer e do PT/Lula.
Um ano se passou e essas duas estratégias se consolidaram na ampla aliança eleitoral liderada por Geraldo Alckmin e a candidatura Lula/substituto do PT e agregados ( PSB, PCB, PCO, PSOL e PC do B).
A candidatura de Henrique Meirelles do MDB é uma forma de facilitar as movimentações eleitorais do MDB nos 26 Estados e no Distrito Federal.
Henrique Meirelles representa a "neutralidade" do MDB, que vai se dividir entre Lula/PT e Geraldo Alckmin.
O MDB quer eleger em torno de 50 deputados federais e ter a maior bancada no Senado Federal. Tem tudo para ser bem sucedido nessa pretensão.
Se o marketing digital e em rede não for preponderante perante a televisão, teremos Geraldo Alckmin e o substituto de Lula pelo PT vitoriosos em 7 de outubro.

(Paulo Baía – FB - 2 de agosto às 12:00)

 

Dúvidas, enfim, mais do que certezas conjunturais. Dúvidas, aliás, absolutamente importantes para o um verdadeiro debate que evite as verdades absolutas das crenças no absoluto e que, oportunamente, um analista se debruça nestes “Tempos Sombrios”:

Os tempos sombrios - Luiz Carlos Azedo:

O Brasil está passando por um momento de radicalização política, em meio a um choque de narrativas nas quais a primeira vítima das “certezas” e “verdades” é a fraternidade
Um dos ensaios do livro Homens em tempos sombrios (Companhia de Bolso), da filósofa judia-alemã Hanna Arendt, é dedicado ao poeta, dramaturgo, filósofo e crítico de arte alemão Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781) e discute a relação entre a verdade e a humanidade. Considerado um dos maiores representantes do Iluminismo alemão, Lessing é autor da peça Nathan, o sábio, de 1779, que se destaca pela defesa do livre pensamento e da tolerância religiosa, além da crítica ao antissemitismo.
líquida e de choques de narrativas. Uma única verdade absoluta, se pudesse existir, seria a morte de todas as discussões. No seu ensaio sobre Lessing, Arendt estabelece a diferença entre as noções de possuir a verdade e estar certo, mas destaca que os dois pontos de vista têm algo em comum: os que assumem um ou outro geralmente não estão preparados, em caso de conflito, para sacrificar seu ponto de vista à humanidade ou à amizade.”
Humanismo.

...
Chegamos ao que mais nos interessa. Nenhuma avaliação da natureza do islamismo, do judaísmo ou do cristianismo, segundo a Arendt, teria impedido Lessing de travar uma amizade com um mulçumano convicto, um judeu piedoso ou um cristão crente. “Qualquer doutrina que, de princípio, barrasse a possibilidade de amizade entre seres humanos seria rejeitada por sua consciência livre e certeira. Teria imediatamente tomado o lado humano e não ligaria para a discussão culta ou inculta em cada parte”, destaca. A humanidade de Lessing pode ser resumida numa única frase: “Que cada um diga o que acha que é verdade, e que a própria verdade seja confiada a Deus!”.
Nos “tempos sombrios” a que se refere Hanna Arendt, o pano de fundo são a radicalização e o totalitarismo, em contraposição à amizade e ao humanismo. Há o trauma alemão decorrente do apoio ao nazismo e à guerra, um dos temas recorrentes da filósofa, e também o trauma do que denominou de “emigração interna” dos judeus, antes mesmo de Hitler ter chegado ao poder: a fuga do mundo para a ocultação; da vida pública, para o anonimato. “A fuga do mundo em tempos sombrios de impotência sempre pode ser justificada, na medida em que não se ignore a realidade, mas é constantemente reconhecida como algo a ser evitado”, afirma Arendt em seu ensaio.
Às vésperas de Hitler chegar ao poder, a força do escapismo brotava da perseguição aos judeus fugitivos na forma de resistência íntima, silenciosa e individual. “Mas há uma grande diferença entre força e poder. O poder surge apenas onde as pessoas agem em conjunto, mas não onde as pessoas se fortalecem como indivíduos”, adverte. O Brasil está passando por um momento sombrio, de radicalização política decorrente de projetos autoritários, em meio a um choque de narrativas nas quais a primeira vítima das “certezas” e “verdades” é a fraternidade, o humanismo.
O escapismo em relação ao processo eleitoral é um fenômeno real, ainda mais porque o sistema político descolou-se da maioria da sociedade. Entretanto, não resolve os problemas da política e da economia, muito menos da disseminação do ódio e da exacerbação de inimizades, inclusive em ambientes familiares. Faz muito sentido a advertência de Hanna Arendt no ensaio sobre Lessing: “Como era tentador, por exemplo, simplesmente ignorar o falastrão insuportavelmente estúpido dos nazistas. Mas, por mais sedutor que possa ser, render-se a tais tentações e isolar-se em sua própria psique, o resultado será sempre uma perda do humano com a deserção da realidade”.

http://blogs.correiobraziliense.com.br/…/nas-entrelinhas-o…/
http://www.fundacaoastrojildo.com.br/…/luiz-carlos-azedo-o…/

 

 

 

Paulo Timm

 

 

 

 

A QUESTÃO ENVELHECIMENTO

Paulo Timm – julho 2018

 

“Na realidade nos últimos cem anos, o número de habitantes da terra, cresceu seis vezes ( de um bilhão para seis bilhões), enquanto o PIB mundial aumentou 40 vezes.”

Franklin Cunha, Médico, Membro da Academia Rio-Grandense de Letras in “De Malthus a Mészaros”.

 

“O indicador "idade média ao morrer", do Mapa da Desigualdade 2017, mostra que, dos 96 distritos da capital, enquanto os moradores dos dez primeiros vivem entre 77 e 79 anos, os dos dez últimos, todos em áreas pobres, vivem entre 55 e 59 anos”. http://cbn.globoradio.globo.com/sao-paulo/2017/10/25/MORADORES-DA-PERIFERIA-VIVEM-21-ANOS-A-MENOS-QUE-PAULISTANOS-DE-BAIRROS-RICOS.htm

O presente do Brasil é trágico, sem dúvida. Mas o seu futuro poderá ser ainda mais trágico. O país está envelhecendo de forma mais rápida do que se pensava. Em 2039, o número de pessoas com mais de 65 anos será superior ao número de crianças e jovens com menos de 15 anos. Em 2060, uma de cada 4 pessoas terá mais de 65 anos.

Aldo Fornaziere in Brasil, um país sem futuro - https://jornalggn.com.br/noticia/brasil-um-pais-sem-futuro-por-aldo-fornazieri#.W17rofhNAic.facebook

 

*

Muito alvoroço com a divulgação dos dados IBGE sobre Expectativa de Vida dos brasileiros, hoje, de 76 anos. Ficaremos ainda mais velhos, com cerca de 20% de idosos acima de 65 anos, sobre uma população estabilizada de 233 milhões em 2047, quando esta começará a encolher. Vale conferir:

https://www.youtube.com/watch?v=tKkE-qHPxWE&feature=share

Eu, que moro em Santa Catarina, onde a expectativa de vida sobe para 79 anos, fico feliz: Tenho uma expectativa de cinco anos mais de vida. Afinal, sou branco, escolarizado e ilustre membro da classe média tradicional. Vivo bem e pago, ao lado de mais 47 milhões de concidadãos um bom Plano de Saúde. Até há pouco morava do outro lado da fronteira RS/SC, mas atravessei o Rio Mampituba e vim morar do lado catarinense justamente para me abrigar neste patamar, mais alto do que o do RS...Na verdade, minha geração virou os anos 1950 “beneficiando-se” do aumento da expectativa de vida, graças, dentre outras coisas ao avanço da medicina e, last but not least, o fato de que somos ainda herdeiros de uma legislação previdenciária generosa de um Estado Providencial. Fosse, entretanto, negro/pardo, pouco escolarizado e morador de uma periferia das grandes capitais brasileiras, já teria morrido aos 54 anos, pois esta é a média nestes lugares - https://www.nossasaopaulo.org.br/portal/arquivos/mapa-da-desigualdade-2017.pdf . Dentre as razões de tamanha diferença entre expectativas de vida das classes de renda mais alta e classes e regiões mais pobres está o verdadeiro genocídio de jovens negros, vítimas da violência, mas mesmo os adultos mais pobres são também afetados pela falta de acesso à saúde, como se pode ver nas matérias abaixo, evidenciando que devemos, no Brasil, nos preocupar mais com o que mata do que com quem envelhece: : https://www.nexojornal.com.br/grafico/2018/07/23/As-causas-de-morte-no-Brasil-em-2016-segundo-o-SUS?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#Echobox=1532387332 Um país que mata- https://www.nexojornal.com.br/especial/2018/04/12/Um-pa%C3%ADs-que-mata

 

Brincadeiras e advertências à parte, minha observação sobre o tal ônus do envelhecimento é sempre eminentemente crítica e subordinada à valores.

Não existe nenhum problema com o envelhecimento da população. A questão crucial é a produtividade econômica, também esquecida no raciocínio malthusiano no SÉCULO XIX. Naquela época pensava-se que o crescimento de alimentos jamais alcançaria o crescimento geométrico da população. Bobagem. Cresceu e multiplicou-se, mais do que a população. Se há fome no mundo, isso

decorre da falta de renda, não de produto físico. Coisas do “mercado” – e do mercador, o pior deles o economista conservador.

O capitalismo, tal como previu Marx no Manifesto Comunista de 1848, revoluciona permanentemente tudo: Da natureza, passando pelas "relações de produção", às "forças produtivas". Resultado: AUMENTO DA PRODUTIVIDADE, que se expressa pelo aumento da população no globo, em consequência da globalização e , associado à isso, graças à mobilização político-ideológica dos trabalhaodres e ao desenvolvimento institucional do Estado no sentido de absorver maior representatividade destes, apontando para a melhoria das condições de vida de grandes massas. Isso, aliás, deslocou a luta de classes das barricadas para o processo político eleitoral, com Partidos populares organizados, ampla participação nos processos eleitorais e maior representação na implementação de Políticas Públicas.

Enquanto, pois, houver aumento da produtividade, democracia e abertura do Estado como instrumento de consagração de DIREITOS HUMANOS, inclusive ambientais, não há nenhuma catástrofe à vista. A população do mundo, passou de 1,2 bilhão em 1900 para 7 bilhões no ano 2000. Algo espetacular e inédito na história da humanidade. Claro que há lacunas neste processo, sejam no hiato NORTE-SUL, seja na brutal concentração de renda nas últimas décadas, seja no estreitamento dos processos democráticos em várias partes do mundo, sobretudo pela obsessão do NEOLIBERALISMO e do NEOFASCISIMO. Isso leva muitos a defenderem a inviabilidade da democracia com o capitalismo. Ainda assim, este raciocínio não oblitera a questão técnica fundamental: PRODUTIVIDADE. Desde que se mantenha um certo crescimento da produtividade mundial e, consequentemente do Produto - PIB per capita - isso significa que HAVERÁ PIB e, portanto, RECURSOS FISCAIS para administrar o processo social numa sociedade complexa e necessariamente regulada. Poderemos chegar ao PARADOXO DE TUGAN BARANOWSKI que nos ensinava Paul Sweezy: Um só capitalista e um só trabalhador, ambos movendo a roda da economia do mundo numa sociedade ultra tecnológica. Não poderão eles repartir a imensa renda auferida entre os dois, apenas. Imperioso que o Estado arbitre a redistribuição, não só por razões humanísticas, como para gerar o nível de consumo correspondente ao PLENO EMPREGO de apenas dois entes sociais ativos. Ou seja, a questão não reside na relação trabalhadores ativos x trabalhadores inativos (por idade, deficiência física ou deficiência do mercado de trabalho), mas na produtividade dos primeiros e no papel do Estado como regulador. Mas isso, claro, seria SOCIALISMO , um absurdo maiúsculo para obcecados neoliberais que tratam isso como ideologia e proclamam aos quatro ventos , como novidade, as máximas de Tatcher – “ There is no alternative (TINA) “– e Reagan – “O Estado é o problema, não a solução”. Se fossem moços cantaria pra eles uma velha canção do saudoso Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços...”. Lamentavelmente, não é o caso, começando pelo candidato do MDB, H. Meirelles, seguido de perto pelo seu concorrente Alkmin, do PSDB, todos ao abrigo do Programa de Temer: “Uma ponte para o futuro”. Ponte pênsil, solta, sem fundamentos nem éticos, nem técnicos. Pura ideologia.

 

 

 

CENARIO ELEITORAL

 

Reproduzo, por oportunos, dois textos em circulação nas redes: 1. Um novo Alkmin? Marco Antonio Carvalho Teixeira – Facebook 23 de julho

 

Maiores possibilidades de segundo turno no momento: 1) Alckmin versus Ciro; 2) Alckmin versus Marina. Lula não será candidato e o fato do PT insistir em levar o nome dele até bem próximo da eleição poderá promover a erosão do seu eleitorado no desenrolar da campanha. Ciro e Marina deverão herdar esse grupo que diante da insegurança da campanha petista fará opção por um campo político de oposição. O risco para Alckmin é ser visto como candidato governista e comprometido com o Centrão, grupo político que vai tensionar sua campanha como fez Paulinho da força na questão do imposto sindical. O eleitorado de Bolsonaro vai diminuir quando ele passar a se expor. Na melhor das hipóteses ele fica em 3 e na pior em 5 lugar. Ao flertar com o Centrão e ser abandonado no altar, Ciro acabou se enfraquecendo. Seu discurso de oposição perdeu ímpeto e o curioso é que ele não avançou em aliança sequer com o PSB, seu apoio mais provável. Marina vai sofrer com o isolamento e falta de estrutura política. Não a vejo buscando alianças sequer com legendas menores. Talvez aposte em formas alternativas de mobilização, o que tem demonstrado limites em competições eleitorais no Brasil. Tempo de TV e apoio de lideranças ainda contam muito. Possíveis novidades, Boulous e Amoedo, dois extremos em termos ideológicos, devem ter votações razoáveis nos grandes centros, mas não devem passar de 2 a 5% do universo de votos válidos. Haddad, na reta final, será o candidato do PT. O tempo curto de campanha inviabiliza-lo. Hoje, como algumas pesquisas demonstram, ele herdaria muitos dos votos destinados a Lula e seria competitivo. A demora, que é parte da estratégia do PT para manter holofotes sobre Lula, pode se voltar eleitoralmente contra qualquer candidato petista. Por fim, não acredito que Manuela mantenha sua candidatura, é um nome para vice, provavelmente do Ciro. Álvaro Dias certamente vai perder espaço.

 

2.Diálogo fraterno com Marco Aurélio Nogueira

Tibério Canuto – Facebook 23 julho

 

Tenho por Marco Aurélio o maior apreço. Vejo-o como a minha principal referência nesta etapa da vida. (...)

Sem ter a mesma formação florentina, ouso estabelecer um diálogo com meu guru, com base no seu artigo “A boiada do Centrão”. (...)

Marco Aurélio faz alertas importantes: tem razão quando chama a atenção sobre a possível perda na parte substantiva com a adesão dos partidos do “Centrão” à campanha de Alckmin. Esse risco é real e na campanha Geraldo terá de esclarecer quais foram os compromissos assumidos e como será a montagem de seu governo, bem como o possível loteamento da máquina estatal; uma prática, diga-se, que causa repulsa nos brasileiros.

Mas vamos às minhas observações. O artigo me passou a impressão, e Marco me corrija se estiver errado, de uma leitura negativa do acordo entre o tucano e os partidos

do “Centrão”, entre eles o PR de Valdemar Costa Neto. Minha leitura é diferente. Estes partidos, inclusive o Valdemar cortejado por Ciro, Bolsonaro e Lula, marchavam em direção às candidaturas populistas, o que colocava o país diante do risco iminente de ter de escolher entre o desastre e a tragédia em um segundo turno, para usar uma expressão extremamente feliz de Fernando Henrique. (...)

Não vou pinçar frases do artigo “A Boiada do “Centrão” para não distorcer o pensamento de Marco Aurélio. Este não é o método correto de se travar a boa polêmica. Mas me parece que o artigo subestimou o impacto da aliança Alckmin/”Centrão” no tabuleiro da disputa presidencial, que não se resume a maior tempo televisivo. Com a aliança, Geraldo, que vinha caindo pelas tabelas e não oferecia expectativa de poder, se reposicionou no tabuleiro eleitoral, adquiriu maior capilaridade nacional e palanques regionais competitivos. No meu modesto entendimento essas coisas, apesar de meio fora de moda, ainda pesam, e muito, nas eleições. (...)

Tempo de TV ainda pesará muito, também no meu modesto entendimento. Esse é um complicador terrível para Marina, que, corretamente, busca construir alianças com partidos como o PROS , o PHS e o PMN, que nada tem de ideológicos. Esses partidos se diferenciam do “Centrão” por uma questão de escala, de tamanho, mas não na sua essência. Não estou querendo com isso colocar na mesma balança as alianças de Alckmin e as de Marina, mas apenas alertar para a importância de alianças. Tampouco tem a pretensão de ensinar missa a vigário, pois, mais do que eu, Marco Aurélio sempre foi adepto de políticas de alianças. (...)

O maior ativo da Roda Democrática é o seu pluralismo. Ele nos permite a convivência respeitosa e fraterna. Marco e eu continuaremos com esse bom diálogo no nosso site e tomando um bom vinho na Mercearia do Francês.

 

3. M.Antonio

Josué de Alencar na chapa de Alckmin seria um contraponto a presenca de figuras do centrão como Waldemar Costa Neto, Paulinho da Força e agregados, além de poder representar um duro golpe no PT. Entretanto, ao que parece, não vai vingar e Alckmin pode ficar com o tempo de TV e o desgaste. Algo parecido com o abraço do Maluf no Haddad e no Lula que acabou custando a desistência de Erundina como vice de Haddad, mas rendeu tempo de TV e vitória eleitoral com o PT pagando alto custo político até hoje. https://painel.blogfolha.uol.com.br/…/josue-alencar-diz-qu…/

 

 

 

O Cabaré pegou Fogo

 

por Beatriz Vargas Ramos

 

Um desembargador de plantão defere um pedido liminar em Habeas Corpus (o HC foi impetrado contra o juízo da execução penal). Coisa que às vezes acontece, nada de mais, não seria a primeira vez. Aí então, um juiz de primeiro grau, que já não tinha jurisdição no caso (porque já havia sentenciado - processo findo, jurisdição esgotada), "decide" que precisa de uma orientação para saber "como proceder" (quando a ele não competiria proceder nem para A nem para B). 

 

Decide que alguém precisa decidir o que o fazer com a decisão do desembargador de plantão. Não foi uma decisão, foi um alarme. Alarme acionado, segue-se uma verdadeira caçada à decisão do desembargador do plantão. Todo mundo volta das férias. Todo mundo quer ser juiz de plantão. Parece que o processo tem dono e que o tribunal não tem regimento interno. Aí o relator que já não era mais relator, dizendo-se juiz natural do processo, e sem ser provocado, entra em campo para anular a decisão do juiz de plantão, avoca os autos para si, ao argumento de que o pedido é mera reiteração de outros que foram indeferidos (o que significa dizer que não há nenhum outro enfoque ou perspectiva jurídica possível). 

 

Fabrica um conflito de jurisdição, um falso conflito de jurisdição. O fundamento da avocação: aquilo que a oitava turma decidiu é algo que pertence à ordem do imutável (do tipo “quem manda aqui sou eu”). O réu não pode ser solto – é a decisão de fundo. O ex-relator não quer aguardar a distribuição do habeas corpus. O desembargador de plantão volta a determinar o cumprimento da ordem de soltura. A polícia finge que não descumpre, mas também não cumpre, até que, na queda de braço, o presidente do tribunal (no caso, o terrefê-4) anula a decisão do juiz de plantão, porque é a primeira vez que aparece uma questão de conflito de competência entre um juiz de plantão e um ex-relator em férias que resolve voltar das férias e tomar para si um processo que foi distribuído no plantão (eis o falso conflito). 

 

Aí a polícia não precisa mais fingir que ia cumprir a ordem do plantão. E, no final das contas, qual é o barbarismo jurídico? Não é nenhum dos anteriores. O absurdo é que “há um desembargador petista!” O absurdo é o "desembargador petista" achar que pode decidir no plantão habeas corpus em favor do réu, de acordo com sua liberdade de convencimento e argumentação jurídica – na pior das hipóteses – razoável. Se a decisão é certa ou errada, se há fato novo ou não há, essa é uma questão que deve ser resolvida no mérito, pelo colegiado competente, não no vale-tudo, fora do molde legal ou à margem do procedimento aplicável. A impressão que fica, mais uma vez: o que importa é a luta pelo poder.

 

 O terrefê-4 não ia correr tanto para prender Lula antes das eleições, para deixar que um “desembargador petista” pudesse soltá-lo por um dia que fosse. O terrefê-4 só autoriza o cumprimento de decisão de juiz antipetista. O terrefê-4 se tornou um tribunal tão “politizado” que o regimento interno e a lei processual já foram às favas há muito tempo. As ações sobre a constitucionalidade do art. 283 do Código de Processo Penal dormem nas prateleiras do STF Como diz meu primo, “o cabaré pegou fogo”!

 

Beatriz Vargas Ramos – professora de direito  na UnB

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Roberto Tardelli, sobre Moro e o TRF-4: “Que Tiro Foi Esse?”

 

*Moro tinha tanto direito de impedir HC de Lula quanto Tite de mexer no time da Bélgica*

*Roberto Tardelli é procurador aposentado do Ministério Público de São Paulo e advogado*

10 de julho de 2018 às 21h50

 

Vamos pular as introduções desnecessárias. Com a condenação de Lula pelo TRF-4, absurdamente (matéria ainda não votada pelo STF) decretou-se sua prisão, para início de cumprimento de pena.

Esse processo acabou na vara de origem, presidida pelo juiz Sergio Moro, e também se encerrou com o acórdão condenatório e com a decisão de seguimento do caso para o STJ — recurso ordinário — e com a interposição de agravo para o STF — recurso extraordinário.

Moro e Gebran encerraram suas atividades de juízes, no processo. Terminaram seus trabalhos.

Com a prisão de Lula, deu-se início à execução da pena, desta feita a cargo de uma Juíza de Direito, de outra Vara, que nada tem a ver com o juiz Sérgio Moro.

A prisão de Lula não revogou uma série de direitos que ele possui, como ex-presidente da república e o que acabou ocorrendo era aquilo que se previa: Lula acabou em ilegal e abusivo isolamento.

Ademais, Lula permanece com seus direitos políticos inteiramente preservados e, nessa condição, pode exercê-los, votar e ser votado, exatamente porque é pré-candidato à presidência, nas eleições de outubro próximo.

Se não puder se manifestar, haverá evidente cerceamento a seu direito político.

Os demais candidatos estão circulando e apresentando suas idéias ao país e Lula, ao contrário, sequer visitas pôde receber, permanecendo em ilegal isolamento.

Essa questão foi levada à Juíza que nada fez para alterar a situação de Lula e os advogados, que a gente em Direito chama de Impetrantes, entraram com Habeas Corpus.

Todas as discussões sobre a responsabilidade criminal de Lula são estranhas ao HC, que se preocupou apenas com a sua situação política e seu isolamento prisional.

Não existe data para impetrar-se um HC, que pode ser apresentado ao Tribunal de Justiça de segunda a domingo e feriados.

O HC foi impetrado na sexta-feira à noite e, por sorteio, havia dois desembargadores no plantão, foi destinado ao Desembargador Rogério Favreto.

Ele estudou a situação na noite de sexta-feira e no sábado, proferindo sua decisão liminar, no domingo, por força da qual concedia a liberdade ao Presidente Lula, entendendo fortes e coesos os argumentos da defesa e afastando o parecer contrário do MP.

O mundo caiu e um festival de desinformações e informações estapafúrdias teve início, com cenas constrangedoras e, diria, abusivas e que percorrem, sim, o Código Penal.

Rogério Favreto era competente para a decisão? Sim.

A matéria era relativa ao plantão? Sim, na medida em que se noticiava um estado permanente de grave ilegalidade na execução da pena de Lula.

Era cabível HC nessa situação? Em tese, sim, porque havia uma grave afronta ao direito do preso, não contornável por outra medida.

O Desembargador determinou a expedição de ofício ao diretor do presídio da polícia federal, em verdade, ao delegado de plantão, comunicando-lhe que Lula deveria ser posto em liberdade.

Num passe de mágica, surge de suas férias, o juiz Sérgio Moro, que determinou ao delegado federal que não cumprisse a ordem recebida.

Sérgio Moro poderia ter feito isso? Evidentemente que não.

Por várias razões, a primeira delas é que Moro não mantém com o processo mais nenhuma relação, sendo pessoa inteiramente estranha a esse Habeas.

Não é o juiz da execução da pena, não era o que se cuida chamar de autoridade coatora e não poderia, jamais, como juiz de primeira instância, determinar a uma autoridade policial que descumprisse uma ordem emanada de um desembargador, regularmente expedida, no bojo de um pedido específico.

Podemos dizer que Moro agiu por interesse ou satisfação pessoal e praticou ato contrário à lei; em outras palavras, cometeu, pelo menos, em tese, crime de prevaricação, previsto no Código Penal:

Art. 319 – Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal:
Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.

Qual a competência de Moro para determinar ao Delegado de Polícia que não cumprisse a ordem de soltura?

A mesma competência que teria Tite para determinar uma substituição na seleção da Bélgica ou da França…

Tudo piora para ele, Moro, se relembrarmos que ele se encontrava em gozo de férias regularmente concedidas.

Isto é, fora do país — encontrava-se em Portugal — e fora da função judicante, ele jamais poderia ter dado a ordem que deu e revelou sua completa perda de serenidade para julgar qualquer outra causa que tenha Lula como acusado.

Moro deixou de ser juiz e passou a ser perseguidor de Lula e seu comportamento nos permite dizer que ele é, efetivamente, obrigado a declarar-se impedido (suspeito) para processar Luiz Inácio Lula da Silva, porque desfez-se de qualquer sentido de imparcialidade.

É ver para certificar-se. Moro ficou nu.

No trem que se descarrilhava na curva, um outro componente completamente maluco se agregou.

Rompendo a cena, o Desembargador Relator do processo de Lula, Desembargador João Pedro Gebran Neto, dizendo-se ser ele a verdadeira e única fonte de emanação de Direito, também ele sem se dar conta que sua atividade havia se encerrado, veste sua beca de super-juiz e, de ofício, sem ser provocado, oficia também ao atônito Delegado Federal, determinando-lhe que se abstivesse de cumprir o alvará (que é uma ordem) para soltar Lula.

Lula ficou solto, mas permaneceu preso, ou continuou preso, permanecendo solto. Um caos.

O Desembargador Gebran poderia ter dado a ordem que deu?

Não, porque há maneiras processualmente corretas até de revogar a ordem emanada pelo desembargador Favreto, cujos trâmites se dão no interior do próprio TRF-4, através de recurso próprio da parte contrária, o esquecido Ministério Público, primo pobre nessa briga.

Sim, o MPF poderia recorrer, através de um agravo interno, que levaria a soltura a conhecimento da Turma processante, que poderia manter ou revogar a liminar concedida.

Nunca vi um cavalo de pau desses para fazer descumprir uma ordem, repita-se, regularmente dada.

Não sou menino e carrego algumas dezenas de milhares de processos criminais nas costas e nunca, mas nunca, vi uma rave processual dessa animação.

Tenho certeza que ninguém viu. Nossos limites estão revogados no que toca à maluquice jurídica.

Endurecendo o jogo, o Desembargador Favreto chuta de bico e, reitera pela terceira vez, a ordem de soltura, dando uma hora para seu imediato cumprimento.

Uma hora em juridiquês tem duzentos, trezentos minutos.

A ordem é dada e segue para que funcionários operacionais trabalhem para que ela chegue a seu destinatário, o delegado federal.

Carimba daqui, carimba de lá, cafezinho, calor, abre a janela, fecha a janela, computador está lento, essa uma hora espichou e…

Novo terremoto.

O Presidente do TRF-4, Desembargador Thompson Flores, vestiu sua capa preta e tirou sua espada de Jedi, entrevendo naqueles dois ofícios, de Gebran e de Favreto, um caso raro de conflito positivo de competência, em que dois desembargadores se apresentavam como competentes para decidir de forma diversa sobre o mesmo caso.

O baile da loucura estava atingindo seu auge e ninguém era de ninguém, quando ele emitiu uma quinta ordem à mesma autoridade policial, que, naquela ocasião, já prensava em prender-se, ele próprio a si mesmo.

Loucura por loucura, seria apenas mais uma pereba num caso constrangedor.

Em outro ofício, ele determina que a ordem deve ser ignorada e determina, sem revogá-la expressamente, uma vez que o caso seria devolvido ao Desembargador Gebran.

Isso se deu hoje e o Desembargador Gebran anulou todos os atos de seu colega de Tribunal, inclusive, quase para deixar a gente cantando QUE TIRO FOI ESSE?, anulando tanto e tudo, mas tanto que anulou uma das ordens de Favretto, que foi a de dar ciência dos fatos ao CNJ e à Corregedoria da Justiça pela esdrúxula intervenção de Sérgio Moro.

Ele determinou, quase num surto formalista, que não se levasse ao conhecimento de ninguém a vexaminosa atuação do Juiz Moro.

Como se isso fosse necessário.

Nesse surto midiático, com juiz e desembargadores disputando o cargo de JUIZ MARVEL, quem perdeu foi o Estado Democrático de Direito, quem perdeu foi a democracia, quem perdeu foi a população que percebeu que a Justiça cedeu a impulsos narcísicos.

Quando a vaidade se sobrepõe, todos perdemos.

Favreto mostrou ser independente e mostrou ser um juiz exemplar porque não se intimidou, não se curvou às pressões e tinha competência para de cidir porque estava no lugar certo e na hora certa.

Sua decisão foi eminrentemente jurisdicional e ele também foi alvo de um ataque jurisdicional de que nunca tive notícia.

Colunistas, blogueiros e jornalistas da extrema-direita ultrapassaram todos os limites da insanidade e até telefones pessoais foram divulgados nas redes sociais.

A Globo o associou criminosamente ao PT, sem se dar conta de que o próprio Moro desfila pelo mundo a tiracolo com Dória e outros expoentes do PSDB.

Favreto nunca teve questionada sua honestidade e probidade e se tornou vítima desses lobos que vagam no mundo virtual e na grande mídia.

Um grande juiz a ser preservado e defendido por todos nós.

 

 

 

 

Nós e Eles

Há um poema de Fernando Pessoa que gosto muito e sempre me vem à cabeça, musicada pelos saudosos “Secos e Molhado”s -https://www.youtube.com/watch?v=77sTm6g_7so  ,  que começa assim: Não, não diga nada/Supor o que dirá a tua boca/É dizê-lo já…

Assim começo  porque o caro leitor, já acostumado com esta crônica políca, talvez pense que vou, com o título acima, voltar à disputa entre coxinhas e mortadelas. Nada disso. O “nós e eles”, hoje, refere-se a nós – brasileiros – e eles, os americanos. No fundo, há até  certa correlação, aqui também, entre coxinhas e mortalas, já que nela subsiste uma ideia de que os primeiros são mais ricos do os segundos. O inconsciente me trai. Mas a conjuntura nacional está tão insossa, à luz do brilho da seleção da COPA, que é melhor diversificar.

Antes, porém, sou obrigado, pelo ofício a relatar sucintamente o que diz a última Pesquisa Eleitoral, do PODER 360,  realizada de 25 a 29 de junho:

DataPoder360: a 3 meses da eleição, Bolsonaro é líder e ‘não voto’ tem 42%

https://www.poder360.com.br/datapoder360/datapoder360-a-3-meses-da-eleicao-bolsonaro-e-lider-e-nao-voto-tem-42/

42% dos eleitores ainda não têm candidato a 3 meses da eleiçãoSérgio

Sem Lula, Bolsonaro vai de 18% a 21%, Vence todos no 2º. turno

Em alta: brancos, nulos e indecisos

Haddad (PT) tem 6%; Alckmin, 8%

Bolsonaro vence todos no 2º turno

Ciro Gomes fica com 12% a 13% e tem a preferência de petistas se Lula não concorrer

Potencial de voto em Lula é de 35%, mas rejeição é de 62%

Isso posto, tirem suas conclusões e vamos ao norte. Muitas diferenças nos separam, além da posição no globo. Os americanos são anglo-saxões, herdeiros de uma cultura marcada pela forte resistência às invasões do Império Romano na Antiguidade e pela Reforma Religiosa na entrada da modernidade, como mostrou num livro clássico – O Espelho de Próspero - Richard Morse. Outro americano, um pouco mais tarde, Samuel Huntington, no seu famoso “O Choque das Civilizações”, sugere, também que toda a América Latina , como o Oriente Médio e China, consitui um bloco cultural substancialmente distinto do anglo-saxão. Dificilmente nos uniremos. Simplificando, dir-se-ia que estes são mais práticos diante do utilitarismo individualista e nós, mais sensíveis ao humanismo. Resultado assinalado por Morte: Para um americano o continente latinoamericano, sobre o qual olha com desdém, é um caso atávico de subdesenvolvimento. Para nós, os Estados Unidos, um caso irrecuperável do salto da barbárie à decadência, sem passar pela civilização..

A reflexão me vem ao caso depois de ver o documentário A GUERRA DO VIETNAME, na Netflix. Tendo vivido o tempo daquele conflito e, já na época – entre \961 e 1973 - , percebido os descaminhos dos Estados Unidos, só agora, neste filme,  pude ver a profundidade, não só dos crimes de guerra praticados, como a quantidade de  mentiras governamentais que os sustentaram. Espantoso. Não deixem de ver. Com todas as barbaridades que temos assistido nos nossos Governos, não creio que jamais faríamos algo similar. Vide as ações de nossas forças armadas à serviço da ONU no Haiti. Lá temos, hoje, uma vibrante torcida pelo Brasil nca Copa

Outra fonte atual de avaliação dos Estados Unidos é o livro recém lançado “ IRMÃOS   O KENNEDY – o jeito americano de fazer política ” , de David Talbot.:                  http://blogdomarinoboeira.sul21.com.br/…/Irmaos-A-Historia-…

O livro se centra na saga da família Kennedy, John, Presidente, e Robert, candidato, ambos assassinados mas demonstra os bastidores de violência e conspiração reinantes na vida americana..

Somados a tantos outros fatos, livros, filmes e documentários  recentes sobre os Estados Unidos somos obrigados a aceitar a ideia de que nosso parentesco é mais geográfico do que cultural. Não por acaso o bordão de Trump é “America Firs”, que ecoa aos mais velhos a velha “Deutschand uber alles”, de Hitler. Somos nacionalistas, por certo, mas, vítimas, talvez, do velho latinismo o situamos no contexto da humana idade. Deus nos guarde do jeitinho que somos.

 

O velho e o novo. Os velhos e os jovens.

 

Paulo Timm – A FOLHA, Torres RS, 21 Jun

“Sem atrito dialético, paciência argumentativa e mediação política, o futuro fica em suspenso.”
http://ano-zero.com/qualidade-da-democracia/ 
Marco Aurélio Nogueira - 25 de outubro de 2016 - A QUALIDADE DA DEMOCRACIA TEM A VER COM VOCÊ

"Os jovens, incrivelmente, não lideram mais vanguarda alguma. Pelo contrário, lideram a retaguarda, o atraso, o anacronismo. O frei Luiz Carlos Susin, teólogo de 68 anos e admirador do papa Francisco, costuma dizer que a geração dele transgrediu tanto que, para muitos jovens de hoje, a forma mais genuína de transgredir é retrocedendo. Faz sentido."

Paulo Germano, publicada por GaúchaZH, 15-06-2018

Os jovens que não

 

Li, recentemente,  depoimento de um brasileiro recém chegado à Londres, no qual observa algo, no mínimo, surpreendente. Por todos os cantos da cidade, pelos quais transitava,  via algum tipo de manifestação popular. Uns contra o BREXIT, outros a favor de ilegais, outros contra tentativas de mudança no invejável sistema de saúde pública do Reino Unido. Em todos eles, relata o viajante, percebia uma forte predominância de mulheres idosas e poucos jovens. Daí sua reflexão sobre o que está acontecendo com o mundo quando os jovens se retraem e os mais velhos é que saem às ruas para fazer da democracioa algo mais além do voto: O protesto. Uma resposta seria o efeito “Maio de 1968”. A geração que passou por aquela década – e aquele ano -  , de grandes transformações em todos os campos, começando pelo pequeno passo sobre o solo lunar – “um grande salto para a humanidade” no rumo das estrelas  - até a revolução sexual , promovida pela pílula, não envelhece. Morre, por certo, ainda distante da imortalidade,  mas sem pranto, à vista da percepção de ter vivido e gozado um dos momentos mais libertários da civilização. Nem a conservadora Igreja de Roma escapou do vendaval. O Concílio Vaticano II, sob João XXIII, assim se definiu:

 

"A Igreja sempre se opôs a erros, muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor as necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações".

 

Aquele, foi, enfim, um tempo de afirmação da autonomia das consciências,  ainda movida pelos ideais da razão iluminista, sobre a tradição. Uma renovação, em sentido amplo, naquilo que um filósofo marxista contemporâneo denomina verdadeiro “acontecimento”. Os jovens, aparentemente, comandavam o espetáculo, para espanto de seus pais e avós ainda desconfiados com tamanhas liberalidades.

Passaram-se 50 anos e muitas daquelas liberdades refugiaram-se na vida estritamente privada: Cuidados de si, para si mesmo. O que parecia um novo umbral da História, congelou-se como conquistas meramente individuais de gerações mi-mi-mi , lamurientas,

EM VEZ DE RESMUNGAR

http://cbn.globoradio.globo.com/media/audio/191539/em-vez-de-resmungar-ou-lastimar-va-atras-daquilo-q.htm

 O grande avanço tecnológico, de outra parte,  sublinhou a importância da eficiência tópica, como categoria de meios, sobre reflexões mais abrangentes sobre os sentidos últimos da existência e da História. Com seu extremo dinamismo instaurou o império da novidade, confundindo-o com o novo, sempre mais arriscado e incerto -                     http://marcoanogueira.blogspot.com.br/2014/09/novo-novidade-renovacao.html -   .

As mudanças levaram às últimas consequências a afirmação do “ente” como pé de pagina do “ser”, no rastro do fim da metafísica de Heidegger. Constituimo-nos, todos, mas sobretudo as novas gerações, como elos de uma cadeia inevitável de realidades provisórias: fazemos investimentos na nossa educação, saúde e aparência física como um meios de sobreviver melhor no mundo do consumo, fazemos poupança para um futuro pessoal mais seguro, atravessamos diversas relações amorosas até nos fixarmos num parceiro, por um período de tempo, odiamos tudo o que se refere ao público, ao humano  e ao Estado.

"A crise do humanismo em nossa época tem, sem dúvida, sua fonte na experiência da ineficácia humana posta em acusação pela própria abundância de nossos meios de agir e pela extensão de nossas ambições. No mundo, em que as coisas estão em seu lugar, em que os olhos, as mãos e os pés sabem encontrá-las, em que a ciência prolonga a topografia da percepção e da práxis, mesmo ao transfigurar seu espaço; nos lugares onde se localizam cidades e campos que os humanos habitam, ordenando-se, segundo diversos conjuntos, entre os entes; em toda essa realidade 'correta', o contra-senso dos vastos empreendimentos frustrados - em que a política e técnica resultam na negação dos projetos que os norteiam - mostra a inconsistência do homem, joguete de suas obras. Os mortos que ficaram sem sepultura nas guerras e os campos de extermínio afiançam a ideia de uma morte sem amanhã e tornam tragicômica a preocupação para consigo mesmo e ilusórias tanto a pretensão do animal rationale a um lugar privilegiado no cosmos, como a capacidade de dominar e de integrar a totalidade do ser numa consciência de si."
                        (E. Levinas cit por Grégori Elias Laitano, FB 21 jun 2018)  

Fiquei alarmado, outro dia, ao contestar o discurso governamental da crise da Previdência, reafirmando a lógica de se iniciar a análise da matéria a partir do compromisso ético das novas gerações frente às passadas, as quais, com seu trabalho , muitas vezes pesado, sob condições sociais e legais adversas,  haviam contribuido para elevar a produtividade do sistema econômico permitindo elevação cada vez maior da renda e dos salários. Replica um jovem: - “Eu quero que meu avô morra, se ele não foi capaz de investir no seu futuro…” Oressa, os tempos eram outros. Senão dourados, marcados pela ideia de que se algo escapasse aos olhos dos homens, não escaparia ao olhar dos deuses. Da eternidade, na Cidade de Deus,  onde repousa o insignificante bem que, só por persistência, sobreviveu à luta contra o gigantesco mal terreno.

Leio, a propósito, outra notícia igualmente estarrecedora: Os jovens seminaristas odeiam o discurso de tolerância do Papa Francisco - http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/580009-os-jovens-que-nao-gostam-do-papa-francisco . Lamentável. Querem o retorno aos tempos anteriores ao Concílio Vaticano II: Dogmas, sob o acicate das mortificações - http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/577687-as-novas-velhas-faces-do-conservadorismo-catolico . Jovens são também, no Brasil, os eleitores de candidatos tradicionalistas e autoritários às eleições presidenciais - https://oglobo.globo.com/brasil/entenda-que-sustenta-pensamento-de-jovens-de-16-24-anos-que-votam-em-bolsonaro-22721699 .

Seria o caso de se perguntar: - Não estarão os nossos jovens confundindo o novo com mera novidade, sem se dar conta de que nem tudo que é velho é ruim e nem tudo o que é novidade é necessáriamente novo? Um historiador americano Tony Judit antecipou em seus livros tudo isso e tenta explicá-lo à luz da perda de memória dos mais jovens. Eles dizem que tudo deu errado, sem se dar conta de que usufruem um mundo melhor do que os avós e sem saber como isso tudo aconteceu graças à Política. Apostam que o Brasil não deu certo e dizem que querem emigrar, sem  se darem conta que saímos de um fazendão escravocrata de café em 1989, com pouco mais de 10 milhões de almas, para uma das players mais sofisticadas do mundo, com mais de 200 milhões de brasileiros. Será que tudo foi obra do acaso? Ora, até sabemos que as mudanças ocorrem também em razão de acidentes aleatórios, mas, mais das vezes, na História, elas são frutos do engenho e arte daqueles que fizeram da herança a matéria prima da civilização. Vamos com calma… Mas, se minha geração “protestante” está morrendo sem herdeiros, do que será feito o futuro? De avatares desmemoriados? Meu Deus! O Brasil não cabe em Portugal.  Dai-me Senhor, mais alguns anos para tentar explicar ao mundo que somos feitos de estórias, não átomos, como queria Eduardo Galeano. E para pensar, transgredir e  protestar, segundo o decálogo proposto por Marco Aurélio Nogueira:

PENSANDO OS PROTESTOS DOS DIAS DE HOJE- DECÁLOGO

Marco Aurelio Nogueira . Cientista Político – S.Paulo - UMESP

1 – PROTESTAR É DEMONSTRAR VOZ E PODER

2 – PROTESTAR É BUSCAR CONSENSOS

3 – PROTESTAR SEMPRE IMPORTA

4 – PROTESTAR É EMPREGAR O BOM SENSO

5 – PROTESTAR É UMA VIRTUDE

6 – PROTESTAR É DEFENDER SUA AUTONOMIA

7 – PROTESTAR É CUIDAR DE SI

8 – PROTESTAR É SEGUIR ALGUMA ORDEM

9 – PROTESTAR É ESSENCIAL, MAS COM MODERAÇÃO

10 – PROTESTAR NÃO É AUTORITARISMO DISFARÇADO

 

 

 

 

SEMANA INTENSA  SOB TORPOR CÍVICO

Semana intensa entre 11 e 15 de junho, mas com pouco entusiasmo, mesmo para a COPA DO MUNDO.

No plano internacional, o encontro, mais cenográfico do que consequente, entre o Presidente Trump e o líder norte-coreano Kim Jung-On em Cingapura. Do feito, um estímulo a todos aqueles – militaristas principalmente -  que apostam no domínio da bomba atômica como fator de poder e persuasão globais.  Mau sinal.

No plano nacional, segue a tropelia sucessória à Presidência, hoje em frangalhos, sob  o pestilento Michel Temer, de quem todos tomam distância. O torpor cívico  deverá fazer do “não-voto”- soma dos que não irão às urnas mais nulos e brancos – o grande vencedor. Em contrapartida, Lula é o grande perdedor, pois, preso, dificilmente conseguirá consagrar sua indiscutível liderança. Bolsonaro e Marina surpreendem sendo que  “Ela” ou mesmo Ciro Gomes o bateriam no segundo turno. Relembro, aliás, aos leais leitores desta coluna que há tempos venho chamando a atenção para o fato de que todos insistiam em desconhecer a Rainha Inca. Aí está ela, impávida e enigmática. Silva. Mulher, cabocla, vencedora. Bolsonaro, ameaçador,  na frente ,inclusive no politizado Rio Grande do Sul, podendo arrastar consigo um ultradireitista para o Piratini, já conquistando apoios importantes na alta finança. Vejamos esta seleções  último DATAFOLHA:

Cenário 2 (Se o PT lançar Fernando Haddad no lugar de Lula)

·                   Jair Bolsonaro (PSL): 19% . Marina Silva (Rede): 15% - Ciro Gomes (PDT): 10%

·                   Geraldo Alckmin (PSDB): 7% . Alvaro Dias (Podemos): 4% - Fernando Haddad (PT): 1%

·                   Sem candidato: 33%

Cenários pesquisados para o 2º turno:

Cenário 10 (sem Lula)

·                   Marina (Rede): 42% - Bolsonaro (PSL): 32% -

·                   Em branco/Nulo: 24% - Não sabe: 2%

 

Cenário 11 (sem Lula)

·                   Ciro (PDT): 36% - Bolsonaro (PSL): 34%

·                   Em branco/Nulo: 28% - Não sabe: 3%

 

Observações importantes:

Lula perdeu 1/3 da preferência espontânea em um ano, mas 30% dizem que votariam em candidato indicado por ele e 17% , apenas, "talvez"

51%  rejeitariam em candidato indicado por Lula

    Em 2014 a incerteza estava abaixo de 10%. Hoje é de cerca de 25%. Chegará perto de 50%

No plano estadual,  enfim, também a corrida eleitoral, revelada pela Paraná Pesquisas, embora com candidaturas ainda indefinidas: Sartori na frente, em torno de 28% , seguido por Eduardo Leite, ex Prefeito de Pelotas,  Miguel Rosseto, braço direito de Dilma Roussef , Jairo Jorge, ex-Prefeito de Canoas e Heinze num bloco entre 6% e 10%. Hermes Zaneti, do PSB, ainda não é candidato oficial, mas a se confirmar sua candidatura pelo PSB, isso retiraria a sigla do conluio com Sartori e poderia vir a crescer. Tudo dependerá, sobretudo, da companhia de cada um à Presidencia. Quero ver Sartori carregando nas costas o legado de Temer…

Intenção de voto para Governador - cenário 1

https://www.poder360.com.br/pesquisas/sartori-lidera-disputa-para-o-governo-do-rio-grande-do-sul-diz-pesquisa/

José Ivo Sartori (MDB) -    28,3%

Eduardo Leite (PSDB) -     10,8%

Miguel Rossetto (PT) -         9,8%

Jairo Jorge (PDT) -                 8,20%

Luis Carlos Heinze (PP) -      6,0%

Hermes Zaneti (PSB) -             2,90%

Abigail Pereira (PCdoB)       - 2,7%

Roberto Robaina (Psol)-           2,40%

Mateus Bandeira (Novo) .       1,0%

Nenhum- 21,20% . Não sabe -   6,60%

 

OPÇÕES: Política ou Arte?

Especial para REPORTER INDEPENDENTE , BSB jun 13

Alguém já disse que há dias que parecem anos. Eu digo que a semana em curso parece uma eternidade. Eternidade, não como tempo ou espaço, mas como incriado sem fim. Jorge Luiz Borges assim a tratou em sua BREVE HISTÓRIA DA ETERNIDADE: Mistério, erudição, trivialidade e  poesia. Tudo sem começo nem fim, ou finalidade. Tal aconteceu nestes dias no Brasil: Publicação da Pesquisa DATAFOLHA no domingo, com lançamento de LULA PRESIDENTE, misturado ao  Dia da Língua Portuguesa – 10 de junho, dia dos Namorados, logo do amor, no dia 12, simultâneo ao beijo am-bi-quo de Trump & Kim Jong Un; maus dias, todos os dias, para o Presidente Temer, acossado pela Polícia Federal, com  respingos sobre ex Ministro da Fazenda,  além de buscas indesejáveis no aconchego de uma dezena de políticos na ativa.  E tem ainda a COPA (Fria), na gelada terra  de Gogol, Tolstoi, Dostoieviski, Pasternak e Vassily Grossman, autor do grande romance crítico do mundo soviético – VIDA E DESTINO. De tudo um pouco, dormindo em apoese.. Atacado e varejo. Secos, molhados e cata-plasmas. E o  que puder ter sido jamais será, plagiando Bandeira.

Diante de tudo isso, repilo a crônica, muito passageira e lhes ofereço à reflexão ou mero gosto dois temas: Política e Poesia. Façam suas escolhas. Afinal v. precisa saber  tanto  da piscina, como da  Carolina…

                                                          

 

                                    PESQUISA DATAFOLHA 10 junho

Cenário 2 – 1º. Turno  (Se o PT lançar Fernando Haddad no lugar de Lula)

·                   Jair Bolsonaro (PSL): 19%  Marina Silva (Rede): 15%   Ciro Gomes (PDT): 10%

·                   Geraldo Alckmin (PSDB): 7% Alvaro Dias (Podemos): 4%  Fernando Haddad (PT): 1%

·                   Sem candidato: 33%

Cenários pesquisados para o 2º turno:

Cenário 10 (sem Lula)

·                   Marina (Rede): 42%   Bolsonaro (PSL): 32% Em branco/Nulo: 24%

·                   Não sabe: 2%

 

Cenário 11 (sem Lula)

·                   Ciro (PDT): 36%    Bolsonaro (PSL): 34% 

·                   Em branco/Nulo: 28% Não sabe: 3%

 

Cenário 12 (sem Lula)

·                   Marina (Rede): 41%   Ciro (PDT): 29%

·                   Em branco/Nulo: 28%  Não sabe: 2%

 

                                                           II

Pílulas Camonianas - Paulo Timm – Olhos d´Agua, 03 de nov/2003

1.

Amor é dor que desatina sem doer,
É um contentamento descontente.
Amor é um cuidar que se ganha em se perder,
É um não contentar-se de tão contente.

Amor, que em sonhos vãos do pensamento,
Vem não sei como , e dói não sei por quê?
É o gosto de um suave pensamento,
É um mal que mata e não se vê,

Que amor com seus contrários se acrescenta
Na esperança de algum contentamento,
Dando canto à voz, à alma ao pranto,

Pois sobre cousas vãs faz fundamento
Quando na cousa amada se apresenta
Tal modo nunca visto de tormento.

2

De tudo se descuida o meu cuidado
E busco em luzente Olimpo oscuridade
Trago sempre no mais danoso , mais cuidado
Um sempre ter com quem nos mata lealdade...

Vivo em lembranças , morro de esquecido
Te vejo e vi, me vês agora e viste,
Nestes ( ...) olhos claros escondido
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste.

Estranho mal! Estranha desventura!
Se de todo contudo está o fado
N´os dias ajudados da ventura

Paga o zelo maior de seu cuidado
Em toda condição em todo estado
Ou gostos que eu tiver, enquanto dura


3

De tudo se descuida o meu cuidado
E busco em luzente Olimpo oscuridade
Trago sempre no mais danoso , mais cuidado
Um sempre ter com quem nos mata lealdade...

Vivo em lembranças , morro de esquecido
Te vejo e vi, me vês agora e viste,
Nestes ( ...) olhos claros escondido
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste.

Estranho mal! Estranha desventura!
Se de todo contudo está o fado
N´os dias ajudados da ventura

Paga o zelo maior de seu cuidado
Em toda condição em todo estado
Ou gostos que eu tiver, enquanto dura

 

 Paulo Timm

Afinal, o que é o  “Centro”?

A exaltação do centro como o lugar da virtude política não é invenção do povo de Minas Gerais. Nem a conciliação uma jaboticaba brasileira.  Elas são herança dos ensinamentos de grande Aristótles, para quem o lugar equidistante dos extremos seria sempre o melhor. Mas acrescentou que nunca se sabe, antecipadamente, onde está este lugar. Ele é o resultado da múltiplas experiências. Sempre a experiência como Mestra da sabedoria. A praxis…

Aqui no Brasil, últimos tempos, vivemos uma erosão do centro político, à luz do que se chama polarização extremada entre coxinhas e mortadelas, direita x esquerda. Muito embora isso tenha resultado dos acontecimentos históricos que envolveram o impeachment de Dilma Roussef, ao cabo d 14 anos de lulo-petismo no Governo Federal, a desclassificação do centro tem raízes mais profundas, sobretudo na esquerda ortodoxa. A social-democracia, por exemplo, núcleo duro do centro político no século XX, foi dura e virulentamente criticada pelos comunistas como traição à causa popular. Lembro, a propósito, a odiosa rejeição à Leonel Brizola, quando de seu retorno ao país, ao final de 1979, carregando na sua bagagem o título de Vice-Presidente da II Internacional, de caráter social-democrata, isto é democrático e reformista, com o propósito da implantá-la sob a égide do trabalhismo. Tratava-se de um claro e expresso deslocamento de velho líder que outrora, antes de 1964, havia liderado a esquerda e ele o fazia, não só por razões ideológicas, como por reconhecer que um avanço social no Brasil exigia uma forte aliança com forças internacionais não vinculadas à União Soviética. A direita, de outra parte e  de modo geral, até tem sido mais tolerante com o centro, talvez pela infertilidade eleitoral dos princípios de Mercado que a regem, numa nação que está literalmente fora dele e que depende do Estado para sobreviver.

A verdade é que as últimas pesquisas eleitorais para a Presidência demonstram não só a radicalização das posições em jogo, como o desencanto cada vez maior do eleitorado com as eleições. Aliás, nas recentes eleições para Governador em Tocantins, o grande vencedor foi o “não voto”, isto é, a soma dos que não compareceram às urnas mais os que votaram nulo e branco. O mesmo ocorreu com as eleições para Prefeito em 20 cidades fluminenses, reeditando o que já ocorrera em Porto Alegre, em 2016: Ganhou o “não voto”. Vejamos o que mostra esta Pesquisa DataPoder360

Militar do PSL firma-se acima de 20% e vence todos no 2º. turno

Ciro firma-se como o anti-Bolsonaro com 12%

Haddad (PT) tem 8%;

Alckmin,  7% ; Marina e Alvaro Dias, 6% cada um

https://www.poder360.com.br/datapoder360/bolsonaro-e-lider-doria-decepciona-e-empata-com-alckmin-diz-datapoder360/

Vê-se, pois, o colapso do centro, para o qual parte da direita tenta se reorientar à cata de votos que não encontra. Reunião de alguns deles em Brasília reuniu-se às pressas  tentando uma reação na busca de um nome de consenso simultaneamente anti-Bolsonaro e anti-Ciro.- https://www.oantagonista.com/brasil/os-17-pontos-manifesto-em-defesa-de-candidatura-unica-de-centro/  Quem mais reclama é, talvez, o mais direitista destes neo-centristas, cujo Partido, o DEM, aliás, nem compareceu ao encontro:

"O PROBLEMA É QUE ESTAMOS FALANDO MUITO EM CENTRO E A SOCIEDADE NÃO ENXERGA O CENTRO COMO ENTENDEMOS. ENTÃO, FICA UMA CONVERSA MEIO DE BÊBADO"

O problema não é de excesso de álcool neste processo, mas falta de informação ou, talvez, honestidade. O centro histórico, responsável pela modelagem do Estado de Bem Estar é claramente reformista no sentido de assumir o papel regulador do Estado na Sociedade e  não do Mercado. Graças e ele, com grau maior ou menor da direita e da esquerda em cada um dos casos internacionais, fizemos do Século XX o “Século dos Direitos”, base sobre a qual construiu-se uma certa paz social e desenvolvimento.  Os grandes ideólogos deste modelo foram J.M.Keynes, que retateu teoricamente os liberais, mostrando o papel do déficit público como medida anti-cíclica em defesa do emprego, e Max Weber, com uma nova epistemologia do Estado e da Ação Política, através da qual o conflito ideológico saía dos Manuais em benefício do possibilismo. 

Estamos, portanto, um momento de eclipse do centro. Mas para recuperá-lo precisamos cada vez mais de informação e práxis honestas.

 

DEMOCRACIA EM RISCO

Paulo Timm – Reporter Independente 06 junho 2018

Há já algum tempo os analistas apontam um déficit de democracia no mundo. Outros, mais otimistas, contestam e insistem no fato de que a mancha democrática, apesar da Arábiia Saudita e Coreia do Norte,  avança em termos globais (?). Talvez os otimistas tenham razão em termos formais, mas os primeiros destacam que, no Ocidente, onde a democracia mais avançou no século XX, a ponto de ser este denominado por Norberto Bobbio  como Século dos Direitos, ela fenece a olhos vistos. A tempestade neoliberal que desabou sobre o Welfare State, tanto europeu, como americano e, agora, sobre países em desenvolvimento dos vários continentes, cortou preciosos gastos públicos que consagravam direitos sociais importantes, enquanto o desgaste dos processos representativos retira, cada vez mais, a cidadania, dos pleitos eleitorais. Anarquia com rebrotes de violência, que, no Brasil mata mais de 60 pessoas por cada 100 mi; corrupção, na qual somos campeões e degradação social, com brutal reconcentração de renda paralela à expansão do desemprego, que no Brasil condena 25 milhões ao desemprego, outro tanto ao mero salário mínimo e uma fatia adicional do mesmo tamanho com renda inferior ao mínimo, para não falar da miséria absoluta, alimentam  o empalidecimento da democracia. As pessoas estão cansadas com os políticos, com os Partidos, com as instituições públicas. Os filósofos críticos, como o italiano Giorgio Agamben, com muitos seguidores entre nós,  vão mais longe e já dizem que vivemos num “estado de exceção”. Para eles, acabou a democracia, ficando, apenas seu simulacro. Tudo, aliás, nesta nova era, pós moderna, ter-se-ia transmutado em simulacro. O real se nos escapa.

Aqui mesmo, no Brasil, nas recentes eleições para o Governo do Tocantins e algumas cidades fluminenses, fica evidente o desgosto com o democracia: o absenteísmo foi gritante e, somado aos votos brancos e nulos, fez do “não voto” o grande vencedor. Não deverá ser muito diferente em outubro próximo. As últimas pesquisas eleitorais trazem como campeões da preferência nacional, à falta de Lula nas listas, o Capitão Jair Bolsonaro, à direita, e Ciro Gomes, à esquerda, ambos com forte perfil autoritário e transeuntes de vários partidos, demonstrando claro desapego a este instituto partidário.

Bolsonaro é líder …diz DataPoder360

https://www.poder360.com.br/datapoder360/bolsonaro-e-lider-doria-decepciona-e-empata-com-alckmin-diz-datapoder360/

“Militar do PSL firma-se acima de 20% e vence todos no 2º. turno

Ciro firma-se como o anti-Bolsonaro~

Haddad (PT) tem 8%; Alckmin, só 7%”

Estamos mal. E de mal a pior quando intectuais , líderes políticos e cidadãos comuns desinteressam-se pela democracia. Talvez tenha, pois, chegado a hora de remexer no velho baú das grandes referências cívicas do país,  na tentativa de recuperar o seu significado como valor universal e conquista política. Destaco Florestan Fernandes, patrono da Sociologia no Brasil, marxista convicto, parlamentar pelo PT em Florestan Fernandes, citado por Carlos Guilherme Mota em “Ideologia da Cultura Brasileira”- Ed. Atica, SP, 1980 . pg. 202:

“Isso significa, em outras palavras, que os intelectuais brasileiros devem ser paladinos convictos e intransigentes  da causa da democracia. A instauração da democracia  deve ser não só compreendida como o requisito como o requisito número um da “ revolução burguesa” . Ela também será o único  freio possível para esta revolução.. Sem que ela se dê, corremos o risco de ver o capitalismo industrial gerar no Brasil  formas de espoliação e iniquidades sociais tão chocantes, desumanas e degradantes, como outras que se elaboram em nosso passado agrário”.

Tarso Genro (PT), ex governador do RS,  respondendo  à questão – www.sul21.com.br - “consenso democrático ” ou “demarcação do campo popular, com Boulos para Presidente ”  reitera a preocupação com a democracia: “Sim, Boulos é o líder político desta geração (…). Soube se posicionar, (…), de forma correta, entendendo que a disputa pela hegemonia exige, no campo popular, mais “consenso” do que “demarcação” com outras forças democráticas de esquerda, que se esteriliza quando erigem formas de luta “puras” incapazes de enfrentar a força dos inimigos e adversários em momentos de crise.

A advertência do velho Mestre e do ex governador é oportuna e  conveniente. A hora é muito mais de se reforçar um arco democrático  de alianças, com fulcro na defesa intransigente da Consituição, do que delimitação de campos sociais. Até a direita, reunida recentemente em Brasília, lançou um Manifesto em busca de um candidato único capaz de enfrentar, sobretudo, Bolsonaro, ainda que também de olho no crescimento de Ciro Gomes - http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/fhc-e-outras-liderancas-fazem-apelo-por-uniao-de-candidatos-de-centro-contra-bolsonaro-ciro-e-lula/ - . Manuela d´Avila, de sua candidatura simbólica à Presidência, também clama por uma unidade na esquerda. Não sei se serão ouvidos. De minha parte, sigo , aquele pintassilgo flagrado com alguns pingos de água no bico no seu esforço de apagar o incêndio na floresta: Faço a minha parte…

 

ANEXO

https://www.poder360.com.br/datapoder360/bolsonaro-e-lider-doria-decepciona-e-empata-com-alckmin-diz-datapoder360/

Bolsonaro é líder; Doria decepciona e empata com Alckmin, diz DataPoder360

Militar do PSL firma-se acima de 20%

Haddad (PT) tem 8%; Alckmin, só 7%

Bolsonaro vence todos no 2º turno

Ciro firma-se como o anti-Bolsonaro

 

De forma resumida, a pesquisa mostrou o seguinte:

  • Jair Bolsonaro (PSL) – o representante da direita se consolida em todos os cenários. Tem sempre mais de 20% (teve de 21% a 25%). Parece ter se beneficiado do momento de irritação do eleitorado por causa dos protestos de caminhoneiros. Seu voto é consistente. Até 77% de seus eleitores dizem que não trocam mais de candidato até o dia da eleição. No 2º turno, Bolsonaro vence todos os adversários. Sua fraqueza mais saliente é o desempenho ruim entre mulheres (só tem de 13% a 14%, a depender do cenário). Com os eleitores homens, registra de 29% a 37%;
  • Ciro Gomes (PDT) – é o 2º colocado isolado em todos os cenários pesquisados. Confirma a tese de que o eleitorado está cada vez mais se espremendo para os extremos (esquerda e direita) do espectro político. Sua maior vantagem é ir bem no Nordeste, onde chega a pontuar 19%. Vai mal entre jovens de até 24 anos, obtendo só até 8% nesse grupo demográfico;
  • Fernando Haddad (PT) – nome neste momento mais provável para substituir Lula na corrida pelo Planalto, o petista pontua de 6% a 8%. Apesar de não ter sido apresentado como candidato, sua presença é equilibrada em quase todos os recortes da pesquisa. Não aparece tão bem entre homens (vai de 3% a 5%);
  • Marina Silva (Rede) – não está mais empatada com Ciro, mas é a que mais ameaça Bolsonaro num eventual 2º turno: fica com 25% contra 35% do militar. Todos os demais candidatos pontuam menos que Marina nesse tipo de simulação;
  • Geraldo Alckmin (PSDB) – parece estacionado, mas tem pelo menos uma notícia boa nesta pesquisa: o outro tucano que poderia substituí-lo, João Doria, fica na mesma posição. Numericamente, até pior, pois Doria só vai a 6% e Alckmin chega a 7%. O maior problema do tucano é não decolar em seu território, o Sudeste. Nessa região, perde feio para Bolsonaro. No Sul, é derrotado tanto pelo militar como por 1 ex-tucano, o senador Alvaro Dias (Podemos). Para completar, Alckmin não agrada às mulheres: tem só 4% nesse segmento;
  • João Doria (PSDB) – a pesquisa tem o efeito de reduzir a pressão sobre o ex-prefeito para tentar concorrer ao Planalto. Ele pontua sempre 1 pouco abaixo de Alckmin (mas em situação de empate técnico) em quase todos os segmentos. Não é 1 desempenho vistoso o suficiente para tirá-lo da disputa pelo governo de São Paulo;
  • Alvaro Dias (Podemos) – o senador pelo Paraná já foi do PSDB. Disputa os votos agora no mesmo ecossistema no qual se alimentam os tucanos. No Sul, registra de 18% a 22%, a depender do cenário. Praticamente inexiste no Nordeste (1% a 3%). Uma aliança entre Alvaro e Alckmin parece improvável, mas certamente faria com que os 2 juntos se tornassem mais competitivos.
  • Candidatos nanicos – há pouco a dizer sobre Manuela D’Ávila (PC do B), Fernando Collor (PTC), Flávio Rocha (PRB), Henrique Meirelles (MDB) e Rodrigo Maia (DEM). Somados, eles têm 6%. Já Guilherme Afif (PSD), Guilherme Boulos (Psol), João Amoêdo (Novo) e Paulo Rabello (PSC) registram, juntos, só 0,8% das intenções de voto. É altamente improvável que 1 desses nomes se viabilize para ir ao 2º turno.

 

 

FOI-SE O MALDADE.  E O MAL?

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, Torres maio 31

 

 “O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto que ao grito alegre de vocês, grito de quem descobriu alguma coisa nova, responda um grito universal de horror”.

Bertold Brecht in  Vida de Galileu

 

“A crise do combustível é a comprovação prática dos males do pensamento monotemático na economia, temperado com uma dose excessiva (por isso suspeita) de ideologismo, do qual o presidente da Petrobras Pedro Parente tornou-se o caso mais simbólico.”

                                                                Luis Nassif – CGN 27 maio 2018

 

*

O título acima remete, meio enviesado, à uma citação de Goethe. Trata de persistência do mal entre-nós.  Outro escritor, Vassili Grossman, russo, em seu grande romance da sociedade soviética na época de II Guerra ,  registra que não existe, em verdade, uma luta do bem contra o mal, mas sim, a luta de um gigantesco mal contra um minúsculo bem. Mas adverte entre as páginas 430 e 433 de “Vida e Destino”: “A bondade é forte enquanto é impotente e na impotência da bondade insana está o segredo da sua (do homem) imortalidade.” Não obstante, a maldade é  parte da  vida, reflexo de Deus, uma incógnita, envolta de confusões, mistérios e grande complexidade. A marca de Caim. O verdadeiro pecado original. Está em todo lugar, em todos os tempos, muito embora, em alguns momentos mais do que em outros. Aliás, outra autora, Hanna Arendt, judia, estremeceu Israel, ao acompanhar o julgamento de um carrasco nazista, A.Eichman, afirmando  que ele era “normal”, um grão de uma engrenagem muito maior, à qual obedecia e que poderia ser o vizinho ao lado, cuidadoso pai de família, funcionário exemplar, daí retirando sua tese sobre a banalidade do mal. Ela desmistifica essa história de “desuminadade” como algo externo a nós mesmo, produto de uma hedionda bestialidade, “bárbara”. Aliás, esta ideia vem de longe. Desde os gregos, matriz da cultura ocidental, eles faziam uma distinção entre eles, helênicos, “civilizados”, e os bárbaros que viviam além fronteiras e que não falavam grego. A modernidade europeia partiu desta noção para fundar  um novo otimismo, iluminista, entre os séculos XVI e XIX, plasmado sobre os primados da razão e da liberdade para afirmar uma crença cega na evolução social, dando a este processo o vago nome de humanismo. Todos os que não falam esta nova língua são considerados também bárbaros. Não obstante, como diria Paulinho da Viola, não são os humanos que habitam o barbarismo, é o barbarismo que nos habita no seio de uma sociedade cada vez mais tecnológica.

Insisto nisso porque há já algum tempo vivemos nesta  e desta cultura e fomos nos acostumando à ideia de que tudo o que contesta a normalidade é obtuso, anormal, fruto da ignorância. Quando irrompe subitamente  uma paralisação como a dos caminhoneiros, ficamos perplexos. Não sabemos direito o que pensar. O mundo, porém, é caótico e só dentro de parcos espaços conseguimos impor-lhe uma “ordem”, sempre sujeita à solavancos. “Viver é muito perigoso”, justamente por causa disso. Estamos sempre à mercê de causalidades incompreensíveis, sincronicidades imperceptíveis, acasos fortuitos. A coragem consiste, precisamente, em não esmorecer diante destas encruzilhadas, mas assumi-las. Diante delas, nem chorar nem sorrir: Compreender. Mas como fazê-lo se não exercitamos a consciência crítica.

Uma das características das sociedades tecnológicas modernas, advertida já em meados do século passado por um autor, então no auge de seu prestígio universitário, Herbert Marcuse, autor de “O homem unidimensional”, é a indiferença. Ela acaba antecipando uma estranha sensação de vazio existencial que desemboca na depressão. O ritmo da vida seria, cada vez mais, determinado, não por ações heróicas, mas pela lógica fria da ciência e da tecnologia com vistas à eficiência. Tempos sombrios. O fantasma nuclear, com sua ameaça de destruição da humanidade, sublinha a passividade generalizada que exige dos homens públicos cada vez mais habilidade e menos ousadia.   Este comportamento marca o fim da “Era das Revoluções”, última das quais a cubana, em 1959 e que teve no maio de 1958, em Paris, seu último suspiro romântico. Desde então, vivemos sob os ditames da sociedade industrial que chegou a inspirar a idéia do “Fim da História”. Não obstante, apesar das aparências, inúmeras contradições aninhavam-se no seu interior. As águas calmas, diz o provérbio popular, são as mais perigosas, pois escondem as fortes correntes que se movem abaixo delas. Em 2001 veio o atentado às Torres Gêmeas de Norva York e estas correntes vieram à tona com violência inusitada. Desde aí, os tornados políticos têm surpreendido a proclamada indiferença reinante, movendo, ao longo do planeta, multidões que retomam, impetuosas, o ritmo da História derrubando  os mais sólidos regimes e governos. A Primavera Árabe foi a mais impactante ao derrubar o poderoso líder do Egito, General Mubarack. Mas temos visto, também, explosões  na Ucrânia, na Romênia e até no Brasil, no famoso junho de 2013, ante-sala da crise que derrubou o longo ciclo petista. É a História que retoma, com o ímpeto de valorações éticas, sua soberania sobre a mera técnica.  A característica destes movimentos, porém, os distingue daqueles da Era das Revoluções. Eles não respondem à um objetivo claro de mudança de regime sob a égide de um Partido ou vanguarda “de classe” imbuída de uma ideologia transformadora. São movimentos que se organizam rapidamente,  estimulados pelas redes sociais, sem direção nuclear, com forte dominância voluntarista. Impressionam, sacodem estruturas superficiais,  mas não deitam grandes raízes. Não obstante, eppure si muove…, disse, entredentes,  Galileu, depois de negar na Inquisição suas teses.

Assim, neste contexto, se deve situar a paralização dos caminhoneiros que ocorreu no Brasil a partir de 21 de maio passado, indagando, sobretudo quem foram os responsáveis civis – queda de um ponto na estimativa do PIB para 2018 - , políticos – Presidente da República e Presidente da PETROBRÁS pelo sua idolatria ao Mercado que ditou a máxima de que o que era melhor para a estatal era bom para o Brasil – e criminais, neste processo? Foi-se a greve, enfim, mas será que aliminamos o mal que a engendrou?

 MAIO , 17

ENTRE VÍRGULAS

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, Torres -maio 17

                                        "Morre um grande artista..." - (Nero, ao se suicidar)

                                                     *

Dias infames na Política nacional: Há dois anos Michel Temer, mercê do impedimento da Presidente Dilma Roussef, assumia o Governo com a promessa de recuperar o desenvolvimento ameaçado do país sob um regime de rígido controle fisca e recuperação do entendimento nacional; há um ano, exatamente, a Nação ouvia estarrecida o diálogo comprometedor deste mesmo Presidente com um dos maiores empresários do país, o que lhe custaria não só o opróbio quase unânime dos brasileiros, expresso por altos índices de rejeição, como dois processos da Procuradoria Geral da República. Não obstante, Temer continua pousando de mocinho. Oressa!

Temer não é só o pior Presidente de todos os tempos, passados e vindouros, mas vai passar para a História como o Rei dos Trapalhões. Toda a santa semana é protagonista de uma trapalhada e nada de positivo cola a favor dele. Pelo contrário, pega o ruim de longe. E semeia o pior, já visível no horizonte.

A última foi o Convite para a cerimônia do segundo aniversário do Governo: “O Brasil de volta, vinte anos em dois”. Foi ridicularizado em todas as mídias e viralizou na INTERNET- https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/slogan-o-brasil-voltou-20-anos-em-2-implora-para-ser-interpretado-como-ato-falho.shtml  Bordão errado em todos os sentidos pois estigmatizado como retrô o convite evoca o que a esquerda tem dito desde que Temer assumiu em maio de 2016: É uma volta atrás, no que o passado tinha de pior. Um afetado uso da mesóclise  pelo Presidente não lhe capacitou, de resto, à percepção do lugar estratégico de uma mera vírgula. Tivesse usado dois pontos, ficaria mais claro, mais ainda se houvesse destacado em maiúsculas a primeira parte do bordão – O “BRASIL DE VOLTA: Vinte anos em dois”. Ainda assim, soaria mal a um Governo que se pretende moldar o futuro,  o uso do verbo voltar. Voltar sugere sempre o  eterno retorno,  a reedição do mesmo. Na MPB, a volta do boêmio alquebrado.  Triste. E mais uma vez, Temer vai e volta. Faz e desfaz. No fundo,  não sai do lugar, um lugar incômodo que ocupa e que lhe recomendaria um mínimo de discreção, .  Não consegue, “se acha”, como se fosse a reencarnação de Juscelino. Atua com a desenvoltura de um toureiro em ato,  sem qualquer economia de gestos, mãos  e dedos em riste, afora os ternos impecáveis,  à espera da consagração do estádio. Mas não há estádios, não há público, não há, honestamente, nada a comemorar neste segundo ano do Governo Temer. O saldo em reservas que impede uma grave crise cambial lhe é anterior e os baixos índices de inflação não refletem senão o fosso profundo da recessão. E se algo de bom ocorre na economia tem muito mais a ver com o descolamento dos empresários do Governo do que o resultado de suas diretrizes. Nem falar da explosão da dívida pública, já perto de 100% do PIB - https://www.youtube.com/watch?v=Ni4Xm7BQzy4&feature=youtu.be . O Governo Temer é um desastre.

 Na verdade, o impeachment de Dilma foi um erro precipitado, à despeito de seus erros,  pela voracidade de um “Quadrilhão”  articulado pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha,  hoje condenado e preso em Curitiba, à espera de seus comparsas, que, um a um, ainda lhe farão companhia - http://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/como-o-fora-dilma-pariu-bolsonaro-por-sergio-saraiva#.WvnZWPK-e2U.facebook . Nem Temer está livre deste destino, pois os dois processos contra ele, sustados pela Câmara – e mais o que se gesta na Procuradoria Geral da República por favores concedidos a operadoras do Porto de Santos- , ainda lhe perseguirão. Quem viver verá.

Como se não bastasse o ridículo do Planalto, o país descobre pelos arquivos da CIA, revelados por Matias Spektor, que seus generais Presidentes foram coniventes e responsáveis pela execução de opositores ao regime - https://www.facebook.com/televisaodomundo/videos/2065700917032140/ .

 

E não se diga que eram prisioneiros de combate eis que esgrimiam, mais das vezes, apenas ideias contra o autoritarismo, tais como W. Herzog e Manoel Fiel Filho - https://www.facebook.com/cirogomessincero/videos/1897248053653418/ . Nestes mesmos dias, na Alemanha, um velhinha foi presa por afirmar-se partidária de Hitler e do nazismo. Obrou bem o Governo  daquele país. Não se pode ser tolerante com intolerantes se quisermos preservar liberdades fundamentais. Já aqui, um dos candidatos mais cotados à Presidência da República não faz segredo – até louva – o regime militar 1964-85 e seu provável companheiro de chapa ao Governo do Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Heinze, do PP, já separado do Governo Sartori (MDB),  talvez cresça nesta mesma sombra.

  Talvez ganhem, à vista da incapacidade das esquerdas se comporem num grande arco democrático que defenda as conquistas da Constituição de 1988. Pensam pequeno, entre vírgulas, como quem não deseja ou não consegue colocar um ponto final num passado que ainda nos persegue.

Com tudo  isso navegamos entre o escárnio  do presente e a ameaça de tragédia num futuro próximo. E ainda dizem que navegar é preciso...

Eis o maior risco da polarização esquerda x direita. Ela vitimiza o que de mais caro temos a preservar: a democracia.

 

MAIO , 11

                                                    MAIO AMORES

                                  Paulo Timm – Especial  A FOLHA, Torres RS – 11 MAIO

http://www.paulotimm.com.br/site/downloads/lib/pastaup/Obras%20do%20Timm/180511082605MILONGAS_(1).pdf

A sabedoria popular fala muito sobre as “ coisas “. “Coisar”, aliás, já virou motivo de Poesia e Romance, talvez, até, letra de alguma música popular. Daí os ditos como “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”, ou “Primeiro, as coisas primeiro”, muito ao gosto dos ingleses, ou, ainda, “Cada coisa no seu lugar”. Neste amplo sentido, coisa pode ser… qualquer coisa: um objeto, um artefato, um homem, mulher ou criança, um sentimento, um partido político, uma instituição pública ou privada, a conjuntura, os dias, as horas, os meses do ano, até transar. Aliás, falando em mês do ano,  depois que sobrevivemos ao abril, “o mais cruel dos meses”, estamos navegando o mais sublime deles: Maio.

Maio, antigamente, era o mês das noivas. Para mim, doces recordações de lençóis de percal, linho e cretone cuidadosamente bordados em linha de seda, sobre desenhos em “transmissor” que eu próprio me cansei de traçar . Minha mãe vinha de uma tradicional família italiana, de Santa Maria, cuja matriarca era Dona Romilda, filha de Giuseppa Filizola,  que administrava um tradicional  negócio de enxovais. Em maio choviam  noivas do Rio e São Paulo para escolher as peças que fariam o ornamento  dos novos lares. Hoje, maio é o mês do Dia das Mães, a data mais festejada – alegria dos shoppings - , entre nós, brasileiros, depois do Natal.  Mantém sua tradição como um mês com gosto de amores: Ontem laços conjugais carregados de erotismo e promessas de lua cheia, hoje o abraço das famílias constituídas, mesa posta no domingo ensolarado, renovação de afetos incondicionais.   Continuamos celebrando o amor.  Não só celebrando, mas tentando, cada vez mais compreendê-lo em seus enigmas e imbricações. Revelando-o. Pois já não nos basta sentir os mistérios das afinidades eletivas, às quais Goethe consagrou uma obra já clássica. Queremos saber melhor seu lugar na alma humana, para aquém e além do amor romântico do par perfeito, o que, aliás, os gregos também faziam:

 

Roman Krznaric, por exemplo, volta à Grécia Antiga para encontrar pelos menos seis formas de amar:  Eros, o amor sexual; Phila, o amor amizade; ludus, o carinho lúdico entre crianças ou amantes casuais; pragma, o amor maduro e o profundo conhecimento que se desenvolvem em relações duradouras; ágape, o amor altruísta estendido a todos os seres humanos, oferecidos incondicionalmente e sem expectativa de reciprocidade; e Philautia, ou o amor-próprio, que pode ser tanto negativo, manifestadas como ganância e narcisismo (depois do mito de Narciso), quanto positivo, como um alargamento nutritivo da nossa capacidade de todo o amor, a partir de dentro.

W.Nickelen -Amor? Que História é essa? 2014

www.sul21.com.br

 

Os afetos invadiram também a Filosofia. Spinoza, no século XVII, incorporou-o definitivamente às suas reflexões, enaltecendo-o sob o arco da alegria de viver. Freud, fundador da Psicanálise, reabilitou-os como fermento das ações humanas. “(Ele) sabe que o amor não é apenas o nome que damos a uma escolha afetiva de objeto. Ele é a base dos processos de formação da identidade subjetiva a partir da transformação de elementos libidinais em identificações”.  Desde então, os afetos se constituem num elemento central para a compreensão da vida em sociedade. O século XX, trouxe à tona a importância dos afetos na instituição da sociedade , os quais articulados à libido  e à identificação operam como aporia, enigma e fábula para  além do narcisismo. O século XXI, com a Neurociência tenta dar-lhe uma fundamentação mais orgânica, como resultado de complexas interações neurais. Nisso descobre o que os poetas já sabiam desde a antiguidade: o amor é um estado de espírito descolado de qualquer juízo, muito similar a outras modalidades de distúrbio de consciência. Mas, independente das ciências, com seu escrutínio desapaixonado, o amor, em suas várias dimensões permanecerá sempre como um enigma, título, aliás de um dos mais belos livros de Artur da Távola e que tive a oportunidade de converter em prosa poética com vistas a torná-lo mais acessível- http://www.paulotimm.com.br/site/downloads/lib/pastaup/Obras%20do%20Timm/180511082605MILONGAS_(1).pdf A  quela “coisa” que não só move o mundo mas que é também capaz de salvá-lo.

                                Um estado de graça chamado amor

(…)Todo mundo sabe o que é isso. O fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente (Camões), o sentimento que move o sol, como as estrelas (Dante), a força obscura e potente que dissolve membros (Safo) ou amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no elipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários (Drummond). É o amor, louco, delicioso, tolo, embriagante, o princípio unificador do cosmo, segundo os filósofos gregos, motor de todos os poetas, êxtase celestial e doce tormento de todos os apaixonados (…)

(Blogdogutemberg.com  - 2008)

Ah, o amor…A mais bela de todas as “coisas”, seja líquido, imaginário ou simbólico, seja maternal, carnal ou espiritual, seja de ontem ou de hoje, seja sempre louvado e bem vindo. Dostoivski achava que só a beleza salvaria a humanidade. Concordo com ele, desde que essa tal de beleza atenda pelo nome de  amor.

ABRIL, 18

REFLEXÕES

                     “Se te queres matar, por que não te queres matar?” -   Fernando Pessoa

I
Uns dão ao interesse público algum tempo durante um período de sua vida. Outros dão o tempo todo durante, também, um período da vida. Outros, enfim, dão todo o tempo durante toda a sua vida. São raros mas imprescindíveis. Devem contudo ter a compreensão de que o normal da sociedade tem outro ritmo e diversos interesses. Viva para a vida, não para a Política. Trotsky falava muito sobre isso e chamava a atenção sobre estes limites entre os "normais". Momentos de grande mobilização política, por exemplo, são fundamentais mas duram pouco. Ninguém aguenta durante muito tempo, sobretudo em nossa sociedade, pouca acostumada à efetiva participação popular nos acontecimentos. A insistência na mobilização pode levar ao isolamento.

 

II

VISÃO DE TÚNEL
Esta é uma distorção não propriamente da visão mas da atenção. Vê-se aquilo que nos parece o mais importante e descuida-se daquilo que seria secundário. Causa, aliás de muitos acidentes, sobretudo aéreos. Certa feita, um experiente piloto, avisado da iminância de um tufão, numa cidade da Asia, apressa-se com os procedimentos de take of. Faz tudo muito rápido com perfeição mas não presta atenção sobre qual a pista que deve tomar para levantar vôo. Algo como 57 por 37. Fatal. Tudo pronto, acelera na pista e...KAPUTTT! Mergulha num buraco numa pista em reparos. Diagnóstico:: Visão de túnel. Não é ideologia, não são ídolos do conhecimento, não são paixões desvairadas, apenas erro de registro e atenção. Em Política, abunda. Depois de anos a gente volta atrás e pergunta: - Como não vimos isso...? Afinal, nem tudo que parece ser importante é realmente importante.

 

III

Atenção analistas políticos!
Com as mudanças de Partido na Câmara dos Deputados ainda não é possível dizer com precisão qual a maior bancada naquela Casa. Não obstante, calculo eu que duas coisas aconteceram:
1- Esfacelamento - ENFIM - do PMDB, que deixa de ser o maior Partido, senão do Ocidente, pelo menos no Brasil.
2. O PT teve poucas baixas parlamentares e tudo indica que já é, HOJE, a maior Partido na Câmara. Pasmem! Eu, aliás, sempre defendi que isso aconteceria, muito embora se possa imaginar uma ligeira redução desta Bancada em 2018.
..................
Bancadas G1
https://g1.globo.com/…/pelo-menos-80-deputados-trocam-de-le… 
Ainda não é possível dizer quais partidos ficaram com as maiores bancadas na Câmara após o período da janela partidária. Isso porque:

O atual número de deputados em cada partido, disponível no site da Câmara, considera somente as trocas comunicadas até o momento para a Secretaria-Geral da Casa (ou seja, outras mais ainda serão informadas oficialmente);
o levantamento do G1 não considera secretários e ministros que vão reassumir o mandato;
a lista de trocas da Secretaria Geral inclui quem está licenciado do mandato, ou seja, não é considerado para efeito de tamanho de bancada.

 

 

 ABRIL 12 

E AGORA…?

P.Timm - Especial A FOLHA, Torres RS

A semana política foi carregada, mas promissora. A prisão de Lula, enfim consumada, em meio à grande manifestação popular em seu apoio, junto ao Sindicato de Metalúrgicos de São Paulo, passou para a História, sem qualquer convulsão.  O pronunciamento de Lula, pouco antes de sua caminhada em meio à multidão, em cumprimento ao mandato judicial, foi um misto de Fidel, no seu famoso “A História me absolverá”, com Vargas, na “Carta Testamento”, e pitadas messiâncias que ressoaram as palavras de Cristo na Santa Ceia: “Lula não é mais este corpo, mas uma ideia que habitará o coração de cada brasileiro”. Gostando-se ou não de Lula, seu discurso não será apenas guardado como relíquia, mas será mensageiro de ações políticas. Hoje, recluído em sua “humanizada” (?)  cela em Curitiba, ele tenta, certamente, refletir sobre estes últimos dois anos de sucessivas derrotas de seu Partido. Pesam nestas reflexão duas tendências: De um lado a própria natureza do Lula como um infatigável homem de negociação; de outro, um Homem marcado pelo ressentimento de ser vitimado sem culpa, numa encarnação dos sofrimentos do povo trabalhador brasileiro, curtido no desprezo das elites, propenso à revolta. Neste caso, no que é estimulado por grande parte de seu Partido e aliados à esquerda, PcdoB e PSOL, ele poderá estimular a resistência até o ponto de maior enfrentamento com o status quo. Pouco importa, à essas alturas, saber-se se Lula será solto dentro de algumas semanas, em decorrência da revisão da jurisprudência do Supremo sobre os limites do imperativo constitucional de “Presunção de Inocência”, ou se permanecerá preso. O fato está consumado e ele não será candidato em 2018. Nos bastidores já se sabe que seu indicado Fernando Haddad, com sua anuência, já se organiza para a corrida presidencial. Mas até por isso altera-se a conjuntura. O PT tende a voltar aos idos de 1889 – 1994 e 1998 fechando-se em torno da consigna de uma Frente de Esquerda, isto é, sem ampliações partidárias, sociais e ideológicas para o centro. A tática de convidar o filho de José de Alencar, o grande empresário que lhe acompanhou como Vice, em 2002, soa a farsa. Já não haverá uma “Carta aos Brasileiros”, nem maior tolerância com a classe média, associada, no novo-velho discurso às “zelites”. Um passo atrás. Um passo que reforça o PT como agremiação político-ideológica, com poucas perdas militantes, embora declinante na preferência popular que ainda lhe atribui 13% de preferência partidária, vindo PDT, a seguir, com insignificantes 2% e os demais nem isso.

Junto com esse retorno às origens do PT, sem, naturalmente, o forte discuroso anti-corrupção que lhe caracterizou na denúncia do jovem Lula às “maracutaias”, outro elemento se acrescente à conjuntura: A erosão do MDB-PMDB, que ocupou um importante papel na redemocratização e no próprio avanço do PT nos Governos Lula e Dilma. Hoje, este Partido já é minoritário na Câmara dos Deputados, cedendo a primazia ao PT, e nada indica que seu candidato à Presidência, seja Temer, seja Meirelles, possa reverter sua desagregação. Trata-se de um prédio em ruínas cuja imagem tenderá a se fixar no triste destino das altas autoridades deste Partido no Rio de Janeiro, hoje atrás das grades.

Diante do estreitamento do PT e do esfacelamento do PMDB abre-se uma nova janela ao processo democrático no país, no qual já se perfilam duas tendências: O centro direita tenta aproveitar a oportunidade com nomes como Rodrigo Maia- DEM e Alkmin- PSDB, enquanto a centro esquerda lhe oferece resistência com duas prováveis candidaturas concorrentes “neste” espaço: Ciro Gomes- PDT e Joaquim Barbosa- PSB. As duas opções apresentam-se não só capacitadas ao pleito como adequadas à recomposição da governabilidade do país, com perspectivas de re-estabilização da conjuntura. Marina Silva, sempre excelsa, paira sobre os dois campos, podendo pousar sobre uma ou outra. Não tem peso para se constituir em opção governativa, à despeito de seu peso eleitoral. Falta-lhe estrategistas.

Ainda é cedo para afirmações definitivas. Mas já entra um pouco de sol pelas frestas do concurso presidencial. Oremos para que ele chegue ao seu curso. Façam suas apostas…

 

 

 

JUDICIALIZAÇÃO: O GRANDE EQUÍVOCO

Paulo Timm – Especial para A FOLHA, abril 05

 

“Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Capítulo I dos Direitos e Deveres individuais e coletivos da Constituição Brasileira de 1988 - o LVIII -    em vigor

 

A JUDICIALIZAÇÃO

Coletânea – P.Timm org. (Uso em sala de aula)

http://www.paulotimm.com.br/site/downloads/lib/pastaup/Obras%20do%20Timm/130428054723JUDICIALIZACAO_-_Coletanea.pdf

 

                                                              *

O país não parou no último dia  04, mas concentrou-se na sessão do Supremo que deliberou sobre o Habeas Corpus do Ex Presidente Lula, afinal rejeitado pelo estreito escore de 6x5, com o voto de desempate da Presidente da Corte, Ministra Carmen Lucia. Com isso, chegamos ao cúmulo da chamada judicialização da política, ou seja, a definição dos rumos da vida pública atraves de deliberações judiciais. Também ali ficou patente a polarização do país, com duas alas organizadas, uma contra outra a favor do referido Habeas Corpus, reflexo da grande divisão ideologica em que estamos envolvidos, esquerda versus direita, ou, o que é pior, lulistas e anti-lulistas, a qual já produziu no cenário eleitoral um fantasma chamado Bolsonaro. Enquanto isso, o Congresso Nacional permanece apatico, como a moça feia na janela vendo a banda passar.

Qual o problema deste processo?

 

Em primeiro lugar, restringindo-se a discussão sobre o tema em pauta – Presunção de Inocência –,  na forma em que está inscrita, como princípio e não como regra, como sustentou corretamente o Ministro Barroso - http://odiarionacional.org/2018/04/04/esse-nao-e-o-pais-que-quero-deixar-para-os-meus-filhos-um-paraiso-de-homicidas-estupradores-e-corruptos-diz-barroso/ , em um feliz dia de ativismo judicial, continua em suspenso. A letra imperativa  da Constituição que trata do assunto continua lá, no mesmo lugar, alimentada por uma histórica  jurisprudência, suspensa por um soluço limitante mal digerido  do STF em 2016, quando impôs o trânsito em julgado às segundas instâncias. No mesmo Tribunal já se encontram propostas para rediscutir o assunto, lembradas pelo Ministro Marco Aurélio - https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/349899/Marco-Aur%C3%A9lio-escancara-manobra-de-C%C3%A1rmen-L%C3%BAcia.htm , tudo indicando que, com o voto, agora, dos Ministros Gilmar Mendes e Rosa Weber, tudo voltará como dantes no quartel de Abrantes: A reconversão do princípio da Presunção de Inocência em regra, mais dia menos dia – e isso poderá ocorrer quando o Ministro Toffoli vier a assumir a Presidência do STF,  reabrirá as portas de algumas prisões permitindo aos sentenciados em segunda instância que prossigam na sua peregrinação até que as delongas processuais os absolvam , graças ao  instituto da prescrição. Guardem, portanto, os que  celebram a decisão de ontem sobre o HC de Lula, enaltecendo o belo discurso punitivista  do Ministro iluminado, suas energias, de forma a retomá-las em copioso pranto no próximo capítulo desta novela. Ou seja, se nestes dias Lula pode ser preso, ele e tantos outros condenados pela LAVAJATO , assim como centenas ou milhares de outros sentenciados sob o crivo da segunda instâncias estarão novamente em liberdade, ainda que provisória.. A Justiça, enfim, não reformará o sistema político nacional. Cabe à Política fazê-lo, através da Política, nunca através das armas ou das Varas.

Aqui, portanto, a segunda observação, esta de mérito: O que é a Política e a quem compete sua condução?

Desde os antigos gregos, sabe-se que a Política é o reno da opinião, ou doxa, como eles diziam. Por isso eles enviavam seus filhos à escola para que aprendessem as técnicas da argumentação – retórica- e da expressão – oratória. O cidadão, reunido na Praça Pública,  deveria ser capaz de formar opinião para participar das discussões sobre os assuntos atinentes à vida da cidade, a Polis, daí o nome Política, como síntese da democracia. Neste processo escolhiam, também, diretamente, aqueles que deveriam levar a cabo as decisões coletivas com o cuidado de exclui-los, condenando-os ao ostracismo, em caso de desvios.

O mundo moderno, com suas instituições e complexidade, perdeu um pouco desta origem. A Política,  como gestão do Estado desmembra a função de representação, a cargo dos parlamentos, da função de administração , a cargo do Poder Executivo, destinando ao Judiciário a função arbitral. Com o relevo absolutista do Executivo, sobretudo em regime presidencialista, porém, duas coisas acontecem: 1.Os parlamentos decaem em importância e se socorrem do Judiciário para enfrentar o Leviatã, transformando-o em player estratético da Política;: 2.  A cidadania, distante, chamada cada vez mais a se manifestar sobre a coisa pública tem cada vez menos condições de compreender a complexidade de sua trama e passa a acreditar na solução tecnocrática como fórmula de Governo. Resultado: O desmerecimento da própria Política como sinônimo da democracia. Todos anseiam por um Governo técnico e por juízes rigorosos, sem se dar conta de que isso nos distancia do auto-controle sobre nossos destinos.Melhor fora que pensássemos no caminho inverso: fortalecimento do polo subjetivo da democracia, educando-o para a cidadania, abertura dos canais de informação para  a formação de uma consciência verdadeiramente democrática na opinião pública e fortalecimento das instituições propriamente políticas para a reorganização do Estado.

 

Por último, a confirmação do exposto no espetáculo de ontem: Um Congresso inerte, desmobilizado e incompetente assina sua falência, quando deveria, por iniciativa legiferante e forte presença no cenário político impor-se como força legítima de solução do contencioso da Presunção de Inocência. Bastaria uma Emenda à Constituição votada em regime de urgência.

                                                      Tristes Trópicos…

 

 

 

 

 

 

 


Início





ELEIÇÕES 2018

Balanço e Perspectivas

Indice

 

Lições das eleições presidenciais- Paulo Timm 2.Guerra de estigmas e falsas ilusões - Marco Aurélio Nogueira

3. O debate que faltou - Mangabeira Unger

4.Alô, companheiros de elite – Ricardo Semler

 

5.Balanço e Perspectivas Eleições - Breno Altman

6.Analistas O GLOBO – M.Pereira /B.Mello Franco 7.Matias Spektor . Onde erramos? 30 anos de Nova República

 

8.Luiz Nassif – CGN

9.Carta aberta de Manuel Castells aos intelectuais do mundo 10.Um duro revés para o PT, por Aldo Fornazieri 11.Nas entrelinhas: O xadrez do segundo turno - Luiz Carlos Azedo

 

12.Ao vencedor, as batatas - Luiz Werneck Vianna

13.Hora de voto - Fernando Henrique Cardoso,

14. Epopeia Democrática - André Singer 15.O vendaval conservador - Marco Aurélio Nogueira 16.A oportunidade de Haddad corrigir os erros do PT- Paulo Endo

 

17.BOLSONARO É O 'ANTISSISTEMA' E HADDAD É A 'ANTIEXPLORAÇÃO', DIZ CIENTISTA POLÍTICO ANTONIO CARLOS ALMEIDA

18- “Acusaram o PT de imitar a Venezuela, mas é Bolsonaro quem se espelha no processo de lá” – Ent. Maria Hermínia - CEBRAP

19.New York Times: A democracia do Brasil pode ser salva?, por Robert Muggah

 

 

 

1.Lições das eleições presidenciais

Paulo Timm – Especial A FOLHA,Torres . out 04

Na quinta feira anterior ao domingo das eleições, dia 4 de outubro, assistimos aos últimos acordes dos candidatos à Presidência, neste ano da graça de 2018. Terá acabado o programa eleitoral dito gratuito, porque pago pelo Governo, no rádio e televisão, que chega aos mais recônditos grotões do território geográfico e social do país. E os candidatos terse-ão confrontado pela última vez, tal como nas últimas eleições, na telinha da Globo. Reta final, na qual é sempre possível alguma surpresa. A tendência mostra dois vencedores no primeiro turno: Bolsonaro, pela direita, x Haddad, pela esquerda, com uma diferença de 10 pontos, aproximadamente, a favor do primeiro. As surpresas poderão ser uma eventual vitória de Bolsonaro no primeiro turno ou uma ultrapassagem, de última hora, de Ciro Gomes, do PDT, sobre o petista. Afinal, chegamos às urnas com quase um terço dos eleitores ainda inseguros quanto à sua participação. Vai que... Ambas alternativas, entretanto, dadas como improváveis, embora possíveis. Bolsonaro e Ciro foram, enfim, foram os protagonistas com melhor performance pessoal na atual campanha. Podem surpreender.

Quais as lições que podemos tirar desta eleição presidencial?

Persiste, entre nós, o embate entre duas visões de mundo: Conservadores versus Progressistas, nome mais geral para identificar, respectivamente, direita e esquerda. Conservadores são mais identificados com a manutenção da ordem, seja ela social, cultural ou econômica. Reagem ao ritmo das transformações, hoje alimentados pelos 20 milhões de evangélicos. Progressistas, como o nome sugere, são mais favoráveis às mudanças, que identificam como progresso, em quaisquer dos âmbitos da sociedade. . Uns e outros mudam de fisionomia, mas subsistem, nos seus vários tons – menos de 50! - no cenário eleitoral, desde 1950.

Naquela época venceu Getúlio Vargas, que era o candidato progressista sob a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro. Ganhou, levou, mas não chegou ao fim do mandato, tamanha a campanha conservadora que se abateu sobre ele, que estaria acobertado por um “Mar de Lama”. Curiosamente, à então Oposição, associaram-se os comunistas, que não o viam com bons olhos, desde os tempos que penaram nas prisões a tentativa de derrubar o regime em 1935. Suicidou-se Vargas em 1954, para não ser deposto. Com isso virou a conjuntura, graças à forte comoção social dos trabalhadores urbanos, sob a qual sossobraram os órgãos de imprensa que o combatiam. Vieram as eleições de 1955 e, de novo, o embate entre as duas facções ideológicas, bastante moderadas: Apoiado pela esquerda, reunificada depois da morte de Vargas, JK vence e abre o Brasil para os gloriosos “Anos Dourados”, quando pontificaram a Bossa Nova, o Cinema Novo, as grandes obras das 30 Metas de seu Plano de Governo, sobre o qual erigia-se o produto da ciência e arte da engenharia brasileira, a nova capital, Brasilia. Apesar da euforia da época, tropeçam as forças progressistas que apoiavam JK, na sua sucessão, quando apresentaram o General Lott como candidato, ao feitiço da “vassourinha” da direita: Sobe o controvertido Jânio Quadros, apoiado pela UDN tendo como Vice, verdadeira loucura, um Vice eleito pela esquerda, João Goulart. Votava-se, então, separadamente, para Presidente e para Vice. Daí o paradoxo. Duram apenas sete meses as ilusões conservadoras. Jânio renuncia, abre-se uma grave crise militar, pela objeção da caserna à posse de Jango, Brizola resiste na Legalidade e, enfim, voltam os progressistas, por linhas tortas, à Presidência, com Goulart para completar o mandato interrompido. Ressentidos, inconformados e radicalizados, os conservadores o derrubam, porém, com apoio militar imbuídos da ideologia da Segurança Nacional da Guerra Fria, em 31 de março de 1964, num dia que se prolongará na escuridão autoritária por 21 anos. Redemocratização e nova campanha presidencial em 1989. Ganham, surpreendentemente, os conservadores, endossando o nome de Collor, numa reedição de Jânio, que derrota um Lula ainda tímido no segundo turno. Abre-se, então, um caminho de grande renovação dos quadros da política nacional, tanto à esquerda, pela projeção do lulo-petismo, quanto da direita, que sufragará Fernando Henrique Cardoso, com ampla penetração nas classes médias urbanas, por duas vezes: em 1994 e 1998. Progressistas e Conservadores, passam, a partir daí, por grandes metamorfoses internas, deslocando-se, cada vez mais, para duas tendências da social-democracia, como inspiração de mudança gradual: O PSDB, de FHC , distante da velha direita militarista e o PT, de Lula, independente

dos comunistas e trabalhistas históricos, com apoio da Igreja Católica inspirada na Teologia da Libertação, do novo sindicalismo que se associaria a uma combativa central – CUT - e grande parte da inteligência. Em 2002, 2006, 2010 e 2014 os petistas levam a melhor, mas sucumbem no impeachment da Dilma em 2016, no bojo de uma radicalização cada vez maior de um e outro lado, com um consequente debilitamente do centro.

Em 2018, mais uma vez, assistimos a contenda histórica entre Conservadores e Progressistas, matizada, porém, pela radicalização polarizada das respectivas tonalidades. A direita civilizada globalista do PSDB perde espaço para um novo personagem, Bolsonaro, que personifica, quase sozinho, mas com competência -soterrando as pretensões de aliados ideológicos como Amoedo, Meirelles e Alkmin - o anti-petismo, enquanto o PT, em seus desdobramentos com a prisão de Lula, opta por uma solução mais à esquerda, em aliança com PcdoB, como solução à sua própria crise. O velho centro, representado durante toda a redemocratização pelo PMDB se esvai, empurrado à direita pelo Governo Temer, ficando reduzido à menores expressões regionais dissidentes no nordeste. Isso, aliás abriu uma brecha para novas narrativas, como Ciro Gomes, do PDT e Marina Silva, da Rede, ainda carentes de confirmação.

Erram, pois, todos os que insistem que o Brasil nunca teve Partidos. Não só os teve, como fez sua História no embate ideológico entre correntes competitivas e concorrentes. Ao longo das crises, sempre houve, entretanto, uma opção centrista que apontava, não propriamente para uma conciliação nacional, como a análise crítica insiste em frisar, mas como caminho possível para o desenvolvimento com democracia, tal como foram JK, em 1955, Tancredo Neves, em 1961, e Ulysses Guimarães, na redemocratização, com epílogo na Constituição Cidadã de 1988, que cumpre, hoje, 30 anos. Aqui, vale ressalta o que tem sido um requisito de funcionamento da democracia: a auto-contenção, seja no plano subjetivo, seja no plano objetivo das proposições. Mas o Brasil mudou e trouxe no bojo de suas transformações novos desafios que parecem dificultar este exercício. Lástima! Ao voto, pois (!), como prefere a maioria dos brasileiros em recente pesquisa da Datafolha - https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/eleicao-em-numeros/noticia/2018/10/05/datafolha-democracia-e-a-melhor-forma-de-governo-para-69-dos-brasileiros-ditadura-em-certas-circunstancias-e-opcao-para-12.ghtml . Este o critério para o aprofundamento da democracia-entre-nós e não seu desastre, como muitos, em vários lugares do mundo, já o pressentem. Não por acaso o best-seller do momento é um livro sobre o fim das democracias. Eis, para concluir, o cenário:

 

O Fim da democracia - https://ocultorevelado.webnode.pt/euro…/o-fim-da-democracia/ O Fim da democracia. O poder já mudou de mãos. Os verdadeiros donos do mundo já não são os governos, mas sim os donos dos grupos das multinacionais ...

Os militares e o fim da democracia — CartaCapital https://www.cartacapital.com.br/…/os-militares-e-o-fim-da-d… 14 de abr de 2018 - A democracia no Brasil acabou. O último lance foi dado

pelo Exército, xeque-mate. A declaração do general Eduardo Villas Bôas de que o ...

O Fim Da Democracia - 9788528603903 - Livros na Amazon Brasil https://www.amazon.com.br/Fim-Democracia-Jean-…/…/8528603903 Compre O Fim Da Democracia, de Jean-Marie Guehenno na Amazon.com.br Livros. Confira livros em oferta e lançamentos na Amazon Livros.

O fim da democracia? - Revista Cult https://revistacult.uol.com.br/home/o-fim-da-democracia/ 5 de jun de 2017 - Um dos mais importantes filósofos vivos, o canadense Charles Taylor, que tem livro lançado no Brasil, ataca o “infoentretenimento” e alerta ...

O fim da democracia do ocidente - Enviadas Por Leitores - JusBrasil https://por-leitores.jusbrasil.com.br/…/o-fim-da-democracia… Já faz algum tempo que o mundo vem passando por mudanças. Aquilo que há alguns anos era debatido pelas crianças dentro das salas de aula e pelos ...

O fim do século democrático | Instituto Mercado Popular mercadopopular.org/2018/04/o-fim-do-seculo-democratico/ 23 de abr de 2018 - Os cidadãos de todo o mundo eram atraídos pela democracia liberal não apenas ... e uma estrutura de alianças comuns está chegando ao fim.

Como as democracias morrem Visualizar livro https://www.youtube.com/watch?v=qHPuCNQEJQM – vídeo sem tradução https://www.youtube.com/watch?v=R8QL1fVBjI8 – vídeo com tradução https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2018/02/steven-levitsky-intolerancia-hoje-mata-democracia-aos-poucos.html - press

 

Uma análise crua e perturbadora do fim das democracias em todo o mundo Democracias tradicionais entram em colapso? Essa é a questão que Steven Levitsky e Daniel Ziblatt - dois conceituados professores de Harvard - respondem ao discutir o modo como a eleição de Donald Trump se tornou possível. ... Google Books Autor: Steven Levitsky

A erosão dos direitos civis http://revistamirante.wordpress.com/

 

 

 

2.Guerra de estigmas e falsas ilusões 30 de setembro de 2018 Marco Aurélio Nogueira - https://marcoanogueira.pro/guerra-de-estigmas-e-falsas-ilusoes/

Um traço da cultura de esquerda é a arrogância: achar que os outros não veem a verdade dos fatos. Somente a esquerda seria clarividente e estaria livre da ingenuidade, da alienação, da ignorância.

Nem todos de esquerda são assim, obviamente, e quero crer que a maioria se orienta por critérios de flexibilidade, de respeito pelos demais, de generosidade, que são a marca mais forte deste campo político e ideológico. A esquerda é heterogênea, abarca diferentes modalidades de pensamento, de conduta, de atitude diante da vida.

Apesar disso, é bastante comum a figura do militante de esquerda que carrega no bolso um manual de verdades e ensinamentos, utilizando-o para pressionar, criticar ou persuadir seus interlocutores.

Nenhuma posição política ou ideológica está imunizada contra esse fascínio pela arrogância, pela presunção de estar acima e à frente dos demais. Militantes e ativistas tendem a ser convictos totais, não deixam espaços para dúvidas ou ponderações. A direita extrema, por exemplo, é pródiga em delírios de soberba, passionais e irracionais, distantes da serenidade e da prudência. É um fascínio prepotente, gerador da certeza de possuir uma verdade que dispensaria qualquer justificativa lógica ou fatual – uma verdade, portanto, que não se mostra entranhada naquele que julga possui-la.

Quanto mais radicalizada é vivida uma posição, mais a empáfia e a brutalidade argumentativa prevalecem, especialmente frente a quem pensa de forma diferente. As críticas da extrema-direita e da esquerda radicalizada são quase sempre duras, passionais, repletas de adjetivos e frases desqualificadoras. A estigmatização dos adversários é uma espécie de alvo permanente, pois a convicção é que os estigmas ferem mais fundo, machucam e colam na pele do inimigo como sarna. São carimbos, marcadores, pouco importando que desprezem a honestidade ou o rigor.

Uma máxima dessa postura poderia ser: num combate, é irrelevante a verdade dos fatos ou a dignidade do adversário, o decisivo é destruí-lo.

A esquerda brasileira radicalizou-se muito nos últimos anos. Perdeu parte ponderável da generosidade que lhe é típica, da reflexividade crítica, da tolerância. Empobreceu-se como campo articulador dos desiguais, que se dispersaram. Deixou de propor, de atuar como polo pedagógico. Não houve plano nem intenção explícita nesse movimento, ele simplesmente foi acontecendo, determinado pelos fatos e pelas circunstâncias. A esquerda perdeu força na sociedade e como derivação terminou por fazer do PT seu bunker e seu aríete, em nome da ideia de que esse partido não só retinha o melhor do progressismo como também estava sendo caçado sem piedade pelas forças do capital e da reação.

Trabalhou-se sistematicamente para fixar esse horizonte no mundo intelectual, na universidade, nos circuitos artísticos, na política, no sindicalismo, na vida associativa. Infectou-se o discurso político com falsas ilusões e palavras-chave que deveriam ser repetidas à exaustão, sem que se tivesse tempo de raciocinar. Foi um esforço bem sucedido, mas que teve um efeito colateral: o desentendimento, o fechamento dos espaços de cooperação, a intolerância, o empobrecimento do debate público.

Quanto mais se avançou nessa direção, mais a sociedade foi ficando estressada, desconfiada dos políticos, convencida de que a discussão política ou cultural não pode ser travada de modo civilizado, sem estigmas, berros e slogans de mobilização. Mais a direita foi crescendo, beneficiada por um estado de coisas marcado pela exasperação. Atiçadas por um lado e pelo outro, as redes sociais enlouqueceram. Os recintos de debate e reflexão converteram-se em local de protestos e manifestações.

Houve quem resistisse, mas sem conseguir furar o cerco. Os “resistentes” foram sendo empurrados para fora do círculo dourado do progressismo oficial, identificados com o inimigo a que se devia combater sem trégua. Foram combatidos com igual ferocidade pela direita extrema, que os via como comunistas disfarçados.

A esquerda moderada – social-democrática, reformista, socialista, liberal-socialista – foi sendo assim encurralada, vista pela esquerda radicalizada como prestando serviços aos reacionários e pela extrema-direita como colaboradora de progressistas corruptos. Ficou sem saber como demarcar um espaço.

Criou-se dessa forma um escudo que protegeu a esquerda radicalizada, facilitando-lhe o trabalho de dissimular seus equívocos, seus erros de conduta política, seu cinismo e seu apetite pelo poder. Protegida por esse escudo, a esquerda radicalizada pode continuar a praticar suas políticas, a defender seus interesses particulares, a cultuar seus mitos e heróis, a atribuir toda culpa pelos desacertos nacionais aos inimigos, aos “outros”. Essa esquerda governou o país durante extensos 13 anos e jamais admitiu ter feito escolhas equivocadas, nem sequer em decisões localizadas.

Ela se tornou, assim, uma esquerda não responsabilizável. Tudo o que de problemático aconteceu – a crise econômica, a crise fiscal, a péssima qualidade da política, o Estado inchado e ineficiente, a dificuldade de distribuir renda de forma sustentável, a fragilidade dos sistemas de proteção social, a violência, a insegurança, a corrupção oceânica — tudo isso, e mais um pouco, teria sido provocado pelos inimigos de classe, pelos outros, pela mídia do capital, pelas circunstâncias externas. Numa versão ainda mais esdrúxula, seriam erros causados não pelos governos petistas que se sucederam desde 2003, mas pelo impeachment de Dilma e pelo período Temer, uma “herança maldita” legada pelo PT ao próprio PT.

A esquerda no poder seguiu impávida, jurando ter mãos limpas e intenções puras. Não mudou de orientação nem quando sofreu derrotas eleitorais acachapantes, como em 2016, ou quando foi pega com a mão na botija da corrupção. Nada a atingiu, nada fez com que mudasse de posição, nada lhe serviu de alerta. Ao contrário, quanto mais se complicava mais atuava para ampliar os vetos, os estigmas, uma prática política viciada e autoritária.

A radicalização, porém, não foi improdutiva.

Serviu antes de tudo para promover a recuperação do PT, sua volta ao palco com uma bandeira ainda mais empolgante, a da vitimização de Lula. A estratégia repôs o PT como força eleitoral, com o mesmo estoque de ideias e condutas de antes, só que ainda mais histriônicas e performáticas. Em vez da “luta de classe”

contra o capital, surgiu a luta dos condenados da terra em prol de um passado mitificado, onde a felicidade reinava.

A radicalização, em segundo lugar, empoderou a extrema-direita, dando-lhe argumentos e oxigênio para disseminar um repertório regressivo misturado com conservadorismo moral e repúdio ao petismo.

E, por fim, ajudou a dizimar o centro liberal-democrático, que não se mostrou competente para atuar com eficácia no ambiente tóxico propiciado pela radicalização, cedeu a seus próprios caprichos e não soube travar qualquer combate.

Hoje, faltando poucos dias para as urnas de 7 de outubro, o cenário que se desvenda é de um choque épico entre uma esquerda radicalizada sem propostas e uma extrema-direita sem ideias. Ninguém a rigor poderá sair vencedor dessa refrega. O país do próximo ciclo dificilmente será governável, dada a reiteração de narrativas políticas que dividem a sociedade em campos inconciliáveis e que tratam os moderados como seres repulsivos ou como inocentes úteis.

Precisamos desarmar essa bomba.

A sorte de todos é que a vida seguirá. Falaram tanto em golpe e perseguição “de classe” que criaram um cenário de horror no qual a democracia estaria sendo destruída. Ela, porém, enquanto institucionalidade, não cedeu e conseguiu resistir, em que pesem a má qualidade da representação política, a crise dos partidos e a ausência de projetos de sociedade. Enquanto cultura, porém, o risco de retrocesso democrático é enorme. Faltam cidadãos educados, falta educação democrática, faltam lideranças e elites em todos os campos da vida: na política, na intelectualidade, na área técnica, entre os artistas, no mundo sindical. Viramos um corpo desconjuntado e sem cabeça.

Em algum momento, essa miséria de lideranças e valores cobrará seu preço. Nesse ponto, os moderados serão chamados para entrar novamente em campo: os articuladores, os que tecem redes e constroem pontes. Porque sem eles os pedaços não conseguem se compor e os extremos se prolongam, agarrados às suas próprias boias de salvação.

 

 

 

 

3. O debate que faltou - Mangabeira Unger

 

 

4.Alô, companheiros de elite

RICARDO SEMLER, autor de “Virando a própria mesa”.

Na Fiesp, quando eu tinha 27 anos e era vice do Mario Amato, convidávamos outsiders para uma conversa no bar. Chamei o FHC, que estava na mídia com a pecha de maconheiro. Chamamos os 112 presidentes de sindicato, vieram 8. Ninguém topava falar com "comunista". Alguns anos depois, fui ao Roda Viva para alertar contra a eleição do Collor, queridinho passional das elites.

Recentemente, realcei que a ida das elites à Paulista para derrubar a Dilma equivalia a "eleger" o Temer e seus 40 amigos. Ninguém da elite quis ir às ruas para pedir antecipação de eleições. Erraram feio, como no passado, ou como quando deram as chaves da cidade ao Doria. Quanta ingenuidade.

Agora, estremeço ao ouvir amigos, sócios e metade da família aceitando a tese de que qualquer coisa é melhor do que o PT. Lá vamos nós, de novo. As elites avisaram que 800 mil empresários iriam para o aeroporto assim que Lula ganhasse. Em seguida, alguns dos principais empresários viraram conselheiros próximos do homem.

Sabemos que, em vencendo Haddad, boa parte da Faria Lima e da Globo se recordará subitamente que foi amiga de infância do Fernandinho --"tão boa pessoa, nada a ver com o Genoino, gente!".

A reação de medo e horror da esquerda, Ciro incluso, é ignorante. Vivemos, nós da elite, atrás de muros, cercados de arames farpados e vidros blindados, contratando os bonzinhos das comunidades para nos proteger contra favelados. Oras, trocar vigias com pistolas por seguranças com fuzis é um avanço? Ou é melhor aceitar que o país é profundamente injusto e um lugar vergonhoso para mostrarmos para amigos estrangeiros?

Vamos continuar na linha do projeto Marginal, plantando ipês lindos para desviar a atenção do rio?

Não compartilho com os pressupostos ideológicos do PT e —até pouco— fui filiado a um partido só, o PSDB. Nunca pensei em me filiar ao PT, nunca aceitaria envolvimento num Conselhão de Empresários, por exemplo.

Apenas reconheço que as elites deste país sempre foram atrasadas, desde antes da ditadura, e nada fizeram de estrutural para evitar o sistema de castas que se instalou.

Nenhum de nós sabe o que é comprar na C&A e ser seguido por um segurança para ver se estamos para roubar, por sermos de outra cor de pele. Todos nós nos anestesiamos contra os barracos que passamos a caminho de GRU, com destino à Champs Élysées.

Este é um país que precisa de governo para quem tem pouco, a quase totalidade dos cidadãos. Nós da elite, aliás, sabemos nos defender. Depois do susto, o dólar cai, a Bolsa sobe, e voltamos a crescer. Estou começando três negócios novos neste mês.

Qual de nós quer pertencer ao clube dos países execrados, como Filipinas, Turquia, Venezuela? É um clube subdesenvolvido que foi criado à força, mas democraticamente, bradando segurança e autoridade forte. Soa familiar?

Quem terá coragem, num almoço da City de Londres, de defender a eleição de um capitão simplório, um vice general, um economista fraco e sedento de poder, e novos diretores de colégio militares, com perseguição de gays, submissão de mulheres e distribuição de fuzis à la Duterte?

Lembrem-se desta frase do Duterte, a respeito de uma australiana violentada nas Filipinas: "Ela era tão bonita —eu deveria ter sido o primeiro". Impossível imaginar o Bolsonaro dizendo isso?


Bolsonaro e a aliança judicial-militar

 https://jornalggn.com.br/noticia/bolsonaro-e-a-alianca-judicial-militar-por-aldo-fornazieri#.W5ZHfagJlh0.facebook

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ALDOFORNAZIERI – FB ACESSO 10/09/2018 -

 

O atentado contra Bolsonaro não altera, substantivamente, os contornos que a campanha eleitoral vinha assumindo, mas acelera um aspecto fundamental que estava sendo desenhado por detrás do pano do teatro político: a consolidação de uma aliança judicial-militar tendo Bolsonaro como ponto de convergência e agregando setores amplos das polícias militares, civis, Polícia Federal e Ministério Público. Bolsonaro tornou-se, efetivamente, o candidato do Partido do Estado que luta para desalojar, criminalizar e prender o mundo dos partidos e dos políticos. Mais do que a facada, esta é a mudança efetiva e perigosa que este momento da campanha vem consolidando.

O atentado, de fato, precisa ser repudiado, pois se trata de um ato injustificável contra a vida do candidato e uma ação incompatível com a disputa democrática. Como ato isolado, não foi um atentado contra a democracia. Atentado contra a democracia foi deixar Lula preso e fora das eleições.

Estabelecida esta posição de princípio, no entanto, é preciso tentar compreender racionalmente as motivações do atentado. Tratou-se de uma atitude individual praticada por uma pessoa exasperada, seja por desequilíbrio de personalidade ou por radicalismo ideológico. Alguns representantes da esquerda piedosa tentaram desvincular a conduta do atacante em relação às ações e pregações de Bolsonaro. Trata-se de um equivoco, evidentemente.

Bolsonaro, ao pregar o ódio, também suscita ódio. O ódio é um sentimento absolutamente normal nos seres humanos, inerente à natureza humana. Sendo a atividade política uma atividade que atiça paixões, ela também desencadeia ódios. O ódio, como nos ensinou Maquiavel, pode ser provocado por más e por boas ações; por homens considerados maus ou por homens considerados bons. Hitler, Mussulini, Ghandi, Martin Luther King, Lula etc., por razões diferentes, suscitam ódio em adversários ou em pessoas comuns.

O ódio pode, mas não necessariamente, desencadear violência. O ódio é um sentimento legítimo, que deve ser compreendido. É legítimo, por exemplo, que o povo pobre e os trabalhadores sintam ódio de Temer e de seu governo. A esquerda piedosa e cristã parece não compreender isto. Mas, recorrendo mais uma vez ao maior sábio da política, existem piedades que, se bem pesadas, são crueldades e existem crueldades que, se bem julgadas, são piedosas. Não é por acaso que os cristãos e a esquerda piedosa, ao pregarem a resignação, a piedade e a mansuetude contribuíram e contribuem para que o mundo permaneça na mão dos malvados.

Ocorre que Bolsonaro, além de disseminar e suscitar o ódio, prega a violência. A retórica do candidato é uma retórica violenta. As palavras não são inocentes. São símbolos carregados de significações que desencadeiam ações. A retórica de Bolsonaro acerca de mulheres, de negros, de gays e de adversários políticos são gatilhos que podem disparar a prática da violência. Quando ele fala em fuzilar petistas do Acre, seguidores do candidato podem sentir-se autorizados a praticar a violência. O mesmo ocorre quando ele fala em condecorar policiais que matarem 10 a 20 pessoas em confrontos. Bolsonaro faz apologia explícita à tortura e ao uso de armas, até mesmo para crianças. Liderados fanáticos ou desequilibrados tendem a praticar aquilo que entendem sejam autorizações do líder. Neste e em vários outros aspectos aqui não mencionados, Bolsonaro tornou-se o epicentro que pode irradiar a violência política e policial. Precisa ser denunciado e contido antes que seja tarde.

Do ponto de vista eleitoral, o atentado pode suscitar algum ganho inicial para o Bolsonaro, mas nada muito significativo. Os seus eleitores podem ter fidelizado suas intenções de voto, o que não é bom para Alckmin. Passados os primeiros dias de alta emoção, o eleitorado voltará ao seu estado normal. Claro, a campanha do candidato do PSL tentará explorar o atentado eleitoralmente. Os demais candidatos não podem ficar inertes e na defensiva acerca dessa exploração. É legítimo que denunciam Bolsonaro como um candidato que faz  apologia da violência. Assim, é preciso perceber que o desdobramento eleitoral do atentado é algo que está em jogo e dependerá da astúcia, da inteligência e da competência de como cada candidato jogar esse jogo.

Mas, volte-se ao ponto inicial. A operação Lava Jato conformou o Partido do Estado, que agrega a elite judicial, das polícias, das Forças Armadas e do Ministério Público. A sua primeira manifestação foi uma espécie de "rebelião do procuradorismo" contra o mundo político e, particularmente, contra o PT, que naquele momento estava no poder. No seu último momento, Bolsonaro é o candidato que congrega e unifica essas elites do funcionalismo estatal, que não se move apenas pelo moralismo, mas também por ideologia e para manter e ampliar os altos salários e os privilégios. A natureza dessas elites públicas é conservadora e antipopular.

Parte importante do Judiciário e do Ministério Público, além das elites policiais e militares, aderiram a Bolsonaro na primeira hora, pois ele expressa a sua visão de mundo autoritária, conservadora e fascistizante. Na medida em que Alckmin vem apresentando dificuldade para decolar, Bolsonaro foi se tornando cada vez mais palatável até mesmo para setores empresariais e para alguns grupos da grande mídia. O autoritarismo de Bolsonaro foi sinuosamente sento naturalizado por esses setores e agora procuram legitimá-lo política e socialmente.

Como Lula não foi morto e enterrado politicamente ao ser preso - pelo contrário, foi se tornando cada vez mais um paradigma para o eleitorado - as elites estatais e privadas foram percebendo que as eleições podem se revestir de ilegitimidade e que o próximo governo poderá ter sua legitimidade questionada. O projeto Bolsonaro de governo autoritário, que vinha se manifestando como uma insinuação, ganhou forma e sentido para essas elites todas como única saída para fazer frente à continuidade da crise política no próximo governo.

Em síntese, esse projeto expressa a seguinte fisionomia: de um lado, autoritarismo e repressão no campo político e social, violência policial, submissão autoritária do Congresso aos desígnios do governo e tutela judicial e militar da sociedade e do mundo político; e, de outro, ultraliberalismo na economia, privatizações e desnacionalização, continuidade da precarização dos direitos sociais e políticos e aprofundamento da geração de mão de obra barata nacional pelo desemprego e pelo subemprego. O modelo político-econômico é o da ditadura militar chilena de Pinhochet.

Parte do Judiciário se agregou a este projeto autoritário porque ele lhe deu origem via Lava Jato, outra parte se agregou porque é fascistóide e, uma terceira parte, aderiu por covardia e conveniência. Esta última parte passou a sofrer também a pressão militar, principalmente no que se refere às decisões acerca da prisão e da candidatura de Lula. As manifestações de generais e do próprio comandante do Exército, seja no julgamento do habeas corpus do ex-presidente ou da entrevista que ele concedeu neste final de semana reiterando que a candidatura Lula não será aceita, é prova sobeja da tutela militar sobre integrantes de tribunais superiores acovardados.

O risco que esse projeto autoritário representa para a retomada do processo democrático é enorme. Se ele conseguir passar para o segundo turno o risco aumenta, pois o jogo será outro. Todos os expedientes legais e ilegais serão usados contra o candidato adversário se essa hipótese se confirmar. A eleição será outra. Os candidatos do campo progressista estarão cometendo um grave erro se agirem para ter Bolsonaro como eventual adversário no segundo turno. Convém lembrar que na semana passada Haddad e Alckmin foram atacados pelo Ministério Público. O candidato tucano foi atacado também por Temer. Esses movimentos não são casuais.

O golpe fracassou política e moralmente, o que provocou a dispersão e a divisão de suas forças. A possibilidade de ser derrotado eleitoralmente com Lula ou sem Lula está produzindo um movimento de reagrupamento, ao que tudo indica em torno Bolsonaro. Na medida em que a exclusão de Lula, com toda sua imensa força política e eleitoral, ameaça pender com a espada da ilegitimidade sobre o pescoço do novo governo, se for do campo conservador, as elites agora querem construir sua garantia pela via da tutela judicial-militar.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

Colegas de elite, acordem. Não se vota com bílis. O PT errou sem parar nos 12 anos, mas talvez queria e possa mostrar, num segundo ciclo, que ainda é melhor do que o Centrão megacorrupto ou uma ditadura autoritária. Foi assim que a Europa inteira se tornou civilizada. Precisamos de tempo, como nação, para espantar a ignorância e aprendermos a ser estáveis. Não vamos deixar o pavor instruir nossas escolhas. O Brasil é maior do que isto, e as elites podem ficar, também. Confiem.

Ricardo Semler

 

 

5.Balanço e Perspectivas Eleições

Breno Altman https://www.youtube.com/watch?v=NFNokuKDQ-I

6.Analistas O GLOBO – M.Pereira /B.Mello Franco https://oglobo.globo.com/brasil/jornalistas-do-globo-analisam-segundo-turno-entre-jair-bolsonaro-fernando-haddad-23138827

7.Matias Spektor

 

Onde erramos? 30 anos de Nova República https://www1.folha.uol.com.br/colunas/matiasspektor/

Experiência mostra que grandes avanços, como a Ficha Limpa, têm o selo da mobilização popular

 

8.Luiz Nassif – CGN

blob:https://www.dailymotion.com/45851de9-fdfe-4582-9508-7bba7b7c620d

9.Carta aberta de Manuel Castells aos intelectuais do mundo

Publicado em: outubro 8, 2018

“Em uma situação assim, nenhum intelectual, nenhum democrata, nenhuma pessoa responsável do mundo em que vivemos, pode ficar indiferente”. (Foto: Ramiro Furquim/Sul21)

Manuels Castells (*)

Amigos intelectuais comprometidos com a democracia:

O Brasil está em perigo. E, com o Brasil, o mundo. Porque, depois da Eleição de Trump, a tomada do poder por um governo neofascista na Itália e da ascensão do neonazismo na Europa, o Brasil pode eleger presidente um fascista, defensor da ditadura militar, misógino, sexista, racista e xenófobo, que obteve 46% dos votos válidos no primeiro turno da eleição presidencial. Pouco importa quem seja seu oponente. Fernando Haddad é a única alternativa possível. É um acadêmico respeitável e moderado, candidato pelo PT, um partido hoje em dia desprestigiado por ter se envolvido no processo de corrupção generalizado do sistema político brasileiro. Mas a questão não é o PT, mas sim uma presidência de um Bolsonaro capaz de dizer a uma deputada, em público, que ela “não merece ser estuprada”. Ou que o problema da ditadura não foi a tortura, mas sim que não tivesse matado mais ao invés de torturar.

Em uma situação assim, nenhum intelectual, nenhum democrata, nenhuma pessoa responsável do mundo em que vivemos, pode ficar indiferente. Eu não represento ninguém além de mim mesmo. Nem apoio nenhum partido. Acredito, simplesmente, que se trata de um caso de defesa da humanidade. Se o Brasil, o país decisivo da América Latina, cair em mãos deste desprezível e perigoso personagem, e dos poderes fáticos que o apóiam, os irmãos Koch entre outros, nos precipitaremos ainda mais fundo na desintegração da ordem moral e social do planeta, a qual estamos assistindo hoje.

Por isso, escrevo a todos vocês, aos que conheço e aos que gostaria de conhecer. Não para que subscrevam essa carta como se fosse um manifesto de políticos, mas sim para pedir-lhes que tornem pública, em termos pessoais, sua petição para uma ativa participação no segundo turno das eleições presidenciais, dia 28 de outubro, e nosso apoio a um voto contra Bolsonaro, argumentando

segundo o que cada um pensa e difundindo sua carta por meio de seus canais pessoais, redes sociais, meios de comunicação, contatos políticos, qualquer formato que difunda nossos protestos contra a eleição do fascismo no Brasil. Muitos de nós temos contatos no Brasil, ou temos contatos que têm contatos. Contate-mo-los. Um what’s é suficiente, ou uma chamada telefônica pessoal. Não vai nos fazer um falta uma #. Somos pessoas, milhares, milhões potencialmente falando, no mundo e no Brasil. Ao longo de nossa vida, adquirimos com nossa luta e integridade uma certa autoridade moral. É hora de utilizá-la neste momento antes que seja muito tarde.

Eu farei isso, já estou fazendo. E rogo, simplesmente, que cada uma e cada um faça o que possa.

(*) Doutor em sociologia pela Universidade de Paris, é professor nas áreas de sociologia, comunicação e planejamento urbano e regional e pesquisador dos efeitos da informação sobre a economia, a cultura e a sociedade. 10.Um duro revés para o PT, por Aldo Fornazieri

seg, 08/10/2018 - 07:26

 

O resultado das eleições gerais representaram um duro revés para as esquerdas em geral e para o PT em particular. No Sul e no Sudeste houve uma devastação do PT: em nenhum lugar o partido disputa o segundo turno para governos estaduais e apenas salvou a reeleição de Paulo Paim num distante segundo lugar. Até mesmo o aliado histórico do partido, Roberto Requião, foi derrotado. Lindbergh Faria não se reelegeu no Rio e Suplicy e Dilma ficaram longe de vencerem. O resultado obtido por Márcia Tiburi ao governo do Rio foi bisonho e o do Luiz Marinho em São Paulo foi sofrível. No Rio Grande do Sul, o candidato do PT ficou de fora do segundo turno e o governador Pimentel, em Minas Gerais, amargou um terceiro lugar. O PT se salvou apenas no Nordeste. Comparando os resultados obtidos por Jair Bolsonaro e Fernando Haddad também se revela

uma derrota amarga para o PT e para as esquerdas. Guilherme Boulos ficou longe de ter uma votação significativa. O Brasil se inclina à direita.

Nos casos das candidaturas ao Senado e aos governos estaduais do PT ocorreram más escolhas em alguns casos, e erros de condução de campanhas em outros. Não há espaço aqui para discuti-los. No caso das eleições presidenciais ocorreram vários erros, alguns pregressos à campanha e outros na condução da mesma. Dentre os vários erros, destacam-se dois.

O primeiro diz respeito ao fato de que o PT nunca se reconciliou com a sociedade brasileira. Conseguiu apenas se reconciliar com seus eleitores. O partido teve inúmeras oportunidades de reconhecer seus erros, tanto no que diz respeito à corrupção, quanto no que diz respeito à condução do governo Dilma, mas nunca o fez, nunca pediu perdão para que pudesse restabelecer um novo início, virar a página do passado. Confrontado várias vezes durante a campanha acerca desse problema, Haddad não tinha o que responder. Foi evidente o seu constrangimento, o que pesa negativamente. Assim, sem nenhuma resposta para os erros cometidos, permitiu-se que o antipetismo continue correndo solto, disseminado pelos inimigos, pelos adversários e pela grande mídia.

 

O segundo erro pré-campanha diz respeito à forma como o PT se conduziu acerca da questão da condenação e da prisão de Lula e da interdição de sua candidatura. O partido apostou quase que exclusivamente na via judicial, negando-se a mobilizar os movimentos sociais. Sabia-se de antemão que a via judicial conduziria a uma derrota certa. Mas o partido se negou a buscar forças e a promover pressões com mobilizações de rua. Mostrou-se fraco, não gerou confiança e as suas lideranças se mostraram inseguras, incapazes de dar rumo e direção aos ativistas e aos eleitores.

Já no contexto da campanha, os erros da direção do PT se reforçaram. Um deles consistiu em não definir o candidato a vice-presidente já em maio ou junho. Essa decisão era necessária para construir a personalidade política do substituto de Lula e também para torná-lo mais conhecido nacionalmente. Como a indicação de Haddad para vice e, depois, para substituto, só ocorreu na antevéspera das eleições é evidente que isto limitaria a transferência de voto e também impediria que o candidato reforçasse na campanha sua própria condição de líder, as suas qualidades e virtudes.

No rastro desse erro foi cometido outro: se era correto vincular Haddad a Lula no início da campanha, ao longo da mesma era necessário reforçar a condição de líder de Haddad, enfatizando suas qualidades como governante. Na medida em que isto não foi feito, Haddad foi projetado como um líder fraco, subordinado a Lula. O "Haddad é Lula" foi se tornando prejudicial, assim como o slogan "O Brasil Feliz de Novo" foi uma chamada pueril, para uma disputa gremial, em face da natureza da disputa que está posta. O eleitorado quer um líder, um presidente forte, que resolva os seus problemas e que acabe com a desordem institucional, moral e social instalada. Boa parte do eleitorado foi identificar isso em Bolsonaro e viu nele a possibilidade mais efetiva de mudança. A campanha do PT, sempre

entregue a vendedores de sabonete, foi incapaz de perceber isto e foi incapaz de projetar a imagem de Haddad como um líder que vem para resolver os problemas do povo e do país.

Outro grave erro do PT consiste na subestimação do Bolsonaro. Se no início da campanha era razoável duvidar de sua viabilidade, as primeiras semanas já desfizeram esta dúvida. Todos sabem que a campanha de Bolsonaro está assentada nas redes sociais, com forte presença no Whatsapp, e que, nelas, houve a construção da personalidade política de Bolsonaro como um "mito" e que esta construção gerou devotos que não se abalam por nenhuma consideração racional.

A extrema-direita vinha usando esses expedientes em várias campanhas em outros países. Essas campanhas se especializaram em transformar a verdade em mentiras e as mentiras em verdades. Isto faz parte de um conceito de guerra política e de que as campanhas precisam usar táticas de guerra, onde valem a força e fraude. É o que a campanha de Bolsonaro vem fazendo diariamente sobre vários temas. O PT não preparou uma contra-estratégia para enfrentar essa estratégia e nem preparou uma estratégia para agir de forma ampla nas redes sociais para influenciar eleitores. As análises de rede mostram uma constante vantagem de Boslonaro sobre Haddad. Os militantes do PT nas redes sociais não agem a partir de conteúdos orientados centralmente, mas, disparam, de forma dispersa, em todas as direções. Isto não é eficaz.

A direção do PT e as lideranças do partido perderam a dimensão da disputa política, a natureza da disputa pelo poder. Mesmo com as sucessivas derrotas, não desceram das altas tamancas da arrogância. Sem prudência, com escassa coragem, são dominados por um vício que vem cavando a desgraça de líderes, Estados e partidos ao longo dos tempos: se comprazem em serem adulados e recusam ouvir as advertências. Os aduladores, normalmente, adulam por dois motivos: 1) porque se sentem seguros no seu auto-engano na suposta infalibilidade dos líderes e dos partidos; e, 2) os analistas e conselheiros adulam porque são áulicos dos líderes, querem estar perto dos poderosos, principalmente por interesse. Bastou Haddad crescer um pouco que alguns proclamara a ultrapassagem de Bolsonaro, uma onda vermelha que encheria o Senado e a Câmara de representantes petistas. Esta demagogia faz mal à militância, ao PT e à transformação do Brasil.

Para alguns erros não há o que fazer. Para outros, o tempo é curto e exige competência e coragem. Os pontos a serem enfrentados estão aí: centralizar a campanha nas competências e virtudes de Haddad (e Manuela), mostrando que ele é um líder forte, capaz de enfrentar e resolver os problemas do povo e de unir o Brasil; enfatizar a crença e a fé no Brasil, no seu futuro, no seu desenvolvimento com justiça, conduzido por um presidente forte, justo e humano; criar outro slogan da campanha, compatível com a natureza da disputa e selecionar três ou quatro ideias-força; encontrar uma fórmula eficaz de defender-se dos ataques e das mentiras, de influenciar as redes sociais orientando a ação da militância; defender-se do problema da corrupção, na medida do possível; encontrar uma fórmula eficaz de atacar a estratégia de guerra política assentada na transformação da verdade em mentira e das

mentiras em verdades, repudiando as mentiras e afirmando que o povo não pode eleger um presidente que se sustenta nas mesmas; trabalhar para construir uma ampla frente democrática em defesa da democracia e contra o fascismo.

Aqui é preciso observar que a grande maioria dos eleitores de Bolsonaro não é fascista. O embate democracia versus fascismo pode ter uma maior eficácia relativa na classe média, mas é importante para reforçar a cultura democrática. É preciso fazer uma campanha quente, de mobilização, de rua, de atos, mostrando força, pois o risco de uma derrota é grande. Se o eleitorado de Bolsonaro não é fascista, o seu entorno é fascistóide, violento e incontrolável. Isto poderá mergulhará o Brasil no abismo da violência política generalizada e aprofundar a sua tragédia social.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

 

 

 

11.Nas entrelinhas: O xadrez do segundo turno Publicado em 08/10/2018 - 08:12 Luiz Carlos Azedo - http://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/nas-entrelinhas-o-xadrez-do-segundo-turno/

“O primeiro turno, se examinarmos as eleições de governadores, senadores e deputados, mostra uma realidade política mais complexa do que o antagonismo radical entre Bolsonaro e Haddad”

Confirmando as expectativas, teremos segundo turno nas eleições para presidente da República, entre Jair Bolsonaro (PSL), que larga na frente, com cerca de 46, 3% dos votos, e Fernando Haddad (PT), com 29, 2%, aproximadamente. A onda Ciro Gomes (PDT), que teve em torno de 12,5% dos votos, esperança do movimento a favor do voto útil, não se confirmou. Geraldo

Alckmin (PSDB) teve pouco mais de 4,8% dos votos e Marina Silva (Rede), completamente desidratada, apenas 1% dos votos — atrás de João Amoedo (Novo), com 2,5%; Cabo Daciolo (Patriotas), 1,2%; e Henrique Meirelles, 1,2%.

O realinhamento de forças políticas será importante no segundo turno. Parcela considerável do eleitorado, porém, se deslocará antecipadamente, o que deverá fazer com que Bolsonaro comece o segundo turno com mais de 50% dos votos válidos nas pesquisas. É uma conta simples de ser feita: a maioria dos votos de Amoedo, Daciolo e Meirelles, que somam em torno de 5%, tende a se transferir para o candidato do PSL, que precisaria de mais 4% dos votos válidos para vencer o pleito; Haddad, em contrapartida, mesmo com a maioria dos votos de Ciro e Marina, que somam 13,5%, alcançaria no máximo 42% dos votos. Ou seja, por gravidade, Bolsonaro derrotaria Haddad no segundo turno.

Entretanto, como já se viu várias vezes, teremos uma nova eleição. Haverá debate político entre os dois candidatos, que continuarão se digladiando no horário eleitoral gratuito e nas redes sociais. Bolsonaro, desta vez, terá paridade de meios para a propaganda no rádio e na tevê. A rigor, não precisará de um grande esforço em direção ao centro para vencer as eleições, porque já capturou uma parte desse eleitorado. Seu discurso politicamente incorreto, que aparentemente é seu ponto fraco, não foi empecilho ao seu desempenho no primeiro turno; porém, pode levá-lo a perder os votos transferidos por gravidade.

A situação de Haddad é mais complexa. Chegou ao segundo turno graças ao carisma de Lula, que abduziu sua identidade, mas isso lhe trouxe também a grande rejeição antipetista. O discurso de quem põe a soberania nacional e a soberania popular acima de tudo é envelhecido, passa a ideia de dubiedade quanto ao compromisso com as instituições democráticas e uma visão nacional desenvolvimentista ultrapassada, que dificulta suas alianças. A sua soberba também pode pôr tudo a perder, porque precisa conquistar mais de 21% dos votos válidos para ganhar as eleições. Os votos da esquerda não chegam a tanto. Os 4,8% que ficaram até o fim com Geraldo Alckmin, por exemplo, podem fazer a diferença.

Num artigo intitulado “Ao vencedor, as batatas”, publicado ontem no jornal O Estado de São Paulo, o cientista político Luiz Werneck Viana adverte: “O artifício de negar a identidade ao centro político, de existência comprovada empiricamente em nossa sociedade há décadas, não tem como resistir ao império dos fatos. A iminência de um segundo turno eleitoral nos devolve, em clima de pânico, com o tempo fugindo das mãos, a busca pelo centro perdido. Sem ele, como vencer as eleições, pior, como governar? Com Haddad teremos o indulto de Lula e a convocação de uma Assembleia Constituinte? Faltaria combinar com os russos, que, aliás, são muitos. Que economia nos espera com Bolsonaro, a do Pinochet, neoliberalismo com fuzis?”

Governadores

“O centro político, banido do salão, volta com força por todas as janelas”, ironiza Werneck. Na verdade, quem quiser vencer o segundo turno terá que encontrar uma linha de ação compatível com o novo Congresso, já eleito e mais conservador (destaque para o strike ocorrido no Senado), e com os governadores já eleitos ou que disputam o segundo turno. Há um jogo a ser jogado nas disputas regionais: São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Brasília, Santa

Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rondônia, Amapá, Amazonas, Pará, Rio Grande do Norte e Sergipe terão segundo turno para escolher seus governadores. É um campeonato de xadrez político que Bolsonaro e Haddad terão de jogar, pois são essas alianças que podem mudar a deriva natural dos eleitores.

A radicalização política esquerda versus direita continuará a dividir o país, mas será mitigada pelas alianças ao centro. Vencerá quem compreender a necessidade de construir uma ampla maioria em torno de um projeto exequível para o país, nos marcos das instituições democráticas. Quem insistir na lógica da confrontação, num processo de desestabilização da democracia, se arrisca a perder as eleições, porque há uma forte consciência democrática na maioria da sociedade. O resultado das urnas no primeiro turno, se examinarmos as eleições de governadores, senadores e deputados, mostra uma realidade política mais complexa do que o antagonismo radical entre Bolsonaro e Haddad.

 

12.Ao vencedor, as batatas

Nós, os perdedores nessa disputa eleitoral, não poderemos abdicar de feroz autocrítica

Luiz Werneck Vianna, sociólogo 07 Outubro 2018 | https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,ao-vencedor-as-batatas,70002535997

Um canal de TV de larga audiência transmite a sessão de abertura da Assembleia-Geral da ONU. Como é da tradição, cabe ao chefe de Estado do Brasil, o sr. Michel Temer, abrir os debates. O presidente Temer realiza seu pronunciamento com palavras ponderadas, desenvolvendo o tema da importância daquela organização para a paz e a cooperação solidária entre os povos, tal como tem sido a posição brasileira nas relações internacionais, que ele ali, mais uma vez, reafirmava, honrando os valores e princípios da nossa Carta constitucional e das nossas melhores tradições. O terceiro orador, o sr. Donald Trump, presidente da República dos Estados Unidos, um dos países fundadores da ONU, há décadas um dos principais protagonistas da cena mundial, em nome de um princípio de sua lavra, America first, confronta com um nacionalismo primitivo o espírito que animava aquela assembleia e que nos vem de duas grandes revoluções do século 19, a americana e a francesa, com que

se abre a modernidade e aprendemos com Kant a manter viva a utopia realista da paz perpétua.

Volte-se ao canal televisivo e a palavra passa a seu comentarista político, jornalista de meia idade, com os cabelos encanecidos, que desqualifica sem mais o oportuno e feliz pronunciamento do presidente Temer, passando ao largo do patético discurso de Trump, merecedor do justo sarcasmo com que foi recebido por sua audiência. Cenas como essas falam mais que mil palavras, estava ali a revelação da estupidez política que nos trouxe ao miserável cenário da sucessão presidencial, que ora somos obrigados a purgar.

Lamenta-se, agora, a sorte nessas horas aziagas do nosso encontro com que as urnas nos esperam. Impreca-se contra o destino que nos teria roubado o futuro, posto em mãos desastradas de estrangeiros que não conhecem nem respeitam nossa História e seus feitos. O destino é inocente, fomos nós que criamos passo a passo a armadilha, salvo milagres - creio, embora seja absurdo -, que não temos mais como evitar. Fomos nós os autores da lenda urbana de que a corrupção estaria na raiz dos nossos males, criminalizando a política e os políticos com a arrogância de messiânicos refratários à avaliação das consequências dos seus atos, a proclamarem fiat iustitia, pereat Mundus.

O centro político, lugar estratégico em que se operou a bem-sucedida modernização burguesa do País, tornou-se um espaço vazio, recusando-se ao governo Temer, com sua história de dirigente do MDB, um clássico partido do centro, com sua natural inscrição nesse lugar reconhecida, em duas consecutivas eleições presidenciais, pelo PT - partido identificado como de esquerda pela crônica política, carimbo, aliás, recusado por seu principal dirigente -, que com ele se coligou, confiando-lhe a Vice-Presidência da República. Pranteia-se agora, com lágrimas de crocodilo, a má e imerecida sorte

do finado centro político, que ora comparece às urnas, tudo indica, sem uma candidatura competitiva.

Contudo, o que é é. O artifício de negar a identidade ao centro político, de existência comprovada empiricamente em nossa sociedade há décadas, não tem como resistir ao império dos fatos. A iminência de um segundo turno eleitoral nos devolve, em clima de pânico, com o tempo fugindo das mãos, a busca pelo centro perdido. Sem ele como vencer as eleições, pior, como governar? Com Haddad teremos o indulto de Lula e a convocação de uma Assembleia Constituinte? Faltaria combinar com os russos, que, aliás, são muitos. Que economia nos espera com Bolsonaro, a do Pinochet, neoliberalismo com fuzis?

Como o gênio militar de Napoleão advertia, quando avaliava mapas de campanha, se o natural fosse arbitrariamente desconsiderado num plano, ele voltaria em galope. Nem sempre, pode-se acrescentar, em manobras afortunadas, dificílimas para os candidatos que devem disputar o segundo turno desprovidos como estão, contando apenas com seus preconceitos, de projetos de governo bem definidos. Tem-se pela frente um quadro de turbulência até que o novo governo consiga encontrar uma linha de ação compatível com o novo Congresso e com os novos governadores que nascerão das urnas. Na prática, essa incomum situação significa a abertura de um terceiro turno eleitoral, de tramitação exclusiva nos bastidores, quando só então serão conhecidos os rumos do novo governo.

O centro político, banido do salão, volta com força por todas as janelas. Tanto barulho por nada, retornamos ao ponto de partida, salvo se os estrategistas de plantão dos dois lados do tabuleiro já tenham decidido, no caso de vitória, levar a cabo o que ruminaram ao longo dessa paupérrima campanha eleitoral. O desenlace infeliz dessa imprudência, se vier, não deve tardar, e mente quem nega a força das nossas instituições, provada em tantos outros momentos

críticos da nossa história recente. Os 30 anos da Carta de 88, a mais longeva da República, não foram em vão, a sociedade saberá preservá-la das sanhas dos cavaleiros da fortuna, ela já conhece o que perderá sem ela.

Mente igualmente quem se recusa a admitir a possibilidade de a nossa democracia estar sob risco, pois está, aqui e alhures. Sem triunfalismo, joga-se, nesta sucessão presidencial brasileira bem mais do que nossos negócios internos. Nossa presença no mundo importa para a paz, em particular para nuestra America. Nós, os perdedores nessa disputa eleitoral, não poderemos abdicar de uma feroz autocrítica, uma vez que não havia nada de inevitável nessa derrota que reconhecemos. Somos mais necessários que nunca, e fizemos nascer uma nova esquerda capaz de se articular com o liberalismo político, cuja missão desde agora é nos devolver aos eixos que nos são naturais.

Pelo andar da carruagem, pode-se prever que isso não deve demorar muito. Por fim, glória a Deus, há os milagres.

*LUIZ WERNECK VIANNA É SOCIÓLOGO, PUC-RIO

 

 

13.Hora de voto

Mais do que nunca é preciso insistir em nossos valores, na democracia

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República 07 Outubro 2018 | https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,hora-de-voto,70002535994

A fragmentação partidária, os sentimentos exaltados e o personalismo triunfante não respondem às necessidades do povo e do País. Na vida política não basta ter ou imaginar que se tem razão, é preciso que a mensagem seja sentida pelas pessoas e que elas escutem e queiram avançar na direção proposta. Até agora o caminho das reformas e do equilíbrio não parece ser o preferido pela maioria.

O eleitorado decidirá hoje os adversários que se enfrentarão no segundo turno. Ainda é tempo de parar a marcha da insensatez. Uma coisa é certa: o eleito ao final de outubro terá de obedecer à Constituição e tanto os que nele votaram como os que a ele se opuseram terão de respeitar o resultado das urnas.

O que está em jogo não é o partido tal ou qual, nem se o candidato é bom ou mau ser humano. Mas, sim, o que pretende e poderá fazer. Terá capacidade de juntar pessoas e forças políticas para governar? Dará rumo à Nação? Concordo com o que ele propõe e avalio que será capaz de fazê-lo? Para responder é preciso analisar o quadro político, social e econômico em que o novo presidente vai operar. Não se trata de escolher o candidato apenas por seus atributos pessoais nem pelo que dizem os partidos (os quais em geral silenciam sobre os verdadeiros problemas), mas, principalmente, pelo que o candidato já fez e por sua capacidade política.

Depois de 2013 os governos do PT levaram a economia à recessão. Como disse na carta que escrevi recentemente aos eleitores, há problemas gritantes no País, a desorganização das finanças públicas e o desemprego são sinais deles. A rigidez dos privilégios burocráticos dificulta cortar os gastos com o funcionalismo. As desigualdades gritantes da Previdência, em especial entre alguns servidores públicos e trabalhadores do setor privado, criam castas de beneficiários, muitos do quais se aposentam cedo com proventos muito acima do que seria justo receberem.

Diante dessas e de outras despesas obrigatórias, o governo federal acumulou nos últimos cinco anos déficits de R$ 540 bilhões. O que havia sido um superávit de cerca de 3% do PIB desde 1999, algo maquiado a partir do segundo governo Lula, se tornou um déficit de mais de 2% do PIB a partir de 2015, graças ao descalabro fiscal e ao desastre econômico produzido pelo governo Dilma. Acrescidos das despesas com juros, a sequência de déficits primários fez a

dívida pública do governo federal se aproximar de R$ 4 trilhões e a do Estado brasileiro em seu conjunto superar os R$ 5 trilhões este ano. A dívida total, já perto de 80% do PIB, continua a subir, a despeito da queda da taxa básica de juros nos dois últimos anos. No ritmo de crescimento que a dívida vem apresentando - ela se situava pouco acima de 50% do PIB em 2011 -, chegará um momento em que só com inflação alta, que corrói o valor real da despesa do governo, o Estado brasileiro poderá financiar-se. O roteiro desse filme todos os que têm mais de 50 anos conhecem muito bem. E ele termina mal, com o empobrecimento do País e, sobretudo, das pessoas socialmente mais vulneráveis. Voltaríamos assim a um passado tenebroso, sobretudo para os mais pobres.

O agravamento da crise seria dramático para uma sociedade desigual e fragilizada por cinco anos de recessão seguida de recuperação econômica anêmica. O desemprego atinge entre 12% e 13% da população ativa, cerca de 13 milhões de pessoas. Sem falar nos que estão ocupados, mas sem carteira de trabalho, cerca de 38 milhões, e afora os chamados “desalentados”, que desistiram de procurar emprego. A soma ultrapassa os 60 milhões de adultos que estão ou correm o risco de cair na pobreza ou na extrema pobreza.

Ao desemprego somam-se o medo da violência crescente, em alguns casos da própria polícia, e a expansão do crime organizado. A sensação de desordem, a insegurança e a agonia do desemprego são a realidade cotidiana de dezenas de milhões de pessoas. Para muitas não resta opção que não seja aderir ou acomodar-se ao crime organizado, ou encontrar consolo espiritual e solidariedade nas igrejas.

Como falar de “democracia” nestas circunstâncias, se falta o pão e a segurança é precária? Por trás está um sistema político regado a corrupção e uma cultura de permissão e leniência com quem atua, no andar de cima, à margem das leis.

O povo vê nos partidos e nos candidatos mais ligados a eles os responsáveis por tudo isso. Procuradores e juízes, frequentemente com razão, mas não raro sem o zelo e o equilíbrio que se espera dos profissionais do Direito, reforçam a sensação de que toda a política é suja e nenhum político escapa à podridão.

Quase todos os candidatos, especialmente os que aparecem à frente, nem sequer abordam com seriedade os problemas reais que estão por trás do mal-estar das pessoas. Estas, no desespero, agarram-se a aparentes soluções polares, mais por identificação simbólica que por adesão racional. Sentem medo, quando não horror, da volta ao lulopetismo e aderem ao candidato que promete tudo resolver no grito, quando não na bala, ou, no polo oposto, juntam-se em torno da nostalgia de um passado idealizado que, se tentar se repetir, comprometerá gravemente o futuro do País.

Mais do que nunca, é preciso insistir em nossos valores, a democracia entre os principais. Além de valores, quem pede o voto do povo deve ser capaz, no mínimo, de reorganizar as finanças públicas e as pôr a serviço dos maiores interesses da população e do País. É por isso que votarei em Alckmin: ele não apenas diz, mas fez. Basta comparar os resultados das políticas públicas de seus governos, inclusive na segurança e na oferta de serviços de saúde e educação, com a situação dramática de alguns outros Estados e do governo federal. Entre os principais candidatos é quem pode juntar forças para dar rumo novo ao governo.

É preciso parar a marcha da insensatez. Ainda há tempo. A hora é agora.

 

 

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14. EPOPEIA DEMOCRÁTICA

André Singer – FSP 06 outubro

A elevação das intenções de voto em Jair Bolsonaro (PSL) nesta semana criou um compreensível sobressalto nos círculos democráticos do país. Uma vitória sua no primeiro turno neste domingo (7) poderia representar um tiro nas liberdades civis.

Tendo passado de 28% para 35%, segundo o Datafolha, o capitão reformado ganhou chances de tornar-se presidente já —embora não pareça, no momento em que escrevo, o mais plausível. O extremista de direita teria que obter, em dois dias, uma vez e meia o que conquistou em uma semana. Da mesma maneira que as manifestações do #elenão, de sábado passado (29), podem ter ocasionado uma reação conservadora que explica, em parte, os ganhos atuais de sua candidatura, agora está em curso uma corrente voltada para lhe tirar apoios, reforçar outras postulações e desestimular a opção pelo branco e nulo.

Quanto maior o número de votos válidos, menor a chance de a parada se resolver de imediato. Apenas a segunda volta deverá revelar de que lado está a maioria absoluta dos eleitores (excluídas abstenções, brancos e nulos).

Confirmado o prognóstico acima, podem-se prever três semanas de intensa divisão social.

A recente subida de Bolsonaro colocou-o em situação de virtual empate com Fernando Haddad (PT), o seu oponente provável, quando a pergunta se refere à escolha final. Lulismo e antilulismo, protagonistas dos grandes embates desde junho de 2013, vão se defrontar em situação de equilíbrio.

O vaivém das sondagens de opinião nos últimos dias mostra que, apesar dos prognósticos em contrário, a democracia brasileira continua viva.

Machucada por atos arbitrários, como o do juiz Sergio Moro ao novamente divulgar excertos de uma delação politicamente explosiva às vésperas de um pleito, como já havia feito em 2014, mas ainda respirando.

No final dos anos 1980, quando o Brasil se preparava para a primeira eleição presidencial direta em quase três décadas, circulou por aqui um artigo preciso do cientista político Adam Przeworski. Nele, o polonês radicado nos EUA afirmava que a mola propulsora da democracia era a incerteza. Se fosse possível prever com segurança os resultados eleitorais, o sistema não funcionaria.

O problema é que, desta feita, o que está em questão não é apenas a próxima Presidência, mas a própria continuidade da democracia.

As incessantes denúncias de corrupção da Lava Jato, o fracasso do plano econômico do governo Temer e um ambiente internacional de corte fascista deram musculatura a propostas liberticidas, que chegam fortes à etapa conclusiva do processo.

Salvar o Estado democrático de Direito vai transformar o segundo turno numa verdadeira epopeia nacional.

----------------------------------------------------------- André Singer - Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”

 

 

 

 

 

15.O vendaval conservador 8 de outubro de 2018 Marco Aurélio Nogueira - https://marcoanogueira.pro/o-vendaval-conservador/

A essa altura, a constatação já foi feita por todos os observadores. Resta agora buscar as razões, entender as determinações.

Independente do que vier a acontecer no segundo turno, o Brasil infletiu para a direita nas eleições de 2018. Não necessariamente para a extrema-direita, mas seguramente para um polo hostil à esquerda e problematizador da democracia política tal como a temos construído desde o final dos anos 1980.

Foi um vendaval, que varreu o País de cima a baixo, desidratou o centro e empurrou o PT para seu nicho mais tradicional, o Nordeste, onde se manteve firme e forte, mas numa dimensão incômoda para um partido que se quer de esquerda. O eleitor petista da região não é ideológico, não é de esquerda nem tipicamente “democrático e racional”: orienta-se pelos hábitos do coração, pelo agradecimento, eventualmente pelo pragmatismo e pela defesa dos próprios interesses e fantasias. Lula é seu farol, não o PT. O resto do apoio vem por força da ação dos políticos tradicionais, dos grandes caciques e das famílias poderosas, com suas coligações.

A dimensão do “agradecimento” não qualifica uma postulação de esquerda, já que incentiva uma postura de “assistencialismo”. Mas não é verdade que o nordestino é pura paixão e o resto é razão. Como poderia haver “razão democrática”, por exemplo, em um estado como São Paulo, que elege uma bancada de deputados federais liderada por gente que não se posiciona democraticamente? Ou no voto raivoso que impulsionou Bolsonaro no Sul e Sudeste do País? O voto com raiva é uma estupidez, e com certeza é ainda mais primário do que o voto por agradecimento. A raiva tensiona e empobrece a democracia, ao passo que o agradecimento pode ser a base de uma postura dialógica.

O avanço do conservadorismo, mais à direita ou menos, foi expressivo não somente na disputa presidencial. Desenhou-se um novo Congresso, os alinhamentos nos estados foram alterados, inúmeros parlamentares tradicionais

sofreram derrotas acachapantes, de Eunício de Oliveira e Romero Jucá a Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy, sem falar em Cristovam Buarque e Roberto Requião. É como se um novo tempo estivesse sendo inaugurado. Teremos de esperar um pouco para ver se será isso mesmo.

Bolsonaro foi impulsionado por um tipo de conservadorismo curioso: parte de seus votos veio de pessoas interessadas em “mudar o que está aí”. Houve votos ideológicos, de extrema-direita, fanatizados, evidentemente, mas não há como saber em que proporção. O grosso não foram votos “fascistas”. Parcela da votação obtida foi composta por pessoas que optaram por viver o paradoxo de mudar para experimentar uma conservação, que buscaram um tipo de “proteção” que deixou de ser oferecida nos últimos tempos: proteção contra a violência, contra a má qualidade dos serviços públicos, contra a indiferença governamental e os excessos das “narrativas”, contra a insegurança, contra o desemprego. O antipetismo foi o ingrediente que “racionalizou” o veto a práticas governamentais tidas como avessas ao bom governo, a repulsa ao descaso dos políticos e dos partidos.

Tratou-se de um conservadorismo de fundo moral, voltado para os costumes, tanto os que florescem na base da vida social (família, gênero, religiosidade, cultura) quanto os que se reproduzem no plano estatal, de onde se espalham pela sociedade. Ele se voltou, também, contra a prevalência e a retórica das pautas identitárias, vistas como produtoras de divisões e fraturas sociais.

A pregação bolsonariana valeu-se da efervescência de certas vertentes que agitaram os rios subterrâneos da sociedade. Soube perceber o efeito político-eleitoral delas e as manipulou com eficácia.

A repulsa aos políticos e ao modo usual de se fazer política foi a primeira. Traduziu-se em termos “antipolíticos”: desvalorização dos entendimentos e da negociação, dos debates públicos típicos da democracia, dos jogos parlamentares estendidos no tempo, do respeito às minorias e a seus procedimentos parlamentares.

O desejo de “renovação” foi a segunda vertente. Das práticas políticas e governamentais antes de tudo. Renovação da classe política, vista como amarrada a um universo político pouco “decisionista”, refratário à produção de políticas resolutivas. Renovação dos discursos políticos.

O repúdio à corrupção veio por extensão e em atendimento a uma pregação que contagiou o País nos últimos anos, ao menos desde os primeiros passos da Operação Lava-Jato. Aqui a metralhadora girou freneticamente.

O “antipetismo” foi a vertente que recebeu tratamento mais intenso, com direito a todo tipo de mentiras e manipulações. Foi assim em parte porque o PT esteve exposto na vitrine governamental durante a última década e meia, em parte porque o fracasso do governo Dilma calou fundo e produziu muitos estragos, em parte porque o PT não conseguiu se livrar de suas “narrativas” típicas, não fez qualquer autocrítica e optou por se separar dos ânimos de setores importantes da opinião pública.

A dinâmica da polarização “nós” contra “eles”, ora na versão esquerda vs. direita, ora como oposição democracia vs. autoritarismo, fechou o pacote, capturando eleitores que nenhuma aproximação tinham com o bolsonarismo.

É difícil imaginar que País iniciará o ano de 2019, seja quem for o vencedor do segundo turno.

Mas é fácil perceber o que o vendaval já produziu. O conservadorismo moral ganhou corpo. As redes ocuparam o espaço da TV. Os marqueteiros perderam força. Uma direita (extrema e moderada) adquiriu base popular, de massas, esgrimindo um discurso que, se conseguir ser mais bem elaborada, irá organizar todo um novo campo. As grandes organizações partidárias (PT, PSDB, MDB) atingiram o fundo do poço e não se sabe como e se voltarão à superfície. Uma nova classe política encontra-se em plena gestação.

O novo governo federal terá de conviver com uma sociedade em crispação e com um Congresso fragmentado como nunca antes nesse País.

O sistema político mostra-se esgotado, trocando de pele e de cultura.

Vença Bolsonaro ou vença Haddad, a situação não deverá ser fácil nem tranquila.

16.A oportunidade de Haddad corrigir os erros do PT, por Paulo Endo

PSICANALISTAS PELA DEMOCRACIA - SEG, 08/10/2018 - 16:46

Foto: Ricardo Stuckert

do Psicanalistas pela Democracia

Última oportunidade de Haddad corrigir os erros maiores de seu partido e construir um amplo governo de coalizão anti nazifascismo https://jornalggn.com.br/noticia/a-oportunidade-de-haddad-corrigir-os-erros-do-pt-por-paulo-endo

por Paulo Endo*

Não há a menor possibilidade de levantar a bandeira isolada ou mesmo preponderante do PT no segundo turno. O trabalho de Haddad deve ser o de montar, de forma realmente sincera, um governo de coalizão não apenas com as forças de esquerda pelas quais já se nutre proximidade programática e simpatias mútuas, mas procurar ativamente aproximar setores como Rede e parte do PSDB antibolsonarista para evitar a vitória iminente do nazi fascismo no Brasil. Não é apenas a cara de Haddad que deve prevalecer nas mídias, mas de todos os que apoiarem a luta contra o retrocesso evidenciando uma posição de conjunto.

Se conseguirem passar a imagem de que o próximo governo não será apenas do PT, mas de todos os que estiverem em coalizão, como uma frente ampla e inédita contra os retrocessos do governo golpista e capaz de obstaculizar a escalada do nazifascismo no país, as possibilidades são amplas e muito exequíveis no segundo turno.

Tal aliança, se houver, motivará muitos, de diferentes espectros, a arregaçarem as mangas para que esse novo governo seja eleito. Um governo realmente popular e diverso, demonstrando a todos que a curta experiência democrática brasileira conseguiu engendrar políticos capazes de defender a democracia a todo custo, apesar de tudo e para além dos próprios interesses.

Só tal aliança seria capaz de conseguir convencer os eleitores que votaram em Bolsonaro porque rejeitam o PT, e não porque conhecem e compreenderam o que significa a candidatura nazifascista no poder, de que as tendências petistas, pedetistas, pessebistas, da Rede, do PCdo B, do PSOL e de partes do PSDB e pouquíssimos, mas significativas figuras do PMDB realmente farão um governo conjunto em nome da maioria da sociedade brasileira e pela democracia que poderá ser, esta sim, apunhalada.

Isso exige que o PT abra mão, desde as primeiras horas da campanha para o segundo turno, de ser o mandante absoluto do governo e, juntamente com outros partidos e candidatos, procure convencer a população disso. Se isso ocorrer o índice de rejeição cairá e será menos difícil convencer o eleitor indeciso, e mesmo aquele que votou em Bolsonaro no primeiro turno como arma contra o PT. A primeira aparição pública de campanha não pode ser apenas uma campanha do PT e do Lula. Ela será decisiva para o eleitor saber se estará votando numa frente ampla ou no PT.

Se isso não ocorrer o PT terá de enfrentar as imensas dificuldades de vencer as eleições no segundo turno e, depois, de enfrentar as enormes resistências que advirão para assumir a presidência no dia 01/01/2019 (ver o artigo de Paulo Endo em artigo anterior publicado no PPD em 02/10/2018).

Não há tempo para hesitação, o tempo é de extremos e mesmo à candidata Marina, deve-se pedir por um ato de grandeza unilateral, que o PT não soube ter quando atuou contra sua candidatura nas eleições de 2014. Tal ato poderá contudo reconquistar a confiança de eleitores de esquerda de Marina que a abandonaram definitivamente, após sua pusilânime atuação nos episódios do impeachment.

Marina que, como única candidata mulher, desferiu a mais eficaz enxovalhada em Bolsonaro na frente de milhões de brasileiros durante debate entre candidatos na Rede TV; Marina que conhece profundamente a realidade dos grotões amazônicos e atuou lado a lado com Chico Mendes pelos povos da floresta. Essa Marina pode vir a compor um governo de coalizão anti nazi- fascismo, ultrapassando rancores profundos do passado quando o partido dos trabalhadores se comportou de modo suspeito e desrespeitoso contra sua candidatura, recebendo, em troca, o lamentável apoio que ela concedeu ao impeachment de Dilma Roussef.

Precisamos de Marina, de Ciro de setores antibolsonaristas do PSB, do PSDB e mesmo de figuras chave do PMDB e de todos os que nesse momento acreditam na possibilidade concreta de não vivermos mais numa democracia (hoje aos pedaços) num futuro próximo.

É a união contra a calamidade e o caos; é a união para manter vivos os sonhos de um Brasil possível no futuro; é a união possível para todos aqueles que estejam dispostos a colocar os próprios narcisismos de molho em nome da preservação do sistema representativo alquebrado, e das poucas liberdades democráticas que ainda se pode usufruir no Brasil.

Não há outra possibilidade. Hesitar agora em nome de veleidades partidárias e interesses carreiristas é por tudo a perder. A competência de Haddad será demonstrada agora. Seu primeiro teste como estadista começa hoje. Será capaz de unir todas as forças anti nazifascistas e conclamar a todos que lutem agora, nos próximos dias, nas próximas semanas para evitar a queda?

Muitos brasileiros esperam essa sinalização de todos os candidatos para encaminharem seu voto, e os que pretendem trabalhar no segundo turno esperam essa sinalização, para reunirem argumentos suficientes para convencer as pessoas de que o próximo governo será sobretudo pela Democracia e contra o nazi-fascismo, e não pelo PT.

No primeiro turno foi jogada na lata de lixo pelos partidos a possibilidade de uma coalizão que teria grandes chances de diminuir muitíssimo a ascensão do candidato nazifascista. Logo no início da campanha foi cogitada a chapa Ciro-Haddad que sairia certamente vitoriosa no primeiro turno. Cedo foi descartada pelo PT. Dar-se ao luxo de, mais uma vez, jogar fora as condições que hoje permitem que haja partidos, candidatos e sistema parlamentar e representativo será a maior imbecilidade jamais vista e indicará que não há políticos a altura no país para um projeto de Brasil democrático e, doravante, navegaremos por muito tempo à deriva e sem horizontes. 20 anos mais talvez?

Está nas mãos primeiro de Haddad e de seu partido a luta para manter a democracia de pé, ainda que alquebrada, a despeito de setores de seu partido mais preocupados com a sobrevivência e a preservação do PT no poder. Mas também de cada um dos candidatos derrotados no primeiro turno que terão a oportunidade de revelar a importância que conferem ao sonho da construção de um país republicano.

Os partidos a quem foi dado o privilégio de ocuparem os cargos eletivos tem de compreender que amanhã, sua própria existência como partido poderá estar ameaçada. Seguir com o modus operandi dos partidos e seus projetos fracionados e corporativos será mergulhar a pouca chance que temos no lodo das gangues que esperam, ansiosamente, o momento para tomar conta do país.

Muitos votos terão de ser retirados de Bolsonaro. É preciso criar os fatos que contribuirão para isso de modo enfático e um enxame de mulheres e homens devem buscar a conversa política, sem medo, correndo algum risco ante o enorme risco que todos corremos. Argumentar em todos os lugares em que haja alguma possibilidade de mudança é imperativo.

A hora para todos e, para todas (que já entenderam isso muito antes), é agora e o momento é esse.

.

*Paulo Cesar Endo é psicanalista, pesquisador e professor Livre-Docente da Universidade de São Paulo, pós-graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades (FFLCH-Diversitas) e do Grupo de Pesquisa em Direitos Humanos, Democracia, Política e Memória do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) Instituto de Psicologia (IPUSP).

17.BOLSONARO É O 'ANTISSISTEMA' E HADDAD É A 'ANTIEXPLORAÇÃO', DIZ CIENTISTA POLÍTICO ANTONIO CARLOS ALMEIDA

5https://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/371489/Bolsonaro-%C3%A9-o-'antissistema'-e-Haddad-%C3%A9-a-'antiexplora%C3%A7%C3%A3o'-diz-cientista-pol%C3%ADtico.htm

O cientista político Alberto Carlos Almeida afirma que "o segundo turno será uma disputa entre o candidato antissistema e o candidato antiexploração"; ele diz que "política é símbolo" e que "propostas e planos de governo não importam". "O que vale é a visão que o eleitor tem de cada candidato", afirma o cientista político; para Almeida, "Bolsonaro formou em torno de si a imagem do candidato que mudará para melhor tudo o que está aí. Fez questão de mostrar que está decidido, que tem pulso forte para fazer isso" 8 DE OUTUBRO DE 2018 ÀS 08:21 // INSCREVA-SE NA TV 247

247 - O cientista político Alberto Carlos Almeida afirma que "o segundo turno será uma disputa entre o candidato antissistema e o candidato antiexploração". Ele diz que "política é símbolo" e que "propostas e planos de governo não importam". "O que vale é a visão que o eleitor tem de cada candidato", afirma o cientista político. Para Almeida, "Bolsonaro formou em torno de si a imagem do candidato que mudará para melhor tudo o que está aí. Fez questão de mostrar que está decidido, que tem pulso forte para fazer isso". Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, Alberto Carlos Almeida destaca que a imagem que vale para o eleitor tem mais a ver com subjetividades políticas do que com propostas concretas: "ainda que tenha sido deputado por sete mandatos, teve a sua imagem pública absolvida pelo ministro aposentado do Supremo Joaquim Barbosa quanto ao envolvimento com corrupção. Eleitoralmente, isso vale muito mais do que uma proposta detalhada de reforma da Previdência".

E pondera sobre os significados da candidatura progressista: "já Haddad tem em torno de si a imagem do candidato que irá restaurar direitos perdidos pelos trabalhadores, assim como aumentar a capacidade de consumo dos eleitores e o acesso a bens e serviços providos pelo governo e pelas empresas. Para isso, uma imagem com Lula vale mais do que mil palavras de um plano de governo".

 

18- “Acusaram o PT de imitar a Venezuela, mas é Bolsonaro quem se espelha no processo de lá” https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/politica/1539001055_896195.html?id_externo_rsoc=FB_CC

Maria Hermínia Tavares, pesquisadora do CEBRAP, diz que Bolsonaro é o risco do chavismo com o sinal inverso. Para ela, Haddad precisa “tirar a camisa vermelha e colocar a branca da conciliação”

FELIPE BETIM - Jornalista | Periodista - El País Rio de Janeiro 8 OUT 2018 - 19:03 CEST O primeiro turno das eleições brasileiras de 2018 materializou a indignação de um país farto de seus dirigentes políticos, incapazes de dar resposta ao tema da corrupção e questões cotidianas, como a segurança pública. O resultado não foi apenas a ascensão da extrema direita e de Jair Bolsonaro(PSL), que foi para o segundo turno dos comícios eleitorais com 46% contra Fernando Haddad (PT), que ficou com quase 30%, mas também "a implosão de um sistema apoiado na Constituição de 88 desde 1994". A avaliação é de Maria Hermínia Tavares de Almeida, professora titular de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP).

* A cientista política se apoia no fato de que o PSL de Bolsonaro conseguiu a segunda maior bancada da Câmara, com mais de 50 deputados, apesar de não possuir estrutura partidária nem dinheiro. Ao mesmo tempo, importantes lideranças, como os senadores Romero Jucá e o Eunício de Oliveira, entre outras, não renovaram seus mandatos, enquanto que novatos na política chegaram ao segundo turno em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Trata-se de uma onda conservadora difícil de conter, uma vez que, segundo diz, "a racionalidade não é um dique forte" contra ela. Para Haddad, resta percorrer um caminho que passa por deixar seu padrinho político de lado e assumir o papel central. "Tem que deixar de ir para Curitiba, porque isso

o enfraquece enormemente. Um candidato a Presidente da República não pode ser visto como alguém que vai perguntar o que tem de fazer para um líder que está preso". Apesar não conseguir definir exatamente como seria um governo Bolsonaro, ela vislumbra um processo parecido ao que aconteceu na Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro: "O maior risco é um governo civil autoritário com apoio militar. O que está acontecendo no mundo vai nessa direção".

Pergunta. Como chegamos até aqui?

Resposta. É um caminho longo. Começa em 2013 com as enormes manifestações espontâneas para as quais os dois partidos que organizavam a disputa eleitoral, PT e PSDB, foram incapazes de dar uma resposta. Isso passou por 2014, onde a radicalização dos dois grupos aumentou muito. Passou pelo impeachment e pelas manifestações do impeachment. Sempre tivemos uma disputa entre centro esquerda e centro direita. É uma bobagem dizer que o PT é de extrema esquerda. Mas tem um tema que os dois principais partidos não sabem lidar, que é a corrupção.

P. PT, PSDB e o sistema político como um todo se blindaram das ruas. Isso gerou uma raiva ainda maior?

R. Acho que sim. O PT passou esse tempo negando o seu envolvimento com atos importantes, mas o PSDB também. Os dois leram mal o que estava acontecendo na sociedade, que está mais atenta a esse tipo de questão e que foi tratada forma bastante intensa pelos meios de comunicação, e depois, pela candidatura de extrema direita [de Bolsonaro]. A dimensão da corrupção foi muito grande, mas a maneira como foi tratada também criou essa ideia de que é o principal problema do país. Quando não é, né? O país tem coisas muito graves a se resolver, apesar de a corrupção ser algo grave. Essa ideia de que as coisas não acontecem porque o governo é corrupto... A mídia teve um papel fundamental nisso. Eu não estou demonizando a mídia, tem que divulgar e contar a história, mas nos momentos de abertura das acusações, o Jornal Nacional ocupava uma hora com esse assunto, mostrando um cano do qual

saía o dinheiro... Era muito impactante. Não acho que a corrupção foi inventada pela mídia: ela existia, é muito grave e não pode acontecer. Mas ela se transformou na cabeça de muita gente como algo associada ao PT e, depois, ao PSDB. O que nós estamos assistindo é a implosão de um sistema apoiado na Constituição de 88 desde 94.

P. Que dimensão tem isso? Não só Bolsonaro foi para o segundo turno como também o PSL tornou-se o segundo maior partido da Câmara.

R. É uma mudança muito importante no sistema político. Revela o fato de como o PT e o PSDB não souberam lidar com o tema da corrupção, também não souberam lidar com o tema da segurança. Isso acabou se transformando num discurso da extrema direita. Mas Bolsonaro é quase uma tela em branco, porque ele não diz nada. Ele diz uma meia dúzia de chavões. Tem algo vagamente nacionalista e antissistema. Os diversos grupos da sociedade que votaram nele foram projetando... Ele dá um marco de extrema direita.

P. Mas agora ele vai ter que ir aos debates com Fernando Haddad, vai ter mais tempo de televisão... Em suma, terá de falar mais. É um desafio para a campanha dele?

R. Veremos se isso tem um efeito importante. O que estamos assistindo é uma onda. E, às vezes, a racionalidade não é um dique forte pra conter essa onda. Então, eu espero, como brasileira, que ela possa ser contida. Ela é muita maléfica para o país.

P. O que o PT e o Haddad precisam fazer para conter essa onda?

R. Haddad já acenou com a ideia de que vai trazer outros candidatos e fazer uma espécie de frente pela democracia, trazendo o centro junto. Mas tem coisas difíceis que ele terá que fazer. Tem que deixar de ir para Curitiba, porque isso o enfraquece enormemente. Um candidato a Presidente da República não pode ser visto como alguém que vai perguntar o que tem de fazer para um líder que está preso. A segunda coisa é tirar a camisa vermelha e colocar a camisa branca da conciliação, da paz, da negociação. Vai ter que

lidar com grupos dentro do PT que não entendem qual é a situação. Ele vai ter que mudar o seu programa econômico, mas não é isso que vai decidir agora a eleição. Seria bom que ele acenasse agora para não parecer que deu um cavalo de pau depois. Mas a minha sensação é que o PT, quando fez aquele programa, estava se preparando para perder as eleições para o [Geraldo] Alckmin. E aí fizeram um programa pra cerrar fileiras e juntar a militância, porque ele é inviável. Se você conversa com petistas mais esclarecidos, eles dizem que não dá, que tem que fazer reforma da Previdência e coisas do tipo. Então, há vários movimentos complicados que ele terá de fazer. Vai ter que trazer o Fernando Henrique Cardoso para dentro. Ele não tem mais poder dentro do PSDB, mas tem uma liderança moral importante no país.

P. Caso o PT, ao invés de ter esvaziado a candidatura do Ciro Gomes, tivesse se aliado a ele desde o começo, quais seriam as chances de neutralizar desde já a candidatura Bolsonaro?

R. Basta somar os votos. O Ciro conseguiu quase 12%, é bastante. Agora, para trazer o Ciro, terão de fazer grandes concessões, não só de agenda mas também de espaço dentro do governo caso o PT ganhe.

P. E caso Bolsonaro ganhe? É possível vislumbrar o que seria um governo dele?

R. Não tenho nenhuma condição prever. Na melhor das hipóteses ele vira um governo Collor. Na melhor. Mas não é isso o que ele está fazendo. Ele está formando uma base parlamentar significativa. Ele pode ter maioria no Congresso para fazer coisas muito danosas para o país. Acho muito difícil saber e acho melhor não pagar para ver (risos).

P. O Exército vem pairando em cima da política brasileira e também das eleições, com ameaças veladas, uma movimentação do Toffoli em direção a instituição... Devemos temer algum tipo de intervenção ou interferência do Exército?

R. Os apoiadores de Bolsonaro por enquanto são generais de pijama. Não sabemos como a instituição e a hierarquia vão atuar. Mas é lógico que, caso se forme uma situação de muita instabilidade, existe o risco sim do Exército atuar. Mas o maior risco é um governo civil autoritário com apoio militar. O que está acontecendo no mundo vai nessa direção. Como foi na Venezuela, inclusive. Acusaram muito o PT de querer imitar a Venezuela, mas é o Bolsonaro que está espelhando esse processo que aconteceu lá, onde o sistema tradicional, fundado na corrupção, ruiu. E apareceu uma liderança fora do sistema que foi destruindo a democracia. Se tem algo parecido ao chavismo, mas com outro sinal, é essa ameaça do Bolsonaro.

P. O PT apostou fortemente em manter o discurso da perseguição contra o partido e manter a candidatura de Lula até o último momento. Essa estratégia acabou se virando contra ele?

R. O que está claro é que a expectativa de que a transferência de votos fosse grande não se materializou. Lógico que ela aconteceu, Haddad não era conhecido por ninguém, e o fato de ser apoiado por Lula facilitou sua entrada. Mas isso ocorreu onde o PT tinha bases fortes e seguras. As pesquisas sobre identificação com partidos (que não sabemos exatamente o que significam, mas indicam uma tendência) mostram que cerca de 20 e poucos por cento da população apoiam o PT. É o único que tem esse apoio em escala nacional. E foi mais ou menos o que Haddad teve de votação. A votação do Lula é muito acima disso. E nem sei o que aconteceria com o Lula se ele fosse candidato.

P. O PT terá de fazer um mea culpa e pedir desculpas pela corrupção que cometeu?

R. O partido estava numa situação muito complicada, com seu principal líder na cadeia a partir de um processo controverso na maneira como foi conduzida. Essa coisa de prender depois da segunda instancia também é controverso. Ele foi submetido a processos que dão espaços para a narrativa da perseguição. Nesse contexto, é muito difícil pedir pro PT admitir que fez mesmo tudo aqui. Ele estava numa situação complicada. Mas vai ter que fazer [um mea culpa].

Não sei se durante a campanha eleitoral ou depois, mas tem que fazer. E, sobretudo, tem que acabar internamente com esses procedimentos [de corrupção].

Agora, o eleitorado puniu muito fortemente não só o PT, mas o sistema como um todo. Lideranças muito importantes ficaram de fora, como os senadores Romero Jucá e o Eunício de Oliveira. Entraram candidatos de fora do sistema, entre aspas. No Rio, o [ex-juiz-federal] Wilson Witzel tá disputando. Em Minas, Antonio Anastasia (PSDB) dava sinais de que iria se eleger tranquilamente. A rejeição ao arranjo politico anterior é enorme. Como as lideranças políticas de centro, de centro esquerda e centro direita não se deram conta do tamanho disso, Bolsonaro acabou canalizando melhor [essa insatisfação].

P. Qual é o papel do PSDB nesse processo? O que prejudicou o partido? Tem a ver com o fato de ter questionado o resultado das urnas em 2014 e, depois, ter participado do impeachment, como dizem alguns analistas?

R. Eles fizeram a crise politica. Eles aprofundaram a crise, é uma responsabilidade muito grande. O grande derrotado do impeachment é o PSDB, que deu viabilidade ao processo. Sem ele não se teria conseguido fazer. Mas a centro direita se fragmentou e o PSDB se enfraqueceu demais. Se a vitória em São Paulo não se materializar, ele perde uma força importante. Ele perdeu espaço para a extrema direita e é o grande perdedor do impeachment. Ele imaginava que com o impeachment teria benefícios, mas fez um cálculo equivocado. A crise politica se acirrou muito com o processo.

P. O PSDB fez acordo com o centrão, conseguiu o maior tempo de TV... Parecia se blindar contra Bolsonaro, mas isso também não funcionou.

R. Eles acharam que o jogo ia ser o mesmo de sempre. Era o cálculo que todos faziam nas eleições anteriores. E agora um cidadão que tinha poucos segundos na TV teve um sucesso impressionante. Por outro lado, o horário eleitoral funcionou muito bem para o Haddad. Sua votação não veio com rede social.

P. Acredita que Bolsonaro entendeu melhor o mal estar que veio à tona em 2013?

R. Não sei se entendeu, porque ele pensa aquela meia dúzia de coisas simples e erradas. Se o problema da segurança se resolvesse matando as pessoas, o Brasil não teria problemas de segurança, porque aqui a polícia mata com muita tranquilidade. E ele não tem nada a dizer sobre outras coisas. Mas ele expressa de maneira muito sintética a rejeição a isso tudo, a esse sistema que se afundou. Ele canalizou aquele sentimento.

 

 

19.New York Times: A democracia do Brasil pode ser salva?, por Robert Muggah https://jornalggn.com.br/noticia/new-york-times-a-democracia-do-brasil-pode-ser-salva-por-robert-muggah

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SEG, 08/10/2018 - 19:55

ATUALIZADO EM 08/10/2018 - 20:17

Jornal GGN - Em artigo no The New York Times, Robert Muggah, co-fundador de um think tank no Rio de Janeiro, aborada a ascensão de um perigoso populista de direita que ataca a divisão e a desunião, e que parece estar indo para a presidência.

Muggah lembra que somos a quarta maior democracia do mundo e estamos às voltas com este problema. O ex-capitão obteve mais de 46% dos votos durante a primeira rodada das eleições presidenciais. O autor aponta para o fato do capitão enfrentar o segundo colocado, Fernando Haddad, do PT, em um segundo turno no dia 28 de outubro. Haddad conseguir apenas 27% dos votos e, mesmo que todos os outros candidatos esquerdistas e centristas o endossem, ele lutará para parar a ascensão de Bolsonaro.

Os brasileiros estão frustrados, desiludidos e zangados, aponta Muggah. E os protestos, que datam de antes da ascensão de Bolsonaro, vinham acontecendo contra a política cínica, a corrupção crescente, a estagnação econômica e os níveis de criminalidade de 'tirar o fôlego'. E, embora as pesquisas indiquem que a maioria dos brasileiros apoia a democracia, está-se mais desunido do que nunca. Mais da metade admitiu que iria apoiar um governo não-democrático se 'resolvesse problemas'. E lembra que Bolsonaro está neste contingente, já que

declarou que não aceitaria o resultado de uma eleição onde ele não seja declarado vencedor.

Para Muggah, a democracia do Brasil está oscilando no limite, mas seu colapso não é inevitável. Seu rejuvenescimento exigirá visão, humidade, tolerância e coragem para enfrentar o que parecem ser diferenças intransponíveis. Para ele, não importa quem vença a segunda rodada, as próximas semanas e meses verão o aprofundamento da polarização e o aumento do ódio. Isso não torna menos importante a busca de um meio termo progressivo e soluções reais para os problemas do Brasil, diz ele.

A eleição ressalta a escalada da política de divisão do Brasil, considera. A polarização política do país é profundamente pessoal, atravessando idade, gênero e classe. Muitos estão abertamente se perguntando se seus pais, irmãos ou colegas, que apoiaram Bolsonaro, eram sempre autoritários. E aqueles que não o apoiaram estão visivelmente nervosos, temerosos do ressentimento violento que sua campanha desencadeou.

O sucesso de Bolsonaro se deve muito ao seu poder de dividir, considera Muggah. Muitos de seus principais seguidores - especialmente os jovens que compõem sua base - estão comprometidos com sua cruzada contra a corrupção e o combate ao comunismo. Outros, incluindo mulheres de classe média, são atraídos mais estreitamente por sua mensagem 'dura no crime'. E parte da elite empresarial do país vê em Bolsonaro - juntamente com seu companheiro de chapa, o general aposentado do Exército Antônio Hamilton Mourão, e seu consultor financeiro pró-mercado, Paulo Guedes - um baluarte contra o retorno do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, e de seu líder hoje preso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os três principais partidos políticos do Brasil compartilham a culpa pela fragmentação do país. Tanto Lula quanto sua sucessora, Dilma Rousseff, invocaram regularmente a retórica 'nós contra eles' durante seus 13 anos no poder, especialmente quando confrontados com os crescentes escândalos de corrupção descobertos pelas investigações da Operação Lava Jato. Os outros dois partidos principais, PMDB e PSDB, também colocaram o Brasil em rota de colisão quando votaram pela destituição de Dilma Rousseff, em agosto de 2016. Descrita pelos partidários de Dilma Rousseff como um golpe ilegal, o impeachment dividiu ainda mais os brasileiros.

No entanto, diz Muggah, é Bolsonaro quem representa a maior ameaça à manutenção da democracia do Brasil. Ele prometeu alegremente limpar Brasília e restaurar violentamente a lei e a ordem. Mas os brasileiros devem dar uma boa olhada em seu histórico à medida que o segundo turno se aproxima: depois de cumprir sete mandatos ao longo de quase três décadas, primeiro como membro do Conselho da Cidade e depois como congressista, ele entregou apenas dois projetos. Enquanto ele claramente tem as credenciais para liderar uma reação autoritária, muitos duvidam que ele tenha as habilidades para governar em um ambiente multipartidário que depende da construção de coalizões.

Bolsonaro e seu companheiro de chapa são orgulhosos apologistas da ditadura militar que reinou de 1964 a 1985, diz Muggah. Ele disse uma vez que sua única

falha era não ter matado mais pessoas. Sua equipe também apóia a repressão violenta ao crime: ele apóia abertamente a expansão dos poderes policiais para o uso de força letal, reduzindo a idade da responsabilidade penal de 18 para 16 anos e trazendo de volta a pena de morte. Ele defende maior envolvimento religioso na vida pública, aponta Muggah. No ano passado, ele declarou que o Brasil é um país cristão, que não existe tal coisa como um estado laico, e aqueles que discordam devem sair ou se curvar à maioria. Lembra ainda que ele recebeu repetidas denúncias do procurador-geral por propagação do discurso de ódio e é abertamente hostil às comunidades afro-brasileiras, populações indígenas emembros de movimentos sem terra, que ele descreveu como terroristas.

Os brasileiros podem abraçar a política de divisão e o apelo sedutor de soluções simplistas, seguindo o caminho de autoritários populistas da Hungria, Polônia e Filipinas. Alternativamente, eles podem preservar e renovar sua jovem democracia, finaliza.


Manifesto Suprapartidário em Apoio às Candidaturas de Fernando Haddad e Manuela
Esta petição está esperando pela aprovação da Comunidade da Avaaz.

Por que isto é importante
HADDAD E MANUELA: ESPERANÇAS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM SALTO CIVILIZATÓRIO

A crise que o Brasil vive hoje na economia, na política, nas instituições e na ética, com o avanço de forças com comportamentos fascistas, colocou diante de nós uma encruzilhada: seguir como uma sociedade dividida, cada vez mais intolerante e violenta, ou pacificar e unir o país, com o entendimento entre as diferentes forças sociais e políticas em torno de um projeto comum de nação.
Depois de uma década de afirmação de nossa soberania e de importantes conquistas econômicas e sociais, hoje somos um país em estagnação econômica, sob o controle da especulação financeira, submetido aos interesses das grandes corporações internacionais, e estamos vendendo, a preços vis, importantes segmentos do patrimônio nacional, dentre os quais o petróleo, a energia e os minerais são as expressões maiores.
Somos a quinta sociedade com maior concentração de renda do mundo, com crescentes níveis de desemprego, pobreza, criminalidade e perda de direitos resultantes das reformas e do congelamento de gastos sociais implementados pelo governo Temer.
A crise que atravessamos exige a coragem de decidir se manteremos o Brasil como um país dependente e desigual, com um regime político de intolerância e repressão, ou se apostaremos na capacidade de darmos um salto civilizatório e nos tornarmos uma nação soberana, com inclusão social e democracia política.
Para isso, é preciso um entendimento social e político, com a participação de entidades de empresários, de trabalhadores e de diferentes segmentos que compõem a complexa e diversificada sociedade civil brasileira. Esse acordo só será possível sob a liderança de um presidente para quem a democracia seja um valor universal, que respeite todas as diferentes forças sociais e políticas e com elas dialogue.
Essa liderança é Fernando Haddad, que, tanto em sua gestão no Ministério da Educação do governo Lula e na prefeitura de São Paulo quanto em todos os debates de que tem participado, demonstrou serenidade, respeito aos seus interlocutores, mesmo aos mais intolerantes e agressivos, e capacidade de diálogo, mantendo-se, ao mesmo tempo, firme na defesa de suas posições.
Somente com o diálogo, marca registrada de Haddad e Manuela, o governo federal poderá construir uma base de apoio no Congresso Nacional. Para isso, Haddad conta com a importante experiência parlamentar de Manuela, sua vice-presidente, que foi vereadora, deputada estadual e deputada federal, sempre eleita com uma das maiores votações no Rio Grande do Sul.
Formado em Direito, com Mestrado em Economia e Doutorado em Filosofia, Haddad já demonstrou ter a competência necessária para a formulação de políticas públicas exitosas. À frente da Prefeitura de São Paulo, foi um dos quatro ganhadores das Melhores Práticas Inovadoras da Nova Agenda Urbana da ONU Habitat. Como ministro da Educação, criou o FUNDEB, ampliando o financiamento da educação pública fundamental para toda a educação básica, e estabeleceu o piso nacional para os professores. 
Haddad implantou também o ProUni e ampliou o acesso ao FIES, instalou 14 novas universidades federais e criou os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. Ao final de sua gestão, o investimento público em educação passou de 3,9% para 5,1% do PIB. 
Para a construção de um entendimento nacional, num país continental como o Brasil, é preciso contar com a participação de organizações sociais e partidos de regiões muito diferentes. Para fazê-lo, é fundamental ter o apoio de uma estrutura partidária e de uma organização social enraizadas nacionalmente. Haddad e Manuela têm esse apoio. 
São lideranças jovens, com perspectiva de futuro, rica experiência política e administrativa e forte convicção democrática. Por isso, apoiamos suas candidaturas para liderarem o projeto de desenvolvimento com inclusão social, soberania nacional e democracia de que o Brasil urgentemente necessita.
Porto Alegre, setembro de 2018
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Paulo Timm - Economista e Jornalista
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Para derrotar o fascismo

                                                                                                                   Marcos Rolim

O inominável estará no 2º turno, zombando da democracia e oferecendo a morte como seu verdadeiro programa de governo. É preciso derrotá-lo politicamente. Para tanto, há uma escolha a fazer, por sobre os partidos e seus pequenos discursos.

Há, efetivamente, a possibilidade de um agrupamento do lumpesinato político brasileiro, de perfil fascista, vencer as eleições. Desiludidos com a política tradicional, indignados com a corrupção, vitimados pelo crime, pela violência e pela incapacidade de diferentes governos em garantir sua segurança, atormentados por preconceitos e dogmas religiosos e inoculados pelo ódio, milhões de eleitores de todas as classes sociais estão firmemente dispostos a eleger um projeto fundado na promessa da morte, cujos heróis são torturadores e assassinos. Nunca antes na história desse País estivemos diante de circunstância tão grave.

Se o fascismo vencer, não haverá governo, mas um ópera bufa que nos conduzirá, em curto intervalo, à antessala de um golpe militar. Um golpe no sentido mais preciso dessa expressão, como ato fundador de uma nova ordem, arbitrária e excludente, onde os direitos são pulverizados e os opositores podem ser eliminados. Esse poderá ser o desfecho, porque um eventual governo Bolsonaro tende a agravar rapidamente a crise econômica e social; a produzir um surto de violência sem precedentes e, ao mesmo tempo, uma ampla resistência política e social. Em um ambiente marcado pela ausência de consensos mínimos, com um governo disposto a impor pela violência sua agenda intolerante, teremos as condições propícias para uma ruptura com a democracia. A eventual eleição de Bolsonaro com a assunção às posições de mando de uma seleção de incapazes, entre eles vários “profissionais da violência”, irá fraturar o Brasil de forma irremediável. A ignorância do primeiro mandatário e sua fixação em fuzilar pessoas se encarregarão do resto.

Trata-se, portanto, de impedir a vitória do fascismo. Qualquer outra alternativa será muitas vezes preferível. Por isso, no 2º turno, votarei contra Bolsonaro, marcando o número de seu adversário, seja ele Ciro, Haddad, Marina ou Alckmin (para citar aqueles que, efetivamente, disputam essa vaga).

Nesse momento, entretanto, importa selecionar a melhor opção para o Brasil e aquela que seja, também, a mais capacitada para vencer o fascismo de uma forma que ele seja não apenas eleitoralmente superado, mas politicamente derrotado. Antes de alinhar meu argumento, quero sublinhar que admiro muito a trajetória política e pessoal de Marina Silva; que Fernando Haddad me parece um quadro político capacitado e que considero Geraldo Alckmin um político coerente e experiente. Tenho diferenças políticas importantes com cada um deles e com seus partidos, assim com as tenho com o PDT e com Ciro, aquele que, a meu juízo, é o candidato mais preparado para assumir a Presidência e iniciar um ciclo virtuoso de reformas.

Para situar minha opção, lembro que a esquerda brasileira esteve, até há pouco, absolutamente alheia ao crescimento da alternativa representada por Bolsonaro (de certa forma, ainda está). Tenho escrito sobre Bolsonaro e a ameaça fascista no Brasil há alguns anos. A cada artigo publicado, o que colhi como comentários na esquerda era que eu estava exagerando os riscos. “Bolsonaro não têm fôlego”, “ele irá se desconstituir assim que os debates começarem”, “não tem estrutura partidária, nem trânsito entre a burguesia”, foram as observações típicas. Muito recentemente, amigos petistas ainda insistiam comigo que o “adversário real” seria Alckmin. Em alguns debates que participei, militantes chegaram a defender que Alckmin era o “fascismo dissimulado”, algo mais perigoso do que o “fascismo escrachado” do Coiso. Estavam redondamente enganados.

Por que se enganaram? Primeiro, porque não perceberam a dimensão e a natureza da crise política atual. Para a esquerda, a crise é, basicamente, o governo Temer e suas reformas antipopulares, o que é uma simplificação obtusa. A crise política real, cujos sinais estavam já nas mobilizações de 2013, diz respeito à ausência de uma alternativa política para o Brasil e ao descolamento da sociedade de qualquer referência nas instituições tradicionais, a começar pelos partidos. Ela surge da exaustão de um sistema político que promove corrupção, desperdício e ineficiência em escala industrial. Esses resultados se tornaram mais claramente perceptíveis quando veio a público o envolvimento (prática + conivência) do PT com a corrupção, primeiro com o “mensalão”, depois com os desvios bilionários na Petrobrás. O fato do partido nunca ter conseguido “acertar as contas” com os responsáveis por esse e outros ilícitos acentuou a desmoralização pública de um projeto que representou, por quase três décadas, o sonho de milhões de pessoas. O impeachment foi a consequência dessa desmoralização, mas só ocorreu porque os caciques partidários implicados na Lava Jato perceberam que Dilma não seria capaz de “estancar a sangria” e que Temer, o aliado preferido de Lula, seria o nome indicado para costurar um acordo “com o Supremo, como todos”.

O PT poderia ter cortado em sua carne e aberto, como o sugeriu Noam Chomsky, uma ”Comissão da Verdade” a respeito de seus erros (veja aqui: https://goo.gl/hMZYK2 ). Ao invés de enfrentar seus limites, entretanto, o partido produziu uma versão para o público. Como de costume, optou pela rima, não pela solução. Seu discurso foi o de que havia ocorrido um “golpe de Estado” e que a democracia tinha sido desconstituída. Em 2 de setembro de 2016, nota oficial da direção do PT (veja aqui: https://goo.gl/j2Fbm3 ) afirmou que o impeachment “violou a Constituição e provocou a ruptura do regime democrático”. A causa desse processo foi identificada nos seguintes termos: “Esta foi a saída encontrada pelos setores hegemônicos do capitalismo brasileiro para interromper e reverter o processo de mudanças iniciado em 2003”. Curioso que foi exatamente ao setor hegemônico do capitalismo brasileiro que o comando da economia havia sido entregue pelos governos Lula (Meirelles) e Dilma (Joaquim Levy). Ao mesmo tempo, as instituições democráticas seguiram operando nos marcos anteriores ao impeachment e todas as questões jurídicas ou políticas polêmicas se dão no quadro comum dos limites anteriores. Assim, por exemplo, sequer a nova jurisprudência do STF em relação ao início do cumprimento da pena aos condenados em 2ª instância assinala verdadeira ruptura em uma ordem legal que convive historicamente e sem contradições com 40% de encarcerados sem condenação em 1ª instância. Um fato que, assinale-se, nunca mobilizou a atenção da esquerda.

O fato de Dilma ter escondido a gravidade da crise econômica na campanha e de ter aplicado em seu 2º mandato um programa que era o oposto do que ela havia defendido durante as eleições – um caso típico de estelionato eleitoral - foi ignorado pelo PT. O fato de lideranças do partido passarem a ser sistematicamente apontadas como responsáveis por falcatruas de todos os tipos em delações premiadas passou a ser tratado como um subproduto do “golpe”. Assim, por exemplo, a nota oficial referida afirmou que a Operação Lava Jato era “um dos aríetes do movimento golpista”.

Todo o discurso do PT nesse processo se deu contra a Lava Jato. Independentemente dos erros e abusos praticados por policiais federais, promotores ou magistrados, não há dúvida de que os resultados da Lava Jato foram e seguem sendo muito importantes para o Brasil. Sem ela, a Petrobrás continuaria sendo saqueada e todo o esquema de corrupção das empreiteiras com os partidos, montado há décadas, seguiria operando desembaraçadamente. É curioso que a esquerda seja ciosa das garantias fundamentais quando suas lideranças são processadas, mas nunca tenha destacado que a corrupção atenta contra o Estado Democrático de Direito e que eleições estruturadas em esquemas ilegais de financiamento conspiram contra a democracia. Pelo contrário, para além das platitudes com as quais todos reafirmam seus compromissos contra a corrupção, surgiu na esquerda e em uma certa Sociologia prêt-à-porter a tese de que a corrupção é uma “cortina de fumaça”, um tema com o qual as elites brasileiras e a mídia desviam a atenção do povo dos “problemas reais”. Esse discurso, concretamente, protege os corruptos de todos os partidos.

O que a esquerda não percebeu é que esse discurso, funcional e muito operante para recompor sua base, estimulava o antipetismo e era aproveitado pela extrema direita como adubo para Bolsonaro. A alternativa política fascista se cria, então, pela confluência de dois grandes vetores: a) a descrença com a política frente à dimensão acachapante da corrupção revelada e b) o medo disseminado socialmente, inclusive entre os mais pobres, diante das dinâmicas criminais e violentas que degradam o padrão de vida urbana, produzindo cada vez mais sofrimento e desejos de vingança. São essas as principais circunstâncias históricas que viabilizam politicamente um discurso intolerante que oferece às pessoas duas garantias, ainda que, no caso, completamente ilusórias: “honestidade” e “segurança”, exatamente aquelas que os governos Lula e Dilma não conseguiram assegurar.

Se Haddad passar ao 2º turno, não conseguirá atrair o centro político para sua campanha. Aliás, não por culpa dele, mas pelos movimentos realizados por Lula, terá dificuldade de assegurar uma militância efetiva dos grupos situados na centro esquerda. Os riscos de Haddad ser derrotado por Bolsonaro – que irá se nutrir do antipetismo e de toda a nojeira disseminada nas redes sociais em torno do anticomunismo, da homofobia, das incompreensões quanto aos direitos humanos, além de sua própria condição de vítima de um atentado cujo autor teve militância na esquerda, são, por isso mesmo, consideráveis e já foram suficientemente identificados pelas pesquisas eleitorais.

Se Haddad passar ao 2º turno e vencer as eleições, entretanto, enfrentará condições muito mais difíceis do que aquelas com as quais Lula e Dilma se depararam ao início dos seus mandatos. Para compor uma base mínima no Congresso, o PT irá se juntar ao MDB onde estão os aliados de ontem e de hoje. Como todos sabem, o PT já firmou nessas eleições alianças estaduais com uma penca de “golpistas” e, não por acaso, Lula afirmou, antes de ser preso, que havia “perdoado os golpistas” (https://goo.gl/Sqwkjd) . Um governo do PT em aliança com o MDB será um governo contra a Lava Jato, que firmará compromissos para salvar Lula, Temer e os demais. Essa dinâmica irá subtrair legitimidade do governo, acirrando os ânimos ainda mais e impedindo o País de sair da crise. Um eventual governo de Haddad, reforçará os termos da mesma polarização ideológica que intoxica o País e será mais dependente da escumalha da política nacional do que já o foram Lula e Dilma. Sem a força política de Lula, sem condições de exercer liderança sequer sobre o próprio PT, Haddad seria, a par de suas qualidades, um presidente frágil.

Caso Ciro seja conduzido ao 2º turno, teremos uma dinâmica completamente distinta. Primeiro, os indicadores disponíveis mostram que ele pode vencer Bolsonaro por significativa margem. Além de ter baixa rejeição, o discurso de Bolsonaro não “cola” em Ciro. Um governo Ciro, no mais, teria todas as condições para iniciar um novo ciclo na política brasileira, marcado por um projeto nacional de reformas coerentes, de sentido democrático e orientado politicamente pelo objetivo de isolar o MDB e de enfrentar o rentismo que foi, até hoje, preservado por todos os governantes, incluindo Lula e Dilma. O programa de Ciro, “Diretrizes para uma estratégia Nacional de Desenvolvimento para o Brasil” (veja aqui: https://goo.gl/awVqco) registra compromissos avançados, situados muito além da pautas propostas pela esquerda.

Um governo Ciro romperá a polarização PT X PSDB que já se prolonga por 30 anos e que construiu os impasses que estamos vivendo. Ciro terá condições de formar um novo bloco histórico, inclusive com o apoio e a participação do PT e do PSDB. Esse resultado enfraquecerá a extrema direita, tornando muito menos provável que, nas próximas eleições, o fascismo se apresente com força redobrada e seja mesmo imbatível.

Por essas razões, no próximo dia 7 de outubro, votarei em Ciro Gomes (PDT) para presidente. Nunca antes em minha vida, tive tanta convicção em meu voto de 1º turno. Nem mesmo quando votei em Lula (duas vezes) e em Marina (duas vezes). O que há de diferente nesse momento histórico não são as qualidades dos candidatos, mas a radicalidade da ameaça que assombra o Brasil. Chegou o momento da cidadania consciente fazer aquilo que as burocracias partidárias foram incapazes: assegurar a ida ao 2º turno da melhor alternativa política para o Brasil se unindo em torno do candidato com maiores chances de evitar o horror. Ciro Gomes é essa resposta!

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Por que voto em Haddad

Luiz Eduardo Soares, antropólogo e cientista político

 

Devo começar declarando minha admiração por Boulos e Ciro. Acredito que Boulos se tornará uma grande referência política, cujo protagonismo contribuirá para redesenhar a configuração partidária atual e espero poder acompanhá-lo no futuro pós-eleitoral. Sua candidatura, entretanto, foi assumida como oportunidade de politização da sociedade, particularmente das classes subalternas, sem a pretensão de disputa efetiva. E aí está o problema, porque as eleições de 2018 são dramaticamente decisivas para o país. 
Ciro Gomes é um dos políticos mais inteligentes e preparados de nossa história republicana e propõe ao país uma transformação importante, dispondo-se a enfrentar os interesses do capital financeiro com o propósito de retomar o desenvolvimento e reduzir as desigualdades, tendo em vista sempre a defesa da soberania nacional, profundamente ameaçada pelo atual governo ilegítimo. Considero sua aliança com Katia Abreu -candidata a vice- compreensível, no esforço de evitar o isolamento, mas não subestimo os riscos aí envolvidos, uma vez que, mesmo tendo sido contrária à farsa do impeachment, ela tem um histórico extremamente negativo, no que diz respeito ao meio ambiente, à preservação das terras indígenas e à luta contra o trabalho escravo. 
Todavia, há uma dificuldade mais relevante: Ciro é um homem na ventania. Quero dizer o seguinte: o candidato atua e se situa no mapa político como indivíduo, isto é, como um agente desprovido de vínculos orgânicos com organizações democráticas da sociedade civil e movimentos sociais. Seu partido, embora proveniente de uma origem respeitável, há muito tempo afastou-se da identidade que Brizola tentou construir. Por isso, Ciro transita entre zonas distintas do espectro político conforme cálculos táticos, apoiados em seu projeto pessoal, que por mais generoso que seja é, antes de tudo, seu próprio projeto. E, como sabemos, as conjunturas, sobretudo nesse período de constante instabilidade, são centrípetas e agonísticas. A taxa de imprevisibilidade da candidatura do PDT é elevada. Quando os críticos lhe cobram pelo temperamento explosivo erram o alvo. O que é explosivo, incerto e errático é seu destino político, porque condenado a ser moldado por decisões individuais, sob os constrangimentos das diferentes conjunturas. Sim, trata-se de um grande homem, mas é um indivíduo. E o que há lá fora é ventania.
Por fim, Haddad. Vamos lá.
O PT vinha perdendo seus laços com os movimentos sociais porque, a despeito das enormes conquistas dos governos Lula, os melhores de nossa história, não estava sendo capaz de realizar sua autocrítica, publicamente, extraindo daí todas as consequências. Entretanto, o Partido dos Trabalhadores e os movimentos sociais se reencontraram. Velhos militantes decepcionados, como eu mesmo, voltaram à trincheira comum. A aprovação do partido, que caíra vertiginosamente, retornou à marca de 24%. Críticos contumazes, como eu mesmo, cerraram fileiras com os antigos companheiros. Desafetos resolveram colocar a gravidade da situação política acima de desentendimentos, por mais significativos que fossem. Por que? Eis a resposta -há aqui muito de testemunho pessoal. Creio que o processo de afastamento foi revertido pela brutalidade com que as elites passaram a agredir o partido, chegando ao ponto de negar as conquistas alcançadas, tentando apagar da memória coletiva o fato de que Lula concluiu o segundo mandato com 85% de aprovação popular e se recusou a sequer considerar a hipótese de aceitar a mudança das leis para buscar um terceiro mandato, que lhe cairia nas mãos por gravidade, mesmo sem campanha. Apesar da grande mídia insinuar que o presidente terminaria por copiar os passos de Chaves, ele fez o contrário, dando a maior demonstração possível -não consigo imaginar outra que fosse comparável- de que, acima de tudo, respeita o Estado democrático de direito, o qual, paradoxalmente, não o respeitou, desrespeitando-se a si mesmo, negando sua própria natureza, mergulhando o país no arbítrio de violações sucessivas. 
Por uma questão de honestidade intelectual, importa assinalar que o presidente FHC não resistiu ao canto da sereia, ele que, com seu partido, condena o “bolivarianismo”. Mas é claro que a compra de votos para que se viabilizasse a reeleição e a mudança das regras de jogo, enquanto o jogo era jogado, não feriram a sensibilidade moral da mídia conservadora, a qual não apenas calou-se, cúmplice, como apoiou a candidatura do PSDB à reeleição, cancelando, com o despudor que lhe é próprio, os debates entre os candidatos, nos quais FHC teria de responder por seus malfeitos na economia, na política, na ética.
A campanha pelo impeachment foi tão cínica, venal e repulsiva, que infiltrou e disseminou na opinião pública o veneno do antipetismo, o grande mal que nos assola e divide. Desde aquele momento, impunha-se, para qualquer democrata, resistir com o antídoto: o anti-antipetismo. Era preciso e urgente denunciar o perigo escandaloso das generalizações, não apenas aquelas que estendiam para o conjunto dos membros do partido qualquer acusação que atingisse algum de seus membros, como aquelas que comprometiam todas as conquistas históricas do partido e de seus governos ao conectá-las a erros econômicos específicos e recentes. E ainda aquelas generalizações que conectavam crise econômica a corrupção. O antipetismo escapou ao controle dos comunicadores que o gestaram, vestiu o uniforme do fascismo e retirou dos armários em que se escondiam, envergonhados, o racismo, a sede de vingança, os cavaleiros da barbárie. 
O processo grotesco foi sendo conduzido por vazamentos seletivos, estrategicamente distribuídos. E por decisões evidentemente artificiais. Direitos foram violados sob o silêncio de uns e os aplausos da mídia conservadora. O que era importante e necessário combate à corrupção, converteu-se em método de desconstituição política, ideologicamente orientado. A Justiça degradou o direito e a Constituição corrompeu-se na exceção.
Para quê incendiaram o país e o contaminaram com esse ingrediente patológico, o ódio feroz ao PT, transfigurado em signo do mal? Para levar ao poder, em nome da luta contra a corrupção, os que mais fundo enterraram seus pés no pântano. Mas é claro que havia uma razão superior para que se perpetrasse tamanha traição ao que um dia chamaram pátria. Era preciso aproveitar a oportunidade para impor guela abaixo do povo brasileiro, que jamais o aceitaria pelo voto, uma agenda neoliberal extremada, liquidando direitos sociais e o patrimônio nacional, inclusive ambiental. Eis, enfim, o propósito do golpe. Havia duas metas a cumprir para garantir a continuação da política ruinosa em curso: (1) excluir Lula das eleições, a qualquer preço; (2) difundir a versão mais primária da ideologia liberal nas camadas médias. Segundo essa concepção tosca haveria uma oposição entre Estado e Sociedade. No âmbito dessa visão de mundo primitiva, o Estado atuaria como predador, a serviço dos interesses de seus operadores (governantes, legisladores e funcionários): os sangue-sugas sorveriam a energia e os frutos do trabalho da sociedade, a qual seria um saco de batatas, um aglomerado de indivíduos -como gostava de dizer Margareth Tatcher. Conclusão: para salvar o Brasil, seria necessário reduzir o Estado ao mínimo e liberar o mercado, porque a sociedade entregue a si mesmo, livre das garras do Estado e de seus impostos escorchantes (que só serviriam para alimentar políticos e funcionários), se desenvolveria a pleno vapor, harmoniosa e feliz. Como vêem, não há mitologia mais adequada para justificar o darwinismo social. A pobreza e as desigualdades seriam expressões da distribuição desigual do mérito. É nesse ponto que a corrupção torna-se central: o sangue drenado do corpo social alimenta o vampiro imoral, o mal supremo, a mãe de todos os males: a corrupção. Desse modo, uma ideologia política, travestida de descrição objetiva e neutra da “realidade”, ganha a alma que falta ao discurso economicista e suscita o ódio que a radica nas redes intersubjetivas que formam opiniões coletivas.
Nesse sentido, a corrupção é a linguagem que engata percepções, valores e afetos, no âmbito da ideologia neoliberal. Corrupção, enquanto tema midiaticamente associado ao impeachment de natureza golpista, é antes de tudo o veículo da ideologia anti-Estado, anti-Política, é a dramaturgia do ódio, a conclamação ao linchamento, a exaltação da vingança, o combustível do punitivismo e a dupla negação: por um lado, da sociedade como conjunto de contradições, constelação de classes sociais em conflito; por outro lado, do Estado, como espaço de luta por hegemonia.
Em síntese, eis aí o resultado: Lula preso e excluído da disputa eleitoral, que ele venceria no primeiro turno; o neoliberalismo disseminando-se como o outro lado da moeda da corrupção; a recusa à Política como apanágio da moralidade popular. Enquanto isso, o país segue sendo entregue aos interesses internacionais e a grande massa da população volta a mergulhar na miséria, ouvindo dia e noite a cantilena anti-Política. Para varrer o PT do mapa, para vetar Lula, foi preciso tentar ferir de morte a política, como atividade humana imprescindível na democracia, e a própria República. O lugar do público foi tragado pelo vórtice do mercado. O coletivo reduzido ao ajuntamento de indivíduos. As desigualdades acabaram justificadas pelo mérito.
Sabem qual é o nome disso, desse fenômeno monstruoso? Bolsonaro.
Nesse contexto, se vejo assim o país, como eu poderia não apoiar Haddad? Claro que, além disso, além do que julgo ser meu dever --confrontar sem medo o anti-petismo, resistir à tentação de capitular (por exemplo, aceitando que uma vitória do PT produziria muito desgosto nas hostes opostas e geraria uma atmosfera excessivamente tensa no país)--, além de tudo isso, há o candidato, Fernando Haddad, um dos políticos jovens mais talentosos, preparados e inteligentes de sua geração. Estão mais do que claros seus compromissos com a democracia (e a urgentíssima democratização da mídia), a soberania nacional e os direitos humanos, com a luta contra o racismo, as desigualdades, e com a defesa do meio ambiente, das sociedades indígenas e das minorias. Chega de violações aos direitos e de manipulação. Está em jogo o futuro do país.

"Bolsonaro não é nome certo para o segundo turno", diz pesquisador

por Giovanna Costanti — publicado 14/09/2018 00h30, última modificação 13/09/2018 - https://www.cartacapital.com.br/politica/nunca-acreditei-que-bolsonaro-fosse-nome-certo-para-o-segundo-turno-diz-cientista-politico

Cientista político em Harvard aposta na queda de Bolsonaro, vê Haddad cada vez mais competitivo e acredita em polarização PT x PSDB no segundo turno

As duas últimas semanas foram de grandes mudanças na corrida presidencial deste ano. Enquanto o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, foi vítima de um atentado durante sua campanha eleitoral em Juiz de Fora (MG), Fernando Haddad, até então vice-presidente da chapa petista, entrou na disputa como candidato oficial no lugar do ex-presidente Lula, preso em Curitiba. Os dois cresceram nas últimas pesquisas Datafolha e Ibope, divulgadas no início da semana.

Enquanto Haddad despontou, Bolsonaro mostrou um crescimento tímido. Outra surpresa foi Marina Silva, da Rede, que até então era esperada como alternativa das mulheres - a maioria do eleitorado indeciso - mas caiu nas pesquisas, inclusive nesse público. Ciro Gomes, do PDT cresceu e Geraldo Alckmin, do PSDB, segue estável. 

Apesar das oscilações e incertezas, Fernando Bizzarro, cientista político doutorando na Harvard University e pesquisador associado do Centro David Rockfeller de Estudos Latino-americanos, acredita que um segundo turno ainda pode reeditar a polarização vista nas últimas eleições: uma disputa entre a centro-direita e a centro-esquerda. "Especificamente a candidatura do PT e do PSDB", afirma ele.

Diferentemente da maioria das análises, Fernando acredita que a candidatura de Bolsonaro ainda pode desidratar, tirando o candidato do segundo turno. Para ele, a escolha do PT, de esticar até o dia 11 a candidatura do ex-presidente Lula, foi correta, do ponto de vista estratégico e eleitoral.

Segundo ele, Haddad tem um alto potencial de crescimento. "Todo dia que alguém aprende que ele é o candidato do Lula, ele ganha mais um voto", explica. De fato, a última pesquisa CUT/Vox Populi, divulgada no dia 13, corrobora essa aposta. Associado diretamente a Lula, Haddad alcança 22% das intenções de voto e ultrapassa Bolsonaro.

Em entrevista à CartaCapital, o pesquisador explica o cenário da última semana.

CartaCapital: Como o senhor analisa o desempenho de Jair Bolsonaro (PSL) nas pesquisas pós-atentado?

Fernando Bizzarro: Pessoalmente, eu já esperava que o Bolsonaro não tivesse mais tão alto nas pesquisas. A minha expectativa inicial era que assim que começasse a campanha, o bombardeio de informações negativas sobre ele seria tão intenso que ele perderia uma parte do seu apoio. Ele não perdeu. Em parte talvez porque ele acabou se saindo melhor do que esperavam, ou porque o atentado criou um contra bombardeio de informações.

Com o atentado, houve uma contra-maré. Seu nome passou a ser dissociado das coisas com as quais os adversários do Bolsonaro estavam tentando associar a ele, que era ser misógino e autoritário, por exemplo. Passaram a associar ele com o atentado, com violência, que eram coisas que não depõem contra a imagem dele na mesma intensidade.

Ele ainda continua forte, deu uma crescida que talvez tenha a ver com o fato de que o nome dele apareceu muito na televisão na última semana. Mas eu ainda continuo apostando que na medida em que as eleições forem chegando, uma parte desses eleitores que se declaram apoiadores dele vão acabar deixando o Bolsonaro de lado e optando por outras opções, na medida em que a campanha se normalize e ele volte a ser alvo dos seus principais adversários.

CC: Ainda sim o Bolsonaro é um nome certo para o segundo turno?

FB: Não. Eu nunca acreditei nisso. Toda vez que eu vejo uma pesquisa em que o nome dele está ali eu fico meio reticente. Porque na verdade eu nunca acreditei que esse fosse ser o caso. Sempre achei e ainda acho que ele não vai ter condições de aguentar a campanha até o final. Ele não tem estrutura política, apoios, etc, para aguentar até o final. Até hoje ele está lá como potencial candidato para o segundo turno, mas eu nunca achei que ele fosse para o segundo turno.

CC: Ciro Gomes (PDT) despontou nas últimas pesquisas. Era algo esperado?

FB: O Ciro também é um fenômeno interessante porque é o oposto do que aconteceu com a Marina. Ele cresceu numa situação em que ninguém achava que fosse crescer e em um momento em que, por exemplo, a Marina estava se retraindo e o Haddad estava começando a virar o candidato do PT.

É difícil saber o que está acontecendo ali, me parece que há uma parte de um eleitorado que está mais ao centro e à esquerda que acabou, nesse momento, vendo o Ciro como uma possibilidade. Mas se vai durar até o final da eleição, é muito difícil de saber. Vai depender muito da performance do Fernando Haddad na medida em que o tempo passa.

Leia também: Ciro abre fogo

CC:  Fernando Haddad (PT) foi o candidato que mais apresentou crescimento, com cinco pontos percentuais no Datafolha. Ele vai continuar assim?

FB: O Haddad está começando a caminhada e nas próximas quatro semanas eu sei que vai ser uma caminhada consistente e que ele vai ganhar voto na medida em que os eleitores que estão menos informados passam a entender que ele é o candidato do PT e o candidato apoiado pelo ex-presidente Lula. Todo dia que alguém aprende sobre isso, ele ganha mais um voto. Talvez ele não ganhe todos os votos que potencialmente iriam para o Lula se ele fosse candidato, mas o Haddad com certeza vai ganhar uma parte desses votos.

Esse crescimento dele nessa última pesquisa e o fato de que mesmo nas respostas espontâneas o nome dele está crescendo, indicam que de fato as pessoas estão começando a entender e ver ele como o candidato petista, uma coisa que vai aumentar ainda mais, já que ele virou o candidato oficial do Partidos dos Trabalhadores. Esse crescimento é uma tendência que eu acho que vai se consolidar quanto mais próximo estiverem as eleições. Ele vai se tornar cada vez mais um candidato competitivo.

CC: Como o Haddad vai conseguir continuar absorvendo esses votos do ex-presidente Lula?

FB: Agora que ele vai virar o candidato de fato, ele vai aparecer nos debates, vai se tornar o nome da campanha. A probabilidade que esse eleitor do Lula vote no Haddad é maior do que ele vote para qualquer outro candidato. Suspeito que ele vai continuar crescendo e tem boas chances de chegar no segundo turno independente de o outro candidato ser o Bolsonaro ou algum dos mais moderados.

CC: Como o senhor enxerga essa estratégia do PT de esticar até o último segundo a candidatura do Lula?

FB: Acho que o PT fez a coisa certa do ponto de vista estratégico. O ex-presidente Lula ainda é a liderança política mais viável para o Brasil do ponto de vista eleitoral. É o candidato mais competitivo. Então, quanto mais pudessem mantê-lo na disputa, mais e mais ele teve a ganhar com uma associação que o eleitor vai fazer entre o Lula e a eleição.

Ou seja, quanto mais mantivessem o Lula na disputa, mais eles apostariam no eleitor que gostaria que o Lula fosse candidato. Se tivessem tirado o Lula antes e agido como se ele não fosse candidato desde o começo, o eleitor talvez nem percebesse essa associação. E aí então ficaria mais difícil para transferir os votos que eles querem para o Fernando Haddad. Então eu acho que foi uma estratégia correta, do ponto de vista do partido. 

Leia também: Fernando Haddad: "Vamos retomar o projeto de Lula"

CC: A estratégia foi boa para o Haddad?

Quanto mais mantiveram o Lula como candidato, menos tempo as pessoas tiveram para se perguntar sobre o Fernando Haddad. Quanto mais tempo elas tinham para discutir se a candidatura do Lula, por exemplo, era legal ou legítima, menos tempo elas tinham para perguntar ao Fernando Haddad quais eram as intenções dele sobre política públicas. Então quando ele não tem que fazer isso, basicamente ele tem que dizer "eu estou apoiando o presidente Lula".

Não só isso claramente ajudou a manter a candidatura do PT em evidência, lembrar os eleitores que o Lula é candidato, como também ajudou o Haddad. Na medida em que ele virar o candidato do Lula, o eleitor vai se perguntar "ora bolas, na última eleição nós votamos no candidato que o presidente Lula indicou", que era a presidente Dilma, e que não foi uma presidente muito bem sucedida. Quanto mais tempo o eleitor tivesse para se perguntar "é o Haddad uma nova Dilma?", pior seria para o PT.

CC: O senhor acredita que no final da disputa irá se repetir uma polarização como nas eleições anteriores, entre PT e PSDB?

FB: Eu sempre achei que fosse ser isso e eu continuo suspeitando que esse é o cenário mais provável, mas ele é bem menos provável do que ele era um mês antes da eleição em 2014. Mas eu continuo achando que ele é sim o cenário mais provável porque o sistema político brasileiro se organizou de uma forma que privilegia as candidaturas de centro-direita e centro-esquerda, especificamente a candidatura do PT e do PSDB.

CC: Pensando em uma reedição da polarização PT x PSDB, quais passos o senhor acredita que levarão o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) a isso? 

FB: Eu suspeito que nesse instante ele vai abrir mão dos estados do Nordeste. Onde você não tem força política, você não tem aliados para terceirizar essa campanha, principalmente em estados que não tendem a votar no Alckmin já desde o começo. A disputa dele agora é roubar votos do Bolsonaro. A maioria desses votos está no Sul e no Sudeste, que é onde o PSDB se dá bem. Ele deve deixar para ir disputar o Nordeste no segundo turno.

No segundo turno você é obrigado a se aproximar do centro, a tentar o eleitorado mais amplo. E parece que é isso que eles vão tentar fazer. A estratégia é tomar voto do Bolsonaro onde esses votos estiverem agora, é por isso que por exemplo ele nomeou a Ana Amélia para ser candidata a vice, ou seja, uma candidata do sul do Brasil.

CC: A candidata Marina Silva (Rede) caiu nas últimas pesquisas lançadas nessa semana, como o senhor enxerga esse cenário?

FB: O que aconteceu com a Marina é interessante porque é um processo que aconteceu na última eleição muito mais tarde. Os eleitores que inicialmente pareciam que iam votar nela, começaram a procurar outro candidato que eles veem como mais viável, ou talvez como mais interessante, e  começaram a abandonar o apoio que eles davam à Marina.

Isso aconteceu em 2014, quando ela parecia que ia para o segundo turno e de repente ela não teve o fôlego para aguentar a campanha inteira e acabou terminando em terceiro lugar. Dessa vez parece que ela começou a perder voto muito antes. 

CC: Ela não cresceu no eleitorado feminino e inclusive diminuiu entre as intenções do voto dele.

FB: É muito difícil de entender o que aconteceu ali. Me parece que só o fato de a Marina ser uma candidata mulher não é suficiente para conquistar o eleitorado feminino, uma coisa que as pessoas suspeitaram que fosse acontecer. Mas, além disso, eu não sei dizer porque ela não está conquistando esse voto. O eleitor ainda está claramente muito perdido com todas as opções que ele tem. 

CC: Acredita então que Ciro, Bolsonaro e Marina são cartas fora do jogo eleitoral?

FB: O nível de incerteza é muito elevado ainda. Mas à luz da história recente e do fato de que o principal elemento a definir o resultado das eleições no Brasil têm sido as bases institucionais das principais candidaturas, bases que foram reforçadas nesta eleição devido às mudanças na legislação eleitoral, a chegada de qualquer um deles ao segundo turno seria uma eventual surpresa

CC: Fala-se muito na resiliência dessas candidaturas que não são profissionais, que é o exemplo do Bolsonaro. Como o senhor acredita que elas têm resistido até agora?

FB: A principal razão é porque a campanha de verdade começou muito tarde. As mudanças nas regras da nova eleição que o Congresso fez no começo do ano, atrasando o início da campanha, atrasando a seleção de candidatos, gerou uma situação na qual as grandes campanhas do ponto de vista profissional e financeiro, as que tinham maior apoio e mais recursos, começaram muito tarde. Isso fez com que o Bolsonaro sobrevivesse até agora.

Em 2014 e em 2010, os candidatos eram definidos muito antes, então quando chegava em agosto as campanhas que não eram tão profissionais já estavam sem fôlego, sem recursos e completamente exaustas, enquanto as campanhas do PT e do PSDB, que tinham mais dinheiro, ainda tinham muita lenha pra queimar. Esse ano não. Esse ano a campanha começou agora, então deu para sobreviver muito tempo sem ter que ter enfrentado o que é a campanha de verdade, sem ter que viajar o país inteiro, mobilizar gente, contratar cabo eleitoral. Então a principal razão pela qual sobreviveu tão longe é porque vai começar a morrer muito mais tarde do que elas começaram a morrer nos anos anteriores.

CC: A insatisfação com a política tradicional também pode ser uma explicação?

FB: Essa é a segunda razão. Há uma parcela grande do eleitorado que não quer os partidos tradicionais, então isso também alimenta campanhas de candidatos que são vistos como outsiders. Essa combinação de campanhas que começaram muito tarde e eleitores que estão a princípio indispostos com as campanhas tradicionais, fazem com que não tenha tempo para que as candidaturas não tradicionais sejam exauridas pela dinâmica das eleições e para que as campanhas com mais dinheiro possam então convencer esse eleitor a mudar de ideia. Como o tempo é curto, talvez não dê tempo de mudar a ideia do eleitor.

CC: O tempo de televisão ainda é importante nessas eleições?

FB: Ainda que a internet e as redes sociais tem se tornado mais e mais importantes, elas são substancialmente menos importantes do que as mídias tradicionais. As redes sociais tem se tornado mais e mais importantes, isso é verdade. Mas o que também é verdade é que a maioria da população continua se informando pelas mídias tradicionais. À medida que a campanha avança e as pessoas passem a conversar mais sobre a campanha, a receber mais informação sobre a campanha, o peso que as mídias tradicionais têm para informar o eleitor que não se informa pela internet vai aumentar, e como essa quantidade de gente é maior, ela tende em algum momento a se tornar bem mais importante do que as mídias sociais para definir quem vai ser os vencedores da eleição.

CC: Isso também sustenta a ideia de que no final vai se repetir uma polarização PT e PSDB?

FB: Exatamente. Essa é uma das razões pelas quais eu e outras pessoas suspeitam que essa polarização vai se repetir. Na hora que o eleitor que não está ainda muito preocupado com a campanha tiver que se decidir, e ainda essa é uma maioria da população, ele vai se decidir baseado naquela que é a fonte de informação que ele normalmente consome, que é a televisão, onde PT e PSDB ainda têm a maior parte do tempo de exposição.

CC:  Falando sobre o cenário estadual, as pesquisas estão mostrando que talvez não haja uma renovação política, que era algo que estava se falando.

FB: Acho que as pessoas que esperavam grande níveis de renovação política nessa eleição estavam equivocadas desde o começo. Não havia por que imaginar que ia haver renovação. Os eleitores sempre acharam que os políticos são terríveis, sempre desconfiaram dos políticos e não gostaram dos partidos.

O fato de que os eleitores desgostam da classe política não quer dizer que eles necessariamente procuram outros candidatos, porque isso depende de informação e de uma série de outros fatores. Se você olhar em 2016 por exemplo, que já estava sob mais ou menos o mesmo contexto de sentimento antipolítica, já não teve renovação. Fora em Belo Horizonte, nenhum outsider ganhou capitais, mesmo o Dória que é normalmente tratado como outsider, era só metade outsider, porque afinal ele era candidato do PSDB, que é o partido que domina a política paulista há 25 anos. 

CC:  Qual a importância dos palanques estaduais nessa eleição?

FB: Eles ajudam a arrumar o cenário da política, a principal função deles é coordenar candidaturas e por isso favorecem alguns candidatos e prejudicam outros. Nessas eleições, os palanques estaduais vão ter a mesma função, que é servir como moeda de troca para que as principais candidaturas presidenciais arrumem o cenário da política a seu favor. A segunda função que eles historicamente têm é terceirizar as atividades de campanha ao nível local.

É impossível que a campanha federal coordene atividades todos os dias e em todos os estados do país, nessa medida eles têm que terceirizar a campanha e garantir que seus aliados também puxem o voto para o candidato a presidente. Aqueles candidatos como o Bolsonaro, que não tem palanques estaduais fortes, vão sofrer na medida em que o efeito dessa terceirização se tornar mais intenso, que é quanto mais próximo se chega da eleição.

CC: Que disputas estaduais o senhor enxerga como mais decisivas nesse cenário?

FB: São Paulo é sempre uma das disputas principais. É um dos maiores estados da federação, é da onde a maioria dos candidatos à presidência sempre vêm. Esse ano a disputa está muito mais aberta do que ela estava em 2014. Se o candidato do PSDB não vencer, aí as coisas podem começar a mudar de fato, porque uma das principais razões pelas quais o PSDB se manteve como um dos principais partidos dos últimos 25 anos sempre foi porque ele pôde contar com o controle do governo do estado da segunda maior máquina política do País, para então servir de base para os seus candidatos presidenciais. Se o PSDB perder isso, fica muito complicado para o partido sobreviver com a mesma intensidade e com a mesma capacidade de liderar a direita que teve nos últimos anos. 

CC:  E os estados do Nordeste? Qual importância o senhor acredita que eles vão ter nessas eleições?

FB: Os estados do Nordeste vão ter o papel que eles sempre tiveram de decidir o resultado da eleição. Mas na eleição estadual isso é menos óbvio porque alguns desses estados têm atores importantes do PSB, por exemplo, que que acabou optando por uma posição neutra na eleição presidencial.

Como esses candidatos vão se alinhar nas eleições nacionais tem muito mais a ver com a dinâmica estadual do que com o alinhamento dos partidos. Então a campanha no Nordeste tende a ser, dessa vez, menos nacionalizada do que ela tinha sido. Em 2014, a campanha no Nordeste replicou a lógica da eleição presidencial com muito mais intensidade.

CC: Que consequências essa neutralidade do PSB trouxe para as eleições presidenciais?

FB: Foi importante para enfraquecer o Ciro Gomes, que é para onde o provavelmente o PSB ia se não tivesse acontecido a neutralidade, e aí aumentar as chances do Haddad. Se o PSB tivesse apoiado o Ciro, o PT ia ficar isolado ou só com  o PCdoB e outros partidos menores e ia ficar muito complicado para o PT. Ao conseguir arrancar a neutralidade do PSB, eles enfraqueceram a alternativa à centro-esquerda que era o Ciro e isso então aumentou a chance do Fernando Haddad.

O que é interessante é que o máximo que o PT conseguiu arrancar do PSB foi a neutralidade, ou seja, em outros tempos o PSB apoiou os candidatos do PT porque era o candidato mais viável. Isso indica que até mesmo os partidos de esquerda percebiam que essa disputa entre PT e Ciro não está pré determinada.

 

Incompetência geral

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 24 de setembro de 2018

O cenário eleitoral continua volátil, mas a reiteração das tendências que projetam um segundo turno entre Bolsonaro e Haddad tem sido suficiente para que se dissemine um clima que cruza entusiasmos salvacionistas com receios democráticos e alguma dose de pânico.

A pergunta vem se repetindo: como conseguimos chegar a esse ponto, em que uma candidatura pouco qualificada e alinhada com a autocracia regressista ameaça se defrontar no segundo turno com outra sustentada pela expectativa de retorno a um tempo pretérito mitificado? A euforia de uns choca-se com a preocupação de muitos.

O desfecho anunciado se deve a um conjunto de equívocos.

Erraram os democratas, liberais e de esquerda, que não conseguiram compreender a derivação conservadora da sociedade, turbinada pela repulsa ao politicamente correto e pela antipolítica. Trataram isso como uma espécie de doença, de forma simplória, com insultos e estigmas. Deixou-se assim caminho livre para a pregação bolsonarista, que foi capturando apoios, mal-estares e convicções. A direita fundamentalista pôs o corpo inteiro para fora, misturando ódio, medo e ressentimento contra a “esquerda”. Bolsonaro decodificou esses sinais e os traduziu num bólido antipetista.

Os democratas erraram uma segunda vez quando deram o PT como morto, depois da derrota eleitoral de 2016 e do impeachment. Não reconheceram a força do partido, derivada tanto da alta exposição midiática, da estrutura organizacional e das adesões intelectuais, quanto da mitificação popular de Lula. Em vez de pressionarem para que o PT se depurasse e revisse suas opções, passaram a mão na cabeça do partido e, quando abriram os olhos, o velho PT estava mais vivo do que nunca, fabricando ilusões, plantando esperanças e ocupando simbolicamente os espaços do “progressismo”.

Foram incompetentes os liberais. Optaram por medir forças entre eles num quadro de polarização em que somente teriam chances se formassem um polo alternativo marcado pela moderação. Batendo uns nos outros, naufragaram de modo patético, sem nem sequer aproveitarem o ambiente receptivo à pregação liberal em favor da liberdade pessoal, do mercado, do empreendedorismo. Fecharam-se à esquerda democrática e foram afundando agarrados a um doutrinarismo primário.

Foi igualmente incompetente a centro-esquerda. Em vez de impulsionar o imaginário social-democrático que tanta falta nos faz, seus articuladores derivaram para um apoio ao centro que jamais teve reconhecimento e não soube se desvencilhar do abraço asfixiante do “Centrão”, cujo fisiologismo recebe repulsa generalizada. Olharam para a direita sem se preocupar com a esquerda. Sua ideia de “polo democrático e reformista” ficou solta no ar, sem contagiar o eleitorado ou sensibilizar o mundo político. A centro-esquerda colou-se assim a um centro fragmentado e autodestrutivo, largando Marina e Ciro à própria sorte e ajudando-os a se encantarem com a possibilidade de atrair as viúvas do lulismo.

E foi incompetente, por fim, o PT. Inebriado pelo desejo de vingança, pela vocação de dono da verdade e pela pretensão de comandar com mão de ferro o campo progressista, o partido submeteu-se ao imperialismo religioso do lulismo. Orientado pelas cartas nada gramscianas de um Lula encarcerado, Haddad trocou a ousadia e o arejamento discursivo — compatíveis com sua biografia intelectual e seu perfil moderado — pela narrativa tosca do “golpe” e do retorno a um passado em que o povo era feliz. Passou a prometer crescimento, abundância e geração de empregos sem explicar como fará isso sem cortes de gastos, sem reforma da Previdência e sem criticar os esquemas de corrupção associados ao modo lulista de governar. Haddad optou por flutuar entre o distanciamento e a submissão a Lula. Num dia afirma que irá soltá-lo, no outro diz não ao indulto. Esconde o retrocesso havido nos anos de Dilma para louvar a bonança do período Lula. Dissimula e falseia a realidade, ludibriando os eleitores. Quer pagar de moderado para atrair os não petistas, mas, ao adular Lula, gera desconfiança e rejeição.

Haddad e Bolsonaro têm seus problemas e dificuldades. O capitão, hospitalizado, vê sua campanha se desorientar e perder seu principal ativo. Terá de reorganizá-la rapidamente para não perder o que já acumulou. Se vencer, terá de provar que tem condições de governar. Já Haddad, que ganhou fôlego com a ascensão fulminante, precisará buscar os votos dos indecisos, dos antipetistas, dos que não se identificam com nenhum dos polos. Se vencer, terá de demonstrar, dia a dia, que consegue se soltar de Lula e conter o apetite do PT.

Bolsonaro e Haddad não são equivalentes. Um é autoritário, outro não. Mas suas campanhas estão atadas por um mesmo tipo de cegueira e fanatismo.

O modo como avançou a disputa não sugere que o próximo ciclo será produtivo. As campanhas deseducam a população. Eleitores petistas estão sendo induzidos a acreditar que do céu cairá uma chuva de fartura e facilidades. Os de Bolsonaro acham que ele acabará com a bandidagem e a corrupção. Uns e outros estão cansados e parecem querer ver o circo pegar fogo.

Normaliza-se aquilo que deveria ser visto como risco. A vitória de Bolsonaro ou de uma nova versão do lulismo deixará o País numa situação ruim. A ponte que liga esses dois cenários chama-se ingovernabilidade, alimentada por uma dinâmica de vetos cruzados permanentes, radicalizações e confusão social.

Cada época tem seus limites. Os nossos, no Brasil de 2018, se resumem a poucas palavras: a sociedade abandonou os políticos à própria sorte e os políticos, sem apoio social e sem partidos dignos do nome, perderam as referências e não sabem mais o que fazer.

Chegamos assim, por vias que não puderam ser controladas, ao esgotamento de uma época democrática. No próximo ciclo, seja quem for o eleito, a obra será de reconstrução: do Estado, da economia, da política, do tecido social.

Não será um começar de novo, mas qualquer avanço será sofrido e terá de ser duramente negociado.

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Jair Bolsonaro não é um candidato como outro qualquer

Juremir Machado da Silva – Correio do Povo set 15
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Não, Jair Bolsonaro não é um candidato como outro qualquer. É pior. Ele é um imaginário, uma mentalidade, uma visão de mundo. O seu método de leitura do que acontece na vida é a simplificação. Torna o complexo falsamente simples por meio de uma redução a zero dos fatores que adensam qualquer situação. Se há violência contra os cidadãos, que cada um receba armas para se defender. Se há impunidade, que a justiça seja sumária e sem muitos recursos. Se há bandidos nas ruas, que a polícia possa matá-los sem que as condições de cada morte sejam examinadas. Se há corrupção, que não se perca tempos com processos.
Bolsonaro encarna o pensamento do homem medíocre, o homem mediano que não assimila explicações baseadas em causas múltiplas. Se há miséria, a culpa é da preguiça dos miseráveis. Se há crime, a culpa é sempre da má índole. Se há manifestações, é por falta de ordem. A sua filosofia por excelência é o preconceito em tom de indignação moral, moralista. A sua solução ideal para os conflitos é a repressão, a cadeia, o cassetete. Bolsonaro corporifica o imaginário do macho branco autoritário que odeia o politicamente correto e denuncia uma suposta dominação do mundo pelos homossexuais. É o cara que, com pretensa convicção amparada em evidências jamais demonstradas, diz:
– Não se pode mais ser homem neste país. Vamos ser todos gays.
Ele representa a ideia de que ficamos menos livres quando não podemos fazer tranquilamente piadas sobre negros, gays e mulheres. Bolsonaro tem a cara de todos aqueles que consideram índios indolentes, dormindo sobre latifúndios improdutivos, e beneficiários do bolsa família preguiçosos que só querem mamar nas tetas do Estado. Bolsonaro é o sujeito desinformado que sustenta que na ditadura não havia corrupção. É o empresário ambicioso que se for para ganhar mais dinheiro abre mão da democracia. É o produtor que vê exagero em certas denúncias de trabalho escravo. É o homem que acha normal, em momentos de estresse, chamar mulher de vagabunda. O eleitor padrão de Bolsonaro sonha com uma sociedade de homens armados nas ruas, sem legislação trabalhista, sem greves, sem sindicatos, sem liberdade de imprensa.
O projeto de Bolsonaro é o retorno a um regime de força por meio de voto. Aparelhamento da democracia. Na parede do imaginário e de certas propagandas de Bolsonaro e dos seus fiéis aparecem ditadores. O seu paraíso é da paz dos cemitérios e das prisões para os dissidentes. Um imaginário é uma representação que se torna realidade. Uma realidade que se torna representação. Bolsonaro é um modo de ser no mundo baseado na truculência, na restrição de liberdade, na eliminação da complexidade, no encurtamento dos processos de tomada de decisões. 
Bolsonaro usa a democracia para asfixiá-la. É um efeito perverso do jogo democrático. Condensa uma interpretação do mundo que não suporta a diversidade, o respeito à diferença, a pluralidade, o dissenso, o conflito, o embate. Inculto, ignora a história. Não há dívida com os escravizados e seus descendentes. A culpa pela infâmia da escravidão não é de quem escravizou. O presente exime-se do passado. Bolsonaro é a ignorância que perdeu a vergonha. Contra ele só há um procedimento eficaz: o voto. Se necessário, o voto útil.

 

 

 

Facebook é o 3º meio de informação do eleitorado, atrás de telejornais e propaganda na TV

 

Facebook é o 3º meio de informação do eleitorado, atrás de telejornais e propaganda na TV

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SAB, 15/09/2018 - 16:40

ATUALIZADO EM 15/09/2018 - 16:55

 

Jornal GGN - O Datafolha divulgado na sexta (14/9) sondou junto ao eleitorado qual o principal meio de comunicação utilizado para obter informações a respeito da disputa presidencial de 2018. Segundo os resultados da pesquisa, na média geral, os programas jornalísticos na TV ocupam o topo da lista, com 35% da preferência dos entrevistados, seguido por 28% que foca na propaganda eleitoral na TV. Outros 22% dizem que se informam mais por sites de notícias na internet e 21%, pelo Facebook, que fica tecnicamente empatado no terceiro lugar. A margem de erro é de 2 pontos.

Entre os eleitores de Jair Bolsonaro, que não tem muito tempo de propaganda na TV, os meios de informação mais importantes são os programas jornalísticos na TV (35%), as notícias em jornais e revistas online (33%) e as notícias no Facebook (31%).

 

Já, entre os eleitores de Ciro Gomes, de Marina Silva e de Geraldo Alckmin, os meios mais importantes são os programas jornalísticos na TV (respectivamente, com 37%, 33% e 38% de menções) e o horário eleitoral na TV (respectivamente, com 34%, 39% e 36%).

 

O Datafolha não divulgou dados a respeito do eleitorado de Fernando Haddad.

 

Na média do eleitorado geral 16% disseram que buscam informações no site dos candidatos, seguido por notícias no WhatsApp (11%), programas jornalísticos no rádio (10%), jornais impressos (9%), horário eleitoral no rádio (7%), notícias no Instagram (5%), notícias em revistas impressas (4%) e notícias no Twitter (3%). Uma parcela de 6% não se informa por nenhum desses meios, 3% não buscam informações sobre os candidatos e 2% não opinaram. 

 

Na análise das variáveis sociodemográficas, observa-se que a distribuição do índice de menção aos programas jornalísticos na TV é bem homogênea – destacando-se entre os moradores da região Norte (41%). Já, o índice de menções ao horário eleitoral recua conforme aumenta o grau de instrução (31% entre os menos instruídos ante 21% entre os mais instruídos) e a renda familiar mensal do entrevistado (31% entre os mais pobres ante 16%

entre os mais ricos) e alcança o patamar mais alto entre os moradores da região Norte (38%).

 

O índice de menções a notícias em jornais ou revistas online alcança patamar mais alto entre os mais jovens (35%), entre os mais instruídos (42%) e entre os mais ricos (40%) e cai entre os segmentos opostos. Por fim, o índice de menções às notícias no Facebook é mais alto entre os mais jovens (35%) e entre os que têm instrução até o ensino médio (28%).

 

 

Com informações do Datafolha . https://jornalggn.com.br/noticia/facebook-e-o-3%C2%BA-meio-de-informacao-do-eleitorado-atras-de-telejornais-e-propaganda-na-tv

                                  Por que voto em Haddad

 

Devo começar declarando minha admiração por Boulos e Ciro. Acredito que Boulos se tornará uma grande referência política, cujo protagonismo contribuirá para redesenhar a configuração partidária atual e espero poder acompanhá-lo no futuro pós-eleitoral. Sua candidatura, entretanto, foi assumida como oportunidade de politização da sociedade, particularmente das classes subalternas, sem a pretensão de disputa efetiva. E aí está o problema, porque as eleições de 2018 são dramaticamente decisivas para o país. 
Ciro Gomes é um dos políticos mais inteligentes e preparados de nossa história republicana e propõe ao país uma transformação importante, dispondo-se a enfrentar os interesses do capital financeiro com o propósito de retomar o desenvolvimento e reduzir as desigualdades, tendo em vista sempre a defesa da soberania nacional, profundamente ameaçada pelo atual governo ilegítimo. Considero sua aliança com Katia Abreu -candidata a vice- compreensível, no esforço de evitar o isolamento, mas não subestimo os riscos aí envolvidos, uma vez que, mesmo tendo sido contrária à farsa do impeachment, ela tem um histórico extremamente negativo, no que diz respeito ao meio ambiente, à preservação das terras indígenas e à luta contra o trabalho escravo. 
Todavia, há uma dificuldade mais relevante: Ciro é um homem na ventania. Quero dizer o seguinte: o candidato atua e se situa no mapa político como indivíduo, isto é, como um agente desprovido de vínculos orgânicos com organizações democráticas da sociedade civil e movimentos sociais. Seu partido, embora proveniente de uma origem respeitável, há muito tempo afastou-se da identidade que Brizola tentou construir. Por isso, Ciro transita entre zonas distintas do espectro político conforme cálculos táticos, apoiados em seu projeto pessoal, que por mais generoso que seja é, antes de tudo, seu próprio projeto. E, como sabemos, as conjunturas, sobretudo nesse período de constante instabilidade, são centrípetas e agonísticas. A taxa de imprevisibilidade da candidatura do PDT é elevada. Quando os críticos lhe cobram pelo temperamento explosivo erram o alvo. O que é explosivo, incerto e errático é seu destino político, porque condenado a ser moldado por decisões individuais, sob os constrangimentos das diferentes conjunturas. Sim, trata-se de um grande homem, mas é um indivíduo. E o que há lá fora é ventania.
Por fim, Haddad. Vamos lá.
O PT vinha perdendo seus laços com os movimentos sociais porque, a despeito das enormes conquistas dos governos Lula, os melhores de nossa história, não estava sendo capaz de realizar sua autocrítica, publicamente, extraindo daí todas as consequências. Entretanto, o Partido dos Trabalhadores e os movimentos sociais se reencontraram. Velhos militantes decepcionados, como eu mesmo, voltaram à trincheira comum. A aprovação do partido, que caíra vertiginosamente, retornou à marca de 24%. Críticos contumazes, como eu mesmo, cerraram fileiras com os antigos companheiros. Desafetos resolveram colocar a gravidade da situação política acima de desentendimentos, por mais significativos que fossem. Por que? Eis a resposta -há aqui muito de testemunho pessoal. Creio que o processo de afastamento foi revertido pela brutalidade com que as elites passaram a agredir o partido, chegando ao ponto de negar as conquistas alcançadas, tentando apagar da memória coletiva o fato de que Lula concluiu o segundo mandato com 85% de aprovação popular e se recusou a sequer considerar a hipótese de aceitar a mudança das leis para buscar um terceiro mandato, que lhe cairia nas mãos por gravidade, mesmo sem campanha. Apesar da grande mídia insinuar que o presidente terminaria por copiar os passos de Chaves, ele fez o contrário, dando a maior demonstração possível -não consigo imaginar outra que fosse comparável- de que, acima de tudo, respeita o Estado democrático de direito, o qual, paradoxalmente, não o respeitou, desrespeitando-se a si mesmo, negando sua própria natureza, mergulhando o país no arbítrio de violações sucessivas. 
Por uma questão de honestidade intelectual, importa assinalar que o presidente FHC não resistiu ao canto da sereia, ele que, com seu partido, condena o “bolivarianismo”. Mas é claro que a compra de votos para que se viabilizasse a reeleição e a mudança das regras de jogo, enquanto o jogo era jogado, não feriram a sensibilidade moral da mídia conservadora, a qual não apenas calou-se, cúmplice, como apoiou a candidatura do PSDB à reeleição, cancelando, com o despudor que lhe é próprio, os debates entre os candidatos, nos quais FHC teria de responder por seus malfeitos na economia, na política, na ética.
A campanha pelo impeachment foi tão cínica, venal e repulsiva, que infiltrou e disseminou na opinião pública o veneno do antipetismo, o grande mal que nos assola e divide. Desde aquele momento, impunha-se, para qualquer democrata, resistir com o antídoto: o anti-antipetismo. Era preciso e urgente denunciar o perigo escandaloso das generalizações, não apenas aquelas que estendiam para o conjunto dos membros do partido qualquer acusação que atingisse algum de seus membros, como aquelas que comprometiam todas as conquistas históricas do partido e de seus governos ao conectá-las a erros econômicos específicos e recentes. E ainda aquelas generalizações que conectavam crise econômica a corrupção. O antipetismo escapou ao controle dos comunicadores que o gestaram, vestiu o uniforme do fascismo e retirou dos armários em que se escondiam, envergonhados, o racismo, a sede de vingança, os cavaleiros da barbárie. 
O processo grotesco foi sendo conduzido por vazamentos seletivos, estrategicamente distribuídos. E por decisões evidentemente artificiais. Direitos foram violados sob o silêncio de uns e os aplausos da mídia conservadora. O que era importante e necessário combate à corrupção, converteu-se em método de desconstituição política, ideologicamente orientado. A Justiça degradou o direito e a Constituição corrompeu-se na exceção.
Para quê incendiaram o país e o contaminaram com esse ingrediente patológico, o ódio feroz ao PT, transfigurado em signo do mal? Para levar ao poder, em nome da luta contra a corrupção, os que mais fundo enterraram seus pés no pântano. Mas é claro que havia uma razão superior para que se perpetrasse tamanha traição ao que um dia chamaram pátria. Era preciso aproveitar a oportunidade para impor goela abaixo do povo brasileiro, que jamais o aceitaria pelo voto, uma agenda neoliberal extremada, liquidando direitos sociais e o patrimônio nacional, inclusive ambiental. Eis, enfim, o propósito do golpe. Havia duas metas a cumprir para garantir a continuação da política ruinosa em curso: (1) excluir Lula das eleições, a qualquer preço; (2) difundir a versão mais primária da ideologia liberal nas camadas médias. Segundo essa concepção tosca haveria uma oposição entre Estado e Sociedade. No âmbito dessa visão de mundo primitiva, o Estado atuaria como predador, a serviço dos interesses de seus operadores (governantes, legisladores e funcionários): os sanguessugas sorveriam a energia e os frutos do trabalho da sociedade, a qual seria um saco de batatas, um aglomerado de indivíduos -como gostava de dizer Margareth Tatcher. Conclusão: para salvar o Brasil, seria necessário reduzir o Estado ao mínimo e liberar o mercado, porque a sociedade entregue a si mesma, livre das garras do Estado e de seus impostos escorchantes (que só serviriam para alimentar políticos e funcionários), se desenvolveria a pleno vapor, harmoniosa e feliz. Como veem, não há mitologia mais adequada para justificar o darwinismo social. A pobreza e as desigualdades seriam expressões da distribuição desigual do mérito. É nesse ponto que a corrupção torna-se central: o sangue drenado do corpo social alimenta o vampiro imoral, o mal supremo, a mãe de todos os males: a corrupção. Desse modo, uma ideologia política, travestida de descrição objetiva e neutra da “realidade”, ganha a alma que falta ao discurso economicista e suscita o ódio que a radica nas redes intersubjetivas que formam opiniões coletivas.
Nesse sentido, a corrupção é a linguagem que engata percepções, valores e afetos, no âmbito da ideologia neoliberal. Corrupção, enquanto tema midiaticamente associado ao impeachment de natureza golpista, é antes de tudo o veículo da ideologia anti-Estado, anti-Política, é a dramaturgia do ódio, a conclamação ao linchamento, a exaltação da vingança, o combustível do punitivismo e a dupla negação: por um lado, da sociedade como conjunto de contradições, constelação de classes sociais em conflito; por outro lado, do Estado, como espaço de luta por hegemonia.
Em síntese, eis aí o resultado: Lula preso e excluído da disputa eleitoral, que ele venceria no primeiro turno; o neoliberalismo disseminando-se como o outro lado da moeda da corrupção; a recusa à Política como apanágio da moralidade popular. Enquanto isso, o país segue sendo entregue aos interesses internacionais e a grande massa da população volta a mergulhar na miséria, ouvindo dia e noite a cantilena anti-Política. Para varrer o PT do mapa, para vetar Lula, foi preciso tentar ferir de morte a política, como atividade humana imprescindível na democracia, e a própria República. O lugar do público foi tragado pelo vórtice do mercado. O coletivo reduzido ao ajuntamento de indivíduos. As desigualdades acabaram justificadas pelo mérito.
Sabem qual é o nome disso, desse fenômeno monstruoso? Bolsonaro.
Nesse contexto, se vejo assim o país, como eu poderia não apoiar Haddad? Claro que, além disso, além do que julgo ser meu dever --confrontar sem medo o anti-petismo, resistir à tentação de capitular (por exemplo, aceitando que uma vitória do PT produziria muito desgosto nas hostes opostas e geraria uma atmosfera excessivamente tensa no país)--, além de tudo isso, há o candidato, Fernando Haddad, um dos políticos jovens mais talentosos, preparados e inteligentes de sua geração. Estão mais do que claros seus compromissos com a democracia (e a urgentíssima democratização da mídia), a soberania nacional e os direitos humanos, com a luta contra o racismo, as desigualdades, e com a defesa do meio ambiente, das sociedades indígenas e das minorias. Chega de violações aos direitos e de manipulação. Está em jogo o futuro do país.

 

 

 

 

 

A encruzilhada de Haddad

Marco Aurélio Nogueira – set 2018

http://rodademocratica.com.br/2018/09/17/a-encruzilhada-de-haddad/

Oficializado como candidato presidencial do PT, Fernando Haddad está indo à luta com uma encruzilhada pela frente.

Pela estrada da direita, mais confortável mas não isenta de riscos, precisa seguir à risca a estratégia definida por Lula e pela direção do partido. Isso significa manter a santificação do ex-presidente e, em consequência, subalternizar Haddad, obrigando-o a se apresentar como uma emulação de Lula, um “representante” nomeado para carregar pelo país a “tocha” repassada a ele em Curitiba.

Pela estrada da esquerda, instável mas mais promissora, precisa honrar sua condição pessoal de quadro político diferenciado, um intelectual com ideias próprias e uma biografia importante. Essa é a estrada na qual Haddad poderá desempenhar o papel de renovador, um desbravador disposto a abrir diálogos e negociações construtivas tanto com o que está à direita do PT como com o amplo campo das esquerdas, que não se resumem nem se subordinam ao PT.

A primeira estrada tende a ser dominante, especialmente no atual momento da corrida eleitoral, já que impulsiona a candidatura petista e a impregna de forte simbolismo, com evidente apelo popular. Haddad necessita disso como luz e oxigênio, pois é desconhecido da população e tem pouca experiência em campanhas políticas vitoriosas. De pouco adiantarão as advertências que lhe forem feitas de que, ao assim proceder, correrá o risco de se apagar como liderança.

Haddad, portanto, não pode submergir na estratégia de saturar a propaganda com a figura santificada de Lula. Antes de tudo, porque a estratégia pode levar a um imaginário falsificado que, ao não gerar os efeitos esperados, produzirá decepção e raiva, voltando-se contra o próprio PT. E, depois, porque, caso funcione e dê certo, a estratégia tenderá a esvaziar o lado mais forte da candidatura petista, aquele no qual Haddad se solta de seu criador, torna-se maior do que ele e se projeta como um estadista em condições de governar com autonomia decisória e reconstruir  a união nacional, o Estado, a política brasileira, a imagem petista, as esquerdas.

Seu desafio, portanto, será encontrar um equilíbrio delicado e difícil, atuando em um ambiente tenso e tóxico, pressionado pelas alas mais religiosas do PT, pelos ataques eleitorais dos adversários e pela descrença de parte da população, que não o vê com estatura suficiente para manter Lula sob controle e governar o País.

No curto prazo, Haddad deverá crescer nas sondagens eleitorais, embalado pela dramatização de sua própria entronização e pela narrativa do “golpe”. A última pesquisa DataFolha mostra que ele cresceu expressivamente entre os dias 22/08 e 10/09 (passou de 4 para 9, mais de 100%) e, depois, avançou para 13 (crescimento de cerca de 50%) entre os dias 10/09 e 14/09, encostando em Ciro Gomes, que estacionou nos 13%.

O problema estará no médio prazo, quando a poeira assentar e os adversários ajustarem a mira. Nesse ponto da curva, sua campanha terá de apresentá-lo como um personagem à altura do complicado momento nacional, como um representante do povo e da sociedade, não de um ex-presidente cujas mãos não estão inteiramente limpas.

Em termos estritamente eleitorais, o dilema pode ser traduzido da seguinte maneira: para avançar e chegar ao segundo turno, Haddad precisa da sombra de Lula, mas para vencer as eleições precisa daquilo que está além do PT.

A gravidade da encruzilhada em que se encontra é que toda a operação poderá não funcionar e servir de plataforma para a eleição daquele que o PT deveria considerar seu maior adversário.

Ciro Gomes, com sagacidade, tocou no ponto: “Bolsonaro é o cabra marcado para perder a eleição no segundo turno, se a gente não cometer nenhuma imprudência”.

A outra parte do dilema é que Haddad terá de “acalmar” os mercados, os banqueiros e o eleitorado mais ao centro, buscando seduzi-los com um discurso de moderação e pragmatismo, como fez quando foi prefeito de São Paulo. Nessa manobra, correrá o risco de irritar os setores duros do PT e desagradar os eleitores lulistas, cujos ouvidos somente assimilam palavras contundentes contra as políticas dos “golpistas”.

 

Marco Aurélio Nogueira

Cientista político, professor titular e Coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da UNESP. 
Veja os posts de Marco Aurélio Nogueira

 

 

 

PARA RETOMAR O FUTURO

 

                                                                        JOSÉ LUÍS FIORI[1]

 Publicado em www.desenvolvimentistas.com.br

“As “grandes potências” se protegem coletivamente, impedindo o surgimento de novos estados e economias líderes, através da monopolização das armas, da moeda e das finanças, da informação e da inovação tecnológica. Por isto, uma “potencia emergente” é sempre um fator de desestabilização e mudança do sistema mundial, porque sua ascensão ameaça o monopólio das potências estabelecidas”.

J.L.F. “História, Estratégia e Desenvolvimento. Para uma Geopolítica do Capitalismo”, Editora Boitempo, 2015, SP, p: 30

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     No Século XX, o Brasil deu um passo enorme e sofreu uma transformação profunda e irreversível, do ponto de vista econômico, sociológico e político[2]. No início do século, era um país agrário, com um estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e militar muito inferior ao da Argentina.  Hoje, na segunda década do século XXI, o Brasil é o país mais industrializado da  América Latina, e a sétima maior economia do mundo; possui um estado centralizado e democrático, uma sociedade altamente urbanizada – ainda que desigual - e é o principal player internacional do continente sul-americano. Além disso, é um dos países do mundo com maior potencial de crescimento pela frente, se tomarmos em conta seu território, sua população e sua dotação de recursos estratégicos, sobretudo se for capaz de combinar seu potencial exportador de commodities com a expansão sustentada do seu próprio parque industrial e tecnológico.  Tudo isto são fatos e conquistas inquestionáveis, mas estes fatos e conquistas colocaram o Brasil frente a um novo elenco de desafios internacionais, e hoje, em particular, o país está enfrentando uma  disjuntiva extremamente complexa. As próprias dimensões que o Brasil adquiriu, e as decisões que tomou no passado recente, colocaram o país dentro do grupo dos estados e das economias nacionais que fazem parte do núcleo de poder do “caleidoscópio mundial”: um pequeno número de estados e economias nacionais que exercem - em maior ou menor grau - um efeito gravitacional sobre todo o sistema, e que são capazes, simultaneamente,  de produzir um “rastro de crescimento” dentro de suas próprias regiões. Queiram ou não queiram, estes países criam em torno de si “zonas de influencia”, onde tem uma responsabilidade política maior que a dos seus vizinhos, enquanto são chamados a se posicionar sobre acontecimentos e situações longe de suas regiões, o que não acontecia antes de sua ascensão. Mas ao mesmo tempo, os países que ingressam neste pequeno “clube” dos países mais ricos e poderosos tem que estar preparados, porque entram automaticamente num novo patamar de competição, cada vez mais feroz, entre os próprios membros desse “núcleo” que lutam entre si para impor a todo o sistema, os seus objetivos e as suas estratégias nacionais de expansão e crescimento.

     Neste momento o Brasil  já não tem como recuar sem pagar um preço muito alto[3].  Mas por outro lado, para avançar, o Brasil terá que ter uma dose extra de coragem, persistência e inventividade[4].  Além disto, terá que ter objetivos claros e uma coordenação estreita, entre as agencias responsáveis pela política externa do país, envolvendo a sua diplomacia, a sua política de defesa, articuladas com sua política econômica e com sua política de difusão global de sua cultura e dos seus valores. E o que é mais importante, o Brasil terá que sustentar uma “vontade estratégica” consistente e permanente, ou seja, uma capacidade social e estatal de construir consensos em torno de  objetivos  internacionais de longo prazo,  junto com a capacidade de planejar e implementar  ações de curto e médio prazo,  mobilizando os atores sociais, políticos e econômicos  relevantes, frente a cada situação e desafio em particular.    Mais difícil do que tudo isto, entretanto, será o Brasil descobrir um novo caminho de afirmação da sua liderança e do seu poder internacional, dentro e fora de sua zona de influencia imediata. Um caminho que não siga o mesmo roteiro das grandes potências do passado, e que não utilize a mesma arrogância e a mesma  violência que utilizaram os europeus e os norte-americanos para conquistar, submeter e “civilizar” suas colônias e protetorados. Em segundo lugar, como todo país que ascende dentro do sistema internacional, o Brasil terá que questionar de forma cada vez mais incisiva, a ordem institucional estabelecida e os grandes acordos geopolíticos em que se sustenta. Mas o Brasil terá que fazê-lo sem o uso das armas, e através de sua capacidade de construir alianças com quem quer que seja desde que o Brasil mantenha seus objetivos e valores, e consiga expandir-se e conquistar novas posições dentro da hierarquia política e econômica internacional. Este objetivo já não obedece mais a nenhum tipo de ideologia nacionalista, nem muito menos a qualquer tipo de cartilha militar, obedece a um imperativo “funcional”’ do próprio “sistema interestatal capitalista”: neste sistema, “quem não sobe cai”[5]. Mas ao mesmo tempo, “quem sobe”, tem que estar preparado, porque será atacado e desqualificado inevitavelmente e de forma cada vez mais intensa e coordenada, dentro e fora de suas próprias fronteiras, caso não se submeta  à vontade estratégica dos antigos donos do poder global. Em qualquer momento da história é possível acovardar-se e submeter-se, mas atenção, porque o preço desta humilhação será cada vez maior e insuportável  para a sociedade brasileira.

Setembro de 2018

 [1] Professor titular de Economia Política Internacional, do PEPI/UFRJ, e de Ética e Poder Global. do PBGBIOS/UFRJ. E , pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis – INEEP, www.ineep.org.br

[2] Este artigo foi publicado pela primeira vez, na imprensa, em 2014, com o título “para calcular o futuro”, e depois, como posfácio do livro “História, Estratégia e Desenvolvimento”, como parte de um debate nacional que foi interrompido pelo Golpe de Estado de 2015/16. Por isto decidimos republicá-lo com um novo título, no momento em que se encerra  o “governo de exceção” que foi instalado pelo Golpe, e se reabre a possibilidade de que os brasileiros discutam e decidam o seu futuro, por si mesmos, nas eleições presidenciais de outubro 2018..

[3]  Como de fato pagou, depois do golpe de estado de 2016, e durante os três anos do “governo de exceção” do PSDB e do PMDB, com seu programa ultraliberal que arruinou a economia do país, destruiu seu sistema de direitos e de proteção social do povo brasileiro, e colocou o Brasil na sarjeta do sistema internacional

[4]  E este seguirá sendo o grande desafio de um novo governo progressista que que venha a assumir o poder em 2019, com a decisão de reconstruir a autoestima dos brasileiros, devolvendo ao povo os seus direitos usurpados, e  devolvendo ao estado as rédeas da soberania e da altivez nacional.

[5] Elias, N. O Processo Civilizador, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, vol 2, p: 134


Os assassinos estão no Estado Mínimo

https://folhadiferenciada.blogspot.com/2018/09/pedro-augusto-pinho-os-assassinos-estao.html 
                                                    por Pedro Augusto Pinho*

 

 

Mesmo na fome, na doença, na miséria, no desemprego onde o golpe de 2016 jogou o povo brasileiro, a destruição do patrimônio da humanidade, que representou o incêndio do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, ainda é um ato criminoso.

O geólogo Álvaro Penteado, no Coletivo Geólogos pela Democracia, dá o tom que deve nos incentivar à luta contra esta ideologia maléfica que toma o mundo: o neoliberalismo, o fim dos Estados Nacionais ou o Estado Mínimo:

“O meteorito Bedengó sobreviveu à viagem interplanetária que o trouxe à Terra, à passagem pela atmosfera do nosso planeta, à queda no sertão da Bahia, ao tempo em que ficou exposto aos processos de intemperismo e, agora, ao desmonte que sofre o Brasil. Um verdadeiro símbolo geológico da resistência!”

E mostra o meteorito após o incêndio, um sobrevivente.

Como sempre fez o poder em todos os tempo, o sistema financeiro internacional (a banca) que é o poder no Brasil de hoje, vai escolher um culpado, para que toda a imprensa hegemônica, oligopolista e antinacional aponte e os oportunistas e seus lacaios criminalizem.

 

Recorde os cristãos na Roma de Nero, também incendiário que colocou fogo na cidade para assassinar os primeiros seguidores de Jesus Cristo e compor na harpa o que a história esqueceu.

Mais recente, em 27 de fevereiro de 1933, os nazistas queimaram o Reichstag, em Berlim, para culpar os socialistas, e levar a Alemanha e o mundo aos horrores da guerra.

E uma guerra que, sob o pretexto de limpeza étnica, como muitas das guerras que os colonizadores europeus promoveram na África, na Ásia e nas Américas, buscava o enriquecimento de poucos com a morte e a miséria de muitos.

Também no mundo da destruição de patrimônio da humanidade, não podemos esquecer que os talibãs, um grupo islâmico treinado pela Agência de Inteligência Estadunidense — a tristemente célebre CIA, que tantos serviços já prestou a esta mesma elite que sempre esteve no governo do Brasil — destruíram esculturas datadas do século VII a.C.

O que se pode esperar de um Governo que congela, por 20 anos (a PEC do Fim do Mundo), as mais necessárias despesas de um estado, com a saúde, a educação, a habitação, o transporte de todo o povo para pagar os juros assassinos à banca?

Estamos no processo de escolha de candidatos ao novo governo — Executivo e Legislativo — do Brasil.

Sabemos onde a banca tem seus candidatos, nos seus partidos de sempre, aqueles que se articularam para o golpe de 2016 e os que se intitularam Novo ou Patriota ou Rede para pescar incautos.

Precisamos dar um basta, forte e consciente ao Estado Mínimo, às privatizações corruptoras e demolidoras do patrimônio e da soberania nacional.

*Avô, administrador aposentado

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Nota de Repúdio à Violência no Processo Eleitoral


O ataque contra o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro é inadmissível e precisa ser reparado, tanto com o seu rápido e pleno restabelecimento, quanto com a punição de seu agressor. É preciso, acima de tudo, estancar a espiral de violência instalada no país.
Figuramos, hoje, entre as nações mais violentas do mundo, com maior número de mortes violentas, maiores taxas de feminicídio, de assassinatos de homossexuais, de militantes sociais e de jornalistas e, ainda, com a terceira maior população carcerária.
Vemos, cada vez mais, a intolerância dividir as mais diferentes comunidades em todo o país e a violência invadir a vida política nacional. 
A vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foram executados em março deste ano, no Rio de Janeiro, em plena ocupação militar da cidade, e suas mortes continuam sem esclarecimento.
A caravana do ex-presidente e, então, pré-candidato à Presidência da República Luís Inácio Lula da Silva, também em março deste ano, teve participantes atacados com chicotes e foi atingida por tiros, quando passava pelos estados do Rio Grande do Sul e Paraná, e nenhum dos envolvidos nos atos de violência e nos atentados à bala foi sequer investigado.
O acampamento em solidariedade ao ex-presidente Lula, em Curitiba, foi alvo de, ao menos, quatro atentados, sendo que um deles, à bala, deixou como saldo dois feridos, sem que tenha havido qualquer indiciamento pelos atos.
Uma integrante da equipe de campanha do candidato à Presidência da República Guilherme Boulos foi ameaçada com arma de fogo, em agosto.
O avanço da violência política vem ocorrendo no ambiente de profunda crise institucional do país, cuja raiz é a falta de legitimidade. Os poderes Executivo e Legislativo federais estão sob o controle de políticos implicados em graves episódios de corrupção e as cúpulas do poder Judiciário e do Ministério Público agem de forma parcial e contraditória, segundo suas preferências políticas, desrespeitando claramente a Constituição.
A sociedade brasileira precisa estancar a espiral de violência contra seus cidadãos. O candidato ora agredido tem incentivado a violência, enaltecido torturadores e estimulado a agressão a homossexuais e a mulheres, além de prometer exterminar seus adversários políticos. Nada disso, no entanto, deve obscurecer o fato de que houve um ataque à vida de um cidadão e que este ato deve ser repudiado.
É urgente pacificar o país, afastar os ódios e restabelecer o respeito mútuo entre os diferentes, principalmente entre aqueles que defendem caminhos diversos para o país. É hora de restabelecer o respeito à diversidade, o diálogo e o retorno do Brasil à normalidade democrática.
Conclamamos todas as instituições, organizações, movimentos, integrantes de tradições religiosas, partidos e pessoas que acreditam no respeito ao outro e no diálogo a manifestarem-se publicamente contra o avanço da violência e a favor da manutenção da democracia.
Assinam este documento as seguintes entidades e movimentos:


M3D – Movimento em Defesa da Democracia, do Diálogo e da Diversidade
Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito
ABJD-RS – Associação Brasileiras de Juristas pela Democracia
EDUCAFRO – SP
LIERGS - Associação Quilombo Sociocultural Afrobrasileiro
Coletivo Levante Gremista
Portal de Hip Hop Bocada Forte

 

  

E AGORA?

                                                                                               André Singer

Os índices disponíveis sobre o atentado sofrido por Jair Bolsonaro (PSL) na quinta-feira (6) em Juiz de Fora apontam para um gesto de insanidade mental por parte do agressor. Todas as forças relevantes do país rejeitaram com veemência o ato torpe, solidarizando-se com o atingido.

Ainda que sem conteúdo político, no sentido específico do termo, o dramático gesto de Adelio Bispo de Oliveira poderá mudar o rumo da campanha que se iniciava. Embora seja difícil prever o que vem pela frente, é plausível que a breve janela de racionalidade aberta pelo aumento da rejeição a Bolsonaro se feche com a natural simpatia que toda vítima produz.

O imediato recuo de Geraldo Alckmin (PSDB), que buscava desconstruir no horário eleitoral a imagem do capitão reformado, seria um sinal antecipado.

Haveria igualmente mudanças de conteúdo. O debate econômico, que dominou as disputas presidenciais pós-redemocratização, pode tornar-se subtema de assunto maior: como reconstruir o país depois da crise geral vivida nos últimos anos? A sensação de que se chegou ao fundo do poço, para a qual o incêndio do Museu Nacional também contribuiu, pediria um discurso generalizante.

Posto no centro da cena, o bolsonarismo dispôs da primeira fala na nova fase. Os bolsonaristas não perderam tempo: pouco depois de operado, o candidato gravou um vídeo aos eleitores. O acento religioso trazido pelo senador e pastor Magno Malta (PR-ES) conota perfeitamente o sentido conservador da produção.

Por outro lado, a centralidade adquirida por Bolsonaro disputa com a de Lula, o qual conseguiu manter-se à tona apesar de preso há cinco meses.

Mas, talvez, sendo o antipetismo o principal mote do deputado de ultradireita, os holofotes acesos sobre ele acabem por iluminar igualmente o seu objeto de ódio.

A polarização entre lulismo e bolsonarismo, um dos cenários possíveis desde o início, ganharia, então, novas tinturas.

Lula tem à mão uma cartada, com a provável oficialização de Fernando Haddad na próxima terça (11) como candidato a presidente da República, uma vez que a postulação do próprio Lula foi impugnada pelo TSE na madrugada do último dia 1º.

Embora prevista há muito tempo, a decisão a ser tomada pelo ex-presidente em Curitiba quem sabe soe como resposta à nova conjuntura, marcada pelo trauma do esfaqueamento.

Para ela, Lula terá que achar uma nota ao mesmo tempo respeitosa com aquele que passou perto da morte e clara no que respeita às diferenças futuras. Se conseguir, o diálogo entre os dois polos resultantes do impeachment de 2016 quiçá dê o tom das três semanas que restarão até o primeiro turno.
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Nas entrelinhas: Triângulo de fogo

Publicado em 06/09/2018 - 06:02Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense - http://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/nas-entrelinhas-triangulo-de-fogo/

 

“Brasil enfrenta a sua maior crise desde 1964 num ambiente de ampla liberdade, com eleições livres e limpas, graças à Constituição de 1988, que até agora sobreviveu a todas as tensões”

Incêndios dependem basicamente da temperatura de ignição. Os outros fatores — oxigênio e material inflamável — estão dados em qualquer situação. O qu e vai distinguir a gravidade do incêndio é a existência de produtos químicos e materiais sintéticos, contra os quais não basta o resfriamento. É preciso cortar o oxigênio e a existência de corrente elétrica, muitas vezes a origem da fagulha que provocou o incêndio. Não, desta vez não se trata do museu que pegou fogo, trata-se das eleições e do desgaste a que estão sendo submetidas as nossas instituições democráticas, principalmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), às vezes, em razão de suas próprias contradições internas.

Não faltam interessados na radicalização política e na desmoralização da Justiça, em pleno processo eleitoral, entre os quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que legalmente está fora da disputa, mas mantém sua candidatura, e Jair Bolsonaro (PSL), que representa a outra face da mesma moeda, ao simbolizar o antipetismo radical e liderar os que defendem uma intervenção militar. Incêndios políticos são provocados por piromaníacos e não faltam exemplos na história. Nero, o imperador romano, foi um deles, embora haja controvérsias sobre o fato de ter provocado o grande incêndio do Circo Mágico, em 14 de julho de 64 d.C., que viria a destruir boa parte de Roma. Deposto, se suicidou em 68 d.C. e deixou como legado uma guerra civil conhecida como o ano dos quatro imperadores, todos generais romanos.

O incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, em 17 de fevereiro de 1933, em Berlim, foi o episódio crucial para ascensão do nazismo. Adolf Hitler havia sido empossado chanceler da Alemanha quatro semanas antes e se aproveitou do episódio para incitar o presidente Paul von Hindenburg a aprovar um decreto de emergência que lhe conferiu superpoderes para combater os comunistas. O que aconteceu depois todo mundo sabe: a perseguição se estendeu aos social-democratas, liberais e demais opositores políticos de Hitler: doentes mentais, pacifistas, eslavos e grupos religiosos (tais como as Testemunhas de Jeová), homossexuais, ciganos e, principalmente, judeus. Com a 2ª Guerra Mundial, o Holocausto registrou o extermínio de ao menos 6 milhões de pessoas, a maioria judeus.

Onde mora o perigo

Antes que alguém imagine que a citação é exagerada, vale a pena examinar a disputa política global que se deu nos últimos 100 anos. Nos primeiros 50 anos, entre socialistas, liberais e fascistas, resultou na derrota da extrema direita; nos 50 anos seguintes, na Guerra Fria, entre socialistas e liberais. No final do século 20, com a desintegração da União Soviética e demais regimes comunistas do Leste europeu, a hegemonia liberal se consolidou na política mundial de tal forma que a tese hegeliana do “fim da história” foi exumada pelo economista norte-americano Francis Fukuyama e parecia ter se comprovado. Eis, porém, que a globalização e o novo “capitalismo de dados”, com a revolução tecnológica, colocam em xeque as democracias representativas do Ocidente, que estão em crise no mundo.

Os valores legados pela Revolução Francesa — liberdade, igualdade e fraternidade —, que são a essência da democracia moderna, parece que perderam a funcionalidade. Na corrida mundial para reinventar o Estado nacional, figuras de viés autoritário emergem com força no processo político do Ocidente, a começar pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Assim como Ronald Regan se contrapôs ao antigo regime soviético, Trump elegeu como principal adversário na arena internacional a China, cuja emergência econômica e política se assenta sobre um modelo de capitalismo de Estado integrado à economia mundial e no regime de partido único comunista, que parecia condenado a desaparecer. Entre esses dois polos, equilibra-se uma Europa assustada pela herança de seu próprio colonialismo, a crise humanitária na África e Oriente Médio, e pela agressividade da Rússia de Putin, determinada a restabelecer seu papel no grande jogo da Eurásia e manter seu acesso livre ao Mediterrâneo. Na periferia, os mais bem-sucedidos na modernização derivam da democracia para o autoritarismo.

É nesse contexto que as eleições ocorrem no Brasil, franqueado pela crise do abastecimento e hiperinflação do modelo bolivariano na Venezuela de Nícolas Maduro, e a crise cambial na Argentina, que expõe a vulnerabilidade da política liberal do presidente Maurício Macri. Ao contrário do que muitos afirmam, o Brasil enfrenta a sua maior crise desde 1964 num ambiente de ampla liberdade, com eleições livres e limpas, graças à Constituição de 1988, que até agora sobreviveu a todas as tensões. Devemos lutar para preservá-la e levar a sério a advertência do professor da Universidade de Harvard Steven Levitsky, autor do livro Como morrem as democracias?, que há anos estuda a relação entre populismo e autoritarismo, assim como a construção partidária na América Latina: “Se um candidato, em sua vida, carreira política ou durante a campanha, defendeu ideias antidemocráticas, devemos levá-lo a sério e resistir à tentação de apoiá-lo, ainda que, diante de circunstâncias momentâneas, pareça ser uma opção aceitável”.

 

Rogério Diniz Junqueira


"Não há dúvidas de que a vítima do crime é Jair Messias Bolsonaro. Ponto. Dito isso, é preciso dizer as coisas sem medo de ser acusado de relativização. O ambiente beligerante instalado no país é, em boa parte, de responsabilidade de Jair Bolsonaro e seus aliados. Não, não estou culpando a vítima pelo esfaqueamento. Estou colocando os fatos em perspectiva e analisando o contexto político.

O ambiente de extremismo é propício para a ação de alguém que não esteja com suas faculdades mentais em ordem. E esse ambiente é construído quando um político afirma abertamente que irá “fuzilar” seus adversários políticos, como se essa “figura de linguagem” tivesse sido feita em uma conversa de bar sem maiores consequências.

Quando o ônibus da caravana de Lula foi alvejado por tiros de revólver, Bolsonaro disse que “Lula quis transformar o Brasil num galinheiro e agora está por aí colhendo ovos por onde passa”. Depois, em comício, simulou arma com a mão e deu tiros na cabeça de um boneco inflável de Lula, levando seus seguidores à loucura. Afirmou ainda que estava “na cara que alguém deles (PT) deu os tiros. A perícia vai apontar a verdade”, mesmo sem ter o mínimo indício disso. Bolsonaro nunca respeitou os ritos civilizatórios mínimos do jogo democrático. Isso faz com que ele mereça a facada? Não! Isso cria um clima de guerra na disputa política? Sim!"

 

Cesar Benjamin

Nunca postei nada sobre Jair Bolsonaro, não preciso explicar por quê. Havia decidido manter essa posição. Porém, ainda trabalhando, às 3:00 horas da manhã, as defesas se enfraquecem.

O que eu acho pode ser resumido em três pontos.

1. Até hoje, Bolsonaro era um candidato forte no primeiro turno e fraco no segundo. Os estrategistas de sua campanha tinham que lidar com essa dificuldade quase insuperável: ganhar no primeiro turno (até ontem, algo praticamente impossível) ou perder a eleição.

2. O criminoso atentado de que foi vítima deve alavancar sua candidatura, ainda não sabemos até que ponto. Tendo escapado com vida, felizmente, ele se mantém na disputa. Se morresse, seria substituído pelo seu vice, uma liderança militar de muito maior peso do que ele próprio. Em meio a uma comoção nacional.

3. Se sua provável subida nas pesquisas se confirmar, mas não a ponto de sinalizar vitória no primeiro turno, podemos esperar outro fato de grande repercussão ainda durante a campanha. Pois o impasse continua: ou ganhar no primeiro turno ou perder a eleição.

Estou fazendo uma análise de alto risco, na madrugada de sexta-feira, sem nenhuma informação especial. Posso estar errado. Mas, a bem da verdade, imagino qual poderá ser esse novo fato.

É apenas o que estive pensando, sozinho, enquanto trabalhava. Agora vou dormir.

André Singer
Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

 

  

A FORTALEZA DE LULA

Como o ex-presidente pretende evitar que Ciro ou Marina chegue ao segundo turno

                                                                               MARCOS NOBRE

05set2018 - https://piaui.folha.uol.com.br/fortaleza-de-lula/

  

Fernando Collor e Lula disputaram o segundo turno da primeira eleição presidencial da redemocratização, em 1989, como duas versões diferentes de uma ponte simbólica que prometia vencer politicamente o abismo real entre o Norte e o Sul do país. Nas eleições de 1994 e 1998, FHC construiu sua ponte Norte-Sul em uma aliança com o então PFL, dominante no Nordeste e em partes do Norte e do Centro-Oeste. Àquela altura, Lula já personificava, ele mesmo, essa ponte.

PT e PSDB disputaram o segundo turno da eleição presidencial desde 1994. Mas as eleições presidenciais envolveram muitas vezes candidaturas desafiantes e competitivas. Em 1998, o principal desafiante foi Ciro Gomes. Terminou em terceiro lugar, com 11% da votação. Foi sua estreia em campanhas presidenciais, uma preparação para a eleição seguinte, quando FHC já não poderia mais se candidatar.

Em 2002, as chances de Ciro pareciam palpáveis. Até agosto, ele estava à frente do candidato do PSDB, José Serra, que não reproduziu a aliança Norte-Sul de FHC. Chegou a ficar tão próximo de Lula, líder em intenção de votos, que se pensava que poderia ultrapassá-lo. A propaganda negativa foi feita pelo próprio Ciro, com uma série de declarações deploráveis e eleitoralmente catastróficas. O candidato terminou em quarto lugar, com 12% da votação, atrás de Anthony Garotinho.

Em 2006, não houve desafiante efetivamente competitivo à alternativa PT-PSDB. Foi também a última eleição em que o PSDB construiu uma aliança Norte-Sul, estampada na chapa Geraldo Alckmin e José Jorge. A partir da eleição de 2010, o PSDB abandonou em definitivo a pretensão de construir uma ponte Norte-Sul, recuando para chapas fincadas no Sudeste. Com isso, enfraqueceu sua própria posição de polo eleitoral, ao mesmo tempo em que estabeleceu a fortaleza que Lula tem hoje, e abriu de vez a avenida para desafiantes que pretendessem propor esse tipo de ponte como alternativa ou em oposição à ponte lulista.

Foi por essa via que enveredou uma nova desafiante competitiva, Marina Silva, em 2010. Terminou a eleição em terceiro lugar, com cerca de 20% dos votos, atrás de Dilma Rousseff e José Serra. Como no caso de Ciro em 1998, foi uma preparação para a eleição seguinte.

Na eleição de 2014, Eduardo Campos surgiu como o desafiante a encarnar uma nova proposta de ponte Norte-Sul. Sua trágica morte impediu de saber o resultado da estratégia traçada. Mas o expressivo salto de sua substituta, Marina Silva, nas intenções de voto demonstrou o potencial presente nesse cálculo.

 

Voltemos agora ao início deste ano, a 24 de janeiro de 2018, dia em que Lula foi condenado em segunda instância. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, não apenas confirmou a sentença do juiz Sérgio Moro como aumentou a pena antes estabelecida, elevando o tempo de prisão para 12 anos e um mês. Naquele momento, Ciro teve a convicção de que a sua vez tinha chegado.

O raciocínio era simples. Não podendo ser candidato, Lula teria de passar o bastão para alguém que pudesse encarnar a ponte Norte-Sul. Não tendo à disposição um nome alternativo competitivo e precisando sobreviver politicamente, teria de apoiar Ciro. Ou acabaria apoiando um nome do PT pouco competitivo, o que abriria de qualquer maneira o caminho para a eleição de Ciro. Estando preso, Lula tenderia a perder intenção de voto. No momento em que sofresse uma queda significativa nas pesquisas, teria de passar o bastão.

Como se sabe, nada disso aconteceu. Preso, Lula viu sua intenção de voto alcançar patamar próximo a 40%. Usou bem esse recurso para isolar Ciro, impedindo que o candidato do PDT fechasse alianças com o PSB ou o PCdoB, partidos estratégicos na disputa do eleitorado nordestino.

O raciocínio de Ciro foi também partilhado por Marina, ainda que de maneira diferente. Como Ciro, Marina concluiu que era o espólio lulista que estaria em disputa na eleição deste ano, já que Lula não poderia ser ele mesmo candidato. Concluiu que haveria espaço para mais de uma candidatura que se apresentasse como ponte Norte-Sul, já que o PSDB tinha abandonado inteiramente essa pretensão. Daí que, pela primeira vez desde o Plano Real, duas propostas simultâneas de ponte Norte-Sul alternativas ao PT e ao PSDB, Marina e Ciro, disputem uma mesma eleição presidencial.

Não foi por acaso que Marina se fingiu de morta desde a eleição de 2014. Escaldada pelo massacre que sofreu por parte da campanha de Dilma, Marina passou o tempo todo tentando fugir da artilharia do ex-presidente, que atingiu em cheio as articulações da candidatura de Ciro. Foi tão bem-sucedida que sumiu do quadro eleitoral até o início efetivo da campanha.

Agora é a hora da verdade para Lula, é o momento de mostrar a última cartada de sua estratégia. O que se sabe: Lula não pretende deixar que tomem dele a posição de ponte Norte-Sul. Essa é a fonte de todo o seu poder e de toda a sua legitimidade. Em termos concretos: não pode permitir que Ciro ou Marina chegue ao segundo turno. Qual é a melhor linha de ação para evitar que isso aconteça?

Depois que tanto Ciro como Marina cresceram expressivamente na intenção de voto, não há outra resposta possível senão esta: Lula precisa apostar tudo o que tem na campanha de Fernando Haddad. E, no entanto, a demora na oficialização de Haddad como candidato parece ir no sentido contrário, parece sacrificar as chances do ex-prefeito de chegar ao segundo turno. Isso desespera em especial o eleitorado petista e os candidatos aos governos estaduais, além de enlouquecer o PCdoB e o PSB. Porque todo mundo sabe que decisões cruciais e estratégicas serão tomadas com base nas pesquisas que serão divulgadas na próxima semana. E é muito provável que Haddad ainda não apareça como candidato oficial nessas pesquisas.

Acontece que Lula continua a acreditar que a transferência de votos será tanto mais efetiva se for realizada em um sprint de um mês, num tiro tão curto quanto a própria campanha deste ano. Não parece ver razão para mudar a estratégia que traçou desde que foi preso. Afinal, deu certo até agora. O pessoal que tome calmante e respire fundo.

A estratégia de Marina de ficar fora do radar de Lula pode lhe permitir sonhar com a conquista de parte da fortaleza de votos do ex-presidente. Mas, se for bem-sucedida, a estratégia de Lula conta que a candidata entrará imediatamente na mira de campanhas negativas. Só que da parte de Geraldo Alckmin desta vez, que para isso tem a seu dispor um latifúndio de tempo na tevê.

Já Ciro só tem chance se o próprio Lula errar. Como prometeu que faria, Ciro não se autodestruiu como em 2002. Se não conseguir desalojar Lula do papel de ponte nesta eleição, pelo menos não terá sido por sua própria culpa. Porém, o mais difícil em qualquer coisa na vida é ter de contar com o erro alheio para ser bem-sucedido.


Nas entrelinhas: Triângulo de fogo

Publicado em 06/09/2018 - 06:02

Correio Braziliense - http://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/nas-entrelinhas-triangulo-de-fogo/

 

“Brasil enfrenta a sua maior crise desde 1964 num ambiente de ampla liberdade, com eleições livres e limpas, graças à Constituição de 1988, que até agora sobreviveu a todas as tensões”

Incêndios dependem basicamente da temperatura de ignição. Os outros fatores — oxigênio e material inflamável — estão dados em qualquer situação. O qu e vai distinguir a gravidade do incêndio é a existência de produtos químicos e materiais sintéticos, contra os quais não basta o resfriamento. É preciso cortar o oxigênio e a existência de corrente elétrica, muitas vezes a origem da fagulha que provocou o incêndio. Não, desta vez não se trata do museu que pegou fogo, trata-se das eleições e do desgaste a que estão sendo submetidas as nossas instituições democráticas, principalmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF), às vezes, em razão de suas próprias contradições internas.

Não faltam interessados na radicalização política e na desmoralização da Justiça, em pleno processo eleitoral, entre os quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que legalmente está fora da disputa, mas mantém sua candidatura, e Jair Bolsonaro (PSL), que representa a outra face da mesma moeda, ao simbolizar o antipetismo radical e liderar os que defendem uma intervenção militar. Incêndios políticos são provocados por piromaníacos e não faltam exemplos na história. Nero, o imperador romano, foi um deles, embora haja controvérsias sobre o fato de ter provocado o grande incêndio do Circo Mágico, em 14 de julho de 64 d.C., que viria a destruir boa parte de Roma. Deposto, se suicidou em 68 d.C. e deixou como legado uma guerra civil conhecida como o ano dos quatro imperadores, todos generais romanos.

O incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, em 17 de fevereiro de 1933, em Berlim, foi o episódio crucial para ascensão do nazismo. Adolf Hitler havia sido empossado chanceler da Alemanha quatro semanas antes e se aproveitou do episódio para incitar o presidente Paul von Hindenburg a aprovar um decreto de emergência que lhe conferiu superpoderes para combater os comunistas. O que aconteceu depois todo mundo sabe: a perseguição se estendeu aos social-democratas, liberais e demais opositores políticos de Hitler: doentes mentais, pacifistas, eslavos e grupos religiosos (tais como as Testemunhas de Jeová), homossexuais, ciganos e, principalmente, judeus. Com a 2ª Guerra Mundial, o Holocausto registrou o extermínio de ao menos 6 milhões de pessoas, a maioria judeus.

Onde mora o perigo

Antes que alguém imagine que a citação é exagerada, vale a pena examinar a disputa política global que se deu nos últimos 100 anos. Nos primeiros 50 anos, entre socialistas, liberais e fascistas, resultou na derrota da extrema direita; nos 50 anos seguintes, na Guerra Fria, entre socialistas e liberais. No final do século 20, com a desintegração da União Soviética e demais regimes comunistas do Leste europeu, a hegemonia liberal se consolidou na política mundial de tal forma que a tese hegeliana do “fim da história” foi exumada pelo economista norte-americano Francis Fukuyama e parecia ter se comprovado. Eis, porém, que a globalização e o novo “capitalismo de dados”, com a revolução tecnológica, colocam em xeque as democracias representativas do Ocidente, que estão em crise no mundo.

Os valores legados pela Revolução Francesa — liberdade, igualdade e fraternidade —, que são a essência da democracia moderna, parece que perderam a funcionalidade. Na corrida mundial para reinventar o Estado nacional, figuras de viés autoritário emergem com força no processo político do Ocidente, a começar pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Assim como Ronald Regan se contrapôs ao antigo regime soviético, Trump elegeu como principal adversário na arena internacional a China, cuja emergência econômica e política se assenta sobre um modelo de capitalismo de Estado integrado à economia mundial e no regime de partido único comunista, que parecia condenado a desaparecer. Entre esses dois polos, equilibra-se uma Europa assustada pela herança de seu próprio colonialismo, a crise humanitária na África e Oriente Médio, e pela agressividade da Rússia de Putin, determinada a restabelecer seu papel no grande jogo da Eurásia e manter seu acesso livre ao Mediterrâneo. Na periferia, os mais bem-sucedidos na modernização derivam da democracia para o autoritarismo.

É nesse contexto que as eleições ocorrem no Brasil, franqueado pela crise do abastecimento e hiperinflação do modelo bolivariano na Venezuela de Nícolas Maduro, e a crise cambial na Argentina, que expõe a vulnerabilidade da política liberal do presidente Maurício Macri. Ao contrário do que muitos afirmam, o Brasil enfrenta a sua maior crise desde 1964 num ambiente de ampla liberdade, com eleições livres e limpas, graças à Constituição de 1988, que até agora sobreviveu a todas as tensões. Devemos lutar para preservá-la e levar a sério a advertência do professor da Universidade de Harvard Steven Levitsky, autor do livro Como morrem as democracias?, que há anos estuda a relação entre populismo e autoritarismo, assim como a construção partidária na América Latina: “Se um candidato, em sua vida, carreira política ou durante a campanha, defendeu ideias antidemocráticas, devemos levá-lo a sério e resistir à tentação de apoiá-lo, ainda que, diante de circunstâncias momentâneas, pareça ser uma opção aceitável”.

 


AVISO AOS NAVEGANTES:

   

Mais do que fatos, precisamos de narrativas   

 

Paulo Timm – Especial REPORTER INDEPENDENTE, Brasilia, ago 29

 

“Mais que de máquinas, precisamos de humanidade”-  Charles Chaplin 

                                   

 

O título acima ainda ressoa nas minha cabeça, trazendo à tona as figuras de Oscarito, Eliana e Grande Otelo -https://www.youtube.com/watch?v=_XWfMc39lWE .  Poucos lembram, mas, certamente, sabem quem foram.  Poucos têm, aliás,  a minha idade e tiveram a felicidade de ter vivido nos idos dos 50 do século passado, quando o Brasil era um sonho promissor. Houve até eleição presidencial, reconduzindo Vargas ao Catete, nos braços do povo,  onde encerraria sua obra e seus dias quatro anos depois. Eu me preparava para as primeiras letras, mas não perdia as matinês dominicais do Cinema Imperial, na bela Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, onde vivia.  “Aviso aos Navegantes”, daquele ano, foi uma divertida comédia musical, retrato de uma época.  O Brasil já era musical, tivera até grandes cassinos, lamentavelmente fechados pelo Presidente Dutra em 1946.  E já era futebol, com direito ao Maracanã e delírio  de Copa do Mundo. Começava a  ser uma nação, que até hoje não conseguiu, apesar da  potência PIBiana que alimenta uma vigorosa classe média de 50 milhões, enquanto arrasta três vezes este número em torno do salário mínimo. Mas havia esperança. Muita esperança. No filme, Frederico embarca clandestino num transatlântico vindo de Buenos Aires para a Cidade Maravilhosa (!) e é descoberto por Azulão, cozinheiro do navio, que não o denuncia,  desde que Frederico trabalhe para ele na cozinha. Prenúncio da Lei de Gerson...Aí rola muita confusão, muito talento, muita energia. Meu Brasil, brasileiro.

Volto ao título para ver o que rola neste fim de agosto de 2018, também de eleições, também de Copa frustrada, também de muito engenho e arte, hoje muito mais disponíveis graças à TV e Internet, às quais a quase totalidade dos brasileiros, quase quatro vezes o que éramos em 1950, grande maioria vivendo em cidades,  tem acesso. Qual é hoje, o AVISO AOS NAVEGANTES? Ou melhor, quais são eles?

O clima geral é ruim e tenso. A crise política e econômica deflagrada em 2014, prenunciada em junho de 2013, não dá trégua. O país parece que está desabando, em direção ao Narco Estado. Ou seria Anarco Estado? Alguns lembram a profecia de Chico Xavier dizendo que o país desaparecerá engolido por interesses externos.  Outros, culpam o lamentável estado mental da inteligência nacional, caso típico de Lênio Streck. Um sociólogo, Jessé Freire, vê no ódio o veneno mais disseminado na conjuntura - AVISO AOS NAVEGANTES

Paulo Timm – Especial REPORTER INDEPENDENTE, Brasilia, ago 29

O título acima ainda ressoa nas minha cabeça, trazendo à tona as figuras de Oscarito, Eliana e Grande Otelo -https://www.youtube.com/watch?v=_XWfMc39lWE .  Poucos lembram, mas, certamente, sabem quem foram.  Poucos têm, aliás,  a minha idade e tiveram a felicidade de ter vivido nos idos dos 50 do século passado, quando o Brasil era um sonho promissor. Houve até eleição presidencial, reconduzindo Vargas ao Catete, nos braços do povo,  onde encerraria sua obra e seus dias quatro anos depois. Eu me preparava para as primeiras letras, mas não perdia as matinês dominicais do Cinema Imperial, na bela Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, onde vivia.  “Aviso aos Navegantes”, daquele ano, foi uma divertida comédia musical, retrato de uma época.  O Brasil já era musical, tivera até grandes cassinos, lamentavelmente fechados pelo Presidente Dutra em 1946.  E já era futebol, com direito ao Maracanã e delírio  de Copa do Mundo. Começava a  ser uma nação, que até hoje não conseguiu, apesar da  potência PIBiana que alimenta uma vigorosa classe média de 50 milhões, enquanto arrasta três vezes este número em torno do salário mínimo. Mas havia esperança. Muita esperança. No filme, Frederico embarca clandestino num transatlântico vindo de Buenos Aires para a Cidade Maravilhosa (!) e é descoberto por Azulão, cozinheiro do navio, que não o denuncia,  desde que Frederico trabalhe para ele na cozinha. Prenúncio da Lei de Gerson...Aí rola muita confusão, muito talento, muita energia. Meu Brasil, brasileiro.

Volto ao título para ver o que rola neste fim de agosto de 2018, também de eleições, também de Copa frustrada, também de muito engenho e arte, hoje muito mais disponíveis graças à TV e Internet, às quais a quase totalidade dos brasileiros, quase quatro vezes o que éramos em 1950, grande maioria vivendo em cidades,  tem acesso. Qual é hoje, o AVISO AOS NAVEGANTES? Ou melhor, quais são eles?

O clima geral é ruim e tenso. A crise política e econômica deflagrada em 2014, prenunciada em junho de 2013, não dá trégua. O país parece que está desabando, em direção ao Narco Estado. Ou seria Anarco Estado? Alguns lembram a profecia de Chico Xavier dizendo que o país desaparecerá engolido por interesses externos.  Outros, culpam o lamentável estado mental da inteligência nacional, caso típico de Lênio Streck. Um sociólogo, Jessé Freire, vê no ódio o veneno mais disseminado na conjuntura-https://istoe.com.br/a-doenca-do-brasil-e-o-odio-de-classe/#.W4WWZ1WOM2e.facebook  . A imprensa internacional repercute. A direita replica: - “Mas quem inventou o Nós x Elles?” Os mais críticos veem nisso mera simplificação ideológica e  acham que a situação é mais complexa. Necessita melhores análises, tais como tentam fazer Leonardo Avritzer, Benício Schmidt, Alberto Carlos, Renato Janine, Marco Aurelio Nogueira, L.Sergio Henriques, Cesar Benjamin, André Singer, Vladimir Safatle, Marcos Nobre, Benedito Cesar, Wanderley Guilherme dos Santos, dentre outros, além de vários jornalistas e atentas instituições como a CBNN. Dos Partidos Políticos, pouco se espera e nada chega. O ódio, enfim, como o amor, não prospera sem contrapartes e processos. . De resto, não é novidade como marca de Caim, no curso da civilização. Como diz meu amigo Joqa, citando Freud, a humanidade inaugura-se quando o primeiro humanoide dá uma paulada na cabeça do seu irmão. Viva a cultura, como estratégia de sobrevivência. Diante do pessimismo que grassa entre empresários que perderam a confiança e pospõem investimentos, entre eleitores que prometem anular o voto, entre cientistas que escapam para o exterior, acompanhados por milhares de jovens, entre mães e esposas que lamentam as perdas de seus entes queridos, numa sinistrose incontrolável, seleciono estes avisos:

1.Desistam de se mudar para Portugal . Ou pelo menos pensem muito bem antes de tomar essa decisão

 

É isso mesmo. Portugal é um país maravilhoso mas os brasileiros devem se informar antes de pegar um avião achar que lá vão FAZER A AMÉRICA . Portugal é um país relativamente pobre no contexto europeu, com poucas oportunidades e empregos, estes mal remunerados, pequeno - menor que o Rio Grande do Sul. Bom para estudar, para viver, desde que se tenha condições pessoais. Não muito bom para idosos sem PLANO DE SAUDE INTERNACIONAL. Portanto, atenção e muito cuidado. Acrescendo que, salvo para a gauchada, acostumada ao inverno, o Uruguai tampouco é um bom exílio. Frio, vento e chove demais.

2.RIO em ebulição - Isaque Gomes Correa  - As instituições cariocas e fluminenses estão falidas. Os law enforcements, o sistema judiciário, o poder executivo (olha o Romário podendo virar governador), os senadores deles não prestam (filho do Bolsonaro pode ser um fiscal da CF). Igrejas corruptas, estado e municípios corrompidos. Polícias. Está um caos. O jogo do bicho serve de lavagem de dinheiro a rodo. Triste.

https://www.facebook.com/leandro.fortes.146/videos/10217359932529745/?t=79

 

3.Leonardo Mota Neto -  www.cartapolis.com.br - FAÇAM SUAS APOSTAS!

Antonio Lavareda, um dois maiores especialistas do País em projeção de tendências eleitorais, está sinalizando um segundo turno em que não se poderá desprezar a presença de Geraldo Alckmin ou Fernando Haddad, um ou outro, contra Jair Bolsonaro ou Marina Silva, a depender, no caso dos dois primeiros, do crescimento na fase da propaganda eleitoral na TV. O cientista político reduz as possibilidades eleitorais a quatro: Bolsonaro x Alckmin; Bolsonaro x Haddad; Marina x Alckmin e Marina x Haddad. Apostem

 

 

4.Alberto Carlos Almeida – Cientista Político·  Advertências

 * Dia 7 de outubro a Lava Jato vai morrer na praia. E em 28 de outubro será enterrada com pompa e circunstância


 * O mercado está subestimando as chances de vitória do PT

 

* Tem muita gente fazendo a mesma previsão que dá nos resultados da pesquisa. Ora, se a previsão coincide com a pesquisa, então não é necessária a previsão, fiquemos somente com os resultados das pesquisas[UdW1] 

 

*Quando a pesquisa tem Lula no primeiro turno, Ciro e Marina ficam com votação abaixo de 10%. Esse é o destino deles caso, em Lula não sendo o candidato, Haddad venha a ter seu apoio, do PT, dos governadores do PT, da simpatia partidária do PT, etc. As chances de Marina e Ciro existiriam se fossem do PT.

 

5.  OSWALDO E. DO AMARAL O estoque oculto de votos de Fernando Haddad
É possível imaginar que a reserva de votos no petista esteja acima do que as pesquisas apontam. Ele terá, entretanto, alguns desafios, como o fato de o PT não contar com a mesma estrutura de campanha e apoio de outras eleições
  - https://brasil.elpais.com/…/22/opin…/1534956325_448821.html…
 
(...).
Segundo dados obtidos por duas rodadas do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), em 2010 e em 2014, cerca de 80% dos que afirmaram gostar do PT acabaram votando em Dilma Rousseff, candidata apoiada por Lula, em ambos os pleitos.
Dessa forma, é possível imaginar que o estoque de votos de Fernando Haddad esteja acima do que as pesquisas apontam até o presente. Se partirmos dos dados do Datafolha, estaria em torno de 16%. Se tomarmos a sondagem do Ibope, em algo como 23%

 

6..Gilberto Gil :Sou Lula Livre, mas não necessariamente para votar nele.

WWW1.FOLHA.UOL.COM.BR

Os petistas devem ficar atentos a este fato: Tem muita gente que não votaria em Lula mas que poderá votar em HADDAD. Se é verdade que Lula é campeão da preferência popular, o resultado final do processo eleitoral em curso não passará pelo seu nome, mas pelo de quem ele indicar, certamente HADDAD, ou Andrade, para o povão. No segundo turno, a disputa entre HADDAD e seu opositor será apertada, como, aliás, o foi entre DILMA X AECIO. Aí, todo voto é precioso, não sendo conveniente, para o PT hostilizar a posição de quem, hoje, não votaria no Lula mas que poderá votar em HADDAD, por vê-lo com a capacidade, sobretudo, de pacificar o universo político e garantir a necessária governança.

Aliás, este talvez seja o caso do próprio FHC e muitos tucanos de plumagem original, além de comunistas e socialistas de velhas cepas. Ver, a propósito, “ A dura escolha de FHC”, de Aloizio Mercadante, publicado no Diario do Centro do Mundo - https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-dura-escolha.../ 

Enfim, por isso tudo diria que o melhor título para a conjuntura seria, talvez, “Trem fantasma”. Já não adianta avisar...

 

 

. A imprensa internacional repercute. A direita replica: - “Mas quem inventou o Nós x Elles?” Os mais críticos veem nisso mera simplificação ideológica e  acham que a situação é mais complexa. Necessita melhores análises, tais como tentam fazer Leonardo Avritzer, Benício Schmidt, Alberto Carlos, Renato Janine, Marco Aurelio Nogueira, L.Sergio Henriques, Cesar Benjamin, André Singer, Vladimir Safatle, Marcos Nobre, Benedito Cesar, Wanderley Guilherme dos Santos, dentre outros, além de vários jornalistas e atentas instituições como a CBNN. Dos Partidos Políticos, pouco se espera e nada chega. O ódio, enfim, como o amor, não prospera sem contrapartes e processos. . De resto, não é novidade como marca de Caim, no curso da civilização. Como diz meu amigo Joqa, citando Freud, a humanidade inaugura-se quando o primeiro humanoide dá uma paulada na cabeça do seu irmão. Viva a cultura, como estratégia de sobrevivência. Diante do pessimismo que grassa entre empresários que perderam a confiança e pospõem investimentos, entre eleitores que prometem anular o voto, entre cientistas que escapam para o exterior, acompanhados por milhares de jovens, entre mães e esposas que lamentam as perdas de seus entes queridos, numa sinistrose incontrolável, seleciono estes avisos:

1.Desistam de se mudar para Portugal . Ou pelo menos pensem muito bem antes de tomar essa decisão

 

É isso mesmo. Portugal é um país maravilhoso mas os brasileiros devem se informar antes de pegar um avião achar que lá vão FAZER A AMÉRICA . Portugal é um país relativamente pobre no contexto europeu, com poucas oportunidades e empregos, estes mal remunerados, pequeno - menor que o Rio Grande do Sul. Bom para estudar, para viver, desde que se tenha condições pessoais. Não muito bom para idosos sem PLANO DE SAUDE INTERNACIONAL. Portanto, atenção e muito cuidado. Acrescendo que, salvo para a gauchada, acostumada ao inverno, o Uruguai tampouco é um bom exílio. Frio, vento e chove demais.

2.RIO em ebulição - Isaque Gomes Correa  - As instituições cariocas e fluminenses estão falidas. Os law enforcements, o sistema judiciário, o poder executivo (olha o Romário podendo virar governador), os senadores deles não prestam (filho do Bolsonaro pode ser um fiscal da CF). Igrejas corruptas, estado e municípios corrompidos. Polícias. Está um caos. O jogo do bicho serve de lavagem de dinheiro a rodo. Triste.

https://www.facebook.com/leandro.fortes.146/videos/10217359932529745/?t=79

 

3.Leonardo Mota Neto -  www.cartapolis.com.br - FAÇAM SUAS APOSTAS!

Antonio Lavareda, um dois maiores especialistas do País em projeção de tendências eleitorais, está sinalizando um segundo turno em que não se poderá desprezar a presença de Geraldo Alckmin ou Fernando Haddad, um ou outro, contra Jair Bolsonaro ou Marina Silva, a depender, no caso dos dois primeiros, do crescimento na fase da propaganda eleitoral na TV. O cientista político reduz as possibilidades eleitorais a quatro: Bolsonaro x Alckmin; Bolsonaro x Haddad; Marina x Alckmin e Marina x Haddad. Apostem

 

 

4.Alberto Carlos Almeida – Cientista Político·  Advertências

 * Dia 7 de outubro a Lava Jato vai morrer na praia. E em 28 de outubro será enterrada com pompa e circunstância


 * O mercado está subestimando as chances de vitória do PT

 

* Tem muita gente fazendo a mesma previsão que dá nos resultados da pesquisa. Ora, se a previsão coincide com a pesquisa, então não é necessária a previsão, fiquemos somente com os resultados das pesquisas[UdW2] 

 

*Quando a pesquisa tem Lula no primeiro turno, Ciro e Marina ficam com votação abaixo de 10%. Esse é o destino deles caso, em Lula não sendo o candidato, Haddad venha a ter seu apoio, do PT, dos governadores do PT, da simpatia partidária do PT, etc. As chances de Marina e Ciro existiriam se fossem do PT.

 

5.  OSWALDO E. DO AMARAL O estoque oculto de votos de Fernando Haddad
É possível imaginar que a reserva de votos no petista esteja acima do que as pesquisas apontam. Ele terá, entretanto, alguns desafios, como o fato de o PT não contar com a mesma estrutura de campanha e apoio de outras eleições
  - 
https://brasil.elpais.com/…/22/opin…/1534956325_448821.html… 
(...).
Segundo dados obtidos por duas rodadas do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), em 2010 e em 2014, cerca de 80% dos que afirmaram gostar do PT acabaram votando em Dilma Rousseff, candidata apoiada por Lula, em ambos os pleitos.
Dessa forma, é possível imaginar que o estoque de votos de Fernando Haddad esteja acima do que as pesquisas apontam até o presente. Se partirmos dos dados do Datafolha, estaria em torno de 16%. Se tomarmos a sondagem do Ibope, em algo como 23%

 

6..Gilberto Gil :Sou Lula Livre, mas não necessariamente para votar nele.

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Os petistas devem ficar atentos a este fato: Tem muita gente que não votaria em Lula mas que poderá votar em HADDAD. Se é verdade que Lula é campeão da preferência popular, o resultado final do processo eleitoral em curso não passará pelo seu nome, mas pelo de quem ele indicar, certamente HADDAD, ou Andrade, para o povão. No segundo turno, a disputa entre HADDAD e seu opositor será apertada, como, aliás, o foi entre DILMA X AECIO. Aí, todo voto é precioso, não sendo conveniente, para o PT hostilizar a posição de quem, hoje, não votaria no Lula mas que poderá votar em HADDAD, por vê-lo com a capacidade, sobretudo, de pacificar o universo político e garantir a necessária governança.

Aliás, este talvez seja o caso do próprio FHC e muitos tucanos de plumagem original, além de comunistas e socialistas de velhas cepas. Ver, a propósito, “ A dura escolha de FHC”, de Aloizio Mercadante, publicado no Diario do Centro do Mundo - https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-dura-escolha.../ 

 

7. Pedro Malan, Ex Ministro da Fazenda e sua insustentável certeza:

"Há um enorme grau de incompreensão da população sobre o curso absolutamente insustentável em que o País se encontra."

 

Enfim, por isso tudo diria que o melhor título para a conjuntura seria, talvez, “Trem fantasma”. Já não adianta avisar...


A transferência dos votos de Lula, segundo as pesquisas

Institutos MDA, Ibope e Datafolha mediram o potencial do vice petista, Fernando Haddad, que deverá assumir a cabeça de chapa se confirmada a negativa do registro do ex-presidente

Eleições2018

 

 

Cadeiras na convenção do PT com a máscara de Lula

 

Uma das principais incertezas que rondam as eleições presidenciais de 2018 é se Luiz Inácio Lula da Silva, líder em todas as pesquisas de intenção de voto, terá capacidade de transferir o apoio que tem hoje ao seu candidato a vice, Fernando Haddad.

O ex-presidente da República foi registrado na Justiça Eleitoral como nome do PT ao Palácio do Planalto, mas está preso desde 7 de abril em Curitiba, cumprindo pena de detenção de 12 anos e 1 mês imposta pela Operação Lava Jato no caso tríplex.

Essa condição penal, com condenação em primeira instância pelo juiz Sergio Moro e confirmação em segunda instância por três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, enquadram o líder petista na Lei da Ficha Limpa.

A Lei da Ficha Limpa considera inelegíveis políticos condenados por órgãos colegiados (com mais de um magistrado) por crimes como corrupção e lavagem de dinheiro. É exatamente o caso de Lula.

Para ser retirado da disputa, no entanto, o Tribunal Superior Eleitoral precisa analisar seu caso e chegar a uma decisão. Depois, o ex-presidente tem direito a recursos. A palavra final poderá ficar com o Supremo Tribunal Federal.

As chances de Lula ser impedido são altas. Mas não se sabe exatamente quando isso vai acontecer. O PT tem até 20 dias antes da votação de primeiro turno, que será em 7 de outubro, para substituir seu nome, colocando Haddad na cabeça de chapa. Depois desse prazo, o partido pode ficar sem representante na urna.

As primeiras pesquisas de intenção de voto divulgadas após o início oficial da campanha eleitoral, em 16 de agosto, trazem alguns detalhamentos sobre a possibilidade de transferência de votos de Lula. Veja abaixo o que três institutos detectaram até aqui.

Os resultados do Datafolha

O levantamento do Datafolha foi feito para o jornal Folha de S.Paulo e divulgado na quarta-feira (22). O instituto realizou 8.433 entrevistas entre os dias 20 e 21 de agosto, com margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Cenário um

 

No cenário sem Lula, Jair Bolsonaro, candidato do PSL, assume a liderança, seguido de Marina Silva, nome da Rede ao Palácio do Planalto. Chama atenção, porém, o número de pessoas que optam pelos votos em branco ou nulos ou que dizem que não sabem em quem votar.

Cenário dois

Diante da questão do provável impedimento de Lula, o Datafolha perguntou a todos os entrevistados, tanto os que declaram voto no petista quanto os que não declaram voto nele: o apoio de Lula levaria você a escolher um candidato? A pergunta leva em conta a alta chance de o ex-presidente ser barrado pela Lei da Ficha Limpa.

Eleitores no geral

O Datafolha também perguntou para entrevistados, eleitores ou não de Lula, quem, na opinião deles, o ex-presidente vai apoiar uma vez que tenha a candidatura barrada.

Eleitores no geral

 

Os resultados do Ibope

A pesquisa Ibope foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo e divulgada no fim da tarde de segunda-feira (20). O levantamento ocorreu entre os dias 17 e 19 de agosto, com 2.002 entrevistas. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Cenário um

 

No cenário sem Lula do Ibope, Jair Bolsonaro, candidato do PSL, também assume a liderança. Mais uma vez os índices de intenção de voto em branco ou nulo e de quem não sabe em quem votar disparam.

Cenário dois

 

O Ibope tentou aferir a questão da transferência de votos de Lula a partir de dois critérios. Primeiro, fez a seguinte pergunta para o universo total de entrevistados: se Lula for impedido de disputar a eleição e declarar apoio a Fernando Haddad, você votaria nele?

Eleitores no geral

O instituto também tentou medir a transferência de votos apenas entre os entrevistados que declararam apoio a Lula. A pergunta foi a mesma: se Lula for impedido de disputar a eleição e declarar apoio a Fernando Haddad, você votaria nele?

Eleitores de Lula

Os resultados do MDA

O levantamento do instituto MDA foi encomendado da Confederação Nacional do Transporte e realizado entre 15 e 18 de agosto, com 2.002 entrevistados. Os dados foram divulgados no fim da manhã de segunda-feira (20). A margem de erro da pesquisa é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Cenário único

 

O instituto não divulgou o cenário sem Lula, como o Datafolha e o Ibope. Mas tentou aferir o destino do voto do ex-presidente entre os 37,3% que hoje dizem que o apoiam. Para onde vão esses votos se o presidente realmente ficar de fora da corrida presidencial?

Eleitores de Lula

A arriscada estratégia petista

Atualmente, o PT mantém o discurso segundo o qual Lula é o candidato. Ou seja, Haddad não vem sendo apontado abertamente como um nome que está em disputa pelo Palácio do Planalto e sendo apoiado diretamente pelo ex-presidente, apesar de já viajar em agendas eleitorais pelo país. Vale lembrar que esta é uma campanha curta, de cerca de um mês e meio até o primeiro turno, metade do tempo das corridas presidenciais anteriores.

“O desafio do PT será, caso se confirme a inelegibilidade de Lula, conseguir comunicar a tempo a candidatura de Fernando Haddad e o quanto ele representa de fato um substituto do ex-presidente”, escreveram Mauro Paulino e Alessandro Janoni, diretores do Datafolha, em análise publicada nesta quarta-feira (22) no jornal Folha de S.Paulo.

Eles completam: “Haddad chega a ser menos conhecido entre os lulistas fiéis do que entre os seus detratores. Quase metade dos que enaltecem o ex-presidente, tanto como candidato quanto como cabo eleitoral, não sabe quem é Haddad, mesmo que só de ouvir falar”.

As outras incertezas da campanha

A disputa presidencial de 2018 tem 13 candidatos ao Palácio do Planalto. As incertezas que a cercam não estão limitadas à transferência de votos de Lula, apesar de essa ser uma das principais dúvidas que rondam a campanha.

Jair Bolsonaro, candidato do PSL, vem se firmando na segunda colocação e assumindo a ponta com a ausência de Lula. O problema do capitão da reserva é a falta de estrutura partidária e o pouco tempo de rádio e TV que terá na propaganda eleitoral, que começa em 31 de agosto. Bolsonaro tentará manter o apoio a partir de uma ampla rede de defensores que atua de maneira forte nas redes sociais.

Outra incógnita é Geraldo Alckmin. O candidato tucano conseguiu fechar a maior aliança da eleição, incluindo um acordo com os partidos do chamado centrão. A coligação garantirá ao tucano o maior tempo de rádio e TV entre os presidenciáveis a partir de 31 de agosto. A dúvida que fica é se a exposição nos meios tradicionais de comunicação de massa será capaz de alavancar sua candidatura. Hoje sua intenção de voto não chega a dois dígitos.

 


MÁS NOTÍCIAS

Paulo Timm – Especial A FOLHA, Torres – RS Agosto 10

 

Houve tempo em que as más notícias tinham um caráter eminentemente familiar. Catástrofes longínquas levavam tanto tempo para serem conhecidas que suas consequências se dissolviam pelo caminho. As cartas privadas, porém, fluindo rápido pelos Correios, desde a Antiguidade, carregavam consigo uma carga emocional intensa. Sobretudo quando falavam de amores, principalmente amores desfeitos. Uma das grandes peças pictóricas de Rodolfo Amoedo , grande pintor brasileiro, desenhista, professor e decorador , que viveu entre 1857 e 1941, foi, justamente, “ Más notícias”. Mostra o desalento da donzela diante do que se supõe o cortante fim epistolar de um romance. Hoje não se escrevem mais cartas. O gênero deu lugar ao MSG cifrado das redes sociais e amores se iniciam e acabam ao sabor do dia. Outros tempos. Em compensação, somos bombardeados pela metralhadora eletrônica das imagens que se superpõem sem que possamos interpretá-las adequadamente. Sabemos dos fatos mas não os interligamos. Notícias do outro lado do mundo nos chegam on line, como se fossem nossas vizinhas de janela. Nem precisamos mais das namoradeiras plantadas em umbrais coloniais como Carolina ou a Moça feia da janela do Chico Buarque. Ou das irmãs Cajazeiras. A internet as substituiu na contemplação da vida que passa.

Hoje, cedo, duas más notícias me chamaram a atenção: O derretimento do planeta, sob o impacto negativo do efeito estufa, que está incendiando florestas pelo mundo inteiro, e o aumento de salários aprovado pelo Juízes da Suprema Corta do país e que provocarão um efeito em cascata, pela elevação do teto dos salários dos funcionários públicos para “míseros” R$ 39 mil , erodindo ainda mais, em várias instâncias, nos três níveis da hierarquia federativa, as já débeis contas públicas- https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/maioria-do-stf-aprova-proposta-de-reajuste-de-1638-para-magistrados.shtml

LAVAJATO : LEVAJEITO? ORESSA!
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43432053

“Devolvidos” – mas não imediatamente -  R$ 11 bilhões sobre um desvio global de recursos estimado em 48 bilhões de reais, em quatro anos.  Registre-se que este montante foi desviado não apenas em um ano mas ao longo de vários anos. Mas, admitindo que tudo isso tivesse sido desviado/roubado em apenas um ano, o que significa isso, comparado  com o PIB, com a Receita da União em Impostos e Taxas e  outras despesas?


1.Dado que o PIB anual  é estimado nos últimos anos em R$ 6 trilhões, os desvios correspondem a menos de 1% deste valor Tomando-se a Receita União em R$ 2 tri, numa relação proxi de 30% do PIB, os desvios sangraram pouco mais de 2% deste valor. Ou seja, apesar de absolutamente criminoso o desvio de recursos públicos não explica a crise. São valores senão marginais, relativamente muito baixos.

Veja-se, por exemplo, a título de comparação, algumas despesas "legais":

2.Auxilio Moradia do Judiciário : R$ 1 bilhão anual.  A um custo de R$ 74 milhões por mês; maior gasto é da Justiça estadual de São Paulo - https://noticias.r7.com/…/auxilio-moradia-de-juizes-pode-cu…

3.Fundo Partidário: R$ 1 bilhão por ano.  Veja como funciona:http://www.politize.com.br/fundo-partidario-como-funciona/

4.Fundo Eleições 2018 - Quanto cada partido vai ganhar do contribuinte brasileiro para fazer campanha em 2018 : O PMDB e o PT serão os maiores receptores de recursos públicos do fundo eleitoral. Os dez maiores partidos ficarão com 73,5% do total de R$ 1,716 bilhão. -https://www.gazetadopovo.com.br/…/quanto-cada-partido-vai-g…

5.Custo do Legislativo - União, Estados, DF : R$ 12,5 bilhões. A fatia do Orçamento da União destinada ao Congresso Nacional (R$ 6,1 bilhões) chega perto de equivaler à soma do Orçamento destinado ao legislativo em todos os estados e capitais do país (R$ 6,4 bilhões).
http://www.diap.org.br/…/14030-quanto-custa-um-parlamentar-…~

 

6.Valor pago para auxílio-paletó daria para sustentar 17 mil famílias

Com a atual crise que assombra os brasileiros, milhões voltaram à extrema pobreza, precisando de benefícios do governo, como o Bolsa Família. Existem atualmente 551 mil famílias na fila à espera do benefício. O valor é de R$ 85 por filho, não ultrapassando o valor máximo de R$ 306 por família.

 

Na contramão dos brasileiros que estão tentando sobreviver desempregados e sem renda, estão os parlamentares. Esses têm um salário de R$ 33.763 (35 vezes o salário mínimo atual), auxílio-moradia de R$ 4.253 ou apartamento de graça para morar, verba de R$ 92 mil para contratar até 25 funcionários, e verba de R$ 30.416,80 a R$ 45.240,67 por mês para gastar com alimentação, aluguel de veículo e escritório, divulgação do mandato e outras despesas.

 

Além disso, apenas o auxilio-paletó pago aos políticos do Congresso Nacional e de 16 assembleias legislativas no Brasil custa R$ 63,1 milhões aos cofres públicos, por ano. Esse mesmo valor poderia sustentar, por quatro anos, 17 mil famílias que vivem na extrema pobreza, com o benefício máximo do Bolsa Família, de R$ 306 mensais.

Em vez disso, no ano passado o governo fez o maior corte da história no benefício, excluindo do Programa Bolsa Família 1,5 milhão de famílias, o que representa 4,3 milhões de pessoas, a maioria crianças.

 

7.Pagamento anual de Juros e gestão da Dívida Pública da União: R$ 500 bilhões. - Ver www.auditoriacidada.org.br

DIVIDÔMETRO

QUANTO PAGAMOS (JUROS E AMORTIZAÇÕES) – DÍVIDA PÚBLICA FEDERAL

EM 2016

R$ 1.130.149.667.981,00 = 3,1 BI / DIA

1 TRILHÃO, 130 BILHÕES, 149 MILHÕES, 667 MIL REAIS

EM 2017

R$ 986.110.833.381,00 = 2,7 BI / DIA

986 BILHÕES, 110 MILHÕES, 833 MIL REAIS

QUANTO “DEVEMOS”

Entenda esses números

DÍVIDA INTERNA FEDERAL – DEZ/2017

R$ 5.094.970.665.512,80

5 TRILHÕES, 094 BILHÕES, 970 MILHÕES, 665 MIL REAIS

 

 

 

8. Custo dos subsídios do Governo Central relativo a 30 centavos por litro de óleo diesel, resultante do acordo para término da greve dos caminhoneiros – junho 2018 - , a ser transferido à PETROBRAS em 2018: R$ 10 bilhões~.

 

 

 

BBC.COM

Lava Jato: MPF recupera R$ 11,9 bi com acordos, mas devolver todo dinheiro às vítimas pode levar décadas

Operação completa quatro anos, e procuradores tentam ressarcimento total de R$ 44,4 bilhões e recuperar US$ 1 bilhão de 1 mil contas bloqueadas na Suíça

A Lava Jato completa quatro anos e, a essa altura, o montante calculado pela força-tarefa a ser ressarcido aos cofres públicos é de R$ 44,4 bilhões. A soma é pleiteada nas diversas ações judiciais propostas por procuradores federais em Curitiba e no Rio de Janeiro.

"Das nossas ações cíveis, apesar da tramitação no Paraná ser mais rápida, não tivemos nenhuma julgada em primeiro grau. Nosso processo judicial é muito lento, muito difícil", afirma à BBC Brasil, o procurador Paulo Galvão, integrante da força-tarefa no Paraná, referindo-se aos pedidos judiciais de reparação de danos que em Curitiba somam R$ 38,1 bilhões e, no Rio, R$ 2,34 bilhões.

Os valores reivindicados na Justiça - nos quais estão incluídos os R$ 3,2 bilhões bloqueados judicialmente entre bens e contas de réus - só poderão ser repassado às vítimas diretas dos crimes investigados pela Lava Jato quando não houver mais a possibilidade de recursos judiciais.

Um desses bens bloqueados é o triplex do Guarujá, que o Ministério Público Federal diz ter sido dado pela OAS como propina ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nega a acusação. O imóvel vai a leilão em maio, e o dinheiro da venda será depositado numa conta judicial até o fim da ação.

"A tendência, se não houver acordo, é que (os valores) fiquem bloqueados por anos a fio, até o final do processo", diz o procurador."Essa é a principal dificuldade porque, no nosso sistema, esses processos contra crimes de colarinho branco simplesmente não andam, dificilmente chegam ao final", lamenta Galvão.

Por meio de acordos de colaboração e de leniência, procuradores do Rio e de Curitiba já conseguiram assegurar que um total de R$ 11,9 bilhões serão restituídos - um recorde na história brasileira. Mas até mesmo o repasse desse montante às vítimas pode demorar décadas.

Isso porque há empresas e réus que ainda estão pagando os valores que concordaram em restituir aos cofres públicos. Alguns acordos preveem devolução em até duas décadas. Desde 2015, a Petrobras já recebeu 14 repasses, que totalizam R$ 1,5 bilhão, ou o equivalente a cerca de 13% do dinheiro recuperado.

"Vai demorar um pouco para quitar, mas é um dinheiro que não tem controvérsia. Tem prazo para pagar", pondera Galvão, dizendo que os R$ 11,5 bilhões em processo de repatriação serão praticamente todos devolvidos diretamente às vítimas.

 

Questionada com que tipo de atividades e iniciativas a empresa usou o dinheiro, a Petrobras se limitou a responder que "os valores retornam para o caixa da companhia".

 

A Petrobras também tenta recuperar dinheiro que foi desviado de seus cofres. "Reconhecida pelas autoridades como vítima da corrupção investigada, a Petrobras adota medidas jurídicas contra empresas e pessoas, inclusive ex-funcionários e políticos, que causaram danos financeiros e à imagem da companhia", informou a empresa à BBC Brasil.

A companhia é coautora, com o MPF e a União, de 13 ações de improbidade administrativa em andamento e é assistente de acusação em 43 ações penais.

Mas nem todo o dinheiro que o MPF diz já ter recuperado vai para a Petrobras. "Há diversas outras vítimas. Tem Eletrobras, tem Estados, municípios, Caixa Econômica, uma série de outros órgãos. No caso da Andrade (Gutierrez), tem os estádios da Copa. Não é só Petrobras, tem diversas entidades públicas lesadas ao redor do Brasil", explica Paulo Galvão.

 

Legenda da imagem

 

Diferentemente das investigações conduzidas em Curitiba, que identificou vítimas determinadas, o procurador explica que, no Rio de Janeiro, até o momento, o maior lesado foi o próprio Estado. Por isso, no Rio, é possível que se defina previamente como o dinheiro devolvido deve ser usado. Isso significa que, a depender da Justiça, pode-se determinar que o montante restituído seja aplicado, por exemplo, em segurança pública.

A força-tarefa da Lava Jato no Rio recuperou, até o momento, R$ 451,5 milhões em 16 acordos de colaboração já homologados. Deste total, R$ 250 milhões já foram devolvidos ao governo do Estado em março de 2017 e permitiram o pagamento do 13º salário atrasado de cerca de 146 mil aposentados.

Exigência

Antes da Lava Jato, o procurador Paulo Galvão diz que, somados todos os casos da história de corrupção do país, o Brasil tinha recuperado US$ 15 milhões, algo em torno de R$ 148 milhões em valores atuais. Só de valores no exterior, a Lava Jato já recuperou um montante cinco vezes maior: R$ 763 milhões.

Isso só foi possível, de acordo com o procurador, porque quem assina acordo de delação autoriza obrigatoriamente o repatriamento do dinheiro que mantém no exterior. Autoridades brasileiras conseguiram uma sintonia inédita com o Ministério Público da Suíça. O país é o favorito de grande maioria dos investigados e réus da Lava Jato para guardar dinheiro.

 

Normalmente, os procuradores suíços conseguem o bloqueio imediato de contas sob suspeita, mas só devolvem os valores depois que o processo chegue ao fim e não haja mais possibilidade de recursos.

 

"Uma condenação até a última instância no Brasil é tão difícil, principalmente nos casos de colarinho branco, de empresários e políticos, que corremos o risco de devolverem o dinheiro (ao corrupto) ao invés de mandarem o dinheiro de volta para cá. Isso mostra, na verdade, a ineficiência do nosso sistema de Justiça para punir as pessoas", observa Paulo Galvão.

Mil contas

Depois que a Lava jato foi deflagrada, os dois países passaram a atuar de forma alinhada. Além de trocarem informações, a Suíça também transferiu suas próprias investigações ao Brasil, como aconteceu no caso do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que está preso desde outubro de 2016.

Ele sempre negou manter contas no exterior, mas autoridades da Suíça encaminharam à Procuradoria Geral da República (PGR) documentos que comprovaram contas bancárias secretas do deputado, da mulher e da filha no país europeu. Além da reprodução dos documentos pessoais como passaporte, assinatura e dados pessoais do ex-deputado, os arquivos enviados pela Suíça mostraram que o emedebista manteve uma conta bancária nos Estados Unidos ao longo de 17 anos.

 

Paulo Galvão conta ainda que a Suíça mantém no momento 1 mil contas bloqueadas de brasileiros investigados pela Lava Jato. Uma das frentes de investigação dos procuradores tem sido os titulares dessas contas.

 

Segundo o procurador, o próprio Ministério Público da Suíça já afirmou que a Lava Jato é "o maior caso de lavagem de dinheiro da história do país".

Além da Suíça, o Brasil apresentou 215 pedidos de cooperação a 41 países diferentes. A maioria deles, segundo o MPF, está relacionada a contas dos investigados no exterior.

Apesar de afirmar que há acordos sendo negociados, Paulo Galvão admite que o número de colaborações têm diminuído.

"Existe uma fila grande de empresas batendo na nossa porta para fazer acordo com todos, mas a gente entende que não cabe acordo com todos; senão a gente desmoraliza a punição da investigação", argumenta, emendando que ainda há muito material a ser analisado e dinheiro a ser devolvido do esquema de corrupção e lavagem de dinheiro descoberto pela Lava Jato.

O procurador explica, contudo, que na hora de assinar uma colaboração, "um dos fatores a considerar é o da recuperação do dinheiro". Por isso ele diz que há ainda mais acordos por vir.

CONJUNTURA NACIONAL

 

Três verdades insofismáveis:- Pensando melhor...

Paulo Timm ·


1.Em todas as Pesquisas Eleitorais à Presidência entre 40 e 60% dos eleitores ainda estão indecisos. Não sabem em quem votar em Outubro.As preferências anotadas referem-se, pois a apenas 40% dos consultados.

2. Todas as Pesquisas induzidas por cartões com os nomes de candidatos indicam, também, não só uma enorme preferência por LULA, como sua vantagem superior à soma dos concorrentes.

3, Dada a grande indecisão dos eleitores e a sombra que ainda pesa sobre a efetiva candidatura de Lula - ou sobre o nome que ele indicar para substitui-lo no pleito, estamos longe, ainda, de um cenário claro acerca da eleição presidencial

CONCLUSÃO: Todos os candidatos são candidatos não à Presidência, mas a se classificarem para um segundo turno pois tudo indica que haverá uma grande dispersão de votos no primeiro turno

 

Estado de espírito: Opinião de PARNAHYBA🇧🇷 - Por Gilson Victorino – 27 jul –

CENTRÃO, BLOCÃO, COOPTAÇÃO, PRESIDENCIALISMO DE COALISAO

 

Que democracia é essa na qual a sociedade, apesar de deter a possibilidade de votar tem, de fato, seus anseios encabrestados por políticos, por si mesmos, feitos irremovíveis em sombrias manobras parlamentares.

 

No fundo, vê-se a sociedade coadjuvante nas mãos de pessoas, absolutamente, desprovidas de espírito público, desditosos seres que, no afã de gozar imerecidos privilégios e benesses, se fazem de moucos ao estabelecido no & único do Art 1o da Constituição Federal. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta constituição

 

Se tal se constata, se a sociedade é conduzida como bovinos em pacata comitiva, é bom olhar para a História e ver que para tudo há limites. Que sempre haverá os que não se conformam com o determinístico abate. Então, como diz Fernando Gabeira em seu artigo de hoje veiculado na mídia Estado: “Os filósofos discutem uma saída para essa maldição entre o suicídio e a revolta”, é bom refletir!

 

Não é mais uma questão de caminhos à esquerda, direita ou centro. O cenário nos mostra Poderes sem a prescrita harmonia constitucional e instituições fragilizadas por aparelhamento nada republicano,  a nos indicar que caminhamos, céleres, para um inevitável Estado totalitário dominado por uma ordem oficial cleptômana.

 

Eu não me conformo e não vou me suicidar!

 

NADA A BOMBORDO!

 

Tá difícil...
Benedito Tadeu César: FB 25 julho

Os cidadãos brasileiros, diferente dos argentinos, têm demonstrado que não se mobilizam para grandes manifestações populares, como as greves gerais ou as ocupações de ruas. Eles se mobilizam por eleições. Foi assim em 1950, 1966 (o que levou a ditadura militar a eliminar os partidos e as eleições diretas) e, acredito, será o que acontecerá agora, caso haja eleições e, claro, caso seu resultado seja respeitado.
Tenho dúvidas se o PT e Lula acertarão o timing para a indicação do candidato substituto, caso Lula seja definitivamente impedido, e se indicarão o melhor nome que, na minha leitura, é Celso Amorim.
Entendo, entretanto, que a manutenção da candidatura de Lula está sendo correta até agora e que a unidade das esquerdas se dará por ação da força de atração de Lula e do PT.
Defendi, durante, pelo menos, os últimos dois anos, a possibilidade é a necessidade de construirmos uma Frente Ampla Democrática e antifascista. O "centro" político brasileiro se revelou mesquinho e antidemocrático, quando se aliou ao dito "centrão" que é o que há de ooior na política brasileira, muito próximo, ainda que não idêntico, ao lixo do Bolsonaro.
Hoje, sem Lula e sem PT não há como fazer frente ao "centrão".

 

Paulo Baía. RJ - FB

 

Não chega a ser uma contradição a perspectiva de uma polarização PSDB x PT ser projetada pela maioria dos analistas políticos.
Os dados eleitorais do TSE e o papel de socialização de "MARCAS" pela televisão são um fato quase inconteste.
O curioso é que a sociedade está alerta à dicotomia real de nosso drama societal.
A polarização existente é a dos que são contra a corrupção e dos contemplados pelo "Estado Corrupto".
Continuo com a convicção de que pelo menos 50% dos eleitores registrados não encontram alternativas no cardápio de opções impostas pelos partidos políticos.
Consolidado o ambiente de escolhas entre "Geraldo Alckmin" e "Lula/PT substituto" teremos mais um governo "Temer/Dilma" ampliado e em dissonância com a sociedade.
A reforma política eleitoral desenhada sob medida pelo PT, PSDB, PTB, DEM, PPS e "Centrão" em 2017 será vitoriosa em outubro de 2018.
O modelo de gestão "Dilma/ Temer", ao consolidar sua vitória com a eficiência das máquinas partidárias e governamentais, aumentará o tempo de agonia e desalento da maioria da sociedade brasileira; e não adianta responsabilizar a sociedade e os eleitores pela tragédia anunciada, a população é vítima do monopólio das oligarquias partidárias e parlamentares que vivem em um sistema de autoreprodução e fechado em casta.
O codidiano de ilicitudes será soberano, afrontando a indignação desalentada da sociedade brasileira.
Mas tenho esperança que os rumores da indignação desalentada de 2018 tomem outro formato após 2019.
Sempre acredito na vida e não na morte das ideias generosas.
Nos preparemos para o turbilhão de escândalos de um provável governo Geraldo Alckmin ou Lula/PT, já que Marina Silva, Jair Bolsonaro e Ciro Gomes parecem descartados pelo sistema eleitoral.

 

Pesquisa CUT/Vox Populi: Com 41%, Lula segue disparado e seria eleito no primeiro turno

https://www.marica.rj.gov.br/2018/07/13/prefeitura-entrega-ceo-e-clinica-de-ortodontia/

A soma de todos os demais candidatos atinge 29%: Bolsonaro, 12%; Ciro Gomes, 5%; Marina Silva, 4%; Geraldo Alckmin, 4%; Manuela D’Ávila, 1%; Álvaro Dias, 1%; outros, 2%

 

(foto: Ricardo Stuckert)

Por Redação

  

Apesar de estar preso há mais de 100 dias na sede da Polícia Federal, em Curitiba, o ex-presidente Lula atingiu 41%, continua disparado nas intenções de voto e seria eleito no primeiro turno, caso as eleições fossem hoje, segundo nova rodada de pesquisa CUT/Vox Populi, realizada entre os dias 18 e 20 de julho. Nas simulações de segundo turno, Lula também derrotaria qualquer adversário por ampla margem de votos. As informações são da CUT.

Pesquisa estimulada

No cenário estimulado, quando os nomes dos candidatos são apresentados aos entrevistados, as intenções de voto em Lula aumentaram para 41% contra 39% registrado em maio.

Já a soma de todos os outros adversários alcançou 29%, segundo o levantamento, divulgado nesta quinta-feira (26).

No segundo lugar, com praticamente um terço das intenções de votos de Lula, está o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que se manteve com 12%; seguido por Ciro Gomes (PDT), que alcançou 5%. Marina Silva (Rede) caiu de 6% para 4%, empatando com Geraldo Alckmin (PSDB), que também registrou apenas 4%.

Manuela D’Ávila (PC do B) e Álvaro Dias (Podemos) têm cada um 1% das intenções de votos. Os entrevistados que disseram que irão votar em outros candidatos são 2%. O percentual dos que não vão votar em ninguém, brancos e nulos totalizou 18% e não sabem ou não responderam, 12%.

Nordeste

Na região Nordeste, o ex-presidente Lula tem 58% das intenções de votos, contra 8% de Ciro, seguido por Bolsonaro, com 7%. Alckmin aparece com 3% e Marina caiu de 6% para 2%. Os demais não pontuaram.

Aumentam as intenções de votos no Sul

No Sul, aumentaram de 31% para 34% as intenções de voto em Lula. Em segundo lugar aparece Bolsonaro, com 19%, seguido por Álvaro Dias, que caiu de 10% para 5%, empatando com Ciro Gomes (5%). Marina e Alckmin também aparecem empatados com 4% cada. Manuela tem 1% e outros 4%.

No Sudeste, Lula tem 33% das intenções de voto contra 12% de Bolsonaro. O candidato tucano, Geraldo Alckmin, apesar de governar São Paulo por quase 14 anos, aparece com apenas 6% das intenções de votos na região. Marina tem 4%; Ciro 2%; Manuela e Álvaro Dias 1% cada; e outros 3%. O percentual dos que não vão votar em ninguém, brancos e nulos atingiu o maior índice no Sudeste, sendo a opção de 25% dos entrevistados.

Centro-Oeste e Norte

Nessas duas regiões, Lula também é o preferido pelo eleitorado e tem 39% das intenções de votos. Em segundo lugar aparece Bolsonaro com 17%, seguido por Marina (8%); Ciro (6%); Alckmin (2%); Álvaro Dias (1%); e outros (1%).

Cenário espontâneo

Na pesquisa espontânea, Lula também está bem na frente dos demais candidatos.

O ex-presidente passou de 34% para 37% das intenções de votos. Bolsonaro se manteve em segundo lugar, com 10%; Ciro tem 3%; Alckmin caiu de 3% para 2% e segue empatado com Marina Silva (2%) e com o ex-presidente FHC, citado por 2% dos entrevistados.

Joaquim Barbosa, Sergio Moro, Aécio Neves, Eduardo Jorge e Álvaro Dias aparecem com 1% das intenções de voto cada.

Os que disseram que vão votar em outros candidatos alcançaram 3%. Ninguém, brancos e nulos 18% e não sabem ou não responderam 18%.

Segundo turno

Nas simulações de segundo turno, Lula derrotaria todos os adversários com tranquilidade.

O ex-presidente tem 50% das intenções de votos contra 16% de Bolsonaro (em maio Lula tinha 47% e Bolsonaro 16%).

Lula também ganharia com folga da candidata da rede com 50% dos votos contra 12% de Marina (em maio o placar era de 45% contra 14%).

Contra Ciro, o resultado é semelhante. Lula tem 50% das intenções de voto e o candidato do PDT apenas 11%.

Já quando o adversário é Alckmin, o ex-presidente Lula passa dos 50% para 52% das intenções de votos contra apenas 10% do candidato tucano (em maio, Lula tinha 47% contra 11% de Alckmin).

A pesquisa CUT/Vox Populi foi realizada com brasileiros de mais de 16 anos, residentes em áreas urbanas e rurais, de todos os estados e do Distrito Federal, em capitais, regiões metropolitanas e no interior, de todos os estratos socioeconômicos.

Foram ouvidas 2.000 pessoas, em entrevistas feitas em 121 municípios. Estratificação por cotas de sexo, idade, escolaridade e renda. A margem de erro é de 2,2 %, estimada em um intervalo de confiança de 95%.

 

WANDERLEY GUILHERME: PT CONVERTEU “SOLIDARIEDADE” A LULA EM “INACEITÁVEL CULTO À PERSONALIDADE”

https://www.ocafezinho.com/2018/07/24/wanderley-guilherme-pt-converteu-solidariedade-a-lula-em-inaceitavel-culto-a-personalidade/

 

A SEDUÇÃO DA TIRANIA

Por Wanderley Guilherme dos Santos, no Segunda Opinião
24 de julho de 2018

A eleição presidencial de 2018 esteve ganha pela oposição enquanto a única referência dos conservadores era a associação com o monumental desastre de Michel Temer. Hoje, “Michel Temer” virou espantalho a ser inflado e agitado durante a campanha eleitoral. Mas não está claro se o eleitorado votará contra os conservadores por sua conexão ao golpe parlamentar ou se os favorecerá na renovada expectativa de derrotar um candidato, imbatível há quatro disputas, sustentado nuclearmente por PT, PSB, PDT e PC do B. Hoje, dilacerou-se o conjunto quatro vezes vencedor: o Partido dos Trabalhadores, hegemônico, não contará com os votos unânimes dos partidos que sempre o apoiaram e nem mesmo com a totalidade de seu próprio eleitorado.

Hoje, a nuvem da política mudou drasticamente de silhueta.

Depois de sucessivas derrotas jurídicas e tímida resposta dos movimentos nas ruas, o PT iniciou o afastamento da realidade com a campanha autodestrutiva de que uma eleição sem Lula seria fraude. Não registrou a indiferença do aparato judiciário e policial às ralas manifestações de adesão nas grandes cidades, adotando o contraditório movimento de negar legitimidade às decisões da justiça e a ela recorrer, confiando no nobre critério de neutralidade dos operadores. Parecia agir na presunção de que ou as críticas contra o judiciário convinha como propaganda ou de que conseguiria persuadi-lo pela força dos argumentos.

As acusações da esquerda contra o Judiciário, contudo, têm granítica procedência. Infrações e arbitrariedades jurídicas fazem parte do consenso que inclui a avassaladora maioria dos partidos políticos, o eficaz mecanismo do sistema globo de informação para iludir a opinião pública, todos os órgãos de representação do capital e, por fim, a maioria do Judiciário, extensamente comprometido com aberrações jurídicas desde o julgamento da Ação Penal 470. E a cláusula pétrea do golpismo consiste em impedir o retorno da centro-esquerda ao circuito de poder político. Não se trata, aqui, de frívolo recurso de retórica partidária, mas refletido juízo sobre a dissimulada conspiração que o caricato impedimento de Dilma Rousseff desnudou.

Depois de reconhecido o vazio das ameaças de que o MST, substituindo a já clara impotência da CUT, ocuparia cidades e praças contra as arbitrariedades de Sergio Moro, a discussão sobre eventual resistência à ordem de prisão elevou os dirigentes petistas a superior patamar de desvario. Em seguida ao que jamais aconteceria, a prisão de Lula, o roteiro delirante aproveitou a solidariedade à indiscutível vítima de perseguição política, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, convertendo-a, por intimidação, em inaceitável culto à personalidade de um irreconhecível candidato presidencial Lula.

Hoje, há um Lula indulgente com o totalitarismo dos diretores do PT, da CUT, do MST, transtornado em fanatismo em muitos militantes, e candidato que mantém refém grande parte das forças populares. Mais preocupado em derrotar competidores em seu próprio lado do que impedir a vitória da reação. Todos os quadros do PT e partidos próximos, além de personalidades historicamente admiradoras do extraordinário ex-metalúrgico, têm sido apresentados a um enigmático Lula, messiânico e expropriador da vontade autônoma das forças populares.

Antes, o destino de Lula se associara ao destino dos pobres; hoje, Lula pretende que o destino das massas se associe ao seu, aprisionado a um combate mesquinho contra um personagem nanico – o juiz Sergio Moro. Os democratas esperam que o preço não seja a vitória da reação, com o encarceramento real da população pobre a seu destino miserável.

 

 

Xadrez da lógica do PT com as eleições, por Luis Nassif

https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-logica-do-pt-com-as-eleicoes-por-luis-nassif

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TER, 24/07/2018 - ATUALIZADO EM 24/07/2018 - 21:08

Luis Nassif

 

Na terça-feira participei de uma reunião com estrategistas da Executiva do PT. O tema principal da conversa foi a decisão de manter a candidatura de Lula até o último momento.

No geral, concordam com todos os riscos apontados no artigo “Xadrez da maior aposta de Lula”. Mas levantam argumentos sólidos a favor da tese da candidatura de Lula. Em todo caso, o que se tem, na opinião abalizada de um dos presentes, é uma nova etapa, caótica e imprevisível como foram os anos 30 e 80, tornando impossível definir como será o novo.

Peça 1 – os ativos do PT

Os dois principais ativos do PT são:

1.    Eleitoral: garante as eleições imediatas.

É o partido com maior número de eleitores e o candidato, Lula, favorito absoluto para as próximas eleições. Mas tanto o governo Dilma quanto o candidato Lula alvos do golpe do impeachment, tentando impedir sua candidatura. Atropelando a Constituição e as leis, o golpe tenta impor uma derrota eleitoral a Lula.

2.    Político: garante a perenidade do partido.

No caso de Lula-PT, seu acervo político é o projeto de desenvolvimento social do partido, já testado e aprovado no período Lula, com defesa da produção nacional e da distribuição de parte dos benefícios do desenvolvimento. É o que legitima partidos, garantindo sua perenidade.

A intenção do golpe não foi apenas inviabilizar eleitoralmente o PT, mas matar politicamente Lula. É o que explica os abusos reiterados contra seus direitos, desde os factoides dos pedalinhos até a invasão da sua casa, revirando até sua cama, o grampo nos escritórios de advocacia que o defendem, a condução coercitiva e a sequência monumental de acusações repetidas por todos os meios de comunicação.

E, no entanto, o resultado final representou uma derrota política do golpe. O movimento tornou explícitas as jogadas políticas no Judiciário, Ministério Público, Executivo, Mídia, vitimizou Lula, gerou reações internacionais, aumentou sua popularidade e aprovação, conferindo-lhe uma vitória política expressiva. Prenderam o homem, nasceu a lenda.

A intenção da candidatura Lula, para o PT, é preservar esse ativo.

Peça 2– os problemas da frente ampla

Como partido nacional, o PT padece das mesmas dificuldades do federalismo brasileiro: como manter a unidade nacional e, ao mesmo tempo, atender às peculiaridades de cada estado e cada candidato ao governo, cada qual montando seu arco de alianças?

Há convicção na Executiva do PT que, se não fosse o movimento em torno de Lula, o partido teria se dividido em arquipélagos regionais. Portanto, o primeiro motivo da candidatura Lula foi manter o PT unido.

segundo motivo – e mais relevante – é a preservação da vitória política. A história está repleta de precedentes de partidos que abdicaram da disputa política e não mais se recuperaram. É o caso do PC italiano e do próprio PCB brasileiro pós 64, que perdeu o protagonismo na esquerda, sendo substituído pelo próprio PT.

No entendimento dos estrategistas do PT, montar uma frente de esquerda e entregar a cabeça de chave a alguém de fora do partido seria jogar fora o protagonismo futuro do PT. Ou, na expressão de um dos estrategistas do PT,  “estariamos entregando de bandeja ao pacto autoritário a nossa visão de futuro. Assim, o golpe se materializaria”.

terceiro motivo foi o fato do PT, e Lula, terem se aproximado novamente das bases, das quais se afastaram no período em que foram poder. As caravanas e conferências e, especialmente, o contraste violento com o governo Temer, os abusos contra Lula, elevaram sua mística a níveis inéditos entre as classes de menor renda.

As pesquisas qualitativas, mesmo as manifestações espontâneas em diversos locais públicos – como a rodoviária de Brasília – mostram o mesmo discurso da parte dos entrevistados: lembram o que ganharam no governo Lula, o que estão perdendo agora e encaram a volta de Lula como único ponto de esperança. O tema comum é: “Eu quero meu futuro de volta”.

Há a identificação cultural e afetiva com o homem do povo, fruto do carisma pessoal de Lula. Mas há também uma base profundamente material, reforçada pelo desalento atual com o desemprego e com a deterioração dos níveis de emprego.

Se Lula abrir mão da candidatura, poderá ser encarado como traição. Se for impedido de se candidatar, reforçará os laços com a base.

Há um quarto motivo, a resistência a Ciro Gomes devido à sua trajetória política errática, pelas posições que tomou, de claro antagonismo ao PT e a Lula.

Peça 4 – os trunfos

Há esperanças vagas de que os tribunais não impeçam a candidatura Lula. Aferram-se ao caso Rosa Weber, que não acolheu representação do MBL para julgar antecipadamente o direito de Lula se candidatar. Seria um indício de que não haveria veto prévio à candidatura de Lula.

Avança-se também na conversa com partidos de esquerda mais próximos.

·         Com PCdoB há alguma ambiguidade. Mesmo que a cúpula vá com Ciro, a base é lulista, devido à penetração de Lula no Nordeste. O PCdoB precisará desse lastro nas eleições de Flávio Dino, no Maranhão, e da senadora Vanessa Graziottin, no Amazonas.

·         Com PSB a diferença é mais profunda. O novo PSB, que votou contra a reforma trabalhista, é essencialmente nordestino. No Sul, o PSB é mais conservador. Em Minas, a candidatura de Márcio Lacerda poderá atrapalhar o governador Fernando Pimentel. O divisor de águas é Pernambuco, estado no qual o PSB precisará muito do PT, devido à possível candidatura de Marilia Arraes. Fechando o acordo, o PT abrirá mão da sua candidatura.

No plano programático, foram anunciadas as cinco ideias centrais da campanha:

·         Soberania popular

·         Nova era de direitos

·         Pacto federativo

·         Novo modelo de desenvolvimento

·         Transição ecológica para século 21

A entrevista de Fernando Haddad à Folha de hoje explicitou a proposta de casar responsabilidade social com ideias contemporâneas,de buscar a isonomia social através de leis e políticas testadas em grandes economias de mercado. Em suma, fugir da dicotomia rico x pobre, para modernos x anacrônicos.

Aliás, os setores liberais mais modernos já estão aceitando até acabar com a excrescência de isenção fiscal para ganhos de capital e dividendos.

Peça 3 – as agruras da direita

Considera-se que direita tem a força, mas não tem a legitimidade.

De uma lapada só o golpe liquidou com o pacto social de Lula, com a Constituição de 1988 e com a herança de Vargas. Foi gestada pelo PSDB, com a Ponte para o Futuro, implantada no governo Temer e será aprofundada no governo Alckmin.

É um projeto de poder que consiste em:

·         Venda das riquezas naturais

·         Privatização selvagem

·         Apropriação da renda do trabalhador e dos fundos sociais.

·         Eliminação das políticas sociais.

·         Destruição do conceito de nação.

Esse projeto não pode ser explicitado eleitoralmente, exigindo enormes malabarismos retóricos de seus defensores.

Na avaliação dos estrategistas do PT, a situação da direita é mais periclitante:

·         O quadro internacional.

A linha golpista dificilmente terá apoio do quadro internacional, devido ao acirramento da desglobalização. A Ponte para o Futuro tinha unidade de interesses externos e internos. A eleição de Donald Trump embolou. Agora, ficou difícil reconciliar o velho pacto do Real.

·         A armadilha recessiva. Golpismo não conseguiu se legitimar economicamente. Antes, as pessoas acreditavam que o desemprego era um problema de cada um. Agora, tornou-se claro que é um problema estrutural, de política pública com 28 milhões de pessoas procurando trabalho e até os que trabalham não tendo mais segurança.

·         As propostas em off

A direita não conseguiu produzir um projeto de país, uma visão de futuro minimamente razoável, nem um candidato competitivo. O único nome em que apostam, agora, é Geraldo Alckmin, que, na campanha, terá de esconder não apenas a natureza de suas propostas, como as alianças com o fisiologismo mais nefasto da República e as ligações com o governo Temer. É pouco?

Peça 4 – o plano B

Por tudo isso, a ideia é levar a candidatura Lula até o último momento. Sabem dos riscos, da aliança do golpe que junta Judiciário-mercado-mídia-Temer-PSDB. Mas entendem que o risco maior seria a esquerda passar por diluição no momento em que a direita radicaliza seu programa.

Para agosto, estão programados eventos em todo o país, pela libertação de Lula.

Se o Judiciário explicitar o estado de exceção e negar o registro, nesse caso lançar-se-á um candidato do PT que será a sombra de Lula. Terá que ter personalidade, lealdade, e, ao mesmo tempo, se limitar a ser o intermediário da palavra de Lula.  Na campanha, ele falará em nome de Lula e dirá que todas suas decisões são decisões de Lula.

Há convicção de que o ungido teria condições de passar para o segundo turno.

As pesquisas de opinião são amplamente favoráveis a Lula.

Há duas regiões que se equilibram: Nordeste, com o lulismo avassalador; e São Paulo com sua dose de antilulismo. Mesmo assim, notam-se melhorias do apoio a Lula no estado.

No Sudeste – Rio, Minas Gerais, Espírito Santo – a situação é favorável. Pesquisa recente em Minas, feita pelo PSB, mostrou Lula com 43% das intenções de voto contra 30% da soma dos demais.

As incógnitas são o Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – e o centro-oeste. Por lá, região mais conservadora do país, observa-se um crescimento surpreendente da candidatura Lula.

Mesmo assim, a expectativa maior é de derrota do segundo turno. Mas, na opinião dos estrategistas, evita-se o pior dos mundos: entrar em uma frente de esquerda, ser derrotado e perder a base social.

Resumo

No último Xadrez apresentei todos os riscos da candidatura Lula. Neste, os argumentos em favor da sua manutenção. O PT segue a lógica normal da sobrevivência partidária e de seu projeto de país.

O leitor que pese os argumentos de lado a lado e tire suas conclusões.

 

 

 

 

 

 

Entenda a origem e a trajetória do 'Centrão', que hoje apoia Alckmin

por Miguel Martins — publicado 23/07/2018 13h50, última modificação 26/07/2018 20h18

Desde 1987, grupos suprapartidários com viés fisiológico serviram de base ao PMDB, ao PSDB e ao PT

https://www.cartacapital.com.br/politica/entenda-a-origem-e-a-trajetoria-do-centrao-que-hoje-apoia-alckmin Gilberto Marques / A2img

 

O atual "centrão" que apoia Alckmin é integrado pelo DEM de Rodrigo Maia

alinhamento recente de partidos como o PP, o PRB, o PR e o DEM à pré-candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência trouxe novamente à tona o conceito de "centrão", termo frequentemente utilizado na nossa trajetória política e que já denominou composições políticas bastante distintas.

Muitos argumentam que este bloco não tem nada de "centro", mas seria apenas um arranjo de partidos com viés de direita. Ao se julgar a trajetória deles nas últimas eleições presidenciais, o que os une é menos a roupagem ideológica e mais o fisiologismo, com exeção feita ao DEM, sigla alinhada ao projeto do PSDB desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, quando ainda se chamava PFL.

Leia também:
E atenção, lá vai o "Centrão"
A desavergonhada barganha do “Centrão” em troca de apoio eleitoral

A identificação histórica do DEM/PFL com os tucanos é uma exceção no bloco. Outras legendas como o PR, o PP e o PRB apoiaram a eleição de Dilma em 2014, e mantiveram sua veia governista no Congresso ao apoiar majoritariamente a ascensão de Michel Temer ao poder. Hoje, apostam em Alckmin, mas chegaram a flertar com Ciro Gomes, do PDT. Fica claro que ideologia não é a prioridade dessas legendas.

O termo "centrão" começou a ser utilizado durante a Assembleia Constituinte de 1987. Assim como o atual, era um grupo suprartidário com perfil de centro e de direita que uniu-se para apoiar o então presidente José Sarney. O objetivo era combater as propostas mais progressistas na redação da nova Constituição. 

O grupo era comandado pelo PFL e pelo PMDB de Sarney. Integravam ainda o bloco o PL, futuro PR, o Partido Democrático Social, sucessor da legenda da ditadura ARENA, o PTB e o Partido Democrata Cristão. 

Embora o termo "Centrão" não tenha sido usado com tanta frequência nos governos petistas como atualmente é empregado, vez ou outra a mídia o utilizava para tratar de um bloco suprapartidário com viés fisiológico. Em 2006, matérias afirmavam que Lula ensaiava a criação de um "novo centrão", ao garantir o apoio de partidos que protagonizaram a crise do "mensalão", entre eles o PP, o PL e o PTB, inflados pela entrada do PMDB como eixo central de governabilidade. 

O termo não foi empregado com frequência durante os governos de Dilma, embora a aliança com o PMDB e outros partidos mais fisiólogicos também tenha sido a regra de suas gestões.

Um dos mais governistas dos integrantes do atual "centrão" é o PRB, que participou de três coligações lideradas pelo PT. Em 2006, a legenda ligada à Igreja Universal apoiou a reeleição de Lula. Nos dois pleitos presidenciais seguintes, participou das duas campanhas vencedoras de Dilma Rousseff.

Decisvo para o apoio a Alckmin, o PR, formado a partir do antigo Partido Liberal e do Prona, parece carregar a "alma" do "centrão". Apoiou todas as candidaturas favoritas e vencedoras desde a eleição de FHC, quando a legenda ainda era o Partido Liberal, fundado em 1985. Após participar da base do governo tucano, o PL participou da coligação de Lula em sua primeira vitória, tendo inclusive indicado o vice-presidente José Alencar para a chapa do petista.

Curioso que hoje o PR, antigo PL, indique para vice de Alckmin justamente o filho de José Alencar, Josué Alencar. Empresário como o pai, ele já teve seu nome sondado pelo PT como um possível aliado para as eleições deste ano.

Em 2005, José Alencar deixou o PL para filiar-se ao PRB, criado em 2003. Foi novamente vice de Lula. Nas eleições de 2006, o partido do cacique Valdemar Costa Neto, condenado pelo "mensalão" do PT, não apoiou formalmente o PT, mas também não migrou para a oposição. A legenda foi rebatizada no fim daquele ano de Partido da República. Em 2014, ele voltaria a se coligar com o PT.

Outro partido importante do atual "centrão", o PP também já esteve com os petistas. Em 1998, quando ainda se chamava PPB, o partido apoiou formalmente FHC. Quatro anos depois, aliou-se a Ciro Gomes no primeiro turno, e com o tucano José Serra no segundo. Em 2003, rebatizou-se de PP. 

No primeiro mandato de Lula, o PP participou da base do governo. A partir de 2011, passou a fazer parte da gestão de Dilma e apoiou formalmente a petista em 2014.

Antigos aliados do PT, o PP e o PRB apoiaram formalmente o impeachment de Dilma. A exceção foi o PR, cuja Executiva Nacional decidiu pela orientação contrário ao afastamento. Ainda assim, a legenda de Valdemar Costa Neto votou majoritariamente a favor da saída de Dilma. Foram 26 votos favoráveis ao impeachment e 10 contrários.

Com a ascensão de Temer, o bloco ganhou contornos ainda mais conservadores, até pela liderança de quadros do DEM como Rodrigo Maia, presidente da Câmara, e ACM Neto, prefeito de Salvador. Para os demistas, a escolha por Alckmin faz sentido ao se considerar a trajetória do partido em eleições presidenciais. Por outro lado, o resto do bloco mostra que pode mudar de lado conforme o sabor dos ventos.

A aliança com Alckmin promete algumas vantagens ao bloco. A provável presidência da Câmara e do Senado em uma eventual vitória do tucano, além da vice-presidência, são alguns dos cargos prometidos. Por outro lado, o presidenciável do PSDB terá de lidar com questionamentos relacionados à corrupção, pois os caciques dos "centrão" respondem a ao menos 13 inqúeritos por corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes contra a administração pública.

Uma derrota do tucano nas eleições pode até mesmo reanimar o grupo a buscar uma nova saída fisiológica. A se julgar pela trajetória recente dessas legendas, a situação é sempre mais confortável que a oposição.

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A ESTRATÉGIA DE LULA

Por que o ex-presidente adia a escolha de seu substituto

                                  https://piaui.folha.uol.com.br/estrategia-de-lula/

MARCOS NOBRE

25jul2018_07h30

  

escolha de Geraldo Alckmin pelo Centrão concluiu o leilão de privatização da candidatura unificada de centro-direita. Começou de fato a campanha. E a primeira ideia que ocorre é que a bola passou para a centro-esquerda, que seria obrigada a se mexer. Isso significa: Lula teria de indicar já quem vai substituí-lo na urna em outubro. Só que a estratégia do ex-presidente é bastante diferente.

Mesmo preso, Lula conseguiu colaborar em muito para o adiamento da unificação da centro-direita. Se não se sabe quem será o adversário, fica difícil organizar estratégias eleitorais. Especialmente se o adversário preso é o líder isolado na intenção de votos. Já escaldada por quatro derrotas presidenciais contra Lula, a centro-direita pagou para ver qual seria a capacidade do ex-presidente de fazer articulações mesmo estando preso e sem poder ser candidato.

Ali pelo começo de julho, a cúpula do Centrão chegou à conclusão de que não podia mais esperar para dar seu passo de unificação. Suas chances eleitorais dependem das máquinas partidárias e de governo. E colocar máquinas como essas para funcionar é coisa que requer tempo. São muitos acertos, acomodações e selvagerias até que seja montada a correia de transmissão que leva do cabo eleitoral do bairro até a candidatura presidencial, passando por vereadores, prefeitos e demais cargos e candidaturas.

Em princípio, a mesma lógica eleitoral se aplica à centro-esquerda, o que deveria obrigar Lula a decidir seu substituto. Ainda mais porque, na prisão, sua capacidade de articulação permanecerá muito limitada. Ele teve o direito de receber visitas severamente restringido, foi proibido conceder entrevistas e gravar vídeos. A impressão geral é que o campo de centro-esquerda permanece desnorteado e fragmentado, sem uma estratégia unificada para a eleição. Não bastassem todas essas enormes dificuldades, é evidente que Lula não terá seu nome na urna no dia da eleição.

Em um quadro dramático como esse, por que Lula não resolve passar o bastão? A resposta mais óbvia é: porque nem ele nem o PT podem aceitar como legítima a exclusão judicial de sua candidatura. As respostas menos óbvias exigem analisar outras variáveis.

Ao indicar desde já alguém para substituí-lo, Lula racha o PT. Não há candidatura que unifique o partido. Há muitas razões para isso. Mas a principal está na divisão fundamental entre candidaturas ao Legislativo federal e candidaturas aos Executivos e Legislativos estaduais. Quem se candidata à Câmara ou ao Senado precisa que Lula leve a candidatura presidencial ao limite para aumentar suas chances de eleição e, principalmente, de reeleição. Quem se candidata a um governo estadual precisa fazer alianças, o que coloca o obstáculo inédito de fazê-las com base em uma candidatura presidencial que não estará na urna em outubro.

Essa não é uma divisão exclusiva do PT. Vimos isso, por exemplo, no episódio da natimorta candidatura de Joaquim Barbosa. Quem fazia parte das bancadas do PSB no Congresso fez de tudo para que o ex-ministro do STF fosse o candidato do partido. Os candidatos aos governos estaduais torpedearam a ideia de todas as maneiras possíveis.

Mas a divisão tem um sentido muito diferente no caso de um partido que desde 1994 colocou a eleição presidencial como prioridade absoluta e que ganhou quatro vezes essa eleição. Esse histórico levou à constituição de uma cúpula partidária que funciona hegemonicamente segundo a lógica congressual, em detrimento de governadores ou prefeitos. A estratégia adotada até agora por Lula – para desespero de quem se candidatou a um governo estadual (seja do PT, seja de partidos que querem ter Lula a seu lado na eleição) – é a que mais convém à cúpula do PT, que se orienta segundo o interesse de quem pretende se reeleger para o Congresso. Governadores e candidaturas ao governo em estados do Nordeste já mandaram reiterados avisos de que não aguentam mais esperar. Continuam esperando. Manuela D’Ávila declarou que abriria mão de sua candidatura em prol de uma candidatura unificada do campo. Foi ignorada.

Acontece que, no momento em que indicar alguém para substituí-lo na urna, Lula sabe que o PT perderá automaticamente a liderança sobre o campo de centro-esquerda, uma liderança já bastante abalada. Se indicar um nome agora, Lula perderia a força que só seu próprio nome tem na construção de alianças com outros partidos, especialmente no Nordeste. Uma indicação de Lula agora significa jogar no sol e na chuva um nome que não terá no ponto de partida mais do que 5% dos votos, talvez. Adiar essa decisão significa preservar esse nome. Lula não vê razão para fazer isso enquanto sua intenção de voto não apresentar tendência de variação para baixo.

As chances eleitorais do PT estão amarradas à manutenção de sua hegemonia no campo da centro-esquerda. Uma coisa não vai sem a outra. Caso não vença a candidatura presidencial do PT, estará aberta a disputa pela liderança do campo. A estratégia de Lula é impedir o fortalecimento de qualquer força que possa se colocar como alternativa de liderança. E isso começa por sufocar a candidatura de Ciro Gomes.

É o outro trunfo de Lula além da liderança nas pesquisas. Ciro, única outra candidatura competitiva construída no campo da centro-esquerda, tem sua base eleitoral no Nordeste, onde Lula é líder disparado de intenções de voto. Ciro tem a vantagem de pertencer a um partido com poucas candidaturas fortes a governos estaduais, o que, em princípio, ajudaria muito nas composições locais. Acontece que Lula bloqueou e continua a bloquear qualquer aliança com Ciro. Até o momento, conseguiu sufocar a candidatura do PDT. Não é por outra razão que Ciro se viu obrigado ao vexame de negociar a sério com o Centrão, com o resultado que se conhece.

Enquanto permanecer com uma expressiva intenção de votos, Lula tem o poder de isolar a candidatura de Ciro. Enquanto mantiver isolado o candidato do PDT, Lula não tem por que retirar seu nome na disputa. Se alguma dessas condições desaparecer, terá de indicar um nome para substituí-lo. Ou fazer uma composição com Ciro. Do contrário, nada muda no campo da centro-esquerda até que o TSE negue o registro da candidatura do ex-presidente, lá pelo começo de setembro.

MARCOS NOBRE

É professor de filosofia da Unicamp e autor de Imobilismo em Movimento, pela Companhia das Letras, e Como nasce o novo, pela Todavia

 

 

Diálogo fraterno com Marco Aurélio Nogueira

 

Tibério Canuto


Tenho por Marco Aurélio o maior apreço. Vejo-o como a minha principal referência nesta etapa da vida. Desde que nos reencontramos em 2015, tocamos sinfonia de ouvido, tal a coincidência entre nosso pensamento. Essa relação ficou mais densa na articulação da Roda, onde atuamos quase que como alma gêmea. Marco foi a primeira pessoa com quem conversei sobre a necessidade de tomarmos uma iniciativa capaz de contribuir para a aglutinação do campo democrático e reformista. Desde então, tem se dedicado a ela com paixão. Nossas principais formulações saíram de sua mente fértil e aberta. Intelectual refinado, diverge com elegância e sempre no terreno das ideias, sem qualquer adjetivação.

Sem ter a mesma formação florentina, ouso estabelecer um diálogo com meu guru, com base no seu artigo “A boiada do Centrão”. Ressalvo que Marco teve de escrever no calor dos acontecimentos, diante da necessidade de o site da Roda ter de tratar um tema quentíssimo e em cima da hora.

Marco Aurélio faz alertas importantes: tem razão quando chama a atenção sobre a possível perda na parte substantiva com a adesão dos partidos do “Centrão” à campanha de Alckmin. Esse risco é real e na campanha Geraldo terá de esclarecer quais foram os compromissos assumidos e como será a montagem de seu governo, bem como o possível loteamento da máquina estatal; uma prática, diga-se, que causa repulsa nos brasileiros.

Mas vamos às minhas observações. O artigo me passou a impressão, e Marco me corrija se estiver errado, de uma leitura negativa do acordo entre o tucano e os partidos do “Centrão”, entre eles o PR de Valdemar Costa Neto. Minha leitura é diferente. Estes partidos, inclusive o Valdemar cortejado por Ciro, Bolsonaro e Lula, marchavam em direção às candidaturas populistas, o que colocava o país diante do risco iminente de ter de escolher entre o desastre e a tragédia em um segundo turno, para usar uma expressão extremamente feliz de Fernando Henrique.

Este risco não está eliminado, mas sem dúvida tornou-se menor com o fortalecimento da candidatura de Geraldo. Vejo isto como positivo e não enxergo outra maneira de desequilibrar a balança de uma maneira favorável, se não atraindo forças que estariam do lado de lá. É possível evitar esse perigo com uma “aliança com a sociedade”, passando por cima da “velha política”?

Não descarto essa hipótese, pois na vida impossível só a reversão da morte. E assim mesmo por enquanto, pois já estão dando um jeito de botar o córtex mental em uma máquina. Mas acho extremamente difícil e creio ser esse o calcanhar de Aquiles de Marina Silva que ainda não despertou para alianças mais amplas. Talvez estejam aqui as visões diferenciadas entre nós dois.

Não vou pinçar frases do artigo “A Boiada do “Centrão” para não distorcer o pensamento de Marco Aurélio. Este não é o método correto de se travar a boa polêmica. Mas me parece que o artigo subestimou o impacto da aliança Alckmin/”Centrão” no tabuleiro da disputa presidencial, que não se resume a maior tempo televisivo. Com a aliança, Geraldo, que vinha caindo pelas tabelas e não oferecia expectativa de poder, se reposicionou no tabuleiro eleitoral, adquiriu maior capilaridade nacional e palanques regionais competitivos. No meu modesto entendimento essas coisas, apesar de meio fora de moda, ainda pesam, e muito, nas eleições.

Pode ser que Marco não divirja disso e apenas não abordou em seu artigo porque esse não era o seu escopo. Se for assim, minhas observações vão mais como acréscimo, e menos como discrepâncias.

Ainda está para ser mais bem verificado qual será o peso da campanha na TV, na disputa deste ano. Claro que automaticamente ela não garante votos. Mas nada automaticamente garante votos. Tudo sempre depende de um conjunto de coisas e é verdade que as redes sociais, a nova forma de fazer política e alianças com movimentos cívicos são fatores a levar em consideração. Mas tenho dúvidas sobre quantas divisões têm esses movimentos, entendendo por divisão a matéria-prima da eleição: votos.

Tempo de TV ainda pesará muito, também no meu modesto entendimento. Esse é um complicador terrível para Marina, que, corretamente, busca construir alianças com partidos como o PROS , o PHS e o PMN, que nada tem de ideológicos. Esses partidos se diferenciam do “Centrão” por uma questão de escala, de tamanho, mas não na sua essência. Não estou querendo com isso colocar na mesma balança as alianças de Alckmin e as de Marina, mas apenas alertar para a importância de alianças. Tampouco tem a pretensão de ensinar missa a vigário, pois, mais do que eu, Marco Aurélio sempre foi adepto de políticas de alianças.

Por fim, vou abordar uma questão incômoda, a figura de Valdemar Costa Neto. Ela me reporta a um episódio que vivi na Bahia, na eleição de 1974. O candidato do MDB ao Senado era um adesista, um pau mandado de Antônio Carlos Magalhães, bem pior do que o candidato da Arena, Luiz Viana Filho, um liberal conservador. Eu tinha recém saído da cadeia e rompido com a concepção do voto nulo. Fui consultado por vários ex-presos políticos se deveriam anular o voto. Disse para eles: a eleição é plebiscitária, é importante derrotar a ditadura, portanto tapem o nariz e votem em Clemem Sampaio. Penso o mesmo agora: se for para evitar um segundo turno entre dois populistas, aconselho: tapem o nariz e aceitem o dono do PR no palanque.

O maior ativo da Roda Democrática é o seu pluralismo. Ele nos permite a convivência respeitosa e fraterna. Marco e eu continuaremos com esse bom diálogo no nosso site e tomando um bom vinho na Mercearia do Francês.

 

Falando a sério sobre Alckmin

 20 de julho de 2018Marco Aurélio Nogueira  Notas e comentáriosPolítica nacional

É sabido que o presidenciável Geraldo Alckmin, do PSDB, tem trunfos importantes para vencer a eleição: um partido, experiência política como gestor, estilo moderado, torcida do mercado e acesso à máquina pública paulista, que há 20 anos vem sendo por ele modelada.

Apesar disso, não decola nas pesquisas e é alvo de todo tipo de críticas e restrições. Sua defesa tem argumentado que a disputa só começará mesmo quando a propaganda for para o rádio e a TV, quando então a candidatura arrancará, já num contexto em haverá uma inevitável depuração dos candidatos menos competitivos. O candidato mostra confiança e determinação, procura comer pelas bordas, quase em silêncio, como bom político interiorano que é. Pode ser que tenha razão. Mas sua campanha flerta ininterruptamente com a crise.

Alckmin é visto como insípido, conservador nos costumes, excessivamente fiscalista e neoliberal em economia, desatento para a questão social. Suas seguidas gestões em São Paulo dividem opiniões: há quem aprecie e quem critique, mas a rigor não há ninguém que se derrame em elogios e amores. O ex-governador é um democrata, mas não é um político que desperte paixões. Há muita injustiça no modo como é visto.

Como candidato, vem tentando dissolver a imagem negativa que fazem dele. Gosta de ser comparado a um maratonista, que avança lentamente, poupando fôlego e energia, para dar um arranque final vitorioso. Confia que parte da massa de eleitores indecisos, que é enorme, migrará para ele às vésperas do pleito. Procura exibir indicadores de sucesso na administração paulista, números quase sempre questionados pela oposição e nem sempre devidamente compreendidos pela população. Vale-se, também, de uma conduta discreta e educada, que o faz ser tratado como um governante prudente, conciliador, flexível, que não carrega rancores nem ressentimentos, trabalha de forma colegiada e com equipes multipartidárias, integradas por diferentes correntes políticas.

Alckmin se apoia nesses dois blocos imagéticos, cada um dos quais contém boa dose de verdade. Seu entorno e mesmo diversos políticos e analistas acreditam que ele é o homem certo para o momento atual, graças à capacidade que teria de agregar pessoas e manter sob controle o timão do barco e a chave do cofre.

Mas Alckmin permanece estacionado nas pesquisas e parece destituído de poder de convencimento. Não conseguiu até o momento gerar entusiasmo entre os eleitores, nem obteve o apoio explícito dos partidos que poderiam tê-lo como opção. Algo que surpreende e merece reflexão.

Tem demonstrado enorme dificuldade para fixar uma posição nacional que o projete para a Presidência em nome de uma articulação democrática que dê sustentação a uma agenda reformadora que combine equilíbrio fiscal, crescimento econômico e igualdade social. Particularmente na dimensão da “questão social” e das “lutas identitárias”, ele não consegue ganhar impulso, como se estivesse travado pelo fiscalismo liberal. O empenho que teve em sanear as finanças públicas em São Paulo é interpretado como expressão de um garrote que sufocou as universidades públicas e as instituições técnicas da administração pública. Com isso, perde pontos preciosos entre a intelectualidade e os núcleos de ativistas.

Pode-se considerar, ainda, que a estratégia política por ele seguida em São Paulo não lhe favoreceu em nenhum momento. Primeiro porque foi o principal responsável pela ascensão de João Doria, que ajudou a eleger prefeito de São Paulo e agora, não só concorre ao governo do estado como faz uma espécie de sombra à candidatura de Alckmin. Obrigado a se equilibrar entre Dória, candidato do PSDB, e Márcio França, vice-governador (PSB) e seu aliado, Alckmin perdeu a exclusividade em São Paulo. Fomentou simultaneamente a reação dos que não gostam de Doria e a resistência do PSB. Foi um erro, a ser compartilhado com o partido e as correntes tucanas. De certo modo, Alckmin ficou emparedado em seu próprio estado, travando a indispensável projeção nacional.

Essa é uma das pedras que o mantém parado no mesmo lugar. Mas não é a única. Outras duas pedras também o atrapalham.

Uma é o desencanto da população com a política, fato que celebra o sacrifício de candidatos “excessivamente políticos”, que são vistos como corruptos e distantes dos problemas reais da vida cotidiana. Processo objetivo derivado da atual fase da globalização capitalista e da crise da democracia representativa, tal desencanto colou-se na pele de Geraldo e de praticamente todos os demais candidatos, dele escapando, a rigor, somente Marina Silva, e mesmo assim não por inteiro. Hoje parece cristalizada a tendência do eleitorado de torcer o nariz para candidatos identificados com o establishment político, em nome de uma vaga ideia de renovação. Fato que ajuda a explicar os indicadores das pesquisas que dão conta de um enorme contingente de eleitores sem candidatos, desinteressados e dispostos a anular o voto.

A segunda pedra é a crise do PSDB. Já faz tempo que o partido deixou de ser uma organização coesa. Suas alas se reproduzem com impressionante facilidade, ressentindo-se da falta de uma direção ativa e legitimada, de um corpo doutrinário atualizado e de um programa unificador. A ideia social-democrática, que serviu de inspiração para o surgimento do PSDB há trinta anos, já não é mais uma inspiração. O partido ainda tem bancadas expressivas, governa estados e cidades importantes, mas carece de vibração cívica e de ligações com a sociedade civil. Mesmo a intelectualidade que sempre emprestou apoio ao PSDB recuou, deixando o partido sem sustentação no plano do debate público. Sua longa temporada na oposição aos governos petistas não o fez mais forte, ao contrário, deixando no eleitorado a sensação de que o partido existe só para disputar o poder e não para oferecer uma perspectiva de Estado e sociedade para a população – problema idêntico ao que os tucanos identificavam no PT.

Em 2014, o PSDB perdeu a Presidência mas teve, paradoxalmente, sua maior oportunidade de reencontrar o eixo. A campanha de Aécio Neves ativou o sentimento antipetista e, no segundo turno, conseguiu articular uma ampla frente democrática de apoio. O candidato, porém, esteve sempre aquém dela, fez uma campanha pífia, sem vigor e identidade . Perdida a eleição, o partido nada fez para se reagrupar e ganhar energia. Pouco depois, as denúncias de corrupção contra Aécio não conseguiram ser processadas, retirando do partido a imagem ética e moral que sempre exibiu. Com o início do governo Temer, mais indefinições, num cenário em que se esperava que o PSDB funcionasse como o fator de estruturação do ministério e da atuação governamental.

Tudo isso empurrou o PSDB para a periferia do sistema. A postulação ética, cara ao partido, se dissolveu e ficou em suspenso. As seguidas denúncias de corrupção em obras no estado de São Paulo completaram o quadro, descarregando um caminhão de problemas na candidatura de Alckmin.

Com todas essas pedras bloqueando a estrada, não é de surpreender que Geraldo Alckmin permaneça estagnado. Faltando três meses para as urnas, muita coisa poderá mudar, mas a sensação é que aquilo que se cristalizou dificilmente será superado.

O candidato tucano tem a seu favor uma conhecida folha de serviços e boa estrutura de campanha (que poderá se traduzir em importante recurso governamental no caso de uma vitória), mas paga um alto preço pelos descaminhos e tropeços do PSDB. Enfrenta problemas de indefinição programática, não deixou claro que caráter terá seu eventual governo e, para complicar, não se reveste de uma fantasia cívica e democrática que mobilize a população.

Nessa marcha, corre o risco de chegar à fase decisiva das eleições sem conseguir sair do lugar.

A boiada do “centrão”

A anunciada adesão dos partidos do “centrão” à candidatura de Geraldo Alckmin, salvo melhor juízo, tem um corte aritmético: agrega alguns minutos a mais ao tempo de rádio e TV do presidenciável tucano, roubando esse mesmo tempo de outros candidatos que também cortejavam as siglas. É um fato novo e importante, pois aprofunda o isolamento de algumas candidaturas e dá a Alckmin mais oxigênio e musculatura.

Mas a operação é complicada. A derivação feita pelo “Centrão” foi marcada por estimativas nada inocentes, de perfil pragmático. Não se passou um cheque em branco e almoço grátis só na casa da mamma, e olhe lá. Foi uma decisão que se afirma com pretensões eleitorais, de curto prazo, e com pretensões de longo prazo, com as quais seus representantes querem garantir a presença de suas digitais no eventual governo tucano. Se Alckmin não vencer, os políticos do “Centrão” imaginam que terão força suficiente para negociar espaços com o vencedor. De certo modo, ganham nos dois casos.

Há uma dimensão paradoxal no acerto: um dos candidatos que mais têm batido na tecla do gerencialismo racional, da ética pública e do rigor fiscal é forçado a se aproximar de um bloco fortemente identificado com o fisiologism0 e a política tradicional do toma-lá-dá-cá. É um paradoxo que mostra a força do tradicionalismo político e revela que a “velha política” é em boa medida a política realmente existente. Com o gesto, com a aceitação da chegada do “centrão” à sua campanha, Alckmin dá mostras de realismo, da necessidade de “fazer política” com os dados da realidade: a realpolitik seria, assim, o suposto de uma governabilidade a partir da qual algo novo poderá ser proposto.

A aposta é que o poder de fogo do “centrão”, seu apetite desmesurado, poderá ser adequadamente administrado, para que não atrapalhe os planos presidenciais.

A aproximação agora anunciada repõe um problema que não foi até hoje devidamente equacionado pelos democratas: como dosar o apetite do fisiologismo tradicional, que tem se mantido ativo em todos os governos das últimas décadas, de FHC a Temer, passando por Lula e Dilma?

Não há qualquer certeza de que o apoio do “centrão” trará mais eleitores a Alckmin. Pode mesmo funcionar em sentido oposto. A aposta de que mais tempo de propaganda gera automaticamente mais votos deve ser sempre feita com um ponto de interrogação à frente. Ainda mais hoje, que nem TV direito as pessoas assistem.

Em contrapartida, fica-se com a percepção de que Alckmin armou para si próprio uma arapuca. Obrigou-se a fazer mais concessões programáticas e operacionais durante a campanha, por exemplo. Se for eleito, terá de entregar preciosos cargos de 1º e 2º escalão, que serão postos num cesto de difícil gestão racional ou realista. Seu governo poderá ficar refém de uma banda podre do Congresso Nacional e até mesmo ser asfixiado por ela.

Os jornais dão conta de que, para os políticos do “centrão”, tudo está sendo amarrado e colado para ser levado à prática a partir de janeiro de 2019. A deixa é dada pela ideia de “repartição do poder”, que no fundo nada mais significa do que o controle do poder pelo bloco dos que se coligarem agora, com direito a simplesmente tudo: dos ministérios e das diretorias de empresas à presidência da Câmara e do Senado.

Se vai dar certo, é outra questão.

Chama atenção o fato de que o desfecho do processo se deveu a Valdemar Costa Neto (PR), um dos campeões nacionais do fisiologismo, e implicou a defenestração do coordenador da campanha de Alckmin (Marconi Perilo) e a indicação do vice-presidente na chapa tucana, para cujo cargo foi oferecido o nome do empresário Josué Gomes.

Jogo sendo jogado.

Política é dinamismo, nuvens que se movem e se deslocam repentinamente. Pode ser que a anunciada articulação seja mesmo benéfica a Alckmin e lhe dê o impulso de que necessita. Ele está jogando com as regras prevalecentes na política brasileira. E conseguiu uma vitória, ao amarrar a noiva, que se oferecia, como sempre, para todos os demais pretendentes.

Para alguém que enfrenta dificuldades e tem mostrado, até agora, baixo poder de persuasão e convencimento, é algo para comemorar.

Mas o estrago na parte substantiva do jogo terá de ser incluído nos cálculos. Alckmin precisará dar nó em pingo d’água para se apresentar como propenso a renovar as práticas políticas e inovar em termos gerenciais. E terá de descobrir um modo de “disciplinar” a boiada que lhe será entregue caso vença as eleições.

Sem isso, poderá até governar, mas terá de arquivar eventuais planos racionalizadores e de inovação que tem tentado colar à sua imagem.

 

 

 

 

 Bolsonaro e a autoverdade

Como a valorização do ato de dizer, mais do que o conteúdo do que se diz, vai impactar a eleição no Brasil

ELIANE BRUM - HTTPS://BRASIL.ELPAIS.COM/BRASIL/2018/07/16/POLITICA/1531751001_113905.HTML

16 JUL 2018 - 20:34 CEST

Jair Bolsonaro é recepcionado em Salvador U.MARCELINO REUTERS

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A pós-verdade se tornou nos últimos anos um conceito importante para compreender o mundo atual. Mas talvez seja necessário pensar também no que podemos chamar de “autoverdade”. Algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet. E que é expressa nas redes sociaispela palavra “lacrou”.

O valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos. Nem seu apagamento está na produção de mentiras ou notícias falsas (“fake news”). Essa é uma relação que já não opera no mundo da autoverdade. O valor da autoverdade está em outro lugar e obedece a uma lógica distinta. O valor não está na verdade em si, como não estaria na mentira em si. Não está no que é dito. Ou está muito menos no que é dito.

Assim, a questão da autoverdade também não está na substituição de verdades ancoradas nos fatos por mentiras produzidas para falsificar a realidade. No fenômeno da pós-verdade, as mentiras que falsificam a realidade passam elas mesmas a produzir realidades, como a eleição de Donald Trump ou a aprovação do Brexit. A autoverdade se articula com esse fenômeno, mas segue uma outra lógica.

O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no ato de dizer

O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer. “Dizer tudo” é o único fato que importa. Ou, pelo menos, é o fato que mais importa. É esse deslocamento de onde está o valor, do conteúdo do que é dito para o ato de dizer, que também pode nos ajudar a compreender a ressonância de personagens como Jair Bolsonaro e, claro, (sempre), Donald Trump. E como não são eles e outros assemelhados o problema, mas sim o fenômeno que vai muito além deles e do qual são apenas os exemplos mais mal acabados.

Uma pesquisa de junho do Datafolha mostrou, mais uma vez, que a maioria das pessoas que declaram voto em Jair Bolsonaro (PSL) são jovens: seu eleitorado se concentra principalmente na faixa dos 16 aos 34 anos. O capitão do exército também lidera as intenções de voto entre os mais ricos e os mais escolarizados do país. O candidato de extrema-direita está em primeiro lugar na disputa presidencial de outubro. Isso num cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com Lula, Bolsonaro cai para o segundo lugar. Mas Lula, como sabemos, está preso e impedido de se manifestar num dos mais controversos episódios da história recente do Brasil, um país hoje assinalado pela politização da justiça.

Em pesquisa recém divulgada, a professora Esther Solano entrevistou pessoas na cidade de São Paulo para compreender o crescimento das novas direitas e especialmente da extrema-direita mais antidemocrática, representada por Jair Bolsonaro. Os selecionados cobrem um amplo espectro de posição econômica, de emprego, de idade e de gênero. Solano é professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Ela tem se destacado como uma das principais estudiosas do perfil dos participantes dos protestos no Brasil desde 2013, quando foi uma das poucas a escutar os adeptos da tática black bloc em profundidade.

A pesquisa, financiada pela Fundação Friedrich Ebert, é ótima, importante e deve ser lida na íntegra. Aqui, me limito a reproduzir um trecho que ajuda a iluminar a questão que apresento nessa coluna:

“Ele (Bolsonaro) é um mito porque fala o que pensa e não está nem aí”, diz estudante de 15 anos

“No começo da roda de conversa com os alunos de São Miguel Paulista, assistimos a um vídeo com as frases mais polêmicas de Bolsonaro. No final do vídeo, muitos alunos estavam rindo e aplaudindo. Por quê? Porque ele é legal, porque ele é um mito, porque ele é engraçado, porque ele fala o que pensa e não está nem aí. Com mais de cinco milhões de seguidores no Facebook, o fato é que Bolsonaro representa uma direita que se comunica com os jovens, uma direita que alguns jovens identificam como rebelde, como contraponto ao sistema, como uma proposta diferente e que tem coragem de peitar os caras de Brasília e dizer o que tem de ser dito. Ele é foda.

O uso das redes sociais, a utilização de vídeos curtos e apelativos, o meme como ferramenta de comunicação, a figura heroica e juvenil do ‘mito ’Bolsonaro, falas irreverentes e até ridículas, falas fortes, destrutivas, contra todos, são aspectos que atraem os jovens. Se, nos anos 70, ser rebelde era ser de esquerda, agora, para muitos destes jovens, é votar nesta nova direita que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em formas de memes e de vídeos divertidos: O Bolsomito é divertido, o resto dos políticos não”.

Na roda de conversa na escola de São Miguel Paulista, na Zona Leste, a mais precarizada de São Paulo, os alunos negam que Bolsonaro faça a difusão de um discurso de ódio. Mas valorizam a sua coragem de dizer coisas fortes. Um garoto de 16 anos resumiu: “Ele não tem discurso de ódio. Tá só expondo a opinião dele, falando a verdade”.

A opinião de Bolsonaro, ou a “verdade” de Bolsonaro, que circula em vídeos de “lacração” do “Bolsomito”, é chamar uma deputada de “vagabunda” e dizer que não a estupraria porque ela não merece, por considerá-la “muito feia”; a afirmação de que sua filha, caçula de cinco homens, é resultado de uma “fraquejada”; a declaração de que seus filhos não namorariam uma negra ou virariam gays porque foram “muito bem educados”. E, claro, sua performance na votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT).

Ao declarar seu voto pelo afastamento da presidente eleita, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O herói de Bolsonaro, hoje estampado em camisetas de seus apoiadores, é um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar, um sádico que chegou a levar crianças pequenas para ver as mães torturadas, cobertas de hematomas, urinadas, vomitadas e nuas, como forma de pressioná-las. Sobram ainda declarações racistas de Bolsonaro contra índios e quilombolas.

“Ele (Bolsonaro) não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”, diz uma mulher

Uma das entrevistadas por Esther Solano assim justifica as falas de seu escolhido: “É que ele tem esse jeito tosco, bruto de falar, militar mesmo. Mas ele não quis dizer essas coisas. Às vezes exagera, não pensa porque vai no impulso, porque é muito honesto, muito sincero e não mede as palavras como outros políticos, sempre pensando no politicamente correto, no que a imprensa vai falar. Ele não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”.

Na minha própria escuta de pessoas nas periferias de São Paulo e na região do Xingu, no Pará, em diferentes classes sociais e faixas etárias, escuto seguidamente uma variação destas frases: “Ele é honesto porque ele diz o que pensa” ou “Ele não tem medo de dizer a verdade”. Quando questiono o conteúdo do que Bolsonaro pensa, a “verdade” de Bolsonaro, em geral aparece um sorriso divertido, meio carinhoso, meio cúmplice: “Ele é meio exagerado, mas porque é um sincerão”.

Assim, Bolsonaro não seria homofóbico ou misógino ou mesmo racista para aqueles que aderem a ele, mas um “homem de bem” exercendo a “liberdade de expressão”. Estes são os adjetivos que aparecem com frequência colados ao candidato de extrema-direita por seus eleitores: “sincero”, “verdadeiro”, “autêntico”, “honesto” e “politicamente incorreto” (este último também como um elogio).

Embora o conteúdo do que Bolsonaro diz obviamente influencie no apoio do seu eleitorado, me parece que ele é mais beneficiado pelo fenômeno que aqui estou chamando de autoverdade. O ato de dizer “tudo” e o como diz o que diz parece ser mais importante do que o conteúdo. A estética é decodificada como ética. Ou colocada no mesmo lugar. E este não é um dado qualquer.

Por isso também é possível se desconectar do conteúdo real de suas falas, como fazem tantos de seus eleitores. E por isso é tão difícil que a sua desconstrução, por meio do conteúdo, tenha efeito sobre os seus eleitores. Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre, que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade.

A lógica em que a imprensa opera, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa

Simples assim. Complexo demais. A lógica em que a imprensa opera, quando faz jornalismo sério, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa. Esse é um dado bastante trágico, na medida em que os instrumentos disponíveis para expor verdades que mereçam esse nome, para iluminar fatos que de fato existem, passam a girar em falso.

Se Bolsonaro participar dos debates ao vivo durante a campanha eleitoral, para uma parcela significativa do eleitorado brasileiro o que vai prevalecer é a estética marcada pelo “dizer tudo” e dizer tudo lacrando. Também por isso Ciro Gomes (PDT), por sua própria personalidade mais agressiva e sua falta de freio na língua, é visto por uma parcela preocupada com a ascensão de Bolsonaro como o mais capaz de enfrentá-lo.

Se esse quadro permanecer, a disputa entre testosteronas infláveis – e inflamáveis – será mais importante do que o conteúdo na eleição brasileira, porque mesmo quem tem conteúdo terá que deixá-lo em segundo plano para ganhar a disputa da dramaturgia. Mais um degrau escada abaixo na apoteótica descida do país rumo à irrelevância.

Se este não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, no Brasil há uma particularidade que parece impactar de forma decisiva a autoverdade. Essa particularidade é o crescimento das igrejas evangélicas fundamentalistas e sua narrativa do mundo a partir de uma leitura propositalmente tosca da Bíblia. A retórica do bem contra o mal atravessa fenômenos como a “bolsonarização do país”.

A autoverdade atravessa o discurso religioso fundamentalista como conceito e como estética

Embora os pastores fundamentalistas exaltem a perseguição do “povo de Deus”, a prática mostra exatamente o contrário, ao perseguirem os LGBTQs, as mulheres e, em alguns casos de racismo, os negros. Mas a prática são os fatos, e os fatos não importam. O que importa é a retórica e a forma. A autoverdade atravessa o discurso fundamentalista como conceito e como estética. O milagre da transmutação aqui é justamente fazer com que a estética seja convertida em ética.

Formados nessa narrativa, uma geração de brasileiros é capaz de ler ou assistir a uma reportagem da imprensa mostrando verdades que Bolsonaro gostaria que não subissem à superfície não pelo seu conteúdo, mas pela ótica da perseguição. O conteúdo não importa quando quem questiona o inquestionável é automaticamente um inimigo, capaz de usar qualquer “mentira” para atacar um “homem de bem”. Afinal, as imagens de malas de dinheiro (de dízimo, no caso) foram inauguradas por alguns pastores neopentecostais, muito antes do que pela investigação da Lava Jato, e mesmo assim suas igrejas não pararam de crescer. Bolsonaro torna-se o “perseguido” na luta do bem contra o mal, o que faz todo o sentido para quem é bombardeado por uma visão maniqueísta do mundo.

Produtos de entretenimento como as novelas e os filmes supostamente bíblicos de uma rede de TV como a Record, por exemplo, colaboram para formatar um determinado olhar sobre a dinâmica da vida. Se alguém só vê o mundo de um mesmo modo, não consegue mais ver de outro. Não há mais interpretação, a decodificação passa a ser por reflexo.

Este é o mecanismo que tem se alastrado no Brasil. E que é imensamente beneficiado pela tragédia educacional brasileira. Não é por acaso que a escola pública, já tão desvalorizada e desprestigiada, esteja sofrendo o brutal ataque representado pelo movimento político e ideológico nomeado como “Escola Sem Partido”. O pensamento múltiplo e o debate das ideias são os principais instrumentos para devolver importância aos fatos e ao conteúdo, assim como recolocar a questão da verdade.

Não é um risco que os protagonistas das novas direitas queiram correr. No jogo das aparências, seu truque é sempre o mesmo: fazer um movimento ideológico afirmando que é para combater a ideologia, agir politicamente mas afirmar-se antipolítico, apoiar partidos de direita dizendo-se apartidários. Esse mascaramento só funciona se aquele a quem a mensagem se destina abdicar do pensamento em favor da fé.

A adesão à política pela fé é a grande sacada dos protagonistas da articulação religiosa-militarista que disputa o Brasil deste momento

A retórica supostamente bíblica está educando aqueles que não estão sendo educados. Como produto de entretenimento, as novelas e filmes se articulam com os programas policialescos sensacionalistas da TV, muitas vezes na mesma rede de TV, e os ampliam. Já existe uma geração formada tanto na desumanização dos mais pobres e dos negros, tratados como coisas que podem levar bala nas imagens desse tipo de programa, quanto na adesão à política pela fé, a grande sacada dos atuais protagonistas da articulação religiosa-militarista que figuras como Bolsonaro representam.

A personificação, a valorização do indivíduo, do “Um” que é só ele, jamais um+um, garante que personagens como Bolsonaro e até mesmo Sergio Moro possam encarnar como “O Um”. “O Um” contra o mal, ungido pelas “pessoas de bem”, dispostas a linchar quem estiver no caminho. Afinal, se a luta é do bem contra o mal, tudo não só é permitido como abençoado.

Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais perigoso: a “religiosização” da política

Não há nada mais perigoso numa eleição do que o eleitor que acredita ser “um instrumento de Deus”, absolvido previamente por todos os seus atos, mesmo que eles sejam sórdidos ou até criminosos. Como a lei que vale não é a terrena, laica, mas ditada diretamente do alto e, com frequência, diretamente ao indivíduo, tudo é permitido quando supostamente “Deus estaria agindo”. Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais destruidor: a “religiosização” da política. E ela tem como primeiro efeito a política da antipolítica.

Figuras como Bolsonaro se beneficiam da crise econômica, do crescimento da violência e da produção de medo, sim. Mas sua força vem de uma população treinada para aderir pela fé ao que não diz respeito à fé. Por isso é possível até mesmo fazer política e se dizer apolítico. Se o imperativo é crer, a adesão já está garantida não importa o conteúdo do discurso, desde que a dramaturgia garanta entretenimento, espetáculo. Embora pareçam desacreditar de quase tudo em suas manifestações na internet, ninguém se iluda. Uma parte significativa do eleitorado brasileiro é formada por crentes. E ser crente hoje no Brasil tem um sentido e um alcance muito mais amplo do que em qualquer momento da história do país.

A autoverdade desloca o poder para a verdade do um, destruindo a essência da política como mediadora do desejo de muitos. Se o valor está no ato de dizer e não no conteúdo do que é dito, não há como perceber que não há nenhuma verdade no que é dito. Bolsonaro não está dizendo a verdade quando estimula o ódio aos gays, mas sendo homofóbico. Não está dizendo a verdade quando agride negros, mas sendo racista. Não está dizendo a verdade quando diz que não vai estuprar uma mulher porque ela é feia, mas incitando a violência contra as mulheres e sendo misógino. Há nome na língua para tudo isso e também artigos no Código Penal.

Os jovens da periferia que aplaudem Bolsonaro precisam perceber que o discurso da meritocracia é a sacanagem que os cimenta no lugar do qual gostariam de sair

Muitos daqueles que o aplaudem, especialmente os jovens nas periferias, não percebem que o discurso da meritocracia proclamado pela extrema-direita que Bolsonaro representa é justamente a sacanagem que os mantêm no lugar cimentado do qual gostariam de sair. Não existe meritocracia, ascensão apenas por méritos próprios, sem partir de bases minimamente igualitárias.

Jair Bolsonaro é a encarnação de um fenômeno muito maior do que ele, do qual ele se aproveita. Tanto quanto Donald Trump, em nível global. A tragédia é que eles possivelmente sejam só os primeiros.

O desafio imposto tanto pela pós-verdade como pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade

O desafio imposto tanto pela pós-verdade quanto pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade. Não faremos isso sem tomar partido por escola de qualidade para todos, apoiando aqueles que lutam por isso de maneira muito mais contundente do que fazemos hoje, assim como pressionando por políticas públicas e investimento, e questionando fortemente os candidatos para além da retórica fácil. Nem faremos isso sem a recuperação do sentido de comunidade, o que implica a reapropriação do espaço público para a convivência entre os diferentes, assim como a retomada da cidade. Temos que voltar a conviver com o corpo presente, compartilhando os espaços mesmo e – principalmente – quando as opiniões divergem. Temos que resgatar o hábito tão humano de conversar. E conversar em todas as oportunidades possíveis.

E isso não amanhã. Ontem. A verdade do momento é que estamos ferrados. Outra verdade é que, ainda assim, precisamos nos mover. Juntos. Não por esperança, um luxo que já não temos. Mas por imperativo ético.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

O BRASIL QUE EU QUERO

                                                                      José Pedro Mattos Conceição – Adv. PORTO ALEGRE

 

A Rede Globo está nesta campanha do “Brasil que eu quero para o futuro”, que tem inegavelmente méritos, mas cansativa, com tintas artificiais, meio “chovendo no molhado”. O cara diz que quer tudo de bom, mas na hora de votar, vai de Cacareco. Aquele tipo que mora lá em Cacimbinhas do Norte quer políticos honestos, mas não paga IPTU e faz “gato” na ligação de rede elétrica no seu boteco. O João da Silva diz que espera um país qualificado em educação e saúde, mas bebe um litro de cachaça por dia e bate na mulher. Todo esforço para melhorar é válido, mas eu acredito mesmo é nas novíssimas gerações. Não acredito muito no pensamento de Rousseau de que o homem é bom, mas a sociedade o perverte. Se o homem fosse tão bom assim não teria sido expulso do paraíso, para trazer à baila a milenar história bíblica. Acredito que sem disciplina, quer dizer, sem autoridade e controle, a vaca vai para o brejo. Alto lá, não estou cogitando de regimes autoritários. Quero lembrá-los apenas que, no período do catolicismo praticante e prestigiado, havia mais moderação nas diversas formas extremadas de apetites, mesmo que fosse imensa a hipocrisia. Vivi um pedaço dessa era e lembro perfeitamente que a religião exercia algum papel importante de freio. Sou agnóstico e não sigo religião nenhuma, apenas suscito um determinado valor de contenção individual, assim como também eram importantes o civismo, o patriotismo e o culto aos valores da família e da tradição. Praticamente tudo isto se evaporou. Ou anda assaz rarefeito. A bandidagem, a sem-vergonhice ou a irresponsabilidade sempre existirão. O Brasil não é pior do que a grande maioria dos outros países. Muita gente culta e poderosa não vale nada. Educação, saúde, cultura, segurança e bem-estar econômico sempre foram e serão muito importantes, mas não bastam. O Brasil que eu quero é um país que não seja engolfado pela globalização, ainda de calças curtas, como está acontecendo. Adaptar o progresso, evitando a cópia dos comportamentos e modelos esdrúxulos, fica de bom tamanho.

 

Mark e Kim

 28 de julho de 2018

Pio Giovani Dresch

 

São caricaturas. Não sei se as recolhi caricaturas ou se caricaturas as tornei. Mas são caricaturas. Uma se regozija com o Facebook, por excluir perfis falsos do MBL; outra adverte quem se regozija, dizendo não se iludam, é só um ensaio para excluir a esquerda.

Conheço bem o poder do Facebook. Se espero que 200 pessoas leiam este texto, sei que não mais que 20 delas o lerão sem o terem acessado pelo Facebook.

Faz tempo que reflito sobre isso. Sei que dependo desse canal e, se não contar com ele, não me comunicarei com o mundo. Talvez não continue assim por muito tempo, talvez logo inventem outra rede mais atraente, mesmo porque o mundo das redes sociais é fluido.

Mas hoje o Facebook tem esse poder e pode, se quiser, me tornar invisível. Basta decidir me excluir. Por que me submeto a isso? Simples: não existe alternativa.

Outra caricatura, dita com ironia, foi essa: o Facebook é uma empresa privada, por isso pode fazer o que quer. É caricata a afirmação, usada como provocação ao discurso liberal do MBL, porque joga com essa possibilidade de o Facebook agir discricionariamente, nessa posição de poder quase ilimitado obtido graças ao domínio dessa rede, embora qualquer ideia minimamente democrática sobre o uso da internet devesse submetê-lo a controle social.

Se me perguntassem, eu responderia que Zuckerberg não tem o direito de me excluir do Face, porque a rede por ele criada é pública, e não privada. Sé é que entendem o que quero dizer com público.

Mesmo assim, é evidente que ele pode fazer isso. Com a desculpa do pleonasmo, pode porque tem poder. Aliás, é um poder muito próximo de tantas distopias futuristas, e das quais tenho muito medo, porque o poder dele é o de nos levar ao pensamento único, ou de nos levar a um simulacro de consciência em que achamos que pensamos por nós, embora apenas reflitamos o pensamento posto.

Ele vai fazer isso? Tem o controle do processo? Não sei, às vezes parece que não. Nas eleições dos Estados Unidos, por exemplo, o Facebook foi enganado com a criação de bolhas a favor da campanha de Trump, aparentemente decisivas para que ao final fosse eleito.

Zuckerberg queria isso? Evidente que não. Aliás, desconfio que ele votou na Hillary. Mas não queria não só por isso: não queria porque é desastroso para a credibilidade do Facebook, para a sua imagem de veículo neutro e, principalmente, para seu prestígio, medido em cifrões.

Para o Facebook, é vital proteger-se contra esse tipo de manipulação, sob pena de cair no descrédito, com tudo o mais que dele deriva.

Por isso, se, numa eleição de importância mundial como a que se avizinha no Brasil, não tomasse medidas contra as contas falsas criadas pelo MBL, por demais conhecidas de todos e já escancaradas por investigações independentes, estaria sendo muito mais que conivente com a manipulação de corações e mentes: estaria repetindo o seu fracasso no episódio eleitoral americano e dando mais um passo na sua perda de credibilidade.

Ademais, a vocação para instrumento de dominação de mentes – e de modo muito mais suave – é dele próprio, e admitir que outros o façam, utilizando-se de artifícios que enganam seus próprios mecanismos de controle, não pode ser tolerado.

De minha parte, saúdo a decisão de Mark, porque Kim o usava para fazer de modo mais ostensivo o que só pode ser feito de modo velado: os falsos perfis do MBL, que deliberadamente espalhavam notícias falsas, nesse processo cada vez mais perigoso de fazer mentes infantilizadas aceitarem como verdade as empulhações mais absurdas, tinham que ser excluídos por qualquer critério democrático que se utilizasse.

Mark o fez por motivos nobres? Certamente não, embora deva reconhecer que ele em nada se parece com o tipo troglodita da pior direita brasileira, criado à imagem da pior direita americana.

Também por isso, considero caricatural o pensamento de que a censura ao MBL é apenas um ensaio para tirar do ar perfis de esquerda.

Não ponho a mão no fogo por Mark, mas o que ele fez com o MBL tem uma motivação outra e bem compreensível. Se vier a tirar do ar perfis de caráter crítico, isso será outro movimento, sem relação com a necessidade de preservação do Facebook. Nesse caso, se desvelará o que deve permanecer velado, e é por isso que não acredito que o fará.

Por isso, de minha parte, acho que por muito tempo meus 200 leitores continuarão a me acessar preferencialmente pelo Facebook.

Dois minutos depois de este texto ser compartilhado no Facebook, recebi a mensagem de que fora removido por suspeita de spam. Desconfio que tenha sido porque o ilustrei com a logo do próprio Facebook. Para ver se é isso, e porque lembrei que na época da censura alguns jornais publicavam receitas de bolo no lugar das notícias censuradas, substituí a imagem por uma de bolo.

CONJUNTURA NACIONAL

DOMINGO INCRUENTO MAS TENSO

Domingo, 8 de julho de 2018, um dia gelado no sul do Brasil, seco no Centro Oeste, molhado no Norte e Nordeste, sem sangue nas ruas, porém, triste para a história de todos nós: A Justiça se engasgou diante do deferimento, por um desembargador de plantão no TRF 4 - Rogério Favreto - , de pedido de habeas corpus para Lula, prontamente contestado pelo Juiz - em férias - Sérgio Moro, de instância menor, ratificado por outro desembargador- João Pedro Gebran Neto - , de nível equivalente ao primeiro, o qual reitera, por mais duas vezes sua decisão. Se alguém ainda tinha dúvidas de que a polarização política chegara ao Poder Judiciário, acabou-se. Lá estava ela, explícita, em decisões conflitantes. Pra variar: Contra x A favor... A imprensa se alvoroça. Os petistas deliram com a expectativa da soltura de Lula. A Polícia Federal hesita entre soltar ou não soltar, não sem, certamente, consultar o hoje Ministro da Segurança Pública, a quem está subordinada. Os especialistas se sucedem em opiniões divergentes quanto ao conflito.. Os políticos calam diante do inusitado. A opinião pública se divide em busca do princípio do fundamento e não apenas opiniões. Enfim, já no fim da tarde, o Presidente do TRF 4, desembargador Thompson Flores, desqualifica o plantonista que deflagrou o imbróglio e, com ou sem competência, mantém Lula preso. Nos dias que se seguiram as autoridades superiores do mundo jurídico – Procuradoria Geral da União e Superior Tribunal de Justiça - se manifestam, ratificando a decisão de Moro e de Thompson Flores e pedindo a abertura de inquérito para apurar eventuais responsabilidades do desembargador Rogério Favreto, tendo em vista seus notórios vínculos com o PT. O Estado vence. Pacificada a Justiça, o Leviatã se aquieta mas o assunto continua rolando na Sociedade Civil . As redes abundam acusações de todos contra todos. O domingo incruento, mas pungente, entra para a História. O quê dizer disso tudo?

Primeiro, o õbvio: Estamos numa nave à deriva, comandante desmoralizado, suspeita de motim à bordo, incêndios localizados no convés e uma única esperança no “Terra à Vista!”, em outubro próximo. Alguns, entretanto, dizem que as eleições são apenas uma hipótese, eis que nem se sabe direito quem são as coligações e candidatos. São os incendiários.

Depois, as circunstâncias pois que determinantes na vida dos homens em sociedade. Elas se circunscrevem num Estado de origem imperial-absolutista que, numa manhã tão longínqua no tempo, como da pequena população que a comungava - pouco mais de 3 milhões de pessoas, quase metade escrava, sem almas - no dia 7 de setembro de 1822, fez-se independente da Mãe Pátria. José Bonifácio, Patriarca da Independência sabia disso: - Temos um Estado, falta a Sociedade. Dele as primeiras iniciativas para a construção das bases sociais para o exercício da cidadania. Ainda não as cumprimos. Cem milhões de brasileiros ganham até 1 Salário Mínimo, sendo que metade deles, abaixo de meio mínimo, 10 milhões na linha de pobreza e fome. Mesmo o direito generalizado ao voto é coisa muito recente neste país, posterior a 1988. Consumo de massas, que constitui a essência do desenvolvimento nos países centrais, gerando um grande colchão de classe média, nem pensar. Nossa classe média está restrita ao número de contribuintes do Imposto de Renda: 27 milhões, que somados aos sonegadores chaga a um quarto da população do país. Neste contexto abundam as excelências, sobre os quais os Poderes Judiciário, alimentado pelo bacharelismo, e o Legislativo, nutrido pelo coronelismo, navega, ontem o Rio de Janeiro, hoje Brasília. Com este contexto tentamos construir uma democracia. Não é fácil. O Estado, aqui, nem se dá ao luxo de ser de exceção. É apenas aquilo que nele e por ele se revela: Senhorial.

Finalmente, os fatos do domingo: Todos erraram e continuam errando.

É evidente, até para o Pateta, que houve uma concertação dos peticionários do habeas corpus a favor do Lula com o Juiz de Plantão, com fortes ligações com o PT. Não sei se isso fere a lei, mas fere o bom senso moral. Sou, particularmente, favorável à soltura do Lula, como de vários outros presos por condenação em segunda instância, mas não porque seja pré-candidato, mas porque há

um princípio constitucional que garante a defesa em liberdade até o trânsito em julgado. Mudam tanta coisa no Congresso, por que não mudam isso...!? De resto, não existe, legalmente, a figura legal do pré candidato, a justificar a novidade do feito, apenas a do candidato. Até eu, mísero e desconhecido mortal, posso me arvorar a condição de pré candidato, seja a Presidente, Governador , Senador ou Deputado. Sem Convenção e registro de candidatura, só farofa. Este mesmo habeas corpus, aliás, deve ser apresentado oportunamente. Daí creio que terá sucesso.

Mas errou também o Juiz de Plantão. Eis o que diz um insuspeito jurisconsulto, simpático ao PT , Fabio Konder Comparato: Na opinião do jurista, porém, na guerra jurídica de domingo, "dos dois lados houve incorreções". O desembargador plantonista Rogério Favreto, "em princípio, não tinha imparcialidade". "Ele trabalhou com o PT e no governo do PT." O argumento de que havia um fato novo, Lula ser candidato, não se cristalizou juridicamente, diz. "A candidatura não havia sido oficializada."

Errou também Sérgio Moro, embora aparentemente citado, indevidamente, pelo Desembargador Favreto, pois, ainda segundo Comparato , é considerado um princípio básico de direito que a participação de um juiz em um dado processo se esgota ao proferir a sentença.

Errou, duplamente, o Presidente do TRF 4, Dr. Thompson, antes que tudo pela morosidade em se fazer presente à concorrência positiva entre Favreto e Gebran, mas por não a ter levado imediatamente à instância superior, que seria o STJ, este, sim, competente para sustar o Alvará de Soltura de Lula.

Estão errando, finalmente, tanto a Procuradora Geral da República, quanto a Presidente do STJ ao condenar o Desembargador Favreto e exaltar o Juiz Moro, pois ambos erraram e deviam merecer igual tratamento. Aqui, os vestígios do Estado Senhorial. Aos amigos, tudo, aos inimigos, a Lei....

Errou por último, pois é sempre o último a errar, o Supremo, através da Nota melosa de sua Presidente Carmen Lúcia, principal responsável pela harmonia e lisura interna da Casa da Justiça e que, lamentavelmente, fracassou neste mister. Vide recente pugilato entre Gilmar Mendes e Barroso nas suas angelicais asas.

Enfim, vamos em frente, em meio ao nevoeiro, confiantes no grito da gávea: Terra à Vista!!!!

 

O PT na encruzilhada e a Jeremiada de Lula

https://jornalggn.com.br/noticia/o-pt-na-encruzilhada-e-a-jeremiada-de-lula-por-aldo-fornazieri#.WtSFXxU-Qd8.facebook

por Aldo Fornazieri - SEG, 16/04/2018 - ATUALIZADO EM 16/04/2018 - 07:19

 

O encarceramento de Lula e a perspectiva de permanecer preso por tempo prolongado colocam o PT numa terrível encruzilhada de três estradas: seguir adiante com Lula como candidato até o fim; buscar um auto-resgate com um novo candidato; participar de uma frente de centro-esquerda apoiando um candidato de outro partido. Os três caminhos envolvem altos riscos e margens escassas de êxito.

Se o PT não marchar com Lula até o fim, não só abandonará o seu maior líder, mas será visto como traidor. O Lula encarcerado se constitui num paradoxo destinado a cobrar um alto preço ao PT ou às elites: se o PT não o mantiver como candidato, será ele a pagar este preço e será abandonado por muitos eleitores, simpatizantes e militantes. Se Lula permanecer candidato, serão as elites que terão que pagar o alto preço de impedi-lo ou, eventualmente, impedir sua posse em caso de vitória. Mas, se o PT o mantiver como candidato terá que ter a sabedoria e a competência de reinventar-se num processo de mobilização e de defesa da liberdade de Lula. O problema é saber se as atuais lideranças do PT têm as virtudes e as capacidades necessárias para reinventar o partido, mobilizando o povo.

Assim, o abandono de Lula por um plano B, na crença de que Lula transferirá votos, tende a produzir não só uma grave derrota eleitoral, mas uma descrença no PT. Já a aliança e o apoio a um candidato de centro-esquerda era algo desejável em circunstâncias determinadas, que deveria ter sido construído há mais tempo, num processo conjunto de integração de militância e formulação programática. Fazer isto agora, num processo de derrota, poderá aprofundar a debacle do PT. Mas fica a lição para ser desenvolvida no futuro. Hegemonia, afinal, implica concessões e alternância planejada de posições.

É preciso perceber que desde o início de 2015, quando se iniciou o processo de impeachment, cuja consumação completa dois anos nesta semana, o PT vem sendo derrotado em todas as suas consignas e lutas, numa conjugação de erros, apatia e defensivismo. A prisão de Lula, sacramentada com o objetivo último de impedir sua participação nas eleições, pode significar a derrota final do PT nessa conjuntura marcada pelo golpe do impeachment sem crime de responsabilidade e pela implantação do Estado de exceção judicial, que transformou o Judiciário em órgão de disputa político-ideológica, provocando a anarquia constitucional e institucional.

O "não vai ter golpe", o "não passarão", o "nenhum direito a menos", o "mexeu com Lula, mexeu comigo", tudo isso se transformou em ruína e fardos jogados sobre os sacrificados ombros de Lula que, escravizado na prisão, se parece como um Hércules a sustentar colunas, mas condenado a realizar os doze trabalhos ou muitos outros trabalhos para redimir os erros do PT e de todas as esquerdas.  Lula foi preso e a "convulsão social" propalada por dirigentes do PT não ocorreu.

A Jeremiada de Lula para o PT

Ainda em meados de 2015, (e até antes disso), Lula, com a clarividência dos líderes prudentes, anteviu a desdita que havia se apossado do PT e que se encaminhava para um colapso futuro se os rumos não fossem retificados. Numa verdadeira jeremiada para seu partido, ao lado de Felipe Gonzalez, advertia: "O PT precisa de novos líderes e de uma revolução interna"; "Queremos salvar a nossa pele, cargos, ou um projeto?"; "o PT precisa construir uma nova utopia"; "o PT precisa, urgentemente, voltar a falar com a juventude"; "fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido e ter lideranças mais jovens, ousadas, com mais coragem"; "é preciso aprender a lidar com as novas tecnologias para brigar melhor na internet, nas redes sociais, porque não há espaço na mídia tradicional para os grupos de esquerda". E se o PT não fosse capaz de se reinventar, "que dos movimentos de hoje surja um partido melhor do que o PT. Mas que surja", advertiu Lula.

Qual o profeta Jeremias, Lula não foi ouvido pelos petistas eles não se converteram de seus erros. A consequência foi trágica: a Jerusalém do PT ruiu e Lula foi levado para o cativeiro. Simbolicamente, todo o povo lulista está cativo na babilônia de Curitiba. Durante o processo do desfecho dessa crise, os sacerdotes do PT continuaram a queimar incenso a "deuses estranhos". Acreditaram em advogados, nos desembargadores do TRF4, nos ministros do STF. Quando estes deram o salvo conduto por meio de uma liminar de pouco mais de uma semana a Lula, lideranças petistas, junto com outros analistas de esquerda, chegaram a dizer que o STF havia barrado as arbitrariedades da Lava Jato. Regozijaram-se dizendo, "estamos no caminho certo"; encheram-se de "felicidade comedida" e de falsas esperanças, nessa queima de incenso a deuses estranhos.

O fato é que quando um partido passa a acreditar em advogados e em juízes como salvadores e condutores de seus passos políticos é porque perdeu a noção do que é a luta pelo poder e perdeu a noção da lógica da ação política. Há uma inversão em tudo isso. São os advogados e juízes que precisam acreditar no partido ou no líder. Pois cabe a estes o papel de condutores. São eles que devem ser depositários da fé. Quando o partido, pelos seus erros, não é mais capaz de fazer-se acreditado, ver-se-á perseguido por seus inimigos e, seus líderes, ou terminarão aprisionados ou dizimados e mortos.

Em que pese estar preso, o poder simbólico e mítico de Lula sobrevive e poderá ser reforçado, tornando-se uma energia mobilizadora no presente e no futuro. Quanto mais evidente ficar o caráter persecutório do Judiciário, quanto mais fascista se mostrar a conduta de Sérgio Moro contra Lula, quanto mais injusta e parcial se mostrar Cármen Lúcia e seus asseclas no STF em sua sanha de ver Lula encarcerado, mais Lula agigantará para a história e mais contará com a solidariedade do povo. Quanto mais abnegado for Lula no seu sofrimento e na sua solidão, mais o povo o aquecerá com o seu calor e com o seu carinho.  

O poder de Lula pode dirigir-se para vários atores e movimentos. O PT não é seu herdeiro único e terá que mostrar-se digno dessa herança. O próprio Lula, de alguma forma, em sua resistência corajosa no Sindicado dos Metalúrgicos do ABC, investiu Guilherme Boulos e Manuela D'Ávila como herdeiros de parte desse poder.

O poder de Lula sobrevive porque, se é verdade que ele sempre foi conciliador, é verdade também que ele sempre foi um líder corajoso - virtude política cardeal que falta a muitos outros líderes de nossos dias. A coragem política é uma virtude que é uma condição sine qua non para qualquer outra coisa de significativo, de eficaz e de grandioso na política. A coragem do líder incute confiança no povo e um povo confiante, que tem fé em seu líder, nunca o abandona.

Lula é energia ativa, mantém poder e a fidelidade do povo porque se fez necessário ao povo pobre do Brasil. Os líderes precisam compreender que a fidelidade é uma via de mão dupla: o povo se mantém fiel aos líderes que lhe são fieis. E os líderes serão fiéis ao povo se se fizerem necessários a ele, beneficiando-o e protegendo-o. Esta é uma relação que precisa ser sempre renovada, pois ela não sobrevive apenas das glórias do passado. Muitos líderes se espantam com uma suposta ingratidão do povo. Mas o povo só é ingrato com os líderes que não têm coragem, com os líderes que não lhe incutem confiança, com os líderes que não renovam os mútuos compromissos de fidelidade e com os líderes que não comandam o próprio povo. Os líderes que não comandam o povo não são líderes de fato.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

 

 

“Joaquim Barbosa se tornou o único ‘outsider’ com chances de disputar e ganhar”

Para cientista político Fernando Luiz Abrucio, levantar a bandeira do anti-Lula é perigoso para a centro-direita, especialmente no segundo turno. Professor da FGV diz que PT tem até junho para definir plano B para candidatura Lula

TALITA BEDINELLI

São Paulo 15 ABR 2018 - 20:48 BRT - https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/13/politica/1523647596_765240.html?id_externo_rsoc=FB_CC

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A condenação de Luiz Inácio Lula da Silva e sua prisão no início deste mês prometem embaralhar ainda mais o cenário eleitoral deste ano. Ainda que o ex-presidente possa estar fora do jogo, ao enquadrar-se na Lei da ficha Limpa, ele será um dos influenciadores mais importantes da disputa. E isso vale para ambos os lados do jogo, explica o chefe do Departamento de Gestão Pública da FGV-SP, Fernando Abrucio. Enquanto a esquerda depende do apoio de Lula para a transferência de votos, a direita precisa evitar atacá-lo com muita veemência, pois isso pode impactá-la no segundo turno.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Pergunta. Acha que o PT consegue manter a ideia de não ter um plano B com Lula preso?

Resposta. Sempre esteve na cabeça do PT que seria muito difícil que o Lula se tornasse candidato. E não tem a ver com a prisão em si, já que é possível que ele seja solto antes da eleição. Mas ele não será candidato por conta da Lei da Ficha Limpa. O que está jogo depois desse episódio da prisão é o quanto ele terá de influência na eleição. E isso é realmente muito difícil de saber porque estar dentro da prisão não quer dizer que ele perderá influência sobre os eleitores. Por isso me estranha muita gente do centro para a direita tentar comemorar a prisão do dele porque quando forem para a eleição, no mínimo, entre 20% a 25% dos eleitores vão estar muito próximos do lulismo. E esses eleitores podem definir quem vai ser o presidente no segundo turno. É preciso ter uma certa inteligência estratégica para perceber que não é preciso ficar ao lado do Lula, para quem não está vinculado ao PT ou a partidos próximos, mas estar contra ele é burrice.

  1. Mas existem candidatos que se fortalecem com o discurso anti-Lula.
  2. O anti-Lula do país já foi construído pelo eleitorado e ele tem nome: chama-se Jair Bolsonaro. Todos os outros que tentarem se construir igualmente ao Jair Bolsonaro vão ter dificuldade de roubar os votos dele. 
  3. Como acredita que ficará o cenário eleitoral sem Lula?
  4. Ainda há várias hipóteses. É possível ainda que essas candidaturas, que estão hoje na casa de 15, se transformem num número menor. A gente ainda não sabe quais dessas vão sobreviver. Parcerias como a de Joaquim BarbosaMarina Silva não são impossíveis. Joaquim Barbosa conseguiu um partido grande, que vai ter chance eleitoral em alguns Estados. A marca do Joaquim Barbosa nesta pesquisa Datafolha (até 10%) já era esperada. Ele se tornou o único outsider com chances de disputar e ganhar: ele consegue ter votos de todos os lados. Já a Marina está em um partido que reduziu de tamanho recentemente a ponto de, olhando a lei, não ter nem direito de participar de um debate presidencial na TV. Pode ser também que saia uma parceria entre o Ciro e o PT. Só depois de junho a gente vai ter um cenário mais claro. Mas certamente será o mais fragmentado das eleições desde 1989. Isso significa que com certeza haverá segundo turno e que há grande chance de um candidato ir para o segundo turno com menos de 20% dos votos. Há uma possibilidade de se haver um segundo turno com um candidato mais do centro para a direita e outro mais do centro para a esquerda. Mas isso não são favas contadas, nem para um lado, nem para o outro.
  5. Por quê?
  6. Depende um pouco dessas combinações entre os candidatos. Se a centro-direita se fragmentar demais e fizer um processo de autodestruição, ela poderá perder. E do outro lado isso também pode acontecer. Não é impossível que esses setores se digladiem de tal maneira que você possa ter candidatos mais próximos apenas de um dos polos.O candidato que tem o nome mais consolidado hoje, e isso não significa que vá para o segundo turno, é Bolsonaro. Ele tem algo em torno de 15% dos votos e se torna um dos polos da eleição. Um dos polos da eleição vai ser bater no Bolsonaro, tanto os candidatos do centro para a esquerda como os candidatos do centro para a direita. O Bolsonaro vai ser o candidato a ser derrotado.
  7. E o Governo de Michel Temer? Que papel pode ter?
  8. Acho que vai ser outro dos polos importantes para a definição de votos. A tendência do pessoal do centro para a esquerda é dizer que todos os candidatos do centro para a direita são candidatos do Temer. Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Geraldo Alckmin, Bolsonaro, Rodrigo Rocha. E livrar-se do Temer será o segundo espantalho da eleição. Quem conseguir terá mais chance eleitoral. Há ainda um terceiro polo, que é a definição em relação ao lulismo. Se o PT tiver um candidato, a eleição vai ser 'eleitores, olhem o que fizeram com o Lula. Então, salvem o Lula'. Mas o restante da centro esquerda como Ciro Gomes, Marina, Joaquim Barbosa, vão ter mais chances quanto mais captarem o lulismo. O que não significa transformar a eleição no 'salvem o Lula', mas captarem um discurso que a saída para o país é mais próxima do que aquilo que existia nos dois governos Lula.
  9. Nesta eleição qualquer um parece acreditar ter esperança. Acredita mesmo que as legendas queiram se aglutinar?
  10. O sistema político de 1993 para cá era estruturado em torno do PT e do PSDB e tinha o PMDB como linha auxiliar. PT e PSDB perderam muito com a crise. PT fortemente, com o Lula impedido de ser candidato. E o PSDB, mesmo tendo um candidato com chance, como o governador Alckmin, não é a sombra do que foi entre 93 e 2014. E o PMDB é o Temer. Se você for ao Nordeste, os líderes do PMDB dizem que nem conhecem o Temer. O Eunicio Oliveira vai apoiar o candidato do PT no Ceará. O Renan Calheiros só fala mal do Temer em Alagoas. Em Pernambuco eles estão completamente divididos. No Piauí há uma boa chance de uma parte do PMDB apoiar o candidato do PT a governador. Esse tripé que sustentava o sistema político se quebrou. Não é que esses partidos não vão mais ter importância. Eles vão. Mas não mais organizados neste tripé. E diante deste cenário muita gente colocou as manguinhas de fora. Disse: 'é minha vez'. Mas o que a gente não sabe é se eles são capazes de sustentar essa campanha até o final. Porque é uma campanha presidencial com menos dinheiro do que no passado, uma eleição casada, com eleição nos Estados e no Congresso, e uma eleição em que grande parte dos partidos vai querer priorizar no seu financiamento os candidatos ao Congresso Nacional e Assembleias Legislativas. Mas, mesmo assim, dada a quebra do tripé, nós vamos ter mais candidatos do que tivemos nos anos anteriores.
  11. Agora se fala que o PT poderia abrir mão da cabeça de chapa em nome do Ciro Gomes. Acredita que é possível?
  12. Possível é. Mas não dá para cravar qual é a decisão. O PT tem três opções hoje. Uma é fazer uma anticandidatura, não disputar, algo que alguns líderes do partido defendem, mas acho que a chance de isso sobreviver é quase zero. As duas chances mais efetivas mesmo são: ou apoiar candidato próprio ou apoiar candidato de outro partido. Claro que a tendência maior seria lançar candidato próprio se a gente levar em conta a história do PT. O PT sempre teve um tino mais majoritário, de querer comandar o processo político. Mas desta vez há um temor muito grande de não conseguir construir um candidato que substitua Lula. Os nomes do Jaques Wagner e do Fernando Haddad estão muito distantes do peso que o Lula tinha. Jaques Wagner tem problemas porque é investigado e tem uma eleição ao Senado garantida na Bahia. E Haddad é mais jovem na política, ganhou uma prefeitura importantíssima por São Paulo, mas a perdeu em primeiro turno. A aliança com Lula pode ocorrer por duas razões: uma é que não se consiga construir um substituto e outra é que Lula perceba que é melhor uma lógica de frente ampla do que de partido majoritário.
  13. A pesquisa Datafolha mostrou uma queda na intenção de voto de Lula e o PT segue dizendo que ele será candidato até o fim. O PT tem um prazo limite para definir um plano B para a candidatura do ex-presidente antes de esse apoio se desidratar ou ainda é cedo para  cravar isso?
  14. Acho que o PT tem até junho para definir. Aí a decisão vai depender se Lula estará livre para fazer campanha para um candidato do PT, com bom potencial para transferir votos, nas ruas, sobretudo no Nordeste. Mas se ele continuar preso, nesse caso o apoio a um candidato (fora do PT) pode ser mais eficaz. Com ele preso é mais fácil e mais efetivo apoiar outro candidato de outro partido, alguém mais conhecido, como o Ciro ou o Joaquim Barbosa.
  15. A decisão de Ciro Gomesde não visitar o Lula no sindicato na véspera da prisão não pode prejudicar esse plano de tê-lo como cabeça de chapa?
  16. Pode atrapalhar. Mas Ciro tem defendido, ainda que de forma mais moderada, o Lula. Não tem feito o discurso de outros candidatos do centro para a direita, que é o de comemorar a prisão. Acho que a aposta do Ciro é que o PT lançará mesmo um candidato e que ele quer o apoio do partido em um eventual segundo turno. Por isso que ele tem uma relação ambígua. De um lado, ele critica a decisão relativa ao ex-presidente, mas, de outro, não se aproxima completamente do PT porque acha que o partido vai lançar um candidato próprio e não adianta ele estar lá.
  17. Quando a gente olha para a Argentina, a gente vê que Mauricio Macri conseguiu unir aqueles que odiavam o peronismo. Por que no Brasil a direita não conseguiu fazer isso?
  18. A maneira como o Temer chegou ao poder é muito diferente. Macri ganhou uma eleição democraticamente. A população o escolheu como substituto do peronismo, ninguém escolheu Temer como substituto do lulismo. Temer chegou ao poder como um traidor para uma parte da população e, ao longo do mandato, não conseguiu construir essa legitimidade, seja pelas denúncias de corrupção, seja pelo lado econômico e social.
  19. Mas e os outros candidatos?
  20. Há vários candidatos a Macri no Brasil. Candidatos que querem substituir o que foi a hegemonia do PT nos últimos anos. Alckmin, Meirelles, Maia, Flávio Rocha, o próprio Bolsonaro. E eles vão buscar os votos para se colocar como o substituto do lulismo. Só que é mais complexo no Brasil do que no peronismo. Para além da prisão do Lula, existe o fato de que o Brasil não é quase bipartidário como a Argentina. O Brasil é um país muito mais pluripartidário, no qual o segundo turno dá um peso importante na decisão final a grupos que são minoritários do ponto de vista do voto. O lulismo pode ser minoritário nesta eleição, mas ainda tem 25% dos votos. Colocar-se como substituto do lulismo pode ser bom. Dizer-se completamente anti-lulista pode ser ruim. Esse dado eleitoral que tem que ser friamente interpretado por todos aqueles que querem substituir o lulismo. Vão ter que pensar numa estratégia em que se coloquem como substitutos, mas que não se coloquem como completos inimigos.
  21. Pensando para além da eleição: como se governa em um cenário como esse em que está tudo tão fragmentado?
  22. A gente pode esperar sair desta eleição com um Congresso Nacional muito fragmentado. Com Governos estaduais com vários partidos governando pelo país. Vai ser um cenário em que a gente precisa fazer reformas que racionalizem o Estado e garantam um ajuste fiscal e ao mesmo tempo teremos que melhorar os serviços públicos urgentemente porque a desigualdade está aumentando. E fazer a mesma coisa ao mesmo tempo, não será fácil. E, por fim, a gente não sabe como esse presidente eleito vai sobreviver ao enorme tiroteio que vai ter nessa campanha. O quanto o Brasil vai conseguir ter um presidente em 2019 que assuma num cenário diferente do que assumiu Dilma Rousseff. Ela assumiu em um cenário em que as forças políticas não conseguiam entrar numa sala, sentar numa mesa e conversar. Acho que se não construirmos um cenário diferente será muito difícil governar o país. A grande questão é saber o quanto esse presidente eleito vai conseguir reduzir esse grau de polarização que existe na sociedade e dentro da política brasileira. Quanto mais ele reduzir e quanto mais ele abrir as portas para forças diferentes, mais chances ele terá de governar.

 

O perigo tem nome e sobrenome: Marina Barbosa (por JOÃO BATISTA OLIVI)

Publicado em 16/04/2018 11:52 e atualizado em 16/04/2018 - https://www.noticiasagricolas.com.br/videos/politica-economia/211904-o-perigo-tem-nome-e-sobrenome-marina-barbosa-por-joao-batista-olivi.html#.WtXubIjwbIW

A junção de Marina Silva com Joaquim Barbosa pode vencer a eleição no 2.o turno e manter o socialismo destruindo o País. Opinião de João Batista Olivi - Jornalista

Opinião de João Batista Olivi - Jornalista

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Nesta segunda-feira (16), o jornalista João Batista Olivi, do Notícias Agrícolas, destaca em seu comentário a corrida presidencial com base nas pesquisas recentes divulgadas pelo Datafolha e pelo Instituto Ipsos.

Ele ressalta e critica as candidaturas de Marina Silva e Joaquim Barbosa, que aparecem relacionados na pesquisa e que possuem propostas e trajetórias voltadas para um viés mais socialista.

Com Lula retirado das pesquisas, o candidato Jair Bolsonaro aparece com 17% de intenção de votos na pesquisa do Datafolha, enquanto Marina Silva possui 15%. Joaquim Barbosa vem logo atrás, com 10%.

Confira o comentário completo no vídeo acima.

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O desafio de Joaquim Barbosa

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                                                                           Carlos Melo

17/04/2018 - https://carlosmelo.blogosfera.uol.com.br/2018/04/17/o-desafio-de-joaquim-barbosa/

Joaquim Barbosa – STF – div

Em política, a capacidade de comunicar é quase tudo. Mas, não é 100%. O ex-presidente Lula é um comunicador nato, Dilma Rousseff e Michel Temer são um desastre. Geraldo Alckmin é nulo, como um zero à esquerda. Não se trata do domínio da língua ou a loquacidade: Jânio Quadros, tal como Temer, abusava das mesóclises, mas dizia com o corpo e com a loucura. Temer desperdiça a atenção pelo movimento das mãos. Loquaz, Ciro Gomes não raro passa do ponto e dá bom dia a cavalos. Jair Bolsonaro comunica-se com sua tribo, mas assusta o grande público.

Mais do que o falar, falar e falar, trata-se da habilidade de criar e transmitir símbolos. Paulo Maluf sabia fazer isto: a arrogância paulista, o reacionarismo conservador, a Rota na Rua; Tancredo Neves, a sagacidade mineira, a esperança na democracia e na conciliação; Fernando Henrique, o intelectual público e o mundo moderno; Mário Covas, a coragem mal-humorada e resoluta, porém. Antônio Carlos Magalhães: o paradoxo de uma baianidade truculenta, que lhe valeu o delicioso apelido — maldoso-carinhoso — de ''Toninho Malvadeza''. ''A Bahia tem um jeito…''

Símbolos. Joaquim Barbosa é um feixe de símbolos. Num país elitista e de mentalidade escravagista, espelha o menino, mineiro, negro e pobre que venceu preconceitos e a vida. Que cresceu e apareceu com dedicação e o estudo que o levaram ao topo da carreira e da notoriedade social. A meritocracia, chance de quem não tem chances. A indignação arrebatadora, o sangue-quente, a coragem, o conflito; o enfrentamento, a autoridade e os ares de autoritarismo.

Barbosa é um feixe de símbolos tão fortes, que reúne características que estão em Lula, em Marina Silva, em Sérgio Moro, em Mário Covas, em Ciro Gomes e até em Jair Bolsonaro. Não por acaso, após longo período em absoluto silêncio passou a figurar bem na pesquisa de intenção de votos, do Datafolha, tendo apenas se filiado a um partido político, o PSB, sem que fosse necessário que se pronunciasse a respeito.

Não surge como azarão, mas como assombração a candidatos de todos os campos: Direita, Centro, Esquerda.

Num ambiente refratário à política, de descrédito do sistema, de cansaço com a corrupção e com os protagonistas tradicionais, Barbosa surge como uma espécie de reação ''a tudo isto que está aí''. Uma reação intempestiva, um chute no traseiro de personagens de uma história medonha e asfixiante. É o outsider de quem tanto se fala, o que vem de fora, como Dom Sebastião Justiceiro que libertará seu povo.

O problema, para suas eventuais pretensões eleitorais, é que sua força é também sua fraqueza. Tantos símbolos assim falam muito de seu passado, mas dizem pouco a respeito do futuro do país. Seu temperamento mercurial faz indagar como reagirá ao sistema político nacional que não se sujeita a principiantes; faz questionar se, diante da enorme crise, sua vontade bastará.

Impossível não trazer a imagem de Fernando Collor de Mello de volta à memória. A personalidade e o personalismo do herói não bastam, como se viu. Igualmente irresistível não recorrer ao caso de Dilma Rousseff: o voluntarismo, a intempestividade e a intolerância jogam contra.

Em pouco tempo, sem resultados e sem moderação, a intensidade do herói se esvai; rapidamente, se esgota o ímpeto reformador. Com o tempo, a ansiedade, a impaciência e os nervos à flor-da-pele levam o governante a praticar tiro aos próprios pés — com invariável sucesso. É justo, portanto, que o aparecimento de Barbosa como um dos favoritos, na expectativa das pesquisas, desperte dúvidas e indagações para além da euforia ou susto que o primeiro momento revela.

Como disse Ciro Gomes, Joaquim Barbosa será, agora, testado na fricção do processo eleitoral. Além da capacidade de comunicação, precisará demonstrar outras habilidades. Se colocar estruturalmente acima do fenômeno conjuntural. Conversar, dialogar, juntar vontades, reunir atores, formular uma agenda capaz de aglutinar setores e promover, após eleito, transformações de fato e não apenas de estilo.

Tudo o que Barbosa não precisará nos próximos meses será aparecer como herói e futuro ministro de si mesmo: ministro da Fazenda, da Justiça, da Casa Civil, da Articulação, da Comunicação. No Brasil de hoje, ninguém é capaz de ocupar esse papel. O juiz decide de acordo com o conhecimento que adquiriu sobre as leis, mas a base é da escolha é sua própria consciência. Já com o político é diferente: decide-se com base na história, na experiência, nas consequências, nos aliados, nas restrições. Faz-se a torta de acordo com a qualidade das maçãs.

Seu primeiro desafio será demonstrar que é capaz de se articular, o que é muito mais do que se filiar a um partido e esperar a manifestação do eleitor. Que está propenso a renuir em torno de si gente crível e capaz. Uma equipe.

Quem e como será conduzida a economia sob Barbosa? A relação com o Legislativo mudará pelo conflito, pelo convencimento ou será de conciliação? Na esfera do Judiciário, como se comportará? No enfrentamento dos interesses corporativos daqueles que, assim como ele, fizeram carreira e organizaram suas vidas na esfera do Estado, como se definirá?

São inúmeras as questões que se colocam a partir de agora para o ministro do Mensalão. Para ele, a eleição começa exigindo algo mais eloquente do que o silêncio e ainda mais profundo do que os símbolos que carrega. Por enquanto, nada indica que será capaz de responde-las. Mas, a seu favor, também nada garante que não será. Este é seu desafio. E tudo está em aberto.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

***

Não é apenas o PT , os advogados de Lula e a esquerda em geral do país que condena o processo e a prisão de Lula

 

Reinaldo Azevedo: “Lula foi vítima de um tribunal de exceção”

“Se atravessamos o umbral, está decretado o fim da segurança jurídica. Restará o Direito do PowerPoint, que é a expressão gráfica e ágrafa da Teoria do Domínio da Fábula, criada para inflamar os apedeutas das redes sociais de Banânia”, escreveu o colunista.

26 DE JANEIRO DE 2018, 09H18

 

https://www.revistaforum.com.br/reinaldo-azevedo-lula-foi-vitima-de-um-tribunal-de-excecao/

 

Despacho de Moro que determina prisão de Lula: juiz deixa claro que tomou decisão porque só segue lei com a qual concorda

Por: Reinaldo Azevedo

Publicada: 06/04/2018 - 2:51

http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/leia-despacho-de-moro-que-determina-prisao-de-lula-juiz-deixa-claro-que-tomou-decisao-porque-nao-concorda-com-dispositivo-legal/

Leiam abaixo o despacho de Sérgio Moro que determina a prisão do ex-presidente Lula. Para ele, recurso que ainda estava á disposição de Lula constituiria “patologia protelatória que deveria ser banida do direito”.


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